O paradoxo da imigração e da guerra

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 13/06/2024)


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Os europeus querem apoiar as guerras dos Estados Unidos e são contra os imigrantes que elas causam! Esta é, em resumo, a contradição em que vive a propaganda política dos dirigentes europeus, da dita esquerda à dita extrema-direita — e ‘dita’ porque as diversas “marcas” são feitas do mesmo produto: o mercado acima de tudo e os Estados Unidos como seu Deus.

Aquilo que a comunicação social designa de forma genérica por extrema-direita apresenta como seu cavalo de batalha a imigração: a entrada nos seus países, seja na Europa, seja nos Estados Unidos, de vagas de imigrantes que ‘destroem os valores tradicionais das sociedades, as suas culturas ancestrais, os seus deuses, os seus modos de vestir, comer, de se comportarem!’

É este o discurso da extrema-direita desde o extremo da península Ibérica com o Chega e o Vox, às fronteiras de Leste, na Polónia, na Hungria e tendo pelo meio a França de Le Pen, a Itália de Meloni, a AfD (Alternativa para a Alemanha). O perigo são os imigrantes! Mas de onde vêm os imigrantes e porque veem? Uns veem das guerras no Médio Oriente, do Iraque, da Síria, do Afeganistão, outros de África, das guerras no Níger, no Sudão, na Republica Centro Africana e chegam, principalmente através da Líbia. Na origem das vagas migratórias estão as ações desenvolvidas pela estratégia de domínio dos Estados Unidos. Foi assim em todos os casos: os Estados Unidos deram pontapés nos vespeiros e quem está a apanhar com as vespas são os europeus. Seria racional que quem recebe enxames de vespas se virasse contra quem tem andado nas suas fronteiras a destruir lhes os ninhos e a espalhá-las, colocando-se ao abrigo delas.

Mas ser racional não é o que se pode esperar de quem governa a Europa tendo uma trela ao pescoço. A eleição do tema da imigração como primeiro cavalo de batalha da extrema-direita europeia tem como principais responsáveis os ditos políticos moderados que por subserviência e cobardia não se atrevem a culpar o culpado das vagas imigrantes. Os pequenos rafeiros que dirigem os Estados europeus, a Europa, com a Inglaterra em apuros, tal como a França, a Alemanha, a Itália, a Grécia, preferem obedecer a Washington do que se atreverem a agir racionalmente. E, não enfrentando o causador das vagas de migrantes, viram-se contra os aproveitadores, os movimentos que surgem naturalmente por reação à cobardia e à mentira. Os dirigentes europeus preferem afrontar os seus cidadãos, acusá-los de xenofobia, de racismo, criar um bode expiatório nos movimentos de extrema-direita do que afrontar o Império. Os movimentos de extrema-direita, para quem os fins justificam todos meios, servem-se da cobardia dos políticos moderados para cavalgar o paradoxo de os seus países estarem a receber migrantes causados pelos Estados Unidos e continuarem a servir-lhes de tapete, de base para as expedições causadoras de mais migrantes e até de lhes financiar as atividades! Em resumo, o que se encontra na base da expansão da extrema-direita europeia é esta linha de raciocínio: Há quem provoque as invasões migrantes, os Estados Unidos, para sua conveniência de ocupação de pontos estratégicos e domínio de matérias-primas, nós, europeus, recebemos os migrantes que resultam dessa manobra, pagamos a sua recepção a vários títulos, sobrecarregando os nossos serviços, perdendo zonas de influência, surgindo como aliados de quem promove a guerra, financiamos as ações que geram as ondas de migrantes comprando material de guerra aos Estados Unidos e não temos outra opção que votar por protesto em quem, para já, coloca o assunto das migrações na ordem do dia!

Se os dirigentes europeus, com a honrosa exceção de Jacques Chirac no caso do Iraque, apoiaram entusiasticamente a invasão do Iraque, e depois a do Afeganistão, a da Líbia, a da Síria, apoiaram a desestabilização de países da África subsariana ricos em matérias-primas essenciais para as novas tecnologias, se as grandes empresas da agroindústria e do turismo necessitam de mão de obra de muito baixo custo para obter lucros e fornecer “mimos” hortícolas e frutícolas aos europeus e a importam do continente indiano de quem é a culpa das vagas migrantes?

É evidente que a extrema-direita cavalga a demagogia, da forma cobarde e demagógica que está na sua genética e na dos seus líderes: o mal está nos governos que abrem as portas e não nos promotores das guerras que originam multidões de migrantes nem na política de mercado que necessita dos migrantes para fornecer bens e serviços a baixo custo. Este tipo de raciocínio é antiquíssimo: desde o principio dos tempos que um dos objetivos da guerra era fazer escravos para realizarem os trabalhos que os locais não desejavam. A diferença da antiguidade para a atualidade é que os novos escravos são visíveis, ao contrário dos antigos, que eram mantidos em caves e estábulos, amarrados como os animais.

O paradoxo dos dirigentes europeus é o de apoiarem a política de guerra imperial dos Estados Unidos em vários pontos ao redor da Europa, no Médio Oriente e na Eurásia geradora de vagas de migrantes e, em vez de atalhar o mal na raiz, isto é, opondo-se ao promotor da guerra, o tentam estancar quando ele já é uma vaga imparável, levantando barreiras de betão aos migrantes ou afogando-os no Mediterrâneo. Uma criminosa insanidade devida à subserviência aos Estados Unidos que a extrema-direita explora sem qualquer pudor. O Reino Unido, essa pátria da liberdade e do respeito, exemplo de moderação e de democracia, com reis príncipes e princesas, estabeleceu um programa de de envio de migrantes para o Ruando, um imenso campo de concentração. a reserva. A Alemanha, da elétrica Von Der Leyen que manda para Moscovo os que protestam contra o genocídio na Palestina, paga milhões à Turquia para manter em campos de concentração os migrantes que fogem das guerras americanas no Médio Oriente.

A hipocrisia da propaganda política, que teve e está a ter o seu ponto alto na “análise” dos resultados das eleições europeias — salientando que a Europa do centro resistiu ao crescimento da extrema-direita, o grande perigo, que utiliza a arma das migrações para minar o projeto pacifico e progressista, humanista da Europa. Mas jamais os analistas referem que a NATO, a organização para defesa da Europa devia ser chamada a atacar esta ameaça! Jamais.

A NATO é uma promotora de migrantes, logo de movimentos de extrema-direita. A NATO é um promotor de compra de armamentos e não uma instituição humanitária.

Neste pântano de paradoxos os dirigentes europeus movem-se perdidos como moscas em pratos de azeite e elegem como santos padroeiros Zelenski, um tartufo criado pelos Estados Unidos, que resolve o problema dos seus migrantes enviando-os para o matadouro das frentes de combate e Netanyahu, um criminoso que resolve o problema das migrações matando os futuros migrantes à nascença. São os dois exemplos de políticos moderados que a Europa civilizada tem para apresentar.

Ai meu belo cabo da Roca, só de te imaginar nas garras do Vladimir…

(Joaquim Camacho, in comentário na Estátua de Sal, 11/06/2024)

O urso não tem pernas para lá chegar… 🙂


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De acordo com Frau Ursula von der Lies, a Europa “boa”, a dela, tem 470 milhões de habitantes. Sabe-se que os Estados Unidos têm 334 milhões. Temos ainda o Canadá, com 37 milhões, e mais uns quantos associados menores do abençoado Ocidente alargado, como Austrália, Coreia do Sul, Japão, o mui democrático Israel, etc.

Quanto à demoníaca Rússia, esfomeada de “espaço vital” (como escreve, com subtileza de elefante, o Pacheco da Marmeleira), tem presentemente à volta de 145 milhões. Sabendo nós que a Rússia é, em termos territoriais, o maior país do mundo, com o dobro da área dos Estados Unidos e menos de metade da população, fica claro, para quem tenha no mínimo dois neurónios funcionais, que um dos principais problemas da Federação Russa é espaço a mais e falta de gente para o defender, e não espaço a menos e uma alegada vontade de abarbatar mais “espaço vital”, divagação esquizoide parida pelas ligações sinápticas curto-circuitadas do Pacheco, Pluma Caprichosa e restante praga de aldrabões… perdão, excelsas e criativas mentes que monopolizam o nosso espaço (vital) mediático.

Quanto a material bélico, concretamente forças aéreas, que alguns “especialistas” (Zelensky, Rogeiro e outros) nos dizem que farão toda a diferença num conflito, números recentes (Dezembro 2022), que já aqui despejei em tempos mas nunca é de mais repetir, mostram o seguinte:
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AVIÕES DE COMBATE:

América do Norte (EUA + Canadá): 2803

Europa: 2113

América + Europa: 4916

Rússia e CIS*: 1859
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HELICÓPTEROS DE COMBATE:

América do Norte (EUA + Canadá): 5581

Europa: 3323

América + Europa: 8904

Rússia e CIS*: 1927

*CIS: Comunidade de Estados Independentes, que junta Rússia e alguns países da ex-URSS, mas que, em termos operacionais, se resume hoje praticamente à Bielorrússia, o que, convenhamos, não é grande coisa.

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Ou seja, mesmo sem os EUA, a Europa sozinha tem mais aviões de combate (2113 contra 1859) e mais helicópteros de combate (3323 contra 1927) do que a Rússia.

Há inúmeros outros tipos de aviões e helicópteros, nomeadamente de transporte, vigilância, reabastecimento, etc., mas, em caso de conflito, é fácil de entender que são os aviões e helicópteros de combate que mais peso têm.

Fonte aqui.
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Contra toda a racionalidade e incontornável peso da realidade, porém, quer esta intelligentsia chalada e burra que, por azar, nos coube em sorte convencer-nos de que o mafarrico Vladimir Putin (cruzes, canhoto, bate nessa madêra!) vai enviar hordas atrás de hordas de pretos das neves para ocupar a Europa toda. E isto para começar. Depois, sabe-se lá, the sky is the limit, talvez o sistema solar… ou mesmo a galáxia.

Ai meu belo cabo da Roca, só de te imaginar nas garras do Vladimir quase me dá um fanico!

Mesmo sem o auxílio do outro lado do Atlântico, como é que um país com 145 milhões de habitantes consegue invadir, ocupar e controlar um território onde vivem 470 milhões, se falarmos apenas da Europa? Só um vigarista tentará convencer-nos dessa possibilidade e só um perfeito estúpido e ignorante poderá acreditar não apenas na sua viabilidade mas também na extrema estupidez de que os russos dariam provas se sonhassem sequer com tal “empreendimento”.

O que nos leva à seguinte conclusão: nunca a Rússia tomaria tal iniciativa, porque está bem ciente de que, numa guerra generalizada, apenas com armamento convencional, seria inevitavelmente derrotada pelo Ocidente alargado. Como ninguém com dois dedos de testa acreditará que a dita Rússia (nem os EUA, já agora) se conformaria alguma vez com isso: um eventual conflito, inicialmente convencional, entre Ocidente e Rússia, ou seja, NATO-Rússia, tornar-se-ia inevitavelmente nuclear, única maneira de a Federação Russa evitar o seu desaparecimento como país.

Portanto, eu não os mandaria ver se o mar dá choco, que é marca registada do Whale, mas seria bom que a inteligência gripada da nossa intelligentsia chalada não continuasse a tentar convencer-nos de que a caça aos gambozinos no cabo da Roca ou no Poço do Bispo alguma vez dará resultado.

E o Óscar de “o mais perigoso” vai para… Netanyahu

(Whale project, in Estátua de Sal, 12/06/2024, revisão da Estátua)


(Este artigo resulta de um comentário a um texto que publicámos, de Agostinho Lopes, sobre artigos de Pacheco Pereira e de Clara Ferreira Alves (ver aqui). Pela sua atualidade e assertividade de pontos de vista, resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 12/06/2024)


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Discursos desses, nem merecem que a gente se chateie muito. É só mais um discurso de diabolização de uma única pessoa, como os que já iam sendo lançados contra Putin, muito antes da guerra da Ucrânia.

O fosso começou a cavar-se logo, quando Putin tratou de meter na cadeia o magnata Khodorkovski, nas vésperas do sujeito vender a um consórcio americano quase toda a estrutura que hoje é o complexo Gazprom.

Foi ai que esta gente viu que, o tempo do entreguismo e do saque sem regras, podia muito bem ter acabado. Que Putin não era uma mera versão sóbria de Ieltsin.

Putin continuou com ilusões mas, de caminho, pelo sim pelo não, tratou de rearmar e reorganizar o país.

Mas, os discursos de diabolização começaram logo ai, e foram crescendo à medida que Putin dizia não, a muitas das nossas malfeitorias.

Foi o caso da invasão criminosa do Iraque, de que Putin foi muito crítico. Foi o caso da tentativa do nosso proxy Saakashvili passar a ferro e fogo as populações da Ossétia e Abecásia.

E, se na Líbia fomos deixados com as mãos livres – talvez por Putin saber que a destruição de um país próspero e gigantesco às portas da Europa nos iria causar um monte de sarilhos -, na Síria a cantiga foi outra.

Os nossos proxys, Estado Islâmico e Frente Al-Nusra, levaram para assar. E não me venham com a treta de que isto é teoria da conspiração, pois não foi via Rússia que esses trastes compraram todo o material ocidental que exibiam.

Quanto aos atentados na Europa, o que é que a morte de uns quantos peões interessa a esta gente? Até deu jeito para outra diabolização. A dos muçulmanos, que sempre nos permite justificar a ação genocida, dos trastes de Israel contra os palestinianos. E mesmo até contra os poucos que são cristãos.

Aquilo de que esta gente nos tenta convencer é que, qualquer outro que não fosse um bêbado sem préstimo acharia normal que todos os recursos do país estivessem em mãos ocidentais; ou que gente que os odeia, como os nazis ucranianos, se armasse até aos dentes, entrasse na NATO, que tem nas suas contas a destruição de dois países com recursos, a saber Iraque e Líbia, e até tivesse armas nucleares próprias ou estacionadas por essa “aliança defensiva”. E, já agora, que chacinasse as populações do Leste.

Outro, que não Putin, talvez se estivesse nas tintas para a malta civil e usasse pelo menos 500 dos seus aviões para arrasar de uma vez aquilo tudo. Ou talvez já tivesse lançado uma bomba nuclear. Está-se mesmo a ver Biden, ou qualquer outro presidente americano, a aguentar dois anos de guerra no México sem lhes deitar uma batata quente para cima? Por isso, vão lá chamar putinista a, quem os fez mas, qualquer outro fazia igual, ou talvez esta guerra já tivesse acabado por via de uma bomba nuclear bem no centro de Kiev.

O caso de Trump é outro. Apenas se limitaria a defender o genocídio em Gaza com mais boçalidade. Não arrisco prognósticos para um segundo mandato da criatura mas, no primeiro, foi o único presidente da história recente dos Estados Unidos que não destruiu um país.

Bush teve o Afeganistão e o Iraque, Obama a Líbia e só não teve a Síria porque o mauzão do Putin se meteu onde não era chamado. Trump tentou com o Irão mas, vá-se lá saber porquê, tratou de recolher as unhas. Em que é que ele pode ser mais perigoso, que qualquer outro que sente o cu naquela cadeira, a começar por Biden, enterrado até às tetas em negócios escuros na Ucrânia, venham lá as teorias que vierem?

Por mim, dou a pilinha de ouro de mais perigoso do mundo a Netanyahu, por estar às portas da Europa, com o cu sentado em cima de umas 200 ou 300 armas nucleares clandestinas, sendo o profeta de uma religião apocalíptica que acredita na possibilidade de destruição do mundo por meios militares, divinamente comandados por um Deus que é “pessoa varonil de guerra”.

E, não tem a pilinha sozinho, mas por ter um povo em Israel e na diáspora que partilha a mesma religião, com tudo o que isso tem de nefasto. E podem-me chamar antissemita.

O José Pacheco Pereira e a Clara Ferreira Alves ganham dinheiro há décadas a diabolizar os desafetos do Ocidente alargado. Estão muito velhos para tentar fazer outra coisa na vida. Podem ir ver se o mar dá choco.