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9 de Maio – Dia da Vitória sobre o nazismo!

(Por João-Mc Gomes, in VK, 09/05/2024)

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Hoje é um dia que deveria ser solene em todo o Mundo, porque se comemoram os 79 anos da derrota de Hitler, que permitiu o fim da Segunda Guerra Mundial. Uma data que ecoa não apenas a vitória das forças aliadas sobre o fascismo e o nazismo, mas também o triunfo da liberdade sobre a opressão, da justiça sobre a tirania.

Entre 1940 e 1945 os anos foram sombrios e marcados pelo rugido dos canhões e pelo clamor dos que lutavam por um mundo livre. Milhões de europeus, homens e mulheres corajosos, enfrentaram o fogo e a fúria dos seus inimigos, sacrificando as suas vidas em nome de um ideal maior: o de derrotar um mal que ameaçava engolir o mundo inteiro.

Nas trincheiras, nos campos de batalha, nos campos de concentração, o sacrifício foi a moeda de troca pela esperança. Cada vida perdida, cada lágrima derramada, foi um tributo à coragem e à determinação daqueles que se recusaram a curvar-se diante da injustiça.

Mas não foram apenas as armas que garantiram a vitória. Foi a força inquebrantável do espírito humano, a solidariedade entre nações e povos, que permitiu a reversão do curso da história. Foi o sacrifício dos soldados, dos civis, dos heróis anónimos, que fez toda a diferença no destino da humanidade.

Hoje, apenas alguns países celebram essa paz conquistada com tanto esforço e a morte de milhões dos seus. Os que não a comemoram é porque voltaram a ter politicas que querem exercer o poder indiscriminado sobre os seus próprios povos, sem perceber que os cidadãos não se esquecem do seu passado doloroso.

Aqueles que deram suas vidas para que pudéssemos viver em liberdade devem ser recordados. Os seus nomes podem ter-se perdido no tempo, mas o seu legado perdura, como uma chama que jamais se extinguirá.

Que estas comemorações nos lembrem sempre da importância de honrar a memória daqueles que lutaram e sofreram durante a Segunda Guerra Mundial. Que nunca esqueçamos o preço da liberdade e que estejamos sempre vigilantes contra qualquer ameaça que nos tente privar desse bem tão precioso.


Ser “aliado” dos EUA é assistir calado à sua própria destruição

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 07/05/2024)

Nos termos em que é definida a “segurança nacional” dos EUA, a sua protecção cresce ao ritmo da destruição da soberania, economia e liberdade dos seus “aliados”.


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O ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, disse uma vez que a fórmula usada pela União Europeia, para gerir as suas relações com a China, é “impraticável”, “é como conduzir um automóvel para um cruzamento e olhar para o semáforo e ver as luzes amarela, verde e vermelha acesas ao mesmo tempo”. Eu diria mais… Para além da confusão com as indicações fornecidas pelo semáforo, o condutor – apenas para os chineses – ainda tem de ter atenção aos pregos, óleo e buracos na estrada, que podem originar o despiste ou danos na viatura.

E quem provocaria tais perigos no percurso? Face ao desespero dos actores envolvidos e o caracter unidireccional das acções… Consequentemente, o tom exasperado e catastrofista que encontramos na imprensa ocidental, por oposição a um tom mais triunfalista que vigorava ainda há seis meses (nem tanto), diz-nos tudo o que necessitamos de saber. É incrível como as emoções ocidentais andam num alvoroço, passando de um extremo ao outro, em períodos muito curtos. Da vitória certa na Ucrânia contra a Rússia, passa-se para o pânico generalizado, em que Sullivan, Biden, Borrel ou Macron, que ainda em Setembro já se viam banhar-se nas boas águas da Crimeia, agora passaram à certeza de que as tropas russas não pararão no Dniepr e talvez nem no Danúbio, Reno ou Elba.

Durante 2023 todos assistimos à imparável sucessão de previsões de queda da economia chinesa – a russa já estava “em pedações”, lembremos -, para agora surgir o pânico com a inundação de produtos de grande qualidade e a baixos custos, com os quais o ocidente preguiçoso não consegue sequer sonhar competir. Está a acontecer nos automóveis, como nos semicondutores, máquinas agrícolas, descobrindo-se, aos poucos, pelo tom histérico de Janet Yellen e Blinken, que se algo está a cair, esse algo é a hegemonia americana, cujas estratégias de contenção, até agora, apenas resultaram em adversários ainda mais fortes e capazes. Afinal, é o trabalho duro que molda o carácter. A elite capitalista rentista do ocidente está demasiado habituada ao dinheiro fácil dos royalties, para conseguir competir com aqueles que nunca abandonaram a indústria, a agricultura e as actividades realmente produtivas.

O facto é que, no Washington Post, David Ignatius, investigador ligado ao maior Think Thank do Estados Unidos, partindo de um trabalho da própria Rand Corporation, diz que os analistas referem que os os EUA estão a entrar num declive do qual poucas potências recuperaram; é também a RAND que nos fornece um artigo intitulado “a rivalidade EUA e China numa nova idade média”, apontando para a necessidade de que os decisores têm de desenvolver uma mentalidade neomedieval, nomeadamente, tendo de fazer a guerra sabendo que o “público” não a quer; Borrel diz que os EUA já não são hegemónicos e que a China já se tornou uma superpotência, algo que Brezinsky prometera que nunca mais aconteceria; ou, ainda, os dados estatísticos da economia norte americana, dizem que cresceu apenas 1.6%, no primeiro trimestre de 2024, o que mostra um abrandamento em relação ao previsto. Um grande abrandamento, considerando os 2.7% que são previstos pelas cadeias de transmissão dos EUA, como o FMI.

Curiosamente é da própria RAND que vêm os conselhos mais avisados. No seu estudo “The Fates of Nations” (os destinos das nações), sugerem-se duas reflexões que, considerando o teor e a actualidade, não têm outro destino que não o poder político sedeado em Washington: 1. Quando as nações estão entre uma vitória na guerra ou o colapso nacional (entre a espada e a parede, digo eu), a imposição punitiva e coerciva das condições não constitui um caminho adequado para o sucesso nas rivalidades; 2. A excessiva ambição e abrangência estratégica sobredimensionada contribui para muitos tipos de falhanços.

Estas reflexões são o retrato actual dos EUA: querendo estender-se a todo o lado, começam a abrir fendas no centro, pois quanto maior a extensão da superfície, menor a espessura da cobertura; tomar posições de força em todas as situações – ameaçando todos os contendores com sanções – provoca a fuga e a aversão dos envolvidos e dos que possam vir a estar no alvo dessas acções. Se a isto somarmos o facto de, segundo diversas fontes, a equipa de assessores de Trump lhe ter proposto a aplicação de penalizações aos países que quiserem reduzir a dependência do dólar, já se vê que 2024 vai ser um ano terrível para a maior moeda de reserva mundial. Para já, o ouro nunca esteve tão alto e quase 1/3 do petróleo transaccionado em 2023 foi em outras moedas que não o dólar. Se eu fosse presidente de um qualquer país, tudo faria para reduzir a dependência até à tomada de posse de Trump, considerando que as perspectivas de reeleição de Biden não são as mais entusiásticas.

Perante esta realidade, o que faz Washington? Não conseguindo situar-se neste mundo multipolar em construção e não conseguindo adoptar uma abordagem cooperativa e respeitadora dos outros estados, preferindo focar-se “numa competição de grandes superpotências”, em sentido contrário ao que propõe, por exemplo, a Carnegie Endowment for Internacional Peace, no seu relatório “The United States Policy Challenge”, a administração chefiada por Biden opera como se ainda tivesse todo o poder do seu lado e, faltando-lhe a força com que normalmente contava, adopta a postura da sabotagem, da disrupção e da provocação de instabilidade no “ambiente de negócios” dos seus próprios “aliados”, nomeadamente quando estes se encontram entre a China e as necessidades de “segurança nacional” dos EUA.

Se, no México, terão sido veiculadas ameaças – ninguém as confirmou – contra o governo de López Obrador, caso este persista na intenção de permitir a instalação de fábricas da BYD, para que estas possam utilizar a isenção de taxas aduaneiras aplicável ao acordo de livre comércio USMCA. São os próprios EUA a desdizer, unilateralmente, que as regras acordadas entre três países, afinal deixam de valer para o México, sem que este, supostamente parte no acordo, tenha uma palavra a dizer. Se esta situação não é demonstrativa de quem manda, realmente, quando algum país assina um “acordo” com os EUA…

Este processo de disrupção, que visa tornar impossível a instalação de empresas chinesas, é levado tão a sério, que até um país como Portugal pode ser apanhado na rede e ver a sua economia profundamente afectada com a intervenção e ingerência norte-americanas.

Vejamos o caso da petrolífera GALP, empresa privatizada e com 51% do capital detido por “investidores institucionais” estado-unidenses. Primeiro, assistimos às notícias de que o 8.º maior poço de petróleo do mundo, situado na áfrica oriental, mais concretamente na costa da Namíbia, tinha sido concessionado “a Portugal”. Concretamente, o poço de petróleo havia sido concessionado, não “a Portugal”, mas à GALP, teria sido “a Portugal”, se a empresa ainda fosse pública (apenas 8% o são). A empresa é gerida por uma família oligarca portuguesa, cuja Holding “Amorim Energia”, que detém 35,8 % do capital, está sedeada nos Países Baixos.

Convém dizer que mais correcto seria dizer que, 80% da exploração, do 8.º maior poço de petróleo do mundo, foi concessionada, não “a Portugal”, mas “aos Países Baixos”. E, embora a família Amorim tenha a gestão da empresa, o capital é detido por uma esmagadora maioria de capital Norte-Americano, Inglês e Canadiano (75,2% ao todo). Já se viu quem realmente manda.

Esta mesma GALP, cujo programa de transição para as energias e sectores sustentáveis, previa um afastamento progressivo dos combustíveis fósseis, veio agora comunicar que abandonou a proposta de instalação de uma refinaria de lítio, no sul de Portugal. A GALP, uma empresa privada que prossegue o lucro, prescinde de um negócio de refinação e lítio, em grande parte financiado por fundos europeus e portugueses e com mercado garantido?

Não esqueçamos que o objectivo final seria, com dinheiro dos contribuintes, garantir à GALP a entrada em um sector estratégico do ponto de vista das indústrias “sustentáveis”, e com rentabilidade garantida, pois o lítio seria explorado também em Portugal, refinado em Portugal e instalado em baterias, em Portugal. Negócio extremamente lucrativo garantido e com desenvolvimento de importante know-how. Explica-se, assim, porque razão a GALP acedeu ao 8.º maior poço do mundo e porque razão veio agora dizer que, afinal, os objectivos de descarbonização vão ter de ser adiados. O que esta gente se preocupa com “as alterações climáticas”!

Para Portugal, este projecto era fundamental, pois fecharia o ciclo de produção e veículos eléctricos dentro de fronteiras. Da mineração do lítio à produção e carros eléctricos, tudo se faria em Portugal. Contudo, havia um senão, neste projecto ambicioso. Este projecto que se constitui como um dos mais importantes a financiar no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência da União Europeia para o país, assentava a produção de baterias através da instalação de uma fábrica da chinesa CALB, a qual já está aprovada pelo anterior governo, o qual sofreu, curiosamente, um golpe judicial de “lawfare”, após o qual foi eleito um outro governo, supostamente com ideias diferentes, nesta matéria. O futuro nos dirá se diferem, ou se o dinheiro acabará por falar mais alto.

Uma vez mais, teremos de voltar a ouvir o que disse o embaixador dos EUA, em Portugal, a respeito dos negócios relativamente aos quais, Washington, não veria com bons olhos a entrada da China. Não ver com bons olhos é um eufemismo, como se sabe. Lítio, dados pessoais, portos e 5G.

Foi assim que um pequeno país, como Portugal, foi apanhado no meio de uma tectónica disputa entre superpotências, em que a, ainda, potência hegemónica, desenvolve um processo de destruição do “ambiente de negócios” aplicável à concorrente. Como sabemos, a história não reza grande coisa sobre aqueles que estão sempre à defesa, e assim se foram fechando cada vez mais. Mas isso são outras contas.

Este exemplo integra em si toda a complexidade, falácia e agressividade da estratégia do “decoupling”, a qual quando traduzida por Ursula von der Leyen para a “língua da EU”, passou para “derisking”. Também demonstra como, na EU, quem manda são os EUA e como estar, hoje, ancorado à União Europeia, e a tudo o que ela representa, constitui, de facto, um grave travão ao desenvolvimento. Portugal, tal como o México, tal como a Alemanha, Espanha, França e toda a Europa, vêem encerrados, boicotados e destruídos projectos de investimento, que poderiam manter a Europa industrializada. Só porque são projectados com companhias chinesas.

Talvez, nem assim a chinesa CALB desista da sua fábrica em Portugal. Contudo, esta previsível ingerência estrangeira, não deixará de diminuir as expectativas de rentabilidade futura da empresa e, sobretudo, de criar um travão à sua competitividade por melhores preços. Sintomaticamente, esta continuada sabotagem da economia europeia e dos “países aliados”, assenta sobretudo em tecnologias que os EUA pretendem dominar. Neste quadro, saber que a Wolkswagen fez um acordo com a chinesa Xpeng, e que em Portugal também se situa uma fábrica da marca alemã. Não deixamos de sentir aqui um cheirinho à já tradicional perseguição, pelos EUA, à economia alemã, a qual sofreu um duro revés com a destruição e encerramento do Nord Stream e do que dele restou. Tudo se volta a interligar.

O que este caso comprova é que, hoje, no ocidente e em especial em territórios de alguma forma controlados pelos tentáculos do poder monopolista estado-unidense (o caso português comprova a importância do caracter público de empresas como a GALP), estão limitados aos negócios que estes não consigam ou não queira sabotar ou destruir.

Se são os próprios Think Thank e institutos de investigação a sugerirem à elite política norte-americana que a melhor abordagem seria a da cooperação, respeito pelas soberanias alheias e, sobretudo, não tentar chegar a todo o lado, não é por falta de conhecimento fundamentado que estas elites se comportam de forma selvática. O seu objectivo muito claro e que consiste em criar um ambiente de tal forma inseguro, imprevisível e errático para as empresas chinesas, que sejam estas a abandonar a pretensão de se instalarem e de comerciarem com a europa e américa latina, sem que possa dizer-se que foram os próprios EUA a sabotarem o desenvolvimento económico de países que dizem ser aliados.

Os meios usados vão desde a alteração unilateral de regras, das suas próprias regras, à promoção de agendas como o “decoupling” ou o “derisking”, ou, ainda, se necessário for, e como comprova o Nord Stream, proceder à destruição directa das infraestruturas de apoio, subversão das democracias através da organização de golpes judiciais e revoluções coloridas, ameaça com sanções e outras penalizações. Em último caso, até uma guerra se promove, comos e faz na Ucrânia e se tenta agora em Taiwan.

E é assim se desdiz tudo o que antes se havia dito, sobre os mercados abertos que se fecham quando em desvantagem ou se abrem quando existe a garantia de que apenas o poder hegemónico os ganha; as agendas climáticas que são prioritárias mas que são logo abandonadas quando os ciclos de acumulação definidos estão em causa; o respeito pelas soberanias dos outros países que são protegidas quando está em causa a aproximação aos rivais e são desprotegidas quando se trata de defender o domínio dos EUA.

Nos termos em que é definida a “segurança nacional” dos EUA, a sua protecção cresce ao ritmo da destruição da soberania, economia e liberdade dos seus “aliados”.

Ser “aliado” dos EUA não garante imunidade contra a ingerência, subversão e sabotagem económicas, muito pelo contrário. Garante que esta ingerência é feita mais facilmente, pois as defesas tradicionais que resultam da soberania nacional não existem. Ser amigo dos EUA é, hoje, assistir à sua própria destruição e ficar calado. Com amigos destes… Quem precisa de inimigos?

Fonte aqui.


Se for sem a NATO, então não há problema: como preparamos os europeus para a guerra contra a Rússia

(Por Piotr Akopov in Reseau International, 07/05/2024, Trad. Estátua de Sal)

Um excelente artigo sobre a natureza da escalada a que as populações europeias estão habituadas. Basta ouvir a televisão e medir o consenso que estamos a tentar alcançar em torno de uma “resposta europeia” e da qual Macron se tornou porta-voz para medir até que ponto este comentador russo, próximo de Putin, descreve uma situação muito real, em que cada proposição contradiz a anterior, para obter a aceitação da substância, nomeadamente a guerra que certamente perderemos. Mas não importa:  quando necessário, assustamos a Rússia e, quando nos convém, chamamos-lhe bluff.

Danielle Bleitrach


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A mensagem principal que domina a propaganda americana dirigida à Europa é que a luta contra a Rússia pela Ucrânia é de vital importância para todo o Ocidente – e que os Estados Unidos, juntamente com a Europa no formato NATO, devem fazer tudo para derrotar Kiev, para deter Putin, caso contrário ele atacará a Europa depois da Ucrânia.

Esta ideia é repetida em Washington por políticos e oficiais militares, e quando a Europa se preocupa com uma possível mudança na estratégia americana se Donald Trump regressar à Casa Branca, está assegurado que, mesmo assim, nenhuma catástrofe ocorrerá: a inércia da política externa americana é demasiado grande e ninguém permitirá que o novo presidente mude subitamente de rumo.

A Europa não acredita realmente nisso, mas permanece fiel à linha de solidariedade atlântica – e o que alguns analistas americanos já começam a sugerir é ainda mais interessante:

“Demasiados políticos e colunistas nos Estados Unidos e na Europa estão a repetir os argumentos de Putin, alertando que qualquer intervenção externa na Ucrânia levaria à Terceira Guerra Mundial. Na realidade, o envio de tropas europeias seria uma resposta normal a um conflito desta natureza”.

“O conflito russo perturbou o equilíbrio de poder regional e a Europa tem um interesse vital em ver este desequilíbrio corrigido. A maneira óbvia de fazer isso é fornecer uma tábua de salvação ao exército ucraniano, que poderia mais uma vez ser abandonado à sua sorte pelos Estados Unidos, e a melhor tábua de salvação seriam os soldados europeus”.

“Os líderes europeus não precisam de seguir os ditames cada vez mais pouco fiáveis ​​dos EUA sobre como lutar na Ucrânia; eles podem e devem decidir por si próprios a melhor forma de garantir a liberdade e a segurança do continente”.

Esta citação faz parte do enorme artigo “A Europa, mas não a NATO, deveria enviar tropas para a Ucrânia”, publicado esta semana no The Foreign Affairs. Três dos seus autores não são altos funcionários dos EUA, mas têm peso na comunidade de especialistas, tendo trabalhado em vários think tanks que tratam de questões estratégicas: o coronel aposentado Alex Crowther, o atual tenente-coronel da Força Aérea dos EUA Jahara Matisek e Phillips O’Brien de a Universidade de St Andrews. O que propõem nada mais é do que uma provocação direta: tentam convencer a Europa de que deve participar nos combates na Ucrânia sem se preocupar com os Estados Unidos.

Sim, esqueçam a NATO e os Estados Unidos (“Os líderes europeus não podem deixar que a disfunção política americana dite a segurança europeia”), ajam por si próprios, enviem tropas para a Ucrânia o mais rapidamente possível e não temam nada – Putin está a fazer bluff!

As tropas europeias poderiam participar em missões de combate e não-combate para aliviar a pressão sobre a Ucrânia. Uma missão sem combate seria a opção mais fácil de vender na maioria das capitais europeias. As tropas europeias poderiam socorrer os ucranianos desempenhando funções logísticas, como manutenção e reparação de veículos de combate”.

Mas a “missão não-combatente” é apenas o começo, algo que é de facto “mais fácil de vender” aos europeus (embora isto seja mentira: ainda hoje, as sondagens mostram atitudes negativas em relação a isto na maioria dos países da UE) – pois será seguida pelo envolvimento total na guerra:

“Uma destas missões poderia ser o reforço das capacidades de defesa aérea da Ucrânia na região, através da mobilização de pessoal, do fornecimento de equipamento ou mesmo da tomada de comando e controlo do sistema de defesa aérea da Ucrânia.

O envio de tropas europeias seria uma resposta normal a um conflito desta natureza. Outra função de combate, que tal como a missão de defesa aérea não deverá envolver contacto com forças russas, é patrulhar partes da fronteira ucraniana onde as tropas russas não estão estacionadas, como a costa do Mar Negro, e as fronteiras com a Bielorrússia e a Transnístria.

Um dos alvos potenciais da Rússia é Odessa, o principal porto da Ucrânia por onde passa a maior parte das exportações do país. Se as tropas russas se aproximassem da cidade, as forças europeias próximas teriam o direito de se defenderem disparando contra os soldados que avançavam”.

É claro que, para justificar tal coisa, é preciso assustar os europeus tanto quanto possível – e muitas afirmações sobre a ameaça russa à Europa estão espalhadas por todo o artigo:

Não há razão para esperar que Putin pare na Ucrânia; ele já declarou que todas as ex-repúblicas soviéticas deveriam ser devolvidas à Rússia. Os estados bálticos poderiam ser os próximos, seguidos pela Finlândia e pela Polónia, que eram principados dentro do império russo pré-soviético”.

Escusado será dizer que tudo isto é uma mentira descarada, mas The Foreign Affairs não é um tablóide, mas uma das publicações americanas mais influentes; os seus autores ensinam em universidades militares americanas e aconselham as autoridades em Washington. É certo que, no presente caso, o seu objetivo é convencer os líderes europeus da necessidade de uma participação europeia direta na guerra contra a Rússia, mas não há dúvida de que eles próprios acreditam no que dizem, isto é, estamos a lidar com uma perceção completamente inadequada da realidade. A parte globalista e atlantista da elite americana acredita que a Rússia e Putin conquistarão parte da Europa, para a tirar da América, e à medida que os próprios Estados Unidos entram num período de turbulência política interna, apelam à Europa para que assuma a responsabilidade e lute contra Putin no território da Ucrânia. Porque “a Ucrânia é a Europa”.

A Rússia baseia todas as suas esperanças de vitória no facto de a Europa considerar a Ucrânia separada do resto do continente. Até agora, suas esperanças estão a tornar-se realidade. Os líderes europeus toleram um conflito na Ucrânia, que suscitaria uma resposta europeia unificada se ocorresse em qualquer país da NATO ou da UE. Esta atitude permitiu à Rússia lançar um conflito militar na Ucrânia porque está convencida de que o resto da Europa se manterá à distância.

A chegada de tropas europeias à Ucrânia mudará este cálculo. Moscovo terá de aceitar que a escalada europeia poderá tornar-se num confronto militar invencível para a Rússia”.

Então a Europa deveria entrar num conflito militar direto com a Rússia para controlar a Ucrânia, ignorando ao mesmo tempo a ameaça de a guerra se transformar numa guerra nuclear? Claro! E o que dizer do facto desta tese contradizer a anterior, nomeadamente os planos da Rússia de tomar parte da Europa? Sem problemas. Quando é necessário, assustamos a Rússia e, quando nos convém, dizemos que ela está a fazer bluff:

A verdadeira questão é se a Rússia irá realmente utilizar armas nucleares se as tropas europeias entrarem na Ucrânia. Talvez este já seja um ponto discutível, dado que as forças de operações especiais ocidentais estão atualmente a operar na Ucrânia”.

Moscovo envolve-se regularmente numa retórica agressiva contra os membros da NATO, mas até agora apenas latiu e não mordeu, evitando contacto com as forças da NATO e concentrando-se nos países vizinhos fora da Aliança, como a Geórgia e a Ucrânia, que pode atacar com segurança”.

Putin ameaçou atacar a Polónia, a Roménia e os Estados Bálticos já em 2014 e, nos anos seguintes, ameaçou invadir a Finlândia e a Suécia por aderirem à NATO, a Noruega por acolher tropas adicionais dos EUA, a Polónia e a Roménia por acolherem instalações de defesa antimísseis, e “qualquer país europeu” que autorize a implantação de mísseis dos EUA no seu território”.

Nos últimos quinze anos, o Kremlin ameaçou ou conduziu jogos de guerra simulando o uso de armas nucleares contra a Dinamarca, a Polónia, a Suécia, a Ucrânia, o Reino Unido, os Estados Bálticos, a União Europeia como um todo e, claro, a NATO. e os Estados Unidos”.

Assim, a cada momento os líderes europeus devem ignorar as batidas de queixo de Putin, que nada mais são do que propaganda baseada na ideia infundada de que a NATO quer atacar ou invadir a Rússia”.

O conselho é, portanto, simples: a Europa deve ignorar os avisos de Putin, que há muito que ameaça atacar os países da NATO (independentemente das invenções), mas nunca ousou fazê-lo. Então vão em frente, enviem tropas para a Ucrânia (que não é da Rússia, mas da Europa, lembre-se) – e não haverá guerra nuclear!

Toda esta loucura analítica também é embelezada por uma tese tão deliciosa:

Além disso, uma resposta liderada pela Europa minaria a propaganda russa de que a intervenção dos países da NATO na Ucrânia é apenas uma manobra dos EUA para enfraquecer a Rússia”.

“A alegação de que a NATO é o agressor é popular em muitas partes do mundo. E porque as forças europeias operariam fora da NATO e do território da NATO, quaisquer perdas não desencadeariam uma resposta ao abrigo do Artigo 5º e não envolveriam os Estados Unidos. “O adversário da Rússia não será a NATO, mas uma coligação de países europeus que procuram contrabalançar o imperialismo russo”.

É claro que, se a guerra envolve oficialmente não a NATO, mas sim países da Aliança do Atlântico Norte, esta não é uma guerra da Rússia contra a NATO, mas uma guerra contra países individuais da União Europeia! Não há necessidade de comentar isto, exceto para recordar que, noutra realidade ficcional, os europeus temem que a NATO entre em colapso se não responder ao desafio de Moscovo na Ucrânia (afinal, não esqueçamos que Moscovo atacará os Bálticos a seguir!).

Todas estas subtilezas de uma mente excitada seriam ridículas se não brincassem com o fogo real e a guerra real que está acontecendo no território do mundo russo e com a vida dos habitantes da Ucrânia. No entanto, os líderes europeus, depois de lerem o parecer do The Foreign Affairs, não verão nele um guia de ação, mas uma confirmação dos seus piores receios: os atlantistas ultramarinos encontraram-se num impasse e querem sair dele usando as cabeças dos seus parceiros europeus de segundo nível como aríete.

Fonte aqui.