Mas o racismo não nos deixa ver, por isso, é lidar.

(Whale project, in Estátua de Sal, 04/02/2024, revisão da Estátua)


(Este artigo resulta de um comentário a um texto que publicámos sobre o fracasso do Ocidente na guerra da Ucrânia (ver aqui), e a outro sobre os 50 000 milhões de euros aprovados pela UE para a Ucrânia, ver aqui. Pela pertinência, neste momento, resolvi dar-lhe o destaque que, julgo, merece.

Estátua de Sal, 04/02/2024)


Isto não deixa de me fazer lembrar os tempos da troika. Quando foi negociado o primeiro grande pacote de “ajuda” à Grécia, um jornal noticiava que o presidente da Câmara de Atenas tinha ido jantar com uns amigos e, da ementa, teria constado lagosta. A coisa era denunciada como sendo um exemplo de desrespeito atroz pelos cidadãos trabalhadores do Norte da Europa, que iam emprestar dinheiro à nação perdulária. Eu presumo que o ordenado de presidente da Câmara desse para comer uma lagosta de quando em vez. Pelos vistos, o homem não fazia aquilo todos os dias, ou também teria sido noticiado. Mas, parecia que todos tínhamos de fazer uma espécie de penitência, sem poder comer o que nos dava na gana – mesmo que o nosso ordenado desse para, isso -, porque os nossos países tinham vivido acima das suas possibilidades e éramos todos um bando de chulos a explorar os pobres trabalhadores do Norte da Europa.

Tivemos ainda o Passos Coelho a sentir-se envergonhado porque na Madeira, após um jantar envolvendo responsáveis políticos, um turista finlandês bêbado, lhe perguntou se seria ele a pagar aquilo. Qualquer pessoa com a espinha direita teria o dever de mandar o nórdico fascista beber outro copo e apagar a luz. Mas o Passos ouviu calado e veio depois insultar-nos a todos.

Sobre a especulação financeira em torno das dívidas ninguém deu um pio. A dívida da Grécia chegou a ter juros de 100%. Claro que subiu, e muito. Aliás, quem questionasse os “mercados” só podia ser um malandro esquerdista radical. Mas, o certo é que em troca do dinheiro que nos emprestaram fomos obrigados a cortar no nível de vida. Na Grécia o ordenado mínimo desceu, as condições laborais se eram terríveis mais terríveis se tornaram: houve trabalhadores da hotelaria a morrer de pura exaustão. A Grécia tornou-se o pior país para trabalhar, de toda a União Europeia. Portugal era o quarto.

Em troca destes empréstimos fomos obrigados a desarticular os sistemas de saúde; com os cortes impostos, milhares de pessoas morreram por falta de assistência e por infeções hospitalares, porque nem lixivia havia. Voltaram a existir caldeirões da sopa dos pobres em plena rua, muita gente não aguentou e pôs termo à vida. Mas, tudo era visto como um castigo merecido pelos povos corruptos, que não queriam trabalhar.

O problema dos gregos, tal como o nosso, foi sermos poucos. Mesmo que viéssemos para a rua fazer barulho, o que são 20 milhões num império de 500 milhões? Por isso, fomos o laboratório na Europa de tudo quanto eram politicas neoliberais, à Pinochet, enquanto os dirigentes do Norte da Europa nos despejavam para cima todas as atoardas racistas que levavam, pelo menos no caso português, a população a autoflagelar-se e a achar que éramos mesmo todos uns malandros. Eu, cá por mim, só perguntava se esses malandros do Norte da Europa – quando para cá vinham beber que nem uns porcos e lavar-se no mar -, se serviam a eles próprios nos hotéis e restaurantes, e se eram eles que variam as ruas, recolhiam o lixo que faziam, e assim por diante. E, um dia, tive mesmo de fugir para não ter que ir às trombas a uma criatura que – a propósito do último balde de miséria lançado sobre a Grécia quando o Tsipras “rachou” -, disse o seguinte: “não vamos viver mal para eles viverem bem”. Eu tinha engolido uma reportagem, conduzida em 25 de Janeiro desse ano pelo José Rodrigues dos Santos, em que não faltaram fake news. Eu tinha enterrado, uma semana antes, um amigo meu que morreu, na última das misérias, por os cuidados de saúde estarem à míngua, como estavam. Por isso, foi levantar-me e literalmente fugir, porque vi vermelho.

Não nego que, tenha havido corrupção, tanto na Grécia como aqui. Pelo menos na Grécia, o artista que comprou quatro submarinos à mesma empresa alemã a que o Paulinho das Feiras comprou dois, malhou com os ossos na cadeia. O Paulinho das Feiras, esse, continua a dar-nos, até hoje, lições de moral.

O problema é que fomos alvo de um castigo coletivo. Gente que se levantava cedo para trabalhar teve a vida virada do avesso. Na Grécia recuperaram-se “receitas” do tempo da ocupação nazi. Sofremos um castigo coletivo, cruel e desumano, ministrado por uma cambada de racistas.

Mas agora, como a União Europeia continua a acalentar o sonho do Hitler de destruir a Rússia, enterramos rios de dinheiro num estado nazi, e ninguém faz perguntas. A mesma cambada de racistas, que quase nos matou à fome e à falta de tudo, desperdiça agora o nosso dinheiro numa cambada de racistas e nazis, que glorificam assassinos de outros tempos, como Stepan Bandera, e chamam aos vizinhos “pretos da neve”.

Tudo porque queremos os recursos da Rússia, porque sonhamos com a sua destruição – como sucedeu com a Jugoslávia -, e porque queremos pilhar os seus recursos. Se, no caso de Portugal e da Grécia, o que se pretendeu era vir a banhos bem mais barato, agora, com o apoio a nazis, o que se quer é a destruição da Rússia.

Isso já não pode ser escondido. Em 2022, a Ucrânia estava armada até aos dentes com tudo quanto era equipamento ofensivo, e o palhaço de Kiev prometeu – dias antes da invasão russa -, que no Verão teria armas nucleares. E para quê? Para enfeitar? Logo se arranjaria um pretexto para que as hordas nazis avançassem pela estepe e chegassem a Moscovo, que até fica ali bem perto. O sonho de Hitler, o sonho que os dirigentes alemães nunca deixaram de ter, o sonho de Napoleão seria finalmente cumprido. Teríamos todos os recursos daquele povo bárbaro – que nunca vimos como igual, desde que os andávamos a caçar com a ajuda dos tártaros.

A verdade é que o nosso racismo sempre transformou os russos em pretos. Por isso ameaçámos um país europeu com a destruição económica dizendo, com todas as letras, que se a Hungria tinha a pistola nós tínhamos a bazuca.

Isto vai durar até ao dia em que irá correr mal. Uma das razões, que fez muita gente na Grã-Bretanha votar Brexit, foi o conhecimento das atrocidades cometidas contra a Grécia. É que, se em Portugal somos uns tesos, mas muitas vezes vamos às Caraíbas porque lá é barato, os ingleses iam à Grécia. Viam e não podiam ignorar. Sem contar com as reportagens que mostravam a miséria negra que por lá se vivia. Uma colega de trabalho, num segundo emprego que tive por essa altura, contava que uma amiga que estava em Inglaterra lhe ligara, lavada em lágrimas, porque tinha visto uma reportagem sobre a Grécia, e perguntava se, em Portugal, também iríamos chegar áquilo. Isso fez muita gente ver que, se as coisas dessem alguma vez para o torto, não seria a União Europeia que iria ajudar. Por isso, antes só que mal acompanhado.

Ora, quando a teta secar – porque tem de secar -, também a Hungria, e provavelmente outros, vão fazer um manguito a esta mafia.

E, o que faz com que ainda aguentemos isto, é que a propaganda funciona em pleno. Tão em pleno, que ninguém se lembrou de perguntar ainda para que raio quereria a Rússia mais espaço e, ainda por cima, quase sem recursos nenhuns. Agora eles até têm a Crimeia e nem precisam de vir a banhos ao Sul. Mas lá andamos nós a dar dinheiro a fascistas corruptos. E, ai de quem diga que eles são corruptos: só pode ser putinista

Foi de racismo que se tratou, aquando do castigo coletivo que sofremos e é de racismo que se trata agora. E, se não está a correr como se esperava, talvez seja porque a Rússia é capaz de ter acordado para o perigo do racismo com o castigo que foi infligido a povos que pertenciam à Europa Ocidental. Não se tratou de árabes, ou gente do Leste como os jugoslavos.

Por isso os que sonhavam com o empalamento de Putin num par de semanas – vi muitos histéricos darem saltos que nem macacos -, veem agora que a coisa está para durar.

Porque a estação de serviço acordou para o racismo e tratou se de armar. Porque, sofrer a miséria da Grécia – num país onde as temperaturas no Inverno se contam por dezenas de graus abaixo de zero -, não era opção.

Mas o racismo não nos deixa ver, por isso, é lidar.


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Méritos e limitações do processo judicial por genocídio instaurado pela África de Sul contra Israel

(José Catarino Soares, 16/01/2024)

Deir el-Balah, Faixa de Gaza. 15 de Outubro de 2023. Um adulto palestiniano (possivelmente o pai) transporta nos braços uma criança assassinada pelos bombardeamentos israelitas. Fonte: AP Photo/Hasan Islayeh

1. Introdução

Um bilhete público que escrevi num outro blogue, chamando a atenção para o texto “Processo judicial em nome da África de Sul contra o Estado de Israel”, publicado neste blog aqui, suscitou, da parte de um velho amigo meu, o seguinte comentário:

«É meritória a divulgação das inequívocas intenções genocidas do governo sionista de Israel. Mas sem ilusões na natureza do “Tribunal Internacional de Justiça”, órgão da ONU que patrocinou a criação do Estado de Israel em 1948 e a pseudo-solução dos dois Estados com que o sionismo israelita e o Estado fantoche da Jordânia têm promovido a expulsão da sua terra e o genocídio dos árabes da Palestina que aqueles dois Estados ocupam ilegitimamente».

Este comentário suscitou-me a seguinte resposta, que julgo ter interesse publicar na medida em que toca vários aspectos pertinentes para a boa compreensão da iniciativa da África do Sul. 

2. O Tribunal Internacional de Justiça

O gigantesco sistema da ONU ‒ em particular, os seus órgãos principais ‒ é, com certeza,

um sistema com muitos defeitos, cuja actuação é susceptível de crítica severa. É o caso, nomeadamente, do Tribunal Internacional de Justiça, um dos seus seis órgãos principais.

Isto dito, não podemos imputar-lhe coisas que não fez. O Tribunal Internacional de Justiça NÃO «patrocinou a criação do Estado de Israel em 1948 e a pseudo-solução dos dois Estados». O Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) não foi tido nem achado na criação do Estado de Israel por três razões.

1.ª) O Estado de Israel foi criado em 29 de Novembro de 1947 por uma resolução da Assembleia Geral da ONU, a resolução 181, aprovada com os votos a favor de 33 países, com 13 votos contra e 10 abstenções.

2.ª) O TIJ não patrocina a criação de Estados. Não é essa a sua missão. A missão do TIJ é julgar qualquer disputa legal que lhe seja apresentada referente a questões previstas na Carta das Nações Unidas ou nos tratados e convenções em vigor (cf. artigo 36.º [1] e [2] do Estatuto do TIJ), nomeadamente: a) a interpretação de um tratado; b) qualquer questão de direito internacional; c) a existência de qualquer facto que, se provado, constituiria uma violação de uma obrigação internacional; d) a natureza ou o alcance da reparação a efectuar em virtude da violação de uma obrigação internacional.

3.ª) O TIJ só se pronuncia quando solicitado por um ou mais Estados membros da ONU, que são actualmente 193. Em 1948, Israel não era membro da ONU. Só passou a ser membro da ONU em Maio de 1949, por uma resolução da Assembleia Geral da ONU. Nunca, até hoje, Israel solicitou a intervenção do TIJ seja para o que for.

3. Ilusões recalcitrantes

Certo, «não devemos ter ilusões no Tribunal Internacional de Justiça». Nem em nenhuma instituição da sociedade em que vivemos, acrescento eu — incluindo os partidos políticos, seja lá quem for ou seja lá o que for que eles reclamem como bandeiras suas. As ilusões só servem para sermos enganados ou fazermos disparates que nos podem custar muito caro. Devemos, tanto quanto possível, procurar conhecer bem a natureza das instituições (económicas, sociais, políticas, culturais) e as suas limitações e actuar em conformidade.

A esmagadora maioria da população portuguesa e mundial (incluindo a que fez estudos superiores) não faz, presumo, a mínima ideia do que seja o TIJ. E são muitos os que, ouvindo falar do TIJ, o confundem com o Tribunal Penal Internacional, que não é um tribunal da ONU, mas que também tem sede em Haia.

Ora, não se pode ter ilusões naquilo cuja existência se desconhece. As ilusões existem, sim, e são imensas, mas são sobre Israel, os EUA, a UE, a OTAN (/NATO) — não sobre o obscuro TIJ. Que ilusões? Pois as de que os seus governantes e dirigentes são os paladinos da liberdade, dos direitos humanos, da democracia e da paz que, no entanto, todos os dias destratam e espezinham.

4. Os méritos da iniciativa da África do Sul

Destarte, o mérito da República da África do Sul (RAS) é triplo.

Primeiro, o da coragem. Em 193 Estados membros da ONU, a RAS foi o único Estado que ousou processar Israel no TIJ por intenção de genocídio. A isto não é seguramente alheio o facto de os sul-africanos de pele mais escura terem sofrido durante décadas as agruras de um regime de apartheid — menos brutal, aliás, do que aquele que Israel construiu para segregar, confinar, oprimir e explorar os palestinianos.

Segundo, mesmo para quem julgue conhecer o que ocorre em Gaza (e são muito poucos os que podem ter essa pretensão sem nunca terem posto os pés em Gaza), as revelações e testemunhos de metódica crueldade de Israel, compilados pelo documento que a RAS apresentou ao TIJ ‒ e colocados, assim, nolens volens, sob os holofotes da comunicação social e à disposição do mundo inteiro ‒ são horripilantes. Os mais horripilantes e também, juridicamente, os mais importantes são os que constam dos artigos 101.º a 107.º do documento acusatório da RAS. Aí são transcritas as declarações de altos responsáveis do Estado de Israel que atestam a sua clara intenção genocida — o elemento probatório fundamental para sustentar a acusação de genocídio no âmbito da Convenção para a Prevenção e Punição do Genocídio (que entrou em vigor em 1951). Foi por isso que foram estes os artigos que traduzi para Português e cuja publicação propus ao blogue Estátua de Sal para conhecimento do público de língua portuguesa — o que foi aceite e feito [https://estatuadesal.com/2024/01/11/processo-judicial-em-nome-da-africa-de-sul-contra-o-estado-de-israel/].

Terceiro, «Para além de impedir que o inferno de Gaza desapareça, convenientemente para os seus perpetradores, dos noticiários, a petição do país de Nelson Mandela desnuda o niilismo moral dos Governos do nosso “Ocidente”. Enquanto os “valores europeus” ficam silenciosamente na gaveta, Biden e os seus ajudantes mergulham os EUA no aviltante papel de financiador e cúmplice desta descida aos abismos do mal» (Viriato Soromenho Marques, “Quando a Justiça bate à porta do inferno”, DN, 12-01-2024).

Deste processo judicial instaurado pela RAS a Israel pode resultar, no plano estritamente jurídico, um de dois veredictos contraditórios: a) o TIJ não dá como provada a acusação da RAS, ou b) o TIJ dá como provada a acusação da RAS. Vai haver, seguramente, muitas pressões de Israel e dos EUA sobre os 15 juízes do TIJ para deliberarem no sentido de a). Mas não se pode descartar a possibilidade de que b) tenha vencimento. Só o saberemos daqui a muitos meses ou anos.

Seja como for, e independentemente do veredicto final do TIJ a mais longo prazo, há um outro resultado que pode sair do processo judicial instaurado pela RAS a Israel. É que a solicitação da RAS ao TIJ inclui a solicitação de “medidas provisórias” onde se inclui a “suspensão imediata” das acções militares israelitas contra a população civil de Gaza. Na prática, isto significa um cessar-fogo imediato e permanente e a entrada livre em Gaza de ajuda humanitária. E isso permitiria salvar milhares de vidas inocentes!

Esta decisão poderá ser tomada dentro de duas ou três semanas. Se o TIJ tomar essa decisão ela será ‒ como são todas as decisões do TIJ em todos os casos em que é chamado a intervir ‒ de cumprimento obrigatório para Israel, embora, bem entendido, ele possa recusar-se a cumpri-la (mas isso terá um elevadíssimo custo reputacional, como veremos mais adiante). Será uma decisão que não se baseia no veredicto final do TIJ, mas no mérito do caso apresentado pela África do Sul. Por outras palavras, ao exigir que Israel cesse imediatamente as suas hostilidades em Gaza, o TIJ não estaria a caracterizar a campanha israelita como sendo genocida. Estaria, isso sim, a admitir que essa é uma possibilidade muito séria a considerar. Logo, mais vale prevenir do que remediar.

5. Os receios de Israel e dos EUA

Mas essa possibilidade suscita grandes receios por parte de Israel e dos EUA.

«Israel e o governo Biden tencionam impedir qualquer injunção provisória do tribunal, não porque o tribunal possa obrigar Israel a parar os seus militares, mas por causa da necessidade de salvar as aparências, que já são desastrosas. A decisão do TIJ depende do Conselho de Segurança para ser efectivamente aplicada — o que, dado o poder de veto dos EUA [no Conselho de Segurança], torna qualquer decisão contra Israel muito duvidosa. O segundo objectivo do governo Biden [este no longo prazo, n.e.] é garantir que Israel não seja considerado culpado de cometer genocídio. Os membros do governo Biden serão implacáveis nessa campanha, pressionando fortemente os governos que têm juízes no tribunal para não considerarem Israel culpado. A Rússia e a China, que têm juízes no TIJ, estão a lutar contra acusações de genocídio de que são elas próprias alvo e podem decidir que não é do seu interesse declarar Israel culpado.

O governo Biden está a jogar um jogo muito cínico. Insiste que está a tentar travar o que, como ele próprio admite, é o bombardeamento indiscriminado de Israel contra palestinianos, enquanto contorna o Congresso para acelerar o fornecimento de armas a Israel, incluindo bombas “estúpidas” [= não guiadas, n.e.]. Insiste que quer o fim dos combates em Gaza, enquanto veta resoluções de cessar-fogo na ONU. Insiste que defende o Estado de direito enquanto subverte o mecanismo legal que pode travar o genocídio. O cinismo impregna cada palavra que Biden e Blinken proferem» (Chris Hedges, “The case for genocide”. The Chris Hedges Report. Substack, January 12, 2024). [n.e. = nota editorial]

Este cinismo e esta hipocrisia só têm rival na hipocrisia e no cinismo dos governantes europeus. Por exemplo, João Gomes Cravinho, ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, afirmou recentemente: «Nós veríamos com muito bons olhos que houvesse da parte do Tribunal Internacional de Justiça uma decisão sobre a necessidade de cessar-fogo, porque corresponde àquilo que consideramos também politicamente fundamental» (Lusa/Jornal de Notícias, 11-01-2024).

Estas são declarações do ministro de um governo que, tal como todos os governos constitucionais anteriores, nunca reconheceu a necessidade de trabalhar para (i) revogar a funesta resolução 181 da Assembleia Geral da ONU (que incendiou o território da Palestina ao despedaçá-lo em dois Estados antagonistas ‒ um sionista e colonizador e outro anti-sionista e anticolonizador ‒  e que fornece o combustível inesgotável que mantém o incêndio activo há mais de 70 anos) e (ii) abrir caminho à constituição de uma República palestiniana única e unitária (i.e. do Rio Jordão ao Mediterrâneo), laica e democrática, com igualdade de direitos e de representação  para todos os seus cidadãos, seja qual for a sua religião ou a sua etnia — muçulmanos, judeus, cristãos, ateus; árabes, beduínos, drusos, circassianos, etc. [https://estatuadesal.com/2023/11/13/carta-aberta-aos-nossos-aliados-judeus/].

O mesmo ministro J.G. Cravinho disse na audição parlamentar a propósito do Orçamento do Estado para 2024: «Acham que fazia alguma diferença se Portugal, sem mais, reconhecesse o Estado da Palestina [entenda-se: que reconhecesse que os enclaves conhecidos como Faixa de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental, pomposamente crismados de “Estado da Palestina”, são tudo o que ainda não foi completamente tragado por Israel, razão pela qual precisam de ser protegidos das constantes incursões israelitas até estarem reunidas as condições para a instituição de uma República palestiniana única, unitária, laica e democrática, n.e.]? Não fazia diferença» (Expresso, 3-11-2023). O embaixador de Israel em Lisboa, Dor Shapira, pôde, pois, dizer com tranquilidade:

«Em relação à questão do reconhecimento do Estado palestiniano, a posição de Portugal segue a linha da UE e neste momento a UE ainda não reconheceu o Estado palestiniano, portanto não vejo qualquer mudança nisso» (Lusa, 6-12-2023).

6. O genocídio é o crime de todos os crimes

Temos de impedir o genocídio dos palestinianos em Gaza. Temos de desmascarar o cinismo e a hipocrisia daqueles que, por acção e/ou omissão, permitem que Netanyahu e os seus comparsas continuem a executá-lo sob os nossos olhos.

«O genocídio não é um problema político. É um problema moral. Não podemos, seja qual for o custo que isso acarrete, apoiar aqueles que cometem ou são cúmplices de um genocídio. O genocídio é o crime de todos os crimes. É a expressão mais pura do mal. Temos de estar inequivocamente ao lado dos palestinianos e dos juristas da África do Sul» (Chris Hedges, ibidem).

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Quem sofreu o apartheid não pode calar-se

(Whale project, in Estátua de Sal, 12/01/2024, revisão da Estátua)

O grito de Gaza, obra do escultor tunisino Omar Esstar

(Este artigo resulta de um comentário ao texto que publicámos do Processo judicial da África de Sul contra o Estado de Israel no Tribunal Internacional de Justiça, ver aqui. Pela pertinência, neste momento, resolvi dar-lhe o destaque que, julgo, merece.

Estátua de Sal, 12/01/2024)


Uma grande empatia pelo povo judeu sentia a minha avó que viveu os duros anos da Segunda Guerra Mundial. Apesar de não estar preparada para isso, envelheceu e morreu a ouvir relatos de atrocidades israelitas grotescas, em telejornais que noutros tempos não tinham comentadores a justificar genocídios. Perguntava, então, justamente, como é que pessoas que tinham sofrido crimes desses cometiam agora crimes da mesma igualha. A tal empatia foi por isso morrendo.

Eu nunca tive tal sentimento. Cresci com os crimes de Israel e a resistência desesperada de gente a quem foram roubadas as terras, as casas, a liberdade, a dignidade, a vida. Por uma gente que se julga a raça escolhida por Deus. Se fossemos nós a viver na terra que eles acreditam – criminosamente acreditam, como disse Freitas do Amaral -, que lhes foi dada por Deus, eles fariam connosco exatamente a mesma coisa. Por isso, é com perplexidade que vejo gente ser pró-Israel. Mas são como as bruxas: lá que os há, há.

Por isso vi com perplexidade a medonha bandeira do genocídio a ondear num dos símbolos maiores da nossa independência, o nosso Presidente a dizer a barbaridade de que somos todos israelitas, o nosso Governo a falar sobre o direito de defesa de Israel. Quando já muitas bombas tinham caído em Gaza e os dirigentes israelitas já tinham dito umas quantas atrocidades, como as listadas pela África do Sul na sua corajosa denúncia.

E não venham os pró-Israel com tretas. Se os americanos e ingleses se acham no direito de proteger os genocidas – dando-lhes armas e bombardeando os houthis, que os tentam parar da única maneira que lhes dói, fazendo a economia gritar -, também a África do Sul tem o direito de denunciar quem está a fazer a outro povo, pior que os supremacistas brancos lhes fizeram a eles.

Os supremacistas brancos também tentaram criar faixas de Gaza, os chamados bantustões, terras a quem queriam dar uma independência fictícia, terras em zonas desérticas e mortíferas. Do apartheid todos sabemos o que foi. A história dos bantustões e as atrocidades – como as que estão em curso na Palestina -, só não avançaram porque os supremacistas brancos sul-africanos nunca tiveram nada parecido, com a dominação económica que tem Israel e as suas quintas colunas espalhadas pelo mundo. Nunca dominaram a comunicação social. Os seus hediondos crimes foram sempre devidamente denunciados. Mas, mesmo assim, a luta foi longa, muito longa, porque os mesmos trastes que hoje apoiam Israel foram sempre dando uma no cravo e outra na ferradura enquanto foi possível.

Havia lá bons negócios. Foi só quando perceberam que os negócios se poderiam fazer com qualquer Governo que, lá aceitaram sancionar uma ditadura brutal, que também era muitas vezes apresentada como a única democracia de África. Uma democracia em que quase 90 por cento da população não votava.

Tal como hoje, um Estado que se define como judeu, e faz pior que o apartheid, é apresentado como a única democracia do Médio Oriente. Decididamente esta gente não aprende. Porque não quer. Está-lhes na massa do sangue apoiar trastes para ter bons negócios. Está-lhes na massa do sangue o racismo. Interessa pouco se alguns palestinianos até são cristãos.

Mas, a África do Sul do apartheid, dos bantustões, dos massacres nos bairros negros aprendeu alguma coisa. Por isso, com uma coragem notável, levanta-se e acusa uma gente pior que os seus supremacistas brancos.

Durante muitos anos gente como Mandela, Joe Slovo, e outros tantos e tantos milhares, lutaram, foram aprisionados, muitos morreram, sozinhos. Mas, por vontade da África do Sul, os palestinianos não morrerão sozinhos. Um bravo pela coragem. porque é preciso tê-la.

Quanto a mim, quando o cerdo do Netanyahu falou nos Amalequitas, vi logo ao que os trastes iam e o que se seguiria. Mas muita gente faltou à catequese ou a qualquer outro culto. Porque, segundo a Bíblia, no caso dos Amalequitas, foi mesmo de genocídio que se tratou. Nem os animais escaparam e o rei daquele povo foi retalhado por um sacerdote tresloucado, Samuel de seu nome, que terá escrito dois livros da Bíblia onde muitos genocídios estão retratados. Ora os israelitas de hoje não são diferentes daqueles guerreiros de há quatro mil anos atrás. Só não vê quem não quer. A África do Sul viu e, por isso, com todos os defeitos que o seu Governo possa ter – e descansem que vão juntar-se-lhe muitos mais países -, merece a nossa admiração pela humanidade e pela coragem.

Já nós, somos os trastes de sempre porque é impossível que não soubéssemos o que se seguiria, assim que o traste falou em dar aos palestinianos o destino dos Amalequitas. Ninguém se deu ao trabalho de ir ver se a barbaridade estava mesmo na Bíblia?

Logo aí, tínhamos de ter dito: nem mais uma bala, nem mais uma batata para Israel. Não queremos ter nada a ver com a repetição de um genocídio de há quatro mil anos atrás.

Mas quem já apoiou nazis na Ucrânia pode muito bem apoiá-los em Israel. Não nos peçam é para achar isso normal nem para vilipendiar a África do Sul.


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