Introdução à Arqueologia Social

(José Goulão, in AbrilAbril, 30/05/2024)

A revolução humanista e social não move qualquer das forças que se confrontam. Terá de ser obra dos cidadãos para os cidadãos – e, como revolução, terá de fazer-se à revelia dos poderes e contra os poderes.


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Uma nova cadeira deverá passar a ser ministrada em cursos universitários: Arqueologia Social. Tratará de todos os direitos humanos, sociais e laborais que chegaram a existir durante o século passado e que agora, em pleno século XXI, jazem soterrados por obra de crises, austeridades, supostas angústias bancárias e alegadas intranquilidades dos mercados, que não devemos hesitar em qualificar, recorrendo ao português claro e directo, como ganância, extorsão, exploração ou roubo.

Se o século XVIII ficou conhecido como o «das luzes»  e o anterior poderá baptizar-se como «o da vertigem científica», deverá este século ser «o do apagão»? Ou «o da vingança»? Ou «o dos mercados» ou «do dinheiro»? Ou mesmo do «globalismo»? Deixemos as possíveis respostas aos responsáveis e frequentadores da nova e indispensável cadeira, e tratemos nós dos factos puros e duros?

Do panorama social dominante no chamado «mundo desenvolvido», ou «mundo ocidental» ou da «democracia liberal» – a única, a legítima, a permitida – desapareceram direitos que chegaram a ser dados como adquiridos, por exemplo a segurança dos salários, reformas e pensões sociais, a contratação coletiva como princípio básico das relações entre patrões e trabalhadores, os contratos sem termo fixo, o antes intocável direito a férias, aos dias de descanso, os horários de trabalho, os 13.º e 14.º meses remunerados, a justa causa como razão para despedimento e outros cuja evocação tornaria a listagem longa e fastidiosa.

Dirão que não é verdade, tais direitos não desapareceram de todo, muitos deles continuam inscritos em leis, contratos, normas, nos discursos dos governantes, até em algumas Constituições, como a da República Portuguesa. Não é disso que vos falo, mas sim da prática corrente, da vida real, coisa que os políticos que governam a rogo dos mercados e do dinheiro não conhecem, porque pouco ou nada tem a ver com o mundo das estatísticas, das percentagens, dos indicadores, da cultura asfixiante da dívida, da desumanidade e do faz-de-conta que respiram dentro dos seus gabinetes.

A realidade revela-nos cada vez mais, dia atrás de dia, que tanto os direitos citados como alguns outros, considerados elementares, foram suprimidos. Ou condicionados, como a liberdade de informar e ser informado ou o pleno direito de opinião. 

Os horários podem estar afixados nas paredes de fábricas, repartições, oficinas, estabelecimentos comerciais, mas servem para vista, para contentar fiscalizações, são virtuais tal como os descansos, os períodos de férias, o valor facial de salários e pensões, o próprio direito ao trabalho. Não são para respeitar, não podem ser respeitados porque se alguém os invoca outro alguém lhe dirá que «há mais quem queira». Por isso o desemprego real cresce mais e mais – o trabalho precário é uma forma encapotada de desemprego – enquanto cinicamente dizem combatê-lo, porque quanto maiores forem os exércitos desses «há mais quem queira» menos se falará em direitos, em salários fixos, em horários, contratos e outros empecilhos à competitividade, esse palavrão tecnocrático usado para encobrir e justificar a exploração, velhas e novas modalidades de escravatura. 

Nos seus tempos áureos como primeiro-ministro, colhendo o que semeou nos vingativos tempos de Novembro de 1975, o dr. Mário Soares proferiu uma declaração solene: «nunca permitirei que sejam estabelecidos os contratos a prazo». A História deixou-nos, como sabemos, um dr. Soares sempre fiel às suas promessas políticas e ao discurso ideológico, mas nunca deve deixar de lhe fazer justiça: ao contrário do que prometeu, escancarou as portas à política desumana e vergonhosa da generalização do trabalho precário. 

Antes um trabalhinho qualquer do que o desemprego, não é o que se ouve com uma frequência cada vez maior? Ou mesmo dois «empregos», ou três «empregos» diários para conseguir juntar no final de cada mês um pecúlio ainda distante do salário mínimo. O anteriormente intocável direito ao trabalho deu lugar à generalização da vida transformada numa carga de trabalhos.

Competitividade e esclavagismo

Já todos percebemos que uma economia será tanto mais competitiva quanto maior for o grau de esclavagismo em que se desenvolve. Houve tempos ainda recentes em que as economias ocidentais, sobretudo dos Estados Unidos e da União Europeia, partiram para a Ásia em busca de lucros máximos através da deslocalização, cultivando, entretanto, o desemprego e a delapidação do valor dos salários em casa própria. O colonialismo tem destas virtudes, a de vaguear incansavelmente pelo mundo dos «bárbaros» cumprindo missões «civilizacionais» capazes de garantir o desafogo dos impérios económicos, financeiros e tecnológicos que gerem o funcionamento das «democracias liberais». Outrora em nome da fé, do império e da domesticação dos indígenas, hoje em nome da competitividade, do crescimento económico, da afirmação da democracia; e sempre em nome da civilização contra a barbárie, gesta que Josep Borrell, em momento de abençoada inspiração lírica, resumiu à defesa do nosso «jardim» perante a «selva» que o cerca.

Esgotados os efeitos maximalistas da deslocalização, sobretudo por causa de um efeito perverso mal calculado, que foi o do desenvolvimento explosivo das capacidades económicas, produtivas e tecnológicas do chamado «Sul global», combinadas com afirmações de independência e demonstrações de repúdio crescente pelo colonialismo, as economias ocidentais tiveram de voltar às origens. Fizeram-no e fazem-no multiplicando sanções económicas, políticas e jurídicas contra aqueles que exploraram, violando o dogma da «livre concorrência», que apenas pode e deve ser respeitado quando serve a «nossa civilização» e se encaixa nos parâmetros da «democracia liberal».

Nesse regresso às origens, os deuses da economia transnacional, alimentada em grande parte pelos mecanismos coloniais, confrontam-se com uma realidade qualitativamente diferente. Encontram, é certo, uma sociedade cada vez mais adaptada aos seus interesses: exércitos de trabalhadores sem direitos, como os que sugaram nos «tigres» e «dragões» asiáticos; salários muito mais nivelados com os praticados em numerosas nações asiáticas e sul-americanas; e, graças à imparável máquina trituradora neoliberal, aparelhos de Estado «ajustados» e ao serviço dos interesses privados, cada vez mais livres de encargos e responsabilidades com o arcaico Estado social. Que é para continuar a desmantelar.

Equilíbrio do terror

Colocadas estas vantagens no prato de uma balança na qual, no outro prato, se acumulam os efeitos de uma dinâmica geoestratégica nascida de um repúdio mais generalizado no Sul global pelo globalismo imperial, pelos mecanismos coloniais e pela tentativa evidente de confundir «civilização» com militarização e saque planetário, o fiel está agora muito mais centrado: a influência geral do Sul global, representando os interesses de mais de 80% da população mundial, já pesa praticamente o mesmo que os poucos mais de 15% do mundo ocidental; o direito internacional, como exemplificam atitudes recentes dos tribunais internacionais, trepou quase para o nível da «ordem internacional baseada em regras», isto é, o método imperial para governar o mundo através da arbitrariedade casuística praticada pelos Estados Unidos da América. O próprio Olimpo do império e do globalismo, o Grupo dos 7 (G7), encontrou no imparável crescimento e no meteórico aumento de poder dos BRICS+ o seu contrapoder soberanista e anti-globalista. 

A velha e a nova ordem digladiam-se já sem disfarces, mas com armas de extermínio em massa ao seu dispor. Citando o eminente pensador e autêntico democrata Prof. Avelãs Nunes, vivemos «a hora dos monstros». 

Estas movimentações geoestratégicas telúricas, o novo equilíbrio gerado entre dois conceitos antagónicos de ordem internacional, unipolar ou multipolar, porém, não resgataram para o primeiro plano, não impuseram como preocupações centrais os direitos humanos, os direitos sociais, laborais, cívicos; não instauraram o primado das pessoas sobre o mercado, a submissão de interesses geoestratégicos egoístas ao respeito pelo ser humano. A revolução humanista e social não move qualquer das forças que se confrontam. Terá de ser obra dos cidadãos para os cidadãos – e, como revolução, terá de fazer-se à revelia dos poderes e contra os poderes.

Ao compasso destas transformações parece conveniente, entretanto, instituir a Arqueologia Social como área de estudo. Um campo científico através do qual se demonstre que a História não cortou com a teimosa tentação das trevas; um ramo para investigar como foi possível ignorar rios de sangue derramado e faltar ao respeito à memória de milhões de vida humanas perdidas para chegar aonde estamos, espezinhando direitos humanos e sociais elementares, princípios constitucionais básicos e os valores fundamentais da democracia.

A sinistra rábula de Zelensky e dos seus comparsas locais durante a visita que fez a Portugal

(José Catarino Soares, in a Tertúlia Orwelliana, 04/06/2024)

28 de Maio de 2024. Marcelo Rebelo de Sousa, Zelensky e Luís Montenegro, no aeroporto militar de Figo Maduro

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Volodymyr Zelensky fez um visita-relâmpago a Portugal, dia 28 de Maio de 2024. «Foi um dia de festa para a democracia portuguesa», declarou Sebastião Bugalho, o candidato cabeça de lista da AD [PSD + CDS+ PPM] às eleições para o Parlamento Europeu.

O presidente da república portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, e o primeiro-ministro, Luís Montenegro, concordam certamente com a opinião de Bugalho porque foram ambos receber Zelensky ao aeroporto militar do Figo Maduro, com honras militares, como se Zelensky fosse o presidente de um país de primeira importância para Portugal e uma grande individualidade política, digna do respeito, da estima e da admiração dos portugueses.

Mas Zelensky não é nada disso.

Ler artigo cmpleto aqui.

Os tentáculos de Marcelo…

A Madeira, Costa e os ovos nos cús das galinhas

(Por oxisdaquestão in Blog oxisdaquestao, 04/06/2024, revisão da Estátua)

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A política feita por oportunistas é uma porcaria disforme porque sempre trata situações idênticas de forma diferente, conforme interessa. Não restam dúvidas que Costa foi desalojado do governo do PS em exercício numa operação ordenada pela NATO, que é o governo corrente da Europa, via vassalagem da nazi, neta de nazis e do seu gangue.

António Costa foi por isso cordato, não tugiu nem mugiu: simplesmente afastou-se e mandou o Pedro Nuno gerir a situação, sabendo que os oficiais queriam um badameco à frente do governo. Sines e o lítio assim o exigiam.

Na Madeira, sabe-se, é tudo ao contrário: a corrupção é real e não uma sugestão de um mero comunicado judicial. Mas ao chefe do Governo não é exigida a renúncia e ele, claro, nunca pensaria em tal; é que o seu espelho do WC não lhe consegue devolver a imagem de um trafulha da escola madeirense do PPD! E, sendo assim, tudo como dantes, quartel-general em Abrantes…

É que, o caso nem é explorado em uníssono pelos pasquins da capital, porque não está prevista a tal crise na qual as redacções andaram 2 anos a insistir e a fomentar, segundo o plano que vegetava no estrangeiro, escondido mas real. Era o lítio e Sines como objectivos a atingir. Costa foi resistindo até receber o telefonema do militar da NATO que geriu o assunto e que, entre outras coisas, lhe disse que o PR estava ao corrente do plano e tinha já dado o seu acordo às diligências que tomaria: Conselho de Estado, demissão do Primeiro-ministro e convocação de eleições antecipadas. Os oportunistas são para as oportunidades. E quanto mais alto estão e se movem, mais altas e gordas as oportunidades.

Quem nasceu primeiro, o ovo ou galinha? Costa vai para um cargo europeu por estar desempregado, ou aceitou o desemprego cá, para ir para um cargo lá, na Europa?

Tudo isto é uma mixórdia mas as oportunidades quando surgem devem ser aproveitadas se dão currículo e muiiiiiita massa, milhares de euros, reformas de ouro, bons apartamentos e trabalho de cá-ca-rá-cá, paleio e baias… Tudo em vassalagem.

Então esteve tudo combinado e aceite. Quem pensa que não, deve saber que, em política, o que parece é, e nada acontece por acaso, não senhor…

Muito menos os ovos nos cús das galinhas!