Processo judicial em nome da África de Sul contra o Estado de Israel

(In http://www.icj-cij.org, trad. José Catarino Soares)

(Está decorrer o julgamento de Israel no Tribunal Internacional de Justiça. O processo aberto a pedido da África do Sul contém um elenco de todos os crimes cometidos por Israel desde 1947. Como a comunicação social – que tenhamos dado por isso -, não publicou o documento decidimos publicar uma parte do mesmo, para que se possa ter uma melhor avaliação do que está em causa.

Estátua de Sal, 11/01/2024)


O texto seguinte é a tradução das páginas 59 a 67, inclusive, da Solicitação de instauração de um processo judicial em nome da República da África de Sul (“África do Sul”) contra o Estado de Israel (“Israel”) [«Application instituting proceedings in the name of the Republic of South Africa (“South Africa”) against the State of Israel (“Israel”)»], apresentada ao Tribunal Internacional de Justiça em 28 de Dezembro de 2023 pela África do Sul. (Nota do tradutor).


D. Expressões de intenção genocida contra o povo palestiniano por parte de titulares do Estado israelita e outros

101. As provas da intenção dolosa específica (“dolus specialis”) dos titulares do Estado israelita de cometerem e persistirem em cometer actos genocidas ou de não os impedirem tem sido significativa e evidente desde Outubro de 2023.

Essas declarações de intenção ‒ quando combinadas com o nível de mortandade, mutilações, deslocações e destruições no terreno, juntamente com o cerco [a Gaza, n.t.] ‒ evidenciam um genocídio em curso e contínuo. Tais declarações de intenção, incluem declarações dos seguintes indivíduos em posições da mais alta responsabilidade:

O Primeiro-Ministro de Israel: Em 7 de Outubro de 2023, num discurso televisivo do Gabinete de Imprensa do Governo, o Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu prometeu «actuar com força em todo o lado» [n.439]. Em 13 de Outubro de 2023, confirmou que «[estamos] a atacar os nossos inimigos com uma força sem precedentes…» [n.440]. Em 15 de Outubro de 2023, quando os ataques aéreos israelitas já tinham matado mais de 2.670 palestinianos, incluindo 724 crianças [n.441], o Primeiro-Ministro declarou que os soldados israelitas «compreendem o alcance da missão» e estão prontos «para derrotar os monstros sedentos de sangue que se levantaram contra [Israel] para nos destruírem» [n.442].

Em 16 de Outubro de 2023, num discurso formal ao Knesset [nome do parlamento, n.t.] israelita, descreveu a situação como «uma luta entre os filhos da luz e os filhos das trevas, entre a humanidade e a lei da selva» [n.443], um tema desumanizador a que voltou em várias ocasiões, incluindo: em 3 de Novembro de 2023, numa carta aos soldados e oficiais israelitas também publicada na plataforma “X” (antigo Twitter); a carta afirmava que: «Esta é a guerra entre os filhos da luz e os filhos das trevas. Não desistiremos da nossa missão até que a luz vença as trevas — o bem derrotará o mal extremo que nos ameaça a nós e ao mundo inteiro» [n.444]. O Primeiro-Ministro israelita também voltou ao tema na sua “mensagem de Natal”, afirmando que «estamos a enfrentar monstros, monstros que assassinaram crianças diante dos seus pais… Esta é uma batalha não só de Israel contra estes bárbaros, é uma batalha da civilização contra a barbárie» [n.445].

Em 28 de Outubro de 2023, quando as forças israelitas preparavam a invasão terrestre de Gaza, o Primeiro-Ministro invocou a história bíblica da destruição total de Amaleque pelos israelitas, afirmando: «Devem lembrar-se do que Amaleque vos fez, diz a nossa Bíblia Sagrada. E nós lembramo-nos» [n.446]. O Primeiro-Ministro voltou a referir-se a Amaleque na carta enviada em 3 de Novembro de 2023 aos soldados e oficiais israelitas [n.447]. A passagem bíblica relevante diz o seguinte:

«Agora vai, ataca Amaleque e proscreve tudo o que lhe pertence. Não poupes ninguém, mas mata igualmente homens e mulheres, crianças e crianças de peito, bois e ovelhas, camelos e jumentos» [n.448]

O Presidente de Israel: Em 12 de Outubro de 2023, o Presidente Isaac Herzog deixou claro que Israel não estava a distinguir entre combatentes e civis em Gaza, declarando numa conferência de imprensa aos meios de comunicação social estrangeiros ― relativamente aos palestinianos em Gaza, mais de um milhão dos quais são crianças:

«É uma nação inteira que é responsável. Não é verdadeira esta retórica de que os civis não estão cientes do que acontece, que não estão envolvidos. Não é, de todo, verdade. … e lutaremos até lhes quebrarmos a espinha dorsal» [n.449].

Em 15 de Outubro de 2023, ecoando as palavras do Primeiro-Ministro Netanyahu, o Presidente disse aos meios de comunicação social estrangeiros: «vamos erradicar o mal para que haja o bem em toda a região e em todo o mundo» [n.450].

O Presidente israelita é um dos muitos israelitas que têm “mensagens” escritas à mão nas bombas a serem lançadas em Gaza [n.451].

O Ministro da Defesa de Israel: Em 9 de Outubro de 2023, o Ministro da Defesa Yoav Gallant, num «ponto da situação» do Exército israelita, informou que Israel estava «a impor um cerco total a Gaza. Não há electricidade, nem comida, nem água, nem combustível. Tudo está fechado. Estamos a lutar contra animais humanos e estamos a agir em conformidade» [n.452]. Informou também as tropas na fronteira de Gaza que lhes tinha «removido todas as restrições» [à sua acção, n.t.] [n.453], afirmando que «Gaza não voltará a ser o que era antes. Nós vamos eliminar tudo. Se não for num dia, será numa semana. Vai demorar semanas ou até meses, chegaremos a todos os sítios» [n.454]. Anunciou ainda que Israel estava a avançar para «uma resposta em grande escala» e que tinha «removido todas as restrições» às forças israelitas [n.455].

O Ministro israelita da Segurança Nacional: Em 10 de Novembro de 2023, Itamar Ben-Gvir clarificou a posição do governo num discurso transmitido pela televisão, declarando: «[para] que fique claro, quando dizemos que o Hamas deve ser destruído, isso também significa aqueles que o celebram, aqueles que o apoiam e aqueles que distribuem doces — todos eles são terroristas e também devem ser destruídos» [n.456].

O Ministro israelita da Energia e Infraestruturas: Escrevendo no Twitter em 13 de Outubro de 2023, Israel Katz declarou: «Toda a população civil em Gaza tem ordens para sair imediatamente. Nós venceremos. Não receberão uma gota de água ou uma única bateria até deixarem este mundo» [n.457].

Em 12 de Outubro de 2023, escreveu no Twitter: «Ajuda humanitária a Gaza? Nenhum interruptor elétrico será ligado, nenhuma torneira de água será aberta e nenhum camião de combustível entrará até que os israelitas que foram raptados sejam devolvidos aos seus lares. Humanitarismo por humanitarismo. E ninguém nos vai dar lições de moral» [n.458].

O Ministro das Finanças de Israel: Em 8 de Outubro de 2023, Bezalel Smotrich declarou numa reunião do Conselho de Ministros israelita que «precisamos de desferir um golpe como já não se via há 50 anos e derrubar Gaza» [n.459].

O Ministro do Património de Israel: Em 1 de Novembro de 2023, Amichai Eliyahu publicou no Facebook o seguinte: «O norte da Faixa de Gaza está mais bonito do que nunca. Tudo foi feito explodir e tudo foi destruído e arrasado, é simplesmente um prazer para os olhos… Temos de falar sobre o dia seguinte [ao fim do ataque israelita a Gaza, n.t.]. O que eu tenho em mente é que nós [o governo de Israel, n.t.] vamos entregar lotes de terra a todos aqueles que lutaram por Gaza ao longo dos anos e aos que foram expulsos de Gush Katif» [um antigo colonato israelita] [n.460]. Mais tarde, argumentou contra a ajuda humanitária, porque «[n]ós não daríamos ajuda humanitária aos nazis» e porque «não existem civis em Gaza que não estejam envolvidos [nos combates, n.t.]» [n.461]. Também propôs um ataque nuclear à Faixa de Gaza [n.462].

O Ministro da Agricultura de Israel: Em 11 de Novembro de 2023, Avi Dichter, numa entrevista na televisão, recordou a Nakba de 1948, em que mais de 80 por cento da população palestiniana do novo Estado israelita foi forçada a abandonar ou a fugir das suas casas, afirmando que «estamos agora a fazer a Nakba de Gaza» [n.463].

O Vice-Presidente do Knesset e membro da Comissão dos Negócios Estrangeiros e da Segurança: Em 7 de Outubro de 2023, Nissim Vaturi escreveu no Twitter: «[agora] todos temos um objetivo comum— apagar a Faixa de Gaza da face da Terra. Os que não forem capazes de o fazer, serão substituídos» [n.464].

102. Declarações semelhantes foram feitas por oficiais do exército israelita, conselheiros e porta-vozes, e outros indivíduos envolvidos nas tropas israelitas destacadas em Gaza:

O Coordenador das Actividades Governamentais nos Territórios (“CAGOT”) do Exército israelita:

Em 9 de Outubro de 2023, numa declaração em vídeo dirigida aos residentes do Hamas e de Gaza, publicada pelo canal oficial do CAGOT, o Major-General Ghassan Alian avisou: «O Hamas transformou-se no Estado Islâmico (EI) e os cidadãos de Gaza estão a celebrar em vez de ficarem horrorizados. Os animais humanos são tratados em conformidade. Israel impôs um bloqueio total a Gaza, sem eletricidade, sem água, apenas danos. Queriam o inferno, vão ter o inferno» [n.465].

O Major-General reservista do Exército israelita, antigo chefe do Conselho de Segurança Nacional de Conselho de Segurança Nacional de Israel e conselheiro do Ministro da Defesa [n.466]: Em 7 de Outubro de 2023, Giora Eiland, descrevendo a ordem israelita para cortar a água e a eletricidade a Gaza, escreveu num jornal diário electrónico:

«Isto é o que Israel começou a fazer — cortámos o fornecimento de energia, água e gasóleo à Faixa de Gaza … Mas não é suficiente. Para que o cerco seja eficaz, temos de impedir que outros dêem assistência a Gaza… É preciso dizer às pessoas que têm duas opções: ficarem e morrerem à fome, ou irem-se embora. Se o Egipto e outros países preferem que estas pessoas venham a perecer em Gaza, essa é a escolha deles» [n.467].

No mesmo dia, afirmou num jornal nacional que «[q]uando se está em guerra com outro país, não o alimentamos, não lhe fornecemos eletricidade ou gás ou água ou qualquer outra coisa… Um país pode ser atacado de uma forma muito mais ampla, para levar o país à beira da ruína. Este é o resultado necessário dos acontecimentos em Gaza» [n.468].

Eiland salientou repetidamente os benefícios para Israel da criação de uma crise humanitária em Gaza, afirmando que «Israel não tem interesse em que a Faixa de Gaza seja reabilitada e este é um ponto importante que precisa de ser esclarecido aos americanos» [n.469] e que «se alguma vez quisermos ver os reféns vivos, a única maneira é criar umagrave crise humanitária em Gaza» [n.470]. Ele indicou que a água deveria ser o alvo, observando que a água em Gaza «vem de poços com água salgada imprópria para consumo. Eles têm estações de tratamento de água, Israel devia atacar essas estações. Quando o mundo inteiro disser que enlouquecemos e que isso é um desastre humanitário — nós diremos que não é um fim, é um meio» [n.471]. Numa entrevista à rádio Times, em 12 de Outubro de 2023, reiterou que o exército deveria:

«[C]riar uma pressão tão grande sobre Gaza, que Gaza se torne uma área onde as pessoas não conseguem viver. As pessoas não podem viver enquanto o Hamas não for destruído, o que significa que Israel não só deixa de fornecer energia, gasóleo, água, alimentos … como fizemos nos últimos vinte anos … mas devemos impedir qualquer ajuda possível de outros, e criar em Gaza uma situação tão terrível e insuportável que possa durar semanas e meses» [n.472].

Giora Eiland tem aparecido repetidamente nos meios de comunicação social para apelar a que Gaza se torne inabitável, declarando que «o Estado de Israel não tem outra hipótese senão tornar Gaza um lugar temporariamente, ou permanentemente, impossível de habitar» [n.473]. Numa entrevista em 6 de Novembro de 2023, sugeriu que, «se houver intenção de lançar uma acção militar contra Shifa [=Hospital Shifa, n.e.] que penso ser incontornável, espero que o director da CIA tenha recebido uma explicação da razão pela qual isso é necessário e porque é que os EUA têm de acabar por apoiar mesmo uma operação como esta, mesmo que depois fiquem milhares de corpos de civis nas ruas» [n.474]. Além disso, propôs que «Israel precisa de criar uma crise humanitária em Gaza, obrigando dezenas de milhares ou mesmo centenas de milhares a procurar refúgio no Egipto ou nos países do GolfoGaza tornar-se-á um lugar onde nenhum ser humano consegue viver» [n.475]. Ecoando as palavras do Presidente Herzog, Eiland tem repetidamente sublinhado que não deve haver distinção entre os combatentes do Hamas e os civis palestinianos, dizendo:

«Quem são as “pobres” mulheres de Gaza? São todas mães, irmãs ou esposas de assassinos do Hamas. Por um lado, fazem parte das infraestruturas que sustentam a organização e, por outro lado, se sofrerem uma catástrofe humanitária, pode presumir-se que alguns dos combatentes do Hamas e os comandantes mais subalternos começarão a compreender que a guerra é inútil…A comunidade internacional alerta-nos para uma catástrofe humanitária em Gaza e de epidemias graves. Não nos devemos furtar a isso, por muito difícil que seja. Afinal de contas, as epidemias graves no sul da Faixa de Gaza aproximarão o dia da vitória. . . É precisamente o seu desmoronamento civil que aproximará o fim da guerra. Quando altas individualidades israelitas dizem nos meios de comunicação social que “somos nós ou eles”, devemos esclarecer a questão de saber quem são “eles”. “Eles” não são apenas os combatentes armados do Hamas, mas também todos os funcionários “civis”, incluindo administradores de hospitais e administradores de escolas, e também toda a população de Gaza que apoiou entusiasticamente o Hamas e aplaudiu as suas atrocidades em 7 de Outubro» [n. 476].

“Discurso motivacional” de um reservista do Exército israelita: Em 11 de Outubro de 2023, o reservista do exército israelita de 95 anos, Ezra Yachin ‒ um veterano do massacre de Deir Yassin durante a Nakba de 1948 ‒ terá sido alegadamente convocado para a reserva para «levantar o moral» das tropas israelitas antes da invasão terrestre. O seu discurso foi difundido nas redes sociais incitando outros soldados ao genocídio da seguinte forma, enquanto era conduzido num veículo do exército israelita, vestido com o uniforme do exército israelita:

«Sejam vitoriosos e acabem com eles e não deixem ninguém vivo. Apaguem a memória deles. Apaguem-nos, às suas famílias, mães e filhos. Estes animais não podem continuar a viver…Todos os judeus que tenham uma arma devem sair de casa e matá-los. Se tiverem um vizinho árabe, não esperem, vão a casa dele e matem-no. Nós queremos invadir, [mas, n.e.] não como antes o fazíamos; queremos entrar e destruir o que está à nossa frente, destruir casas e depois destruir as que se seguem. Com todas as nossas forças, destruamos tudo, entrar e destruir. Como podem ver, nós vamos ser testemunhas de coisas com que nunca sonhámos. Deixem-nos lançar bombas sobre eles que os apaguem» [n.477].

O Chefe do Grupo de Operações Aéreas do exército israelita: Em 28 de Outubro de 2023, o tenente-coronel coronel Gilad Kinan descreveu a Força Aérea como estando «a trabalhar em conjunto com todos os corpos das FDI [Forças de Defesa de Israel, n.e.] por um objectivo claro — destruir tudo o que foi tocado pela mão do Hamas» [n.478].

O Comandante do 2908.º Batalhão do exército israelita: Num vídeo publicado na Internet em 21 de Dezembro de 2023, Yair Ben David afirmou que o exército israelita tinha «entrado em Beit Hanoun e fez lá o que Shimon e Levi fizeram em Nablus», e que «toda a Gaza deveria assemelhar-se a Beit Hanoun», referindo-se à cidade no norte de Gaza que foi totalmente devastada pelo exército israelita. A passagem bíblica em questão diz o seguinte:

«Ao terceiro dia, quando estavam a sofrer, Simeão e Levi, dois dos filhos de Jacob, irmãos de Diná, pegaram cada um na sua espada, entraram na cidade sem serem molestados, e mataram todos os homens» [n.480].

103. As declarações acima referidas dos decisores e oficiais militares israelitas indicam, por si só, uma intenção clara de destruir os palestinianos em Gaza como um grupo «enquanto tal». Constituem também um claro incitamento directo e público ao genocídio, que tem permanecido sem controlo e impune. A clara inferência que se pode fazer dos actos do exército israelita no terreno ‒ incluindo o grande número de civis mortos e feridos, bem como da escala de deslocações, destruições e devastações provocadas em Gaza ‒ é que essas declarações e directivas genocidas estão a ser aplicadas contra o povo palestiniano. Esta é também a inferência clara e necessária a fazer das provas oriundas dos soldados do exército israelita em serviço em Gaza, incluindo os que estão estacionados no terreno:

O Coronel do exército israelita, chefe-adjunto do CAGOT: num vídeo filmado em Beit Lahia ‒ uma das zonas de Gaza que parece ter sofrido níveis particularmente graves de destruição ‒ e transmitido pela televisão israelita em 4 de Novembro de 2023, o coronel Yogev Bar-Sheshet declarou: «Quem regressar aqui, se regressar depois, vai encontrar terra queimada. Não haverá casas, nem agricultura, nem nada. Não têm futuro». Outro coronel do exército, registado no mesmo vídeo, o coronel Erez Eshel (da reserva), também comentou: «A vingança é um grande valor. Há vingança pelo que nos fizeram… Este lugar será um pousio. Eles não poderão viver aqui» [n.481].

Soldados do exército israelita: Soldados israelitas de uniforme foram filmados em 5 de Dezembro de 2023 dançando, entoando cânticos e cantando: «Que a aldeia deles arda, que Gaza seja apagada» [n.482] e, dois dias mais tarde, numa outra ocasião, em Gaza, em 7 de Setembro de 2023, a dançar, a cantar e a dizer, «conhecemos o nosso lema: não há civis que não estejam envolvidos» e «apagar a semente de Amaleque» [n.483].

104. Nomeadamente, o segundo vídeo de soldados a gritar que «não há cidadãos que não estejam envolvidos» em Gaza e que vão «exterminar a semente de Amaleque» foi filmado em 7 de Dezembro de 2023. Nessa data, 17.177 palestinianos em Gaza tinham sido mortos

— cerca de 70 por cento dos quais eram mulheres e crianças.

Os dias 7 e 8 de Dezembro de 2023 foram particularmente devastadores para os palestinianos, com 350 pessoas mortas no espaço de 24 horas — aproximadamente um palestiniano em Gaza morto a cada quatro minutos [n.484].

105. Esta retórica genocida de membros do governo e de militares está também muito difundida e é comum entre os Membros do Knesset (MKs) israelita que não pertencem ao governo, os quais apelaram repetidamente a que Gaza seja «varrida» [n.485] «arrasada» [n.486], «apagada» [n.487] e «esmagada…com todos os seus habitantes» [n. 488]. Há parlamentares que deploraram publicamente que alguém «sinta pena» dos habitantes de Gaza «não envolvidos [nos combates, n.t.], afirmando repetidamente que «não há não envolvidos» [n.489], que «não há inocentes em Gaza» [n. 490], que «os assassinos das mulheres e das crianças não devem ser separados dos cidadãos de Gaza» [n.491], que «as crianças de Gaza é que fizeram isto [as dezenas de milhares de mortos e feridos infantis vítimas dos ataques das tropas israelita, n.e.] a si próprias» [n.492] e que «devia haver uma sentença para toda a gente de Gaza — a morte».

Há parlamentares que afirmaram que «não nos podemos esquecer que até os “cidadãos inocentes” ‒ as pessoas cruéis e monstruosas de Gaza, participaram ativamente … não há lugar para qualquer gesto humanitário ‒ a memória de Amalek deve ser reclamada» [n.494] e que «[sem] fome e sede entre a população de Gaza, não poderemos recrutar colaboradores» [n.495].

Há também parlamentares que apelaram a bombardeamentos «sem piedade», «a partir do ar» [n.496], apelando à utilização de armas nucleares («as armas do dia do juízo final»), [n. 497] e a uma «Nakba que ofusque a Nakba de 1948» [n.498].

106. Uma retórica genocida semelhante é também comum na sociedade civil israelita, com mensagens genocidas que são regularmente difundidas ‒ sem reprovação ou sanção ‒ nos meios de comunicação social israelitas. Os relatórios dos meios de comunicação social apelam a que Gaza seja «apagada» [n.499], transformada num «matadouro» [n.500], que «não é o Hamas que deve ser eliminado», mas, isso sim, «é Gaza que deve ser arrasada» [n.501], com a repetida afirmação de que «[n]ão há inocentes… Não há população. Há 2,5 milhões de terroristas» [n.502]. Um responsável local terá apelado a que Gaza fosse «esvaziada e destruída» como o Museu de Auschwitz, «para demonstrar a loucura das pessoas que lá viviam» [n.503]. Antigos MKs apelaram a um nível de destruição semelhante ao das cidades de Dresden e Hiroshima [durante a Segunda Guerra Mundial, n.t.] [n.504], afirmando que seria «imoral» o exército israelita não se mostrar «vingativo e cruel» [n.505]. Numa entrevista a um jornal israelita, um antigo MK apelou a que todos os palestinianos em Gaza fossem mortos, dizendo:

«Digo-vos, em Gaza, sem excepção, são todos terroristas, filhos de cães. Têm de ser exterminados, todos eles mortos. Vamos arrasar Gaza, transformá-los em pó, e o exército limpará a área. Depois começaremos

a construir novas zonas, para nós, sobretudo, para a nossa segurança» [n.506].

107. Estas declarações de membros proeminentes da sociedade israelita ‒ incluindo antigos parlamentares e apresentadores de televisão ‒ constituem um claro incitamento directo e público ao genocídio, que não tem sido controlado nem punido pelas autoridades israelitas. O facto de tal sentimento parecer ser tão generalizado e corrente na sociedade israelita é particularmente preocupante, atendendo à circunstância de os soldados que servem em Gaza serem maioritariamente reservistas, oriundos da sociedade civil e por ela informados.


N.B. As notas entre parênteses rectos ‒ por exemplo, [n.439] ‒ correspondem, no texto original, a notas de rodapé que especificam meticulosamente as fontes das citações e informações constantes do texto. Essas notas foram aqui omitidas para economizar espaço.  O texto original da Solicitação de instauração de um processo judicial em nome da República da África de Sul (“África do Sul”) contra o Estado de Israel (“Israel”) apresentada ao Tribunal pode ser consultado aqui.


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Genocídio em Gaza

(Por John J. Mearsheimer, in mearsheimer.substack.com/, 04/01/2024, Trad. Estátua de Sal)

John J. Mearsheimer

Escrevo para assinalar um documento verdadeiramente importante que deveria ser amplamente divulgado e lido com atenção por qualquer pessoa interessada na atual Guerra de Gaza.

Refiro-me especificamente ao “requerimento” de 84 páginas que a África do Sul apresentou ao Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) em 29 de dezembro de 2023, acusando Israel de cometer genocídio contra os palestinianos em Gaza. (1) O documento sustenta que as acções de Israel desde o início da guerra, em 7 de outubro de 2023, “se destinam a provocar a destruição de uma parte substancial do grupo nacional, racial e étnico palestiniano … na Faixa de Gaza”. Esta acusação enquadra-se claramente na definição de genocídio da Convenção de Genebra, da qual Israel é signatário. (2)

A petição é uma excelente descrição do que Israel está a fazer em Gaza. É exaustiva, bem escrita, bem argumentada e minuciosamente documentada. O pedido tem três componentes principais.

Em primeiro lugar, descreve em pormenor os horrores que as FDI infligiram aos palestinianos desde 7 de outubro de 2023 e explica por que razão lhes está reservada muito mais morte e destruição.

Em segundo lugar, a petição apresenta um conjunto substancial de provas que demonstram que os dirigentes israelitas têm intenções genocidas contra os palestinianos. (59-69) De facto, os comentários dos dirigentes israelitas – todos escrupulosamente documentados – são chocantes. Faz-nos lembrar a forma como os nazis falavam de lidar com os judeus quando lemos a forma como israelitas em “posições da mais alta responsabilidade” falam de lidar com os palestinianos. (59) Essencialmente, o documento argumenta que as acções de Israel em Gaza, combinadas com as declarações de intenção dos seus líderes, tornam claro que a política israelita é “calculada para provocar a destruição física dos palestinianos em Gaza.” (39)

Em terceiro lugar, o documento faz um esforço considerável para colocar a guerra de Gaza num contexto histórico mais amplo, deixando claro que Israel tem tratado os palestinianos em Gaza como animais enjaulados há muitos anos. Cita numerosos relatórios da ONU que descrevem em pormenor o tratamento cruel de Israel para com os palestinianos. Em suma, a petição deixa claro que o que os israelitas têm feito em Gaza desde 7 de outubro é uma versão mais extrema do que já faziam muito antes de 7 de outubro.

Não há dúvida de que muitos dos factos descritos no documento sul-africano foram anteriormente relatados nos meios de comunicação social. No entanto, o que torna a petição tão importante é o facto de reunir todos esses factos num único local e fornecer uma descrição abrangente e completamente apoiada do genocídio israelita. Por outras palavras, fornece o quadro geral sem descurar os pormenores.

Sem surpresa, o governo israelita classificou as acusações de “calúnia de sangue” que “não tem qualquer base factual e judicial”. Além disso, Israel afirma que “a África do Sul está a colaborar com um grupo terrorista que apela à destruição do Estado de Israel. ” (3). Uma leitura atenta do documento, no entanto, torna claro que não há base para estas afirmações. De facto, é difícil ver como Israel se poderá defender de uma forma racional e legal quando o processo começar. Afinal de contas, os factos nus e crus são difíceis de contestar.

Permitam-me que faça algumas observações adicionais relativamente às acusações sul-africanas.

Em primeiro lugar, o documento sublinha que o genocídio é distinto de outros crimes de guerra e crimes contra a humanidade, embora “exista frequentemente uma ligação estreita entre todos esses actos”. (1) Por exemplo, visar uma população civil para ajudar a ganhar uma guerra – como aconteceu quando a Grã-Bretanha e os Estados Unidos bombardearam cidades alemãs e japonesas na Segunda Guerra Mundial – é um crime de guerra, mas não um genocídio. A Grã-Bretanha e os Estados Unidos não estavam a tentar destruir “uma parte substancial” ou toda a população dos Estados visados. A limpeza étnica sustentada pela violência selectiva é também um crime de guerra, embora também não seja genocídio, uma ação que Omer Bartov, o perito israelita no Holocausto, chama “o crime de todos os crimes”. (4).

Para que conste, eu acreditava que Israel era culpado de crimes de guerra graves – mas não de genocídio – durante os primeiros dois meses da guerra, apesar de existirem provas crescentes daquilo a que Bartov chamou “intenção genocida” por parte dos líderes israelitas. (5). Mas tornou-se claro para mim, após o fim das tréguas de 24-30 de novembro de 2023 e o regresso de Israel à ofensiva, que os líderes israelitas estavam de facto a tentar destruir fisicamente uma parte substancial da população palestiniana de Gaza.

Em segundo lugar, embora a petição sul-africana se centre em Israel, tem enormes implicações para os Estados Unidos, especialmente para o Presidente Biden e os seus principais lugares-tenentes. Porquê? Porque há poucas dúvidas de que a administração Biden é cúmplice do genocídio de Israel, que também é um ato punível de acordo com a Convenção do Genocídio. Apesar de admitir que Israel está envolvido em “bombardeamentos indiscriminados”, o Presidente Biden também declarou que “não vamos fazer nada para os parar, além de proteger Israel. Nem uma única coisa. ” (6). Ele tem sido fiel à sua palavra, chegando ao ponto de contornar o Congresso duas vezes para conseguir rapidamente armamento adicional para Israel. Deixando de lado as implicações legais do seu comportamento, o nome de Biden – e o nome dos Estados Unidos – ficará para sempre associado ao que provavelmente se tornará um dos casos exemplares de tentativa de genocídio.

Em terceiro lugar, nunca imaginei que veria o dia em que Israel, um país repleto de sobreviventes do Holocausto e seus descendentes, enfrentaria uma séria acusação de genocídio.

Independentemente da forma como este caso se desenrolar no TIJ – e aqui estou plenamente consciente das manobras que os Estados Unidos e Israel empregarão para evitar um julgamento justo -, no futuro Israel será amplamente considerado como o principal responsável por um dos casos canónicos de genocídio.

Em quarto lugar, o documento sul-africano sublinha que não há razão para pensar que este genocídio vai acabar em breve, a menos que o TIJ intervenha com êxito. Cita por duas vezes as palavras do Primeiro-Ministro israelita Benjamin Netanyahu, em 25 de dezembro de 2023, para enfatizar este ponto: “Não estamos a parar, continuamos a lutar, e estamos a aprofundar a luta nos próximos dias, e esta será uma longa batalha e não está perto de terminar”. (8, 82) Esperemos que a África do Sul e a CIJ ponham termo aos combates, mas, em última análise, o poder dos tribunais internacionais para coagir países como Israel e os Estados Unidos é extremamente limitado.

Por último, os Estados Unidos são uma democracia liberal repleta de intelectuais, editores de jornais, decisores políticos, especialistas e académicos que proclamam regularmente o seu profundo empenho na proteção dos direitos humanos em todo o mundo. Tendem a ser muito vocais quando os países cometem crimes de guerra, especialmente se os Estados Unidos ou qualquer dos seus aliados estiverem envolvidos. No entanto, no caso do genocídio de Israel, a maior parte dos especialistas em direitos humanos da corrente dominante liberal pouco disseram sobre as acções selvagens de Israel em Gaza ou sobre a retórica genocida dos seus líderes. Esperemos que, em algum momento, expliquem o seu silêncio perturbador. Seja como for, a história não será gentil com eles, pois não disseram uma única palavra enquanto o seu país era cúmplice de um crime horrível, perpetrado à vista de todos.

Fonte aqui.


1 https://www.icj-cij.org/sites/default/files/case-related/192/192-20231228-app-01-00-en.pdf

2 https://www.un.org/en/genocideprevention/documents/atrocity-crimes/Doc.1_Convention%20on%20the%20Prevention%20and%20Punishment%20of%20the%20Crime%20of%20Genocide.pdf

3 https://www.timesofisrael.com/blood-libel-israel-slams-south-africa-for-filing-icj-genocide-motion-over-gaza-war/

4 https://www.nytimes.com/2023/11/10/opinion/israel-gaza-genocide-war.html

5 https://mearsheimer.substack.com/p/death-and-destruction-in-gaza

6 https://www.motherjones.com/politics/2023/12/how-joe-biden-became-americas-top-israel-hawk/


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