O que se passa nas polícias?

(Carmo Afonso, in Público, 05/02/2024)

As reivindicações das polícias extravasam o que pode ser decidido por um Governo de gestão. Mas António Costa, se quiser, sabe puxar aqui o travão de mão. A indiferença do Governo é gasolina.


Este sábado, dezenas de agentes da polícia apresentaram baixa médica para não se apresentarem ao serviço. A ausência destes homens acabou por determinar o cancelamento de um jogo de futebol, o Famalicão–Sporting.

Nessa noite, o presidente do Sindicato Nacional da Polícia, Armando Ferreira, em declarações na SIC Notícias, ameaçou que a situação se pode alastrar a todo o país. Nem uma palavra acerca da veracidade das baixas médicas. Tratou-as como sendo uma forma de luta legítima. Também equacionou o cancelamento de mais jogos de futebol e chegou a ameaçar a realização das eleições legislativas a 10 de março.

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Foram declarações desastrosas e que provocaram alarme. Armando Ferreira apresentou as polícias como sendo um perigo para a ordem pública sem noção do efeito dessa imagem. E mostrou de que lado está o seu sindicato. Estamos conscientes da infiltração da extrema-direita nas polícias, mas ficamos sempre paralisados quando o fenómeno se nota.

E reparem que o Movimento Zero reanimou e que tenta cavalgar a onda. Voltou às publicações nas redes sociais. Na verdade, são verdadeiros apelos à guerra. Depois do cancelamento do jogo entre o Famalicão e o Sporting, o Movimento Zero, que tinha apelado ao cancelamento dos jogos dos três grandes, lamentou a inação no Estádio do Dragão. “Cada momento de hesitação é uma traição à nossa causa. Braga mostrou o caminho – coragem e união – mas no Dragão falhámos.” Isto porque os agentes de segurança não aderiram ao apelo para se juntarem na porta 18 do Estádio do Dragão. No fundo, foi um apelo para não acatarem as ordens e instruções que tinham para garantir a segurança do jogo. É assim a atuação do Movimento Zero.

Na mesma noite, também Paulo Santos, presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP), foi entrevistado numa estação de televisão. Falou no silêncio do Governo e na possibilidade de os agentes de segurança enveredarem por outro tipo de contestação. Paulo Santos foi interpretado como estando, à semelhança do que fez Armando Ferreira, a ameaçar o funcionamento do sistema democrático. Mas digo-vos que tal interpretação é injusta.

Paulo Santos é um dos dirigentes sindicais que tentam proteger as forças de segurança da influência da extrema-direita. Não é farinha do mesmo saco. Temo pensar no que seria das forças de segurança se não existissem homens como Paulo Santos, homens que, na verdade, estão numa posição muito difícil.

Porquê?

Por um lado, estão na luta por melhores condições de vida e de trabalho como todos os restantes. Mas fazem essa luta sem perder de vista valores como a solidariedade e a fraternidade, esses são os princípios fundadores da ASPP. Acontece que, por mais que se organizem e que façam manifestações com milhares de homens, nada acontece. Ao não reagir às formas de luta convencionais, o Governo dá razão aos agentes das forças de segurança que estão minados pelo Chega e que só acreditam em ações de guerrilha. Os sindicalistas como Paulo Santos perdem força negocial e perdem terreno perante os seus homens; começam a ser substituídos por novos atores. Isto está a passar-se. Se Paulo Santos assumir um discurso frontalmente crítico em relação, por exemplo, aos agentes que apresentaram baixas médicas fraudulentas vai perder a mão e a autoridade no sindicato mais representativo das polícias. Volto a dizer que homens como Paulo Santos estão numa posição difícil.

A especial permeabilidade ao ideário de extrema-direita por parte das forças de segurança não resulta apenas da sua situação remuneratória ou da recente injustiça que viveram ao terem sido satisfeitas as reivindicações da Polícia Judiciária mas não as suas. Não, esta permeabilidade tem outras causas profundas.

Quem vai para as forças de segurança quer ter autoridade. Este desejo de ter e exercer autoridade sobre o outro é uma fraqueza. É também por aqui que se deixam contaminar. Ventura fala-lhes do reforço dessa autoridade e de inimigos que é preciso combater. Os agentes e guardas que caíram no embuste de Ventura estão amotinados e prontos para a guerra. São, neste momento, homens perigosos.

As reivindicações das polícias extravasam o que pode ser decidido por um Governo de gestão. Mas, mesmo nessas circunstâncias, António Costa, se quiser, sabe puxar aqui o travão de mão. E é a pessoa certa para o fazer. A indiferença do Governo é gasolina para o fogo que consome quem pode salvar as polícias.

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico


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12 pensamentos sobre “O que se passa nas polícias?

  1. Ai coitadinhos. Que peninha que eu tenho. Toda a gente quando vai para a polícia sabe o que vai ganhar. Se aceita e lidar. Como aliás todos nós que nos vemos, especialmente nos últimos dois anos, a fazer muitas contas a vida para não sobrar mês no fim do ordenado. O trabalhador da construção civil quando sabe que vai ter de trabalhar na cobertura de um prédio, muitas vezes com andaimes sem segurança alguma, sem arneses de proteção, também é capaz de ter uns problemas psicológicos e sentir se a ir abaixo mas se fizer o que estes senhores fizeram, explicando essa antevisao da possibilidade de doença ao patrão é capaz de estar no olho da rua antes de ter tempo de meter atestado.
    E eu nem defendo que, estes senhores tenham o destino que teria um pedreiro, um pescador ou um trabalhador hoteleiro se armasse um circo destes. Mas uma investigação a sério aos alegados problemas psicológicos, a ter sido isso que alegaram, com estadia em hospital especializado, leia se psiquiatria talves levasse menos senhores agentes a ter problemas psicológicos na véspera de trabalhos importantes. E, claro, quem se provasse que estava são, um mesinho de suspensão não faz mal a ninguém.
    Agora temo los a fazer vigílias em aeroportos, a, esse preço também para lá podem ir os trabalhadores da construção civil e estradas e os pescadores, só para citar duas profissões que no nosso país são garantidamente pior remuneradas que a polícia e com muito mais risco de mortes ou lesões graves que a polícia.
    Os senhores polícias se não estão contentes teem o remédio que temos todos. Lutar dentro da legalidade e sem chantagens e, na última das hipóteses, ir, a, procura de trabalho mais seguro e melhor remunerado. Os circos que teem armado nos últimos dias, e no qual os atestados em massa no Famalicão-Sporting foram só um episódio são indignos de um país democrático.
    Mas cada um acredita no que quiser.

  2. Não nos ameaçam, diariamente, os médicos, que, por exemplo, se abusarmos do tabaco ou do alcool, iremos (futuro) ficar doentes? Que admiração, pois, um polícia (ou vários) antever que, psicologicamente, só de pensar que teria de fazer um serviço, com todos os riscos a ele inerentes, mas mal remunerado, se viria a sentir, psicologicamente, a ir abaixo? Não é isso que acontece, por exemplo, com muita gente, quando, mesmo antes de um qualquer exame, só de pensar que o terão de fazer, começa a entrar em «stresse», com o seu estado a agravar-se à medida que dia do dito exame se aproxima? Em suma, não só se fica doente, como se pode antever que doente se ficará! Ou não?😎

  3. Digamos que em matéria de doencas de gente que já tinha ameaçado que ia ficar doente também sou um bocadinho desconfiado. Casa um com as suas.

  4. Há quem vote, crente e quem se abstenha, agnóstico. Em matéria de justiça, por princípio, sou agnóstico, confesso! Já vi tantos acusados serem absolvidos! Assim como condenados a pena de morte, antes de terem a sorte de a mesma não ser executada (num EUA, por exemplo), se acabar, nem que seja anos mais, por reconhecer quanto inocentes, afinal, estavam.
    Mas, enfim, democraticamente, cada um tem os seus princípios.

  5. Claro, a presunção de inocência. De certeza que os senhores estão tão inocentes como o tal que segundo a lenda fez um galo assado cantar.
    Aquili foi só uma doença repentina que acometeu justamente todos os agentes que estavam escalados para aquele serviço e também justamente quando já tinham ameaçado boicotar o policiamento do evento.
    Resta saber qual foi a doença que afectou todos aqueles valorosos agentes da lei. Aceitam se apostas. Seria gripe? Seria varicela? Varíola dos macacos? Diarreia? Ou simplesmente falta de vergonha na cara e desrespeito por todos quantos trabalham em Portugal ganhando muito menos e lombando muito mais? E que se fizessem uma coisa dessas iam para o olho da rua sem apelo nem agravo?
    Eu voto na última. Quem quiser é livre de votar noutra. Afinal de contas se ainda há quem acredite que a terra é plana porque é que ninguém há de acreditar na inocência dos senhores?

    • Nada como fazer por aproveitar a patada do Dr Costa com a PJ, ao arrepio dos secretários de Estado dos ministérios envolvidos.
      Agora aturem-nos.
      Que mil marchas possam florescer.
      Um sindicato único dos sacrificados agentes, ao poder.

  6. Em melhor português:
    Estranha-se ler, ainda por cima por parte duma senhora advogada, que já se tenha como certa a existência de baixas ´fraudulentas´ por parte de polícias, sem que ainda, em sede própria, se tenha concluído por tal. E o princípio constitucional da presunção de inocência? É só um faz de conta?

  7. Estranha-se ler, ainda por cima por parte duma advogada, que já se tenha como certo a existência de baixas fraudulentas por parte de polícias, sem que isso, em inquérito devido, se tenha dado como certo! E o constitucional princípio da «presunção da inocência? É só para fazerde conta?

  8. Há uns anos, infelizmente sei exactamente há quantos,
    , trabalhando numa autarquia gerida por um verdadeiro ditador sem entranhas, uma cantoneira de limpeza sofrendo de problemas de saúde vários e obesidade mórbida causada por isso mesmo foi acusada de meter baixas fraudulentas e reformada compulsivamente com 150 euros mensais. Por sorte vivia numa habitação social pelo que pelo menos ela e uma filha de 14 anos não foram parar ao olho da rua mas foram lançadas numa miseria negra.
    Muita gente achava que uma mulher com todos aqueles problemas de saúde não teria assim tantas baixas fraudulentas. O trabalho ao ar livre não é mole. E havia quem se perguntasse se por um salário de 500 euros valia a pena lançar de vez uma adolescente numa miséria negra.
    O homem achou que valia.
    Ora no ano de 2024 polícias decidem meter baixas fraudulentas e toda a gente parece achar isto normal. Se fossem outras classes de funcionários públicos tambem achariam?
    Atenção, não estou a defender que todos esses polícias e suas famílias sejam lançados numa miséria negra como aquela mulher foi.
    Mas um mes de suspensao, já agora estendido aos médicos que lhes passaram as baixas talvez fizesse os senhores perceber que ainda não chegamos ao Brasil e aqui bananas só há na Madeira. Em resumo, isto não é uma República das Bananas.
    Queixam se de mas condições de trabalho. E onde é que elas são boas? Portugal nunca foi propriamente conhecido pelas boas condições de trabalho que oferece e, já agora, pelos bons salários. E até já tivemos um Governo que mandou emigrar quem não estivesse contente. Em resumo, descontando meia dúzia de privilegiados todos temos de fazer muitas contas para não dobrar mês no fim do ordenado.
    A sua profissão é arriscada? Todas são. A esse preço também os trabalhadores da construção civil e os pescadores deveriam vir para a rua exigir subsídios de risco. Só para citar duas profissões em que se morre mais que na polícia, pelo menos em Portugal.
    E, claro, depois temos os tais elementos que, só lá entraram por quererem ter autoridade sobre o resto da grei. E, claro, acham que, essa autoridade tem de ser acompanhada pela devida compensação monetária. E se não for a bem vai a mal. O grande problema é que essa gente tem armas.
    Mais uma razão para ver se vale a pena ir votar num partido que promete toda a autoridade, leia se impunidade a malta destas so porque não gostamos de ciganos e malta que reza de traseiro para o ar.
    Realmente alguém tem de pôr um travão nisto, pois que alguns polícias decentes vão mesmo dizendo a boca muito pequena que a polícia está mesmo tomada pela extrema direita que lhes promete a tal impunidade a brasileira.
    Mas não é de certeza dando lhes mais dinheiro, porque um chantagista nunca para se consegue uma vez, enquanto outros profissionais que também dão o corpo ao manifesto, por vezes com mais riscos, chupam no dedo.
    Por isso mandem o Chega chegar para lá ou isto tem tudo para correr mal.

    • Uma amostra de PREC revisitado?
      Em resposta ao problema dos policias, eis os agricultores em marcha.
      Seguiram-se os bombeiros em parada.
      Resultados de oito anos de não gestão ou administração Costa & Cia.
      Esperteza saloia de um PM:
      Acionar o suplemento da PJ no seu gabinete,
      os secretários de Estado, ausentes-Justiça, MAI, Finanças.
      Um brincalhão Excelentíssimo.
      A mesma patacoada da sua modernização da GNR em 2007,
      consultoria paga, um general seu apoiante a agraciar.
      Se não Chega, Basta yá.

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