As fogueiras em que arde a liberdade na União Europeia!

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 03/04/2024)

A União Europeia demonstra todos os sintomas de uma estrutura em crise profunda.


A União Europeia demonstra todos os sintomas de uma estrutura em crise profunda. Tal como outras organizações, no passado, quanto mais tenta fazer passar uma imagem de coesão interna, maiores as fissuras que cria, a partir da exigência, cada vez mais férrea, de cumprimento das regras que tal aparência de coesão exige.

Para conseguir afirmar o seu poder político, Bruxelas é apresentada como um poder, tão distante quanto inatingível, de tal forma superior, que tudo o que dispõe é inquestionável. Colocando-se em tal pedestal, Bruxelas arroga-se de uma sapiência e omnisciência presumidas, apostando num processo de comunicação muito bem montado, assente na ideia de um poder acima de todos os outros, acima dos poderes eleitos, acima dos “governos do povo”: “A UE disse que…”; “a UE diz que não se pode…”; “o governo pediu à UE que…”; “a UE avisou que…”; “o governo foi obrigado, pela UE, a…” Tudo assim, sem questionamento, crítica ou reflexão. Uma espécie de extensão europeia da teoria da “única nação indispensável”.

Se até certa altura, estávamos perante um poder que se impunha por si próprio, que se bastava a si próprio, cuja inatingibilidade era suficiente para desencorajar qualquer ideia contraditória, face à monumentalidade da tarefa que consistia em enfrentar, não um governo, mas “o governo dos governos todos”; atualmente, Bruxelas deixou de se contentar com essa superioridade ontológica, passando a exigir provas inequívocas de lealdade.

Tal significa que aderir, ou não, à “realidade narrativa” apresentada pela burocracia europeia, há muito que deixou de ser um acto voluntário. A lealdade passou a ser demonstrada pelo vigor e rigor com que se interioriza a ideologia “comunitária” – a meu ver trata-se mais de uma idolatria. Houve um momento que funcionou como um sinal para a ativação de mecanismos conformadores das opiniões, à “realidade narrativa” emanada da União. Esse momento está situado em 25/02/2022. Mesmo no Covid, embora já se sentisse a mão de ferro, na circulação de informação que questionasse as vacinas, métodos e políticas desenvolvidas, não assistimos, na Europa, à utilização corrente de meios coercivos diretos, para silenciar, condicionar ou responsabilizar quem não aderia à narrativa.

Mas, nos últimos dois anos e tal como noutros tempos, também bastante inquisitoriais, passou a ser exigida uma prova de lealdade, consubstanciada na adesão a um discurso, a uma narrativa, a uma idolatria. E se é verdade que os poderes deste tipo, ao longo da história, elegeram sempre a “desinformação” e “propaganda” dos inimigos, como semente originária do condicionamento!

Foi, portanto, ao som do trovejar da guerra que começámos a constatar a chegada do “estado de guerra” da UE e a necessidade de prestação de provas de lealdade. Não o noticiaram, não o questionaram ou analisaram. Como em tudo o que caracteriza o poder europeu, nestes dias, apenas constatamos os factos, a sua inexorável existência. Já o discurso, esse, continua a ser o mais luminoso de sempre, ou talvez mais ainda.

Sabemo-lo, por exemplo, quando utilizamos uma ferramenta de Inteligência Artificial generativa de texto, questionando-a sobre “jornalistas perseguidos na União Europeia no quadro do conflito na Ucrânia”. A resposta é invariavelmente a mesma: “corajosos jornalistas perseguidos” só na Rússia, meus caros. Contudo, quando colocamos os nomes de jornalistas como Alina Lipp, Graham Phillips ou Pablo Gonzalez, descobrimos que, afinal, existem jornalistas: acusados de espionagem e preventivamente detidos (Pablo Gonzalez na Polónia, há mais de ano e meio); acusados e sujeitos a pena de prisão até 3 anos, por delito de opinião “apoio à invasão russa” (Alina Lipp da Alemanha); e, pasme-se, acusados de propagandismo e glorificação da “invasão russa e das atrocidades praticadas” (Graham Philips do Reino Unido), ao ponto de ter sido acusado por alguns políticos de ter “cometido crimes de guerra”, apenas por ter entrevistado Aiden Aslin, um mercenário britânico preso em Mariupol, e em consequência integrado numa lista de sanções pessoais que o impedem de reentrar no seu país de origem.

Estes foram alguns dos primeiros casos – nunca assumidos – de violação da prova de lealdade. Como que para dar o exemplo, um punhado de jornalistas experimentaram o peso com que a mão de Úrsula Von der Leyen trata a deslealdade para com a sua narrativa. Nem que seja aquela em que fala de chips de máquinas de lavar que equipam mísseis e economias em pedaços que afinal até crescem mais do que as da UE.

Consequentemente, como em todos os poderes que já não se bastam a si próprios, algures no tempo, a malha ficou ainda mais apertada, deixando de ser apenas os jornalistas e órgãos de grande mediatismo (como as Tv’s russas), a quedarem-se apanhadas nas redes do ministério europeu da verdade. A polícia da idolatria foi lançada ao ataque e fareja debaixo de todas as pedras pelo mínimo sinal de dissidência.

Recentemente, as autoridades checas decidiram perseguir com a entrada na lista de sanções uma entidade com o perfil virtual de “Voice of Europe”, bem como os seus dois responsáveis, acusando-os de pretenderem “minar a integridade territorial, soberania e independência da Ucrânia”, porque, no entendimento destas autoridades, glorificam a “invasão russa da Ucrânia”. Todos temos vindo a aprender que, na UE do nosso tempo, podemos idolatrar nazis, neonazis e até propagar notícias-falsas. É quando o nosso discurso coincide com o de algum russo, por mais insignificante que seja, que somos alvos da ira de Von der Leyen. Como disse, não se trata de “ser, ou não, verdade”; trata-se de lealdade ou traição.

Esta intransigência para com os discursos, mesmo quando proclamados por gente sem exposição mediática, apenas com uma limitada exposição virtual, é em si sintomática de que o nível de tolerância para com o pensamento diverso, crítico ou controverso, está no seu nível mais alto de sempre. Tal fundamentalismo discursivo – e comportamental – está em linha com o que depois nos é dado a ver no mundo real, sobretudo no epicentro da idolatria europeia: Bruxelas.

É em Bruxelas que encontramos o centro simbólico ao qual devemos ser leais. O “projeto ucraniano”, para os idólatras do poder central – e seus seguidores –, que assenta nos órgãos que compõem a União Europeia, tem uma dimensão fundadora, tendo-se tornado o símbolo máximo do regime; um regime que já não se afirma pelo que é, mas por aquilo que defende como símbolo máximo do antagonismo Russo: o apoio ao regime de Kiev. Quanto mais rígido, intransigente e exigente, no apoio a Kiev, mais anti russo se é, sendo essa a prova última de lealdade. Será razão para dizermos que esta UE já não é a mesma. Ou será que… Agora é que é o que deveria ser?

Apresentada como projeto de paz, mas acabando a financiar a guerra, em Bruxelas, mesmo a um qualquer transeunte mais distraído, não passa despercebido o símbolo máximo do regime. Bruxelas passou a ser, especialmente desde 25 de Fevereiro de 2022, uma cidade banhada a azul e amarelo. Dos outdoors às vedações das obras públicas, tudo parece denunciar a verdade única à qual temos de ser leais. A Ucrânia de Zelensky é, de facto, um estado membro da EU! A legitimidade que lhe falta na lei formal, sobra-lhe na manifestação da parafernália simbólica e no frenesim perseguidor com que as instituições europeias abraçam a sua proteção.

Dispensando os usuais trâmites de acesso, os quais apenas visam conferir alguma legitimidade formal a todo um fenómeno (Ucrânia na “fast track” para a EU) observável de facto, a Ucrânia beneficia de todo um altar que constitui o símbolo máximo deste fundamentalismo idólatra e desta adoção de facto materializada.

Nada é mais esmagador do que uma ida à praça central do “Luxembourg”, local em que se situa o Parlamento Europeu, sob um olhar próximo de uma Comissão Europeia vigilante e de um Conselho Europeu amestrado, por poderes bastante mais distantes. O amarelo e o azul são tão intensamente proeminentes nesse local, que parece estarmos simultaneamente no céu e perto do sol. Dizem que são as cores da UE… A sua presença nunca foi tão forte como hoje. Também nas cores a Ucrânia e a UE se confundem.

A imagem de Zelensky sobressai desse mar duo cromático, inundado de mensagens como “stand with Ukraine” ou outdoors dizendo “the brave people of Ukraine, represented by their president (…).” Como que a provar que o que está fora, emana de dentro, o estado ucraniano, sem qualquer respaldo democrático que não seja o gerado pela imensa propaganda que nos inunda os sentidos, tem, inclusive, o seu espaço no próprio hemiciclo do Parlamento Europeu. Para além de todas as cabinas de tradução simultânea, para cada uma das línguas que integram o projeto europeu, também o “projeto ucraniano” tem aí a sua. Mesmo que não tenha eurodeputados.

Até os 50 mil milhões de Euros recentemente aprovados pelo Conselho Europeu, para os 4 anos que faltam do Quadro Financeiro Plurianual (normalmente vai até um ano depois do período nominal, que é 21-27), retirados do respetivo bolo financeiro, parecem reproduzir, mais ou menos, aquilo que receberia um país, com 35 a 40 milhões de habitantes e com um rendimento per capita abaixo da média europeia. Ou seja, nem os fundos faltam para o desenvolvimento das metas da estratégia 2030. Agora, digam lá que a Ucrânia não é já um estado-membro?

Poderíamos também tomar, como exemplo, a guerra que a UE comprou com os agricultores Húngaros, Búlgaros, Romenos, Polacos, Eslovacos, porque inunda os mercados europeus de produtos produzidos sem cumprir as mesmas regras a que os outros estão sujeitos. Desta forma, estes países são obrigados a reviver, em relação à Ucrânia, o mesmo sentimento de menorização que qualquer país europeu periférico sente, quando tem de se confrontar com interesses de países mais poderosos, como a Alemanha ou a França. Hoje, até estes dois se submetem aos ditames do tridente “banderista”.

Se, por toda a União Europeia, por todos os estados membros, deparamos com a propaganda do regime, relembrando-nos, a cada passo, de que tudo o que somos e temos se deve, tão só, à “divina” (ou diabólica) presença da “humana, inclusiva, democrática e livre UE”, é na capital e no seu centro nevrálgico que esta propaganda é mais esmagadora. Como um poder que se expande do centro para a periferia.

Perante a derrocada, mais do que anunciada, do regime de Kiev e de tudo o que ele significa, coloca-se à UE um desafio de sobrevivência. Pois as idolatrias têm destas coisas: falta-lhes substância. Por mais que tentem fazer aderir ao “estado-membro ucraniano” a ideia de que este constitui um bastião dos “valores europeus”, tudo se esvai quando é, na Ucrânia de Bandera, que mais se negam os direitos que a UE diz representar.

Por sua vez, foi a Rússia (na URSS) que mais contribuiu para defender tais valores. A única forma de isto não ser um completo equívoco, é se assumirmos, como premissa, que, afinal, esta UE não renega o nazi-fascismo e, ao contrário, odeia a Rússia por ter vencido aquele que havia sido criado para a derrotar.

Com efeito, admitindo a idolatria nazi ou neonazi que hoje constitui a coluna vertebral do poder político ucraniano, mas não admitindo a idolatria da operação russa, a UE diz-nos algo de terrivelmente devastador: as elites ocidentais consideram mais grave o que designam de “invasão” da Ucrânia pela Rússia, do que a invasão nazi-fascista da Ucrânia, da Rússia, da URSS, França, Polónia e por aí fora. Os factos não deixam dúvidas: persegue quem acusa de “apoiar a invasão russa da Ucrânia”, mas apoia quem sabe idolatrar as forças que invadiram e destruíram a Europa inteira. O que volta a fazer-me trazer à colação a sempre controversa questão: afinal, a UE é, ou não, antinazi?

Não se trata aqui de julgar a UE por condenar a operação russa na Ucrânia, trata-se de questionar, por que razão persegue quem diz apoiar esta operação e não persegue, com muito maior força de razão, aqueles que idolatram poderes que destruíram a Europa inteira.

Tal questão não assumiria tanta importância se a Ucrânia não fosse um estado membro. Agora, quando é, de facto, o mais importante de todos e à volta do qual roda toda a vida da União, pois nenhum nos enche as notícias, discursos políticos e colunas de opinião como este… Ao ponto de a UE tentar reproduzir, no seu comportamento, as práticas mais danosas a que o regime de Kiev obriga os seus próprios concidadãos… Também aí, a adesão à narrativa, à língua, à idolatria de Bandera, à idolatria da UE, da NATO e dos EUA, não é uma escolha, é uma prova de lealdade. Acabam agarrados aos postes, embrulhados em celofane, aqueles que não a praticam. Vá lá que, por cá, ainda não se chegou a esse ponto… Mas, no meu caso, levo muito a sério aquele poema de Martin Niemöller, “primeiro levaram os comunistas…”

De forma, tão encapotada como a que foi utilizada para integrar, na União, um estado-membro que não lhe pertencia, entregando-lhe, como diz Emmanuel Todd, o cetro de um poder que pertencia ao eixo franco-alemão, não porque contribua mais do que todos os restantes, para o orçamento comunitário, mas, pelo contrário, porque é necessário torná-lo no que mais contribuições recebe, a UE lança-se, também, numa sorrateira caça às bruxas, intensificando e generalizando, ainda mais, as provas de lealdade que já exigia. Uma vez mais, nunca assumindo que o faz. Uma outra característica que tão bem cola com Kiev. “Não foi Kiev que bombardeou a Energodar NPP”; “Não foi Kiev que bombardeou as ruas de Donetsk”; “Não foi Kiev que bombardeou a prisão em que estavam os seus próprios militares, enquanto prisioneiros de guerra”…

Consequentemente, foi o próprio Primeiro-ministro belga o encarregado de, em declarações ao New York Times, acusar parlamentares da França, Alemanha, Países Baixos e outros, de serem pagos para prosseguir interesses russos, no Parlamento Europeu. Sem precisar quem são todos os acusados, mas apontando à mesma “extrema-direita” que prolifera graças aos danos que o poder de Bruxelas infringe nas nossas condições de vida, uma vez mais, somos confrontados com as contradições desta União Europeia. E é assim que identificamos em que consiste a prova de lealdade que, agora, é exigida a todos os cidadãos. Nem que seja sob pena de censura nas redes sociais.

Assim, que coisas tão graves disseram ou fizeram os acusados? Bem, é o próprio NYT quem o diz: proferiram coisas como “Os sonâmbulos de Berlim e Bruxelas estão a conduzir-nos para uma guerra externa – sem rima, razão ou propósito” ou “Quem quer que aceite a Ucrânia na NATO está a provocar, gostemos ou não – eu também não gosto – o ataque russo. E agora pergunte-se se está preparado para aceitar a guerra pela adesão da Ucrânia à NATO.” E o que fizeram mais ainda? Opuseram-se à classificação da Rússia como “Estado patrocinador do terrorismo”.

Eis a que nível a UE, o Ocidente, a comunicação social mainstream, colocam as coisas. Não se poupam a esforços para impor, na prática, a ideia de que a Ucrânia é um estado-membro, que não é; atribuir à Ucrânia e ao regime de Kiev um peso político, que claramente não tem; incriminar pela prática do crime de propagação da desinformação russa, quando o que se disse tinha a ver com um Estado – a Ucrânia – que supostamente nem sequer é membro da União; perseguem jornalistas por apresentarem factos que desmentem os apresentados pelo regime de Kiev, que supostamente não é da UE; fecham perfis virtuais por exporem factos que contestam a informação fornecida por um país, o qual, virtualmente – e apenas virtualmente – não é membro da UE. Estão a ver a contradição?

Assim, quanto mais vazias de sentido, substância e profundidade teórica, mais perigosas se tornam as idolatrias, quase como se soubessem, os idólatras, que a manutenção da sua idolatria não depende da sua consistência, mas da força com que é imposta. Neste caso, a força com que é imposta diz-nos que, se a caça às bruxas começou, pouco falta para que as fogueiras comecem a crepitar!

Fonte aqui.


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Afinal há um Clausewitz no corpo do sr. Quim

(Major-General Carlos Branco, in Blog Cortar a Direito, 02/04/2024)

(Ó Quim, mas que grande malha… Deves estar todo dorido… Depois de ler com um sorriso prazenteiro o texto abaixo, veio-me à ideia o sábio provérbio popular: “Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão?”. Pois é, ó Quim, espero que não estejas nos cuidados intensivos…

Estátua de Sal, 03/04/2024)


Descobrimos recentemente que o Sr. Joaquim Vieira (daqui em diante o Sr. Quim), um ensaísta da nossa praça, com trabalho longo na fotobiografia, algum dele com qualidade, se transfigurou em comentador televisivo de conflitos internacionais. Não conhecemos as posições dele sobre o Iraque (2003) ou a Líbia (2011), mas tem sido muito vocal no que respeita ao conflito na Ucrânia.

Entra em transe sempre que lhe vêm à mente os majores-generais Putinistas (já agora com letra maiúscula) contra os quais, utilizando a sua posição mediática não perde oportunidade para lhes mandar umas farpas descorteses, algumas roçando mesmo a ordinarice. O homem transforma-se quando alguém lhe diz “Ó Quim, os majores-generais Putinistas chegaram”. Fica descontrolado.

Passou de fugitivo à guerra do Ultramar para belicista. Pudera, nesses tempos era ele que ia bater com os costados na guerra, agora são os filhos dos outros. Aliás, estranho como não se alistou ainda para defender os valores das democracias liberais na Ucrânia.

O Sr. Quim utilizou o programa “O Último Apaga a Luz”, do passado dia 30 de março de 2024, na RTP3 (ver aqui, a partir do minuto 42) para fazer mais uma vez jus à sua preparação para debater estes temas e mimosear os majores-generais Putinistas. Soltou-se o Clausewitz que vive dentro dele, qual génio da lanterna mágica. Num ataque de generosidade, deu “às pessoas que estão lá em casa” oportunidade de serem iluminadas com a genialidade do seu pensamento sobre os atentados em Moscovo:

“O atentado islâmico em Madrid [referia-se ao ataque terrorista jihadista de há vinte anos. Não sabe distinguir entre jihadismo e islamismo, para ele é tudo igual] foi parecido com este [o do Crocus, em Moscovo]… A história da Ucrânia não tem pernas nem cabeça [a referir-se à possibilidade da Ucrânia ser responsável pelo atentado]… Eles [os terroristas] iam fugir para a Ucrânia [teria dito Putin]. Não, eles iam a fugir para a Bielorrússia. O presidente da Bielorrússia já o reconheceu. Na fronteira com a Bielorrússia repeliram-nos, não os deixaram entrar… Quando foram presos estavam muito mais perto da fronteira bielorrussa do que da fronteira ucraniana. Há aqui todo um conjunto de mentiras usados para justificar um pretexto, para justificar o massacre sobre a Ucrânia… E depois vêm os majores-generais putinistas falar nos indícios que apontam para a Ucrânia… O facto do Daesh ter reclamando o atentado não era para eles um indício. Isso não existia. Tudo isso era falsificado. Que aquilo era falsificado, que aquilo não correspondia. E depois há um que vem falar nos factos e os factos apontam todos para a Ucrânia… Eu gostava muito de saber porque é que o Exército português que está na NATO admite este tipo de oficialato. Quer dizer uma pessoa que está num Exército que tem determinados objetivos tem de aderir aos objetivos desse exército.”

Disse estas coisas, com uma bonomia delirante e sem noção das asneiras que manda da boca para fora. Não resisti a comentar, uma vez que não tive oportunidade para o fazer no local próprio. O Sr. Quim terá tomado Captagon em excesso e entrou em delírio guerreiro. Construiu uma história falsa sobre o que foi dito.

Devo confessar que não pude deixar de ficar bem-disposto quando o Sr. Quim, qual especialista espontâneo, teve o rasgo intelectual de comparar o atentado islâmico em Madrid com o de Moscovo. Marcou pontos! Deu-nos a oportunidade de julgar a pujança dos conhecimentos da pessoa. Ó Sr. Quim, o ataque em Madrid não foi um ataque islâmico, foi um ataque perpetrado por terroristas jihadistas. Islamismo e terrorismo jihadista são coisas diferentes.

Para o Sr. Quim a possibilidade da Ucrânia ser responsável pelo atentado não tem pernas nem cabeça. Para ele, digo eu, que que vive numa realidade paralela e sob o efeito de drogas duras, ou então está na mailing list dos conselheiros da Victoria Nuland”.

São públicas: as declarações do chefe dos serviços de inteligência militar ucraniana sobre a promessa de efetuar ataques na Rússia profunda; as palavras de Nuland sobre a atribuição de verbas suplementares para causar “nasty surprises” ao Sr. Putin; as declarações do general Malyuk chefe do inteligência ucraniana a assumir os assassinatos na Rússia de Daria Dugina, Vladen Tatarsky, Motorola, etc.

Para o Sr. Quim nada disto é estranho, aliás é muito normal, que ainda não tivesse passado uma hora do início do atentado e já os EUA ilibassem a Ucrânia.

Para o Sr. Quim não é estranho os EUA não terem conseguido até hoje identificar os autores da destruição do NordStream, mas saberem, sem qualquer hesitação e dúvida, que a Ucrânia não tinha nada a ver com o ataque. Tudo normal para o Sr. Quim. Nada a questionar. Mais normal do que isto é impossível.

Para o Sr. Quim devem ter sido os russos que destruíram o Nord Stream, e atacaram a central nuclear de Energodar. E que estiveram por detrás do ataque em Moscovo. Mais uma vez o Clausewitz saiu-lhe do corpo para iluminar o seu pensamento.

Para esta alforreca bem comportadinha, que engole sem pestanejar todas as tretas que lhe colocam à frente, os terroristas foram apanhados mais próximos da Bielorrússia e o presidente Lukashenko como é estúpido até declarou publicamente que os ia receber.

O Sr. Quim não deve ter andado nos escuteiros, nem foi à tropa porque notoriamente não sabe ler mapas da estrada. Isto lembra-me o Allan e Barbara Pease quando se interrogavam porque é que “elas não sabem ler mapas da estrada”. O que disse o Sr. Quim é factualmente falso. É um intrujão. Os terroristas foram apanhados a sul de Bryansk, na estrada que conduz á Ucrânia, tendo deixado a alguns quilómetros para trás a bifurcação que conduzia para oeste, na direção da Bielorrússia. É mentira que quando foram presos estivessem mais perto da Bielorrússia do que da Ucrânia. Mentiu em horário nobre sem contraditório.

O Sr. Quim não percebeu que a Rússia não precisava deste atentado nem de fabricar pretextos para justificar fosse o que fosse, em particular aumentar os ataques na Ucrânia.

Vem falar do Daesh… ó Sr. Quim, não foi o Daesh que reivindicou o ataque, foi o IS-K. Ó Sr., o Daesh e o IS-K não são a mesma coisa. O último foi uma criação dos norte-americanos para combater os talibãs e os russos. Não reparou que o IS-K nunca atacou os americanos?! Depois do que está a acontecer no Médio oriente, da chacina de muçulmanos em Gaza vão escolher este momento para atacar os russos?! Para ele os maus são todos iguais… islâmicos, Daesh, IS-K. São maus, pronto!

Não causa estranheza ao Sr. Quim que os terroristas do IS-K não tenham cometido martírio, que estivessem mais interessados nos dólares do que no descanso eterno junto das 72 virgens, que não tenham levado cintos para se fazerem explodir, que se tenham deixado prender, etc. nada consistente com o que fazem os jihadistas que pertencem ao ISIS. Deve ser o impacto da geração “Z” nos jihadistas, que só o Sr. Quim vislumbrou. Nada disto lhe causa interrogações. É tudo normal, o que é natural porque o Sr. Quim está a meter-se em matérias que não domina e a dar o flanco.

A história que inventou não corresponde ao que foi dito, em particular por mim. Eu disse reiteradamente numa entrevista na CNN que as dúvidas que eu estava a levantar não significavam que estivesse a dizer que tinha sido a Ucrânia, ou que não tivesse sido o IS-K a cometer o atentado terrorista. Limitei-me a enunciar uma série de questões válidas na altura e agora, coisa que o recém autoempossado especialista em assuntos militares não faz, porque é um aldrabãozito confabulatório.

Já agora que me chama Putinista, apesar de não ter referido o meu nome, desafio o Sr. Quim a referir em que situação escrevi ou me pronunciei em defesa do regime de Putin. Basta uma. Não alinho é na desinformação em que o Sr. Quim não só alinha como promove.

Não posso deixar de assinalar ao iluminado ensaísta e foto biógrafo, sem o querer assustar, que o grupo dos “putinistas” se tem vindo a alargar. Num destes dias, Elon Musk publicou um post no seu mural do “X”, que corresponde na íntegra ao que tenho vindo a dizer há dois anos, e passo a citar:

“Foi um trágico desperdício de vidas para a Ucrânia atacar um exército maior que tinha defesa em profundidade, campos minados e uma artilharia mais forte, quando a Ucrânia não tinha blindagem nem superioridade aérea. Qualquer idiota poderia ter previsto isto [Penso que o Sr. Quim pode ser incluído na lista dos idiotas do Elon Musk]. A minha recomendação, há um ano, era que a Ucrânia se entrincheirasse e aplicasse todos os recursos na defesa. Mesmo assim, é difícil manter um território que não tenha fortes barreiras naturais. [quantas vezes eu disse isto]. Não há qualquer hipótese de a Rússia conquistar toda a Ucrânia, uma vez que a resistência local seria extrema no Oeste, mas a Rússia ganhará certamente mais terreno do que tem atualmente. Quanto mais a guerra se prolongar. Quanto mais tempo durar a guerra, mais território a Rússia ganhará, até atingir o Dniepre, que é difícil de ultrapassar. No entanto, se a guerra durar muito tempo, Odessa também cairá. Se a Ucrânia perde ou não todo o acesso ao Mar Negro é, a meu ver, a verdadeira questão que resta. Recomendo uma solução negociada antes que isso aconteça.”

Quando eu falava das baixas ucranianas era acusado de propagandista do Kremlin. A insuspeita Elena Zelenskaya, esposa do presidente ucraniano Zelensky, publicou um texto disponível no site da presidência ucraniana, em que diz o seguinte, e passo a citar:

“Apenas um quarto dos inquiridos [ucranianos] afirma ter reparado em pessoas com deficiência em locais públicos. Na realidade, oficialmente, são apenas três milhões. E cerca de 300.000 foram acrescentadas nos últimos dois anos devido a invasões hostis.”

O seu ódio à Rússia deve vir-lhe dos tempos em que adorava o grande líder Mao. Esses preconceitos afetaram-no cognitivamente e impedem-no de perceber a natureza do presente conflito na Ucrânia, que não é um combate das democracias contra as autocracias. Até o Alto Representante da União Europeia para a política externa Josep Borrel já percebeu isso. O Sr. Quim anda a discutir regimes sem ter percebido ao final de dois anos que não se trata de uma luta entre regimes. Nada que eu não tenha vindo a dizer. E, passo a citar:

“Não podemos deixar a Rússia vencer esta guerra. Caso contrário, os interesses dos Estados Unidos e da Europa sofrerão enormemente. Não se trata apenas de generosidade. Não se trata de apoiar a Ucrânia porque amamos os ucranianos. Isto é do nosso próprio interesse. E é também do interesse dos Estados Unidos como ator global – um ator que quer ser visto como um parceiro responsável pela segurança dos seus aliados”.

O Sr. Quim integra o grupo daqueles que dizem que a economia da Rússia é fraca [mas sobreviveu a 13 pacotes de sanções durante uma guerra], que Putin é impopular [mas obteve 80% dos votos], que a Rússia está isolada [mas mais 32 países querem juntar-se aos BRICS], que as forças armadas russas são fracas, as armas são velhas e os soldados não têm formação [mas o Ocidente inteiro não as consegue vencer], mas ainda não percebeu que anda a ser endrominado por propaganda.

Uma nota final, que a prosa já vai longa para responder à ignorância e aos problemas cognitivos demonstrados pelo Sr. Quim quando refere aquele arrazoado impercetível sobre o Exército português que está na NATO e este tipo de oficialato. Não sabe do que fala. Já agora fique a saber que desempenhei dois cargos de Alta direção na NATO por eleição (não por nomeação), sempre respeitado pelos meus pares. Num deles, fui condecorado (muito poucos o foram) pelo presidente Karzhai do Afeganistão. Por isso, não aceito dichotes de alforrecas de pacotilha.

O que distingue os verdadeiros intelectuais é aquilo a que alguém chama consciência crítica. Observam o mundo com um olhar de oposição ou, pelo menos, com um olhar independente, nada devendo aos poderes instituídos.

O anafado e bem instalado Sr. Quim é daqueles ex-revolucionários maoístas que optou por se integrar no conforto do sistema. Como os cristãos-novos tem de ser mais papista do que o papa para ser aceite pelo establishment. O problema da subserviência passa a funcionar por reflexo condicionado.

Não me choca que o Sr. Quim por questões instrumentais – afinal tem de colocar o pão em cima da mesa – abraçasse o establishment para fazer carreira e o pensamento situacionista. Mas ó Sr. Quim, já está reformado, já não é preciso rejeitar a consciência crítica que desonesta e covardemente pinta por “idiotices”.

O Sr. Quim é um socializado, um pretenso senador de um cinzentismo acomodado, que se ilude a si mesmo. Assim fica mais fácil justificar a si próprio a sua submissão ideológica. Andará pelos cuidados paliativos e ainda procurará um reconhecimentozinho, uma sinecurazinha.

A intervenção do Sr. Quim no referido programa foi uma vergonha. Mentiu, mostrou ignorância. Dedique-se aos ensaios, vá à Torre do Tombo arranjar mais umas fotografias para o próximo livro, aquilo que sabe razoavelmente fazer, e deixe os outros em paz. Aconselho a que se despache porque o programa da metadona está em risco. Aproveite enquanto é tempo.

Fonte aqui


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Responder ao SMO com a objeção de consciência ou enforcar os tipos

(Por oxisdaquestão in blog oxisdaquestao, 02/04/2024)

Lembremo-nos do lítio que as nossas montanhas escondem e que não tarda muito vai ser catado à força de buldozer e escombreiras. Quem ainda não fez as fotos das nossas paisagens já não tem muito mais tempo para fazê-las.

As riquezas do país vão muito para além deste calhau da moda que origina golpes de estado e guerras para o saque de riquezas naturais. Não estamos livres de tais movimentos e, se eles chegam de fora, temos de nos precaver: constituir um poderoso exército conforme a nossa tradição que remonta à reconquista e às lutas contra os espanhóis e franceses.

Dizem-nos de Bruxelas que os russos, tendo aviado Kiev e o seu drogado-nazi, entrarão de roldão por aí dentro e, se não estamos precavidos, chegam a Vila Real de Santo António num abrir e fechar de olhos. É que os russos depois de passarem pela porcaria que são os outros países da NATO e da CEE-UE vão querer assenhorear-se das nossas verdadeiras riquezas: os pastelinhos de Belém, as natinhas do Porto, o presunto de Lamego, os pézinhos de coentrada, o bacalhau à Braga, as castanhas transmontanas, as azeitonas do Alqueva, as pataniscas de bacalhau e as iscas de fígado de cebolada, o pão-de-ló de Margaride… Assim que a Nação está em risco, e como tem um exército de GNR’s voluntários para missões de paz, tem de o reforçar com a rapaziada treinada nos jogos de computador tipo call of duty, sniper elite 5, hell let loose, world of tanks, …

O serviço militar obrigatório era a forma de recrutamento do regime salazarista, enquanto durou, para prover a guerra colonial de homens. O SMO foi responsável por 30 mil soldados mortos e feridos (inválidos), sendo que o número de afetados psicologicamente nunca foi apurado por não se admitir tal situação, que acarretaria elevados custos de reparação ao Estado.

Este assunto vem à baila porque os EUA/NATO encetaram uma operação militar de cerco ao território da Rússia, tendo como base principal a Ucrânia, país sem bases sólidas de nacionalidade e soberania, e que foi levado a ser uma imensa base militar da NATO e um território governado por nazis assumidos e inimigos dos russos declarados. Nesta sua aventura o exército ucraniano tem perto de 700 mil mortos e cerca de 1 milhão de feridos (recuperados uns, estropiados-mutilados outros).

Até ao momento os países da NATO não decidiram enviar militares seus para esta guerra. Mas, como ela está a ser perdida pelo exército nazi e pela NATO/EUA, agora sem munições e efetivos suficientes – a pretexto da falsa ideia que os russos têm algum interesse na porcaria moral e económica em que a Europa se transformou -, correu a propaganda que os países devem gastar mais na sua defesa, 2 ou 3% do PIB, para comprar armas aos norte-americanos e pagar às tropas que irão ao terreno combater e… serem eliminadas.

E, por isso, lançam a campanha do SMO e esperam que os Governos o voltem a instituir. Em Portugal será a repetição do que ocorreu na guerra colonial, quando os jovens viam a sua vida adiada até 4 anos para cumprirem o tempo de tropa, iam aos territórios coloniais combater e correrem riscos absurdos de morte ou de caírem na invalidez.

A campanha em prol do SMO já arrancou nos jornais e nas TV’s e vai ser insidiosa e brutal. Vão falar em patriotismo e meter medo à população enquanto os corrutos fazem as contas às comissões que vão receber dos negócios que vão brotar à conta das despesas inúteis que se irão fazer.

Com o poder totalitário que está instituído restam poucas alternativas aos que não aceitam perder os melhores tempos das suas vidas ao serem arrebanhados para os quarteis: uma é adquirirem o estatuto de objetor de consciência:

Outra é caçar à unha os militaristas e dependurá-los em cordas de candeeiros ou ramos de árvores bem fortes.


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