Quem sofreu o apartheid não pode calar-se

(Whale project, in Estátua de Sal, 12/01/2024, revisão da Estátua)

O grito de Gaza, obra do escultor tunisino Omar Esstar

(Este artigo resulta de um comentário ao texto que publicámos do Processo judicial da África de Sul contra o Estado de Israel no Tribunal Internacional de Justiça, ver aqui. Pela pertinência, neste momento, resolvi dar-lhe o destaque que, julgo, merece.

Estátua de Sal, 12/01/2024)


Uma grande empatia pelo povo judeu sentia a minha avó que viveu os duros anos da Segunda Guerra Mundial. Apesar de não estar preparada para isso, envelheceu e morreu a ouvir relatos de atrocidades israelitas grotescas, em telejornais que noutros tempos não tinham comentadores a justificar genocídios. Perguntava, então, justamente, como é que pessoas que tinham sofrido crimes desses cometiam agora crimes da mesma igualha. A tal empatia foi por isso morrendo.

Eu nunca tive tal sentimento. Cresci com os crimes de Israel e a resistência desesperada de gente a quem foram roubadas as terras, as casas, a liberdade, a dignidade, a vida. Por uma gente que se julga a raça escolhida por Deus. Se fossemos nós a viver na terra que eles acreditam – criminosamente acreditam, como disse Freitas do Amaral -, que lhes foi dada por Deus, eles fariam connosco exatamente a mesma coisa. Por isso, é com perplexidade que vejo gente ser pró-Israel. Mas são como as bruxas: lá que os há, há.

Por isso vi com perplexidade a medonha bandeira do genocídio a ondear num dos símbolos maiores da nossa independência, o nosso Presidente a dizer a barbaridade de que somos todos israelitas, o nosso Governo a falar sobre o direito de defesa de Israel. Quando já muitas bombas tinham caído em Gaza e os dirigentes israelitas já tinham dito umas quantas atrocidades, como as listadas pela África do Sul na sua corajosa denúncia.

E não venham os pró-Israel com tretas. Se os americanos e ingleses se acham no direito de proteger os genocidas – dando-lhes armas e bombardeando os houthis, que os tentam parar da única maneira que lhes dói, fazendo a economia gritar -, também a África do Sul tem o direito de denunciar quem está a fazer a outro povo, pior que os supremacistas brancos lhes fizeram a eles.

Os supremacistas brancos também tentaram criar faixas de Gaza, os chamados bantustões, terras a quem queriam dar uma independência fictícia, terras em zonas desérticas e mortíferas. Do apartheid todos sabemos o que foi. A história dos bantustões e as atrocidades – como as que estão em curso na Palestina -, só não avançaram porque os supremacistas brancos sul-africanos nunca tiveram nada parecido, com a dominação económica que tem Israel e as suas quintas colunas espalhadas pelo mundo. Nunca dominaram a comunicação social. Os seus hediondos crimes foram sempre devidamente denunciados. Mas, mesmo assim, a luta foi longa, muito longa, porque os mesmos trastes que hoje apoiam Israel foram sempre dando uma no cravo e outra na ferradura enquanto foi possível.

Havia lá bons negócios. Foi só quando perceberam que os negócios se poderiam fazer com qualquer Governo que, lá aceitaram sancionar uma ditadura brutal, que também era muitas vezes apresentada como a única democracia de África. Uma democracia em que quase 90 por cento da população não votava.

Tal como hoje, um Estado que se define como judeu, e faz pior que o apartheid, é apresentado como a única democracia do Médio Oriente. Decididamente esta gente não aprende. Porque não quer. Está-lhes na massa do sangue apoiar trastes para ter bons negócios. Está-lhes na massa do sangue o racismo. Interessa pouco se alguns palestinianos até são cristãos.

Mas, a África do Sul do apartheid, dos bantustões, dos massacres nos bairros negros aprendeu alguma coisa. Por isso, com uma coragem notável, levanta-se e acusa uma gente pior que os seus supremacistas brancos.

Durante muitos anos gente como Mandela, Joe Slovo, e outros tantos e tantos milhares, lutaram, foram aprisionados, muitos morreram, sozinhos. Mas, por vontade da África do Sul, os palestinianos não morrerão sozinhos. Um bravo pela coragem. porque é preciso tê-la.

Quanto a mim, quando o cerdo do Netanyahu falou nos Amalequitas, vi logo ao que os trastes iam e o que se seguiria. Mas muita gente faltou à catequese ou a qualquer outro culto. Porque, segundo a Bíblia, no caso dos Amalequitas, foi mesmo de genocídio que se tratou. Nem os animais escaparam e o rei daquele povo foi retalhado por um sacerdote tresloucado, Samuel de seu nome, que terá escrito dois livros da Bíblia onde muitos genocídios estão retratados. Ora os israelitas de hoje não são diferentes daqueles guerreiros de há quatro mil anos atrás. Só não vê quem não quer. A África do Sul viu e, por isso, com todos os defeitos que o seu Governo possa ter – e descansem que vão juntar-se-lhe muitos mais países -, merece a nossa admiração pela humanidade e pela coragem.

Já nós, somos os trastes de sempre porque é impossível que não soubéssemos o que se seguiria, assim que o traste falou em dar aos palestinianos o destino dos Amalequitas. Ninguém se deu ao trabalho de ir ver se a barbaridade estava mesmo na Bíblia?

Logo aí, tínhamos de ter dito: nem mais uma bala, nem mais uma batata para Israel. Não queremos ter nada a ver com a repetição de um genocídio de há quatro mil anos atrás.

Mas quem já apoiou nazis na Ucrânia pode muito bem apoiá-los em Israel. Não nos peçam é para achar isso normal nem para vilipendiar a África do Sul.


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2 pensamentos sobre “Quem sofreu o apartheid não pode calar-se

  1. Preferia não ter de escrever tal coisa. Era sinal que não havia um genocídio em curso. Era sinal, talvez, que se queriam compensar os judeus pelas perseguições, lhes tinham dado uma terra na Alemanha, Polónia ou Rússia. Ou até Espanha ou mesmo Portugal. Que a aberração a que se decidiu chamar estado de Israel nunca teria sido criada, pelo menos na terra dos palestinianos que nunca fizeram pogroms nem inquisicoes. Era sinal que não estávamos mais uma vez, a, apoiar trastes até as últimas consequências. Como agora andarem americanos e ingleses a destruir ainda mais o Yemen para proteger os navios dos genocidas. E aqui já ninguém lhes chama nomes por alvejarem civis. Porque bombardear zonas residenciais na capital do país visa apenas causar terror, fazer toda a gente pagar e vale 0 no que toca a diminuir a capacidade que os houthis possam ter de atacar barcos relacionados com Israel. Mas os nossos presstitutos já falam com toda a naturalidade em Guerra no Mar Vermelho sem fazer muitas perguntas. Afinal de contas os Yemenitas não são brancos como os ucranianos.
    Não queria mesmo nada ter de escrever tal coisa. Mas já perdi a esperanca de alguma vez poder escreverr:nos e aqueles que apoiamos fizemos alguma coisa de bom. Acabamos com a fome, a guerra e a miséria, aprendemos a respeitar os modos de vida de todos os outros, aprendemos que se queremos ter os recursos dos outros devemos negociar com lisuratura, não alimentar os seus inimigos, lançar o ódio, destruir.
    Porque não venham com merdas, se dissessem aos Yemenitas, deixem lá passar o raio dos barcos e nós damo vos toda a, comida que vos falta era bem provável que, aceitassem. Se o anúncio fosse tornado público, se alguns alimentos começassem mesmo a chegar, a própria população pressionaria no sentido em que tal fosse aceite. Mas nós, apostamos de vez no caminho da guerra, da morte, da destruição, do choque e pavor.
    Pelo que é mais fácil o fiscal acordar da sesta e chamar nos uns nomes que deixarmos de ser uns trastes. É claro que, alguns de nós são decentes. Mas, infelizmente não chegamos. Não penso e calar me lá por isso. Espero que também continue por aí apesar dos fiscais.

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