Os homens mais perigosos do mundo, segundo Pacheco Pereira

(Por Agostinho Lopes, in Expresso Diário, 11/06/2024)

O que é extraordinário nesta abordagem de Pacheco Pereira (e de outros e outras) do estado actual do mundo e da Europa é que tudo se resuma ao papel destas duas personagens, Trump e Putin, aparentemente sem nada a ver com as placas tectónicas do imperialismo em movimento e a profunda crise do sistema capitalista. Mas será que Putin e até Trump são também responsáveis pelo genocídio em Gaza?


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Para José Pacheco Pereira (JPP), Putin e Trump são não só dois homens perigosos, mas “Os homens mais perigosos do mundo” (1). Não é fácil ver todos os meandros do seu raciocínio, as curvas e contracurvas do seu deambular argumentativo para tão sonora e taxativa conclusão. Que logo foi consolidada por Clara Ferreira Alves (CFA) (2) na sua Pluma Caprichosa, da Revista Expresso “O Grande Tubarão Branco – Trump e Putin são os tubarões exemplares. Têm em comum a enorme persistência e a resistência à extinção”. Uma notável fábula sobre tubarões, “peixes condíctrios”, que “são grandes e perigosos. Ocupam o topo da cadeia alimentar das espécies marinhas e estão adaptados aos mais diversos ambientes oceânicos. São predadores (…) que atacam e devoram quando farejam sangue. Pressentem a ferida, a vulnerabilidade. Tanto viajam a grande profundidade como atacam à superfície (…)”. Mas os tubarões humanos como Trump e Putin,“tubarões em versão hardcore”, “São muito piores porque agem conscientemente e são dotados de um gigantesco Id, mal controlado pelo ego e o superego residuais. Parecem inamovíveis e são assustadores pela destruição causada”. “Deram à tona em bancos de areia da política, emergindo de múltiplos habitats. A finança, a empresa, o monopólio, a agência do governo, o império ou, simplesmente um dos múltiplos empregos e prebendas oferecidos por tubarões maiores”. Entretanto, parece haver quem se disponha a juntar mais alguns facínoras à lista dos perigosos tubarões de JPP e CFA. No Correio do Leitor, Público, 04JUN24, alguém acrescentava Netanyahu… e não vai ser fácil fechá-la. É que eles são mais que as mães… mesmo se CFA acha “Que não são muitos…”.

Resolvam-se à partida duas diatribes, que quem gosta deste tipo de análises ou efabulações sempre chama à colação. A mais habitual é a acusação – persistente contra os marxistas – de uma história ou leitura política fixada nas dinâmicas estruturais, subestimando, desvalorizando, negando o papel das personalidades/personagens, dos líderes/chefes, homens/mulheres que assumem/encabeçam/dirigem os movimentos/forças/processos políticos de mudança/alteração/revolução. Ou até o desconhecimento dos acasos/áleas da história, dos que não chegaram a horas ao encontro que a história lhes tinha destinado. Não é certamente o caso, pois não desconhecemos ou negamos a importância das atitudes, decisões que as duas citadas personagens possam tomar, mesmo se é impossível esquecer ou apagar os contextos, conjunturais e estruturais, económico, social, político e histórico em que se movimentam. A outra crítica é a de que quem assim discorre está feito com os “tubarões”, ou, no mínimo, simpatiza com tais personagens, como os que não são “candidatos da democracia e liberdade nas eleições portuguesas”, referidos por JPP. Asseguramos que não se perfilha qualquer idolatria particular ou empatia pelos perfis e opções político-ideológicas daqueles senhores.

Para JPP aquele par de jarras, Putin e Trump, “tem como objectivo primeiro deter um poder pessoal absoluto nos seus países. Por isso mesmo, são inimigos, antes de tudo, da democracia, o resto vem por acrescento”. O resto (“nacionalismo”, “isolacionismo”, vontade de alargar “o espaço vital”, etc.) são questões “secundárias e instrumentais” para “as suas ambições de poder”! Isto é, para JPP são umas boas promessas de “ditadores”. É claro que há aqui um lapso evidente de JPP: Putin, ao que nos rezam as crónicas e as notícias da “comunicação estratégica” ocidental (fundamentalmente produzida nos EUA e no Reino Unido) já o é há muito! Portanto não precisa de ir ser… já o é, já cumpriu o objectivo de “um poder pessoal absoluto”! Trump é que vai ter mais trabalho e tem que dar ao pedal para lá chegar!

Reflectindo sobre o assunto não nos podemos admirar do que acontece com Putin. Aquilo, ao que consta dos canhenhos da geoestratégia “ocidentais” faz parte da genética russa. É assim que a multidão de críticos, que acusam o materialismo histórico de estruturalismo, mecanicismo, determinismo, finalismo, tudo simplificam, reduzindo a complexidade ingénita da história a um simplismo atroz. Tudo se resume a “ditadura” naquelas paragens. Primeiro a autocracia czarista que terminou em 1917. Depois a ditadura do proletariado acabou em 1991. E ao breve interregno da democracia alcoólica de Ieltsin (só houve mesmo “democracia” porque os eflúvios de vodka assim o permitiram)… sucedeu a “ditadura” de Putin! Muitos ainda não perceberam aquela sucessão de regimes, como por exemplo JPP que avalia a actual “ditadura” na Federação Russa de Putin como uma emanação directa do “império social fascista”. Era assim que denominava e criticava a URSS nos idos dos primeiros anos da década de 70 do século passado, quando era um M-L encartado em maoísta! Nada a fazer com estes russos! Está-lhes na massa do sangue ou é uma questão de clima… A bendita democracia só reinará quando todo aquele espaço político se fragmentar como há muito se esforça por fazer o “Ocidente cristão”. Outra coisa não pretendeu Napoleão. Outra vontade não tiveram os exércitos das potências capitalistas ocidentais (EUA, RU, França, etc.) ao invadirem a Rússia em socorro dos Brancos para esmagarem a revolução proletária-bolchevique de 1917. Outro desejo não teve Hitler! E continua hoje nos planos estratégicos dos EUA congeminados por Brzezinski e Kissinger. O problema é que até hoje, apesar de muito esforço, o “Ocidente” ainda não conseguiu “democratizá-la”! Isto é, espartilhá-la, balcanizá-la, de forma a facilitar a exploração e colonização do “Ocidente”… alargando o seu (de algumas potências europeias) “espaço vital”. Para JPP Putin anda à procura de “espaço vital na Europa”, provavelmente porque é estreito, acanhado o “espaço vital” russo e não conseguem abrir os braços ou fazer umas passeatas dentro da Rússia! Ou será que Putin procura antes impedir que outros “espaços vitais” lhe calquem o rabo do seu “espaço vital”???

Já o problema do Trump abre outras perspectivas. Pode ser que não chegue a “ditador”! Mas o problema Trump levanta sérias interrogações, dúvidas, questionamentos que JPP não esclarece. Como é que Trump dá cabo do edifício da democracia nos EUA? Como é que o farol da democracia e dos regimes democráticos, que anda há décadas a exportá-la e exportá-los (nem que seja à bomba!) pode transformar-se numa ditadura, por simples vontade, ambição, manobra de um sujeito que parece um tanto ou quanto baralhado da cabeça… pelo menos às vezes? Uma personagem condenado em tribunais pelas mais diversas violações da lei. Diz JPP, “Como ameaça à democracia” Trump é “mais perigoso, porque actua num país democrático e, num quadro democrático.” Ainda por cima “ele anuncia, sem disfarce, querer subverter” o regime democrático! É mais fácil ao Trump subverter a democracia nos EUA? Então o que é feito e o que fazem as outras instituições do país? Então os famosos “Checks and Balances”, freios e contrapoderes não servem para impedir, derrotar, corrigir tais malignos e maléficos objectivos? Será porque a democracia americana é uma oligarquia, controlada/comandada pelo grande capital nos votos, nos medias, na educação/universidades, e Trump oligarca, é um dos deles?

Trump, afirma JPP: “Alterará o equilíbrio de poderes, exercerá o poder presencial sem qualquer limitação constitucional, e, talvez o mais importante, perseguirá todos os que se lhe opuseram, numa vingança que conduzirá o mais longe que puder”. Como é isto possível? Não haverá um tribunal ou juiz do Supremo, decisão do Congresso, cadeia de médias, e etc., etc., que se lhe oponha e o impeça de tal? Então o que faz o Congresso e a Câmara dos Representantes? E a CIA e o FBI? Então o Partido Republicano, e o Partido Democrático, e o Supremo Tribunal Federal? E os “Think-Thank”, e as Fundação Soros e a Rockfeller? E a National Endowment for Democracy, NED, “Suporting Freedom Around the World” que semeia por todo o mundo dinheiro para fazer brotar a democracia? E as Universidades tão entretidas que andam a chamar a polícia para malhar na estudantada pró-palestina? Chamem a Guarda Nacional e o Ku-Klu-Klan! Muito mal vai no reino dos ianques a democracia, exemplo único e supremo ideal de todos os adeptos da dita democracia liberal, aqui e nos algarves e na excelsa União Europeia. A Teresa de Sousa vai ficar muito triste…

Querem ver que para salvar a democracia americana, vamos ter que enviar uma delegação europeia do Grupo Bildeberg chefiada por Pinto Balsemão e a Teresa de Sousa a Washington?! Ou pedir à Sr.ª Von der Leyen que mande a UE decretar sanções económicas? Tudo às costas de Trump é um absurdo.

É o Trump um “isolacionista” como diz JPP? Sim mas já o Obama tinha sido e o Biden também não quer outra coisa, e em grau superlativo se tivermos em conta as recentes subidas de tarifas aduaneiras de 100% e outras medidas proteccionistas. É o que dá a “pessoalização” das maldades… Dizer tal não significa qualquer atributo de Trump porque é o resultado da resposta do grande capital americano ou de alguns dos seus sectores aos problemas de uma economia em declínio no confronto com a China e que quer garantir a continuidade da supremacia americana. Não é uma “característica”, ou “natureza” ou sequer “opção” de Trump. O Trump é um “nacionalista”? Mas qual o Presidente da República dos EUA, republicano ou democrata, que não assumiu “motivações nacionalistas” na definição das suas políticas externas? A defesa da globalização e da liberalização do comércio internacional, a criação da OMC, o comportamento face à ONU e às suas Organizações, alguma vez tiveram outra finalidade que não a defesa da “nação americana”?

É o Trump que “levará, como já de algum modo faz, os EUA a um clima de pré-guerra civil, e só a moleza dos democratas permitirá que ganhe”, como quer JPP??? Parece que se troca a causa pelo efeito: Trump é o resultado, não a causa de um Estado à beira da guerra-civil, “vítima” da crise do sistema capitalista e imperialista, das suas contradições, antagonismos e impasses e da vontade sem limite das suas oligarquias de continuarem a assegurar o poder dentro e fora dos EUA! Muita gente e insuspeitas personalidades o afirmam. Trump aparece para algumas dessas oligarquias como a hipótese de salvaguarda do essencial. É o capital, ou uma importante fracção do capital norte-americano, de que Trump faz parte, que o “fabrica” e o promove, e o faz eleger! É ver quem lhe paga as campanhas eleitorais. Tudo o resto é treta… O que não quer dizer que o Trump não dê uma mãozinha. A 19 de Abril, a Revista do Expresso publicou um interessante (e ao que se pensa, insuspeito) texto de Ricardo Lourenço (3): “A polarização nos Estados Unidos, que as presidenciais de novembro agudizam, gerou o receio de uma nova guerra civil – um cenário explorado agora na literatura e no cinema. O Expresso avaliou esse sentimento coletivo a partir de dezenas de conversas com americanos espalhados pelo país.” Que as diversas facções estão armadas – há milhares de milícias organizadas – não parece haver dúvidas, faces aos tiroteios e morticínios que vão acontecendo um pouco por diversos locais e regiões – “83 massacres registados no ano passado em estabelecimentos de ensino nos EUA” (3)!

Mas o grande problema para JPP (4) é que face aos comportamentos “perigosos” de Putin e Trump a Europa fica “entalada” “entre os dois”! Para JPP “Os termos do dilema são muito simples (…): ou se armam e se preparam para garantir a sua defesa sem terem os EUA de Trump como seu aliado” “ou ficam sem política externa e de defesa própria, como aconteceu com a Áustria e a Finlândia no pós-guerra.” Isto para a Europa Ocidental, porque a do Centro e Leste fica sob suserania russa.”! Valha-nos deus! E porque este “entalanço”, este dilema, é existencial, logo devia ter sido o centro/objecto das eleições para o PE, pelo menos dos “candidatos da democracia e da liberdade nas eleições portuguesas, que não são todos”. E porquê? Porque “a Europa é um continente de guerra” como nos diz a história (“com h minúsculo”) e logo… prepara-te para a guerra. O pequeno problema, que JPP não refere, é que essas guerras foram sempre desencadeadas pelas grandes potências da dita “Europa Ocidental”, França, Alemanha, Reino Unido, etc. até à penúltima na Jugoslávia… no Continente e muitas fora do Continente, como nos esclarece a história com “h” pequeno!

O que é extraordinário nesta abordagem de JPP (e de outros e outras) do estado actual do mundo e da Europa é que tudo se resuma ao papel destas duas personagens, Trump e Putin, aparentemente sem nada a ver com as placas tectónicas do imperialismo em movimento e a profunda crise do sistema capitalista. (Basta ver a quantidade de “salvadores”/profetas que por aí andam a escrever livros/tratados/receitas para o salvar… Mas será que Putin e até Trump são também responsáveis pelo genocídio em Gaza???

Nada que não esteja presente como “filosofia” e “metodologia” histórica dos que só conseguem olhar a ditadura fascista portuguesas ancorada na figura e comportamento “perigoso”, ditatorial, de Salazar, sem invocar a “infraestrutura” dos monopolistas, latifundiários e do imperialismo/NATO. Ou do regime nazi em Hitler, esquecendo o papel do grande capital alemão na sua chegada ao poder, na alimentação da máquina de guerra e até na sobrevivência das raízes económicas do nazismo e figurões nazis no pós guerra. (5) Aliás, esta visão da história tem uma grande vantagem: mata-se o bicho, acaba-se a peçonha… e muitos historiadores ficam com a vida simplificada: a causas das ditaduras é dos ditadores…


(1) “Os dois homens mais perigosos do mundo: Putin e Trump…”, José Pacheco Pereira, Público, 01JUN24.

(2) “O grande tubarão-branco”, Clara Ferreira Alves, Revista Expresso, 07JUN24.

(3) “Estados Unidos da América: um país em estado de guerra”, Ricardo Lourenço, Revista Expresso, 19ABR24.

(4) “Coincidência” notável, na 2.ª feira 10JUN24, nos comentários aos resultados eleitorais para o PE, em Portugal e na UE, vários são os artigos que reproduzem as teses de JPP. No Público, Manuel Carvalho escreve “(…) que o PCP acredite que entre imperialismos agressivos e democracias só há uma escolha.” E António Barreto aflige-se com a “Europa sempre a sofrer dos ataques dos seus tradicionais inimigos, dos impérios que a rodeiam!”, “A Europa está ameaçada pelo afastamento americano. A Europa está posta em perigo pelo imperialismo agressivo russo.” É pena que não identifiquem os “outros imperialismos agressivos” e “os impérios que a rodeiam”, “seus tradicionais inimigos”! Mas parece não haver dúvidas, o “comunismo russo” está de volta…

(5) É muito esclarecedor o recente livro “Milionários Nazis – A história negra das maiores fortunas alemãs”, de David de Jong, Desassossego, 2023.

Os erros do Ocidente e o caminho para a paz: o que Putin disse à imprensa internacional

(In Blog Contracultura, 11/06/2024)

 As relações entre a Rússia e o Ocidente, a situação na Ucrânia e os problemas regionais foram discutidos na reunião do Presidente russo Vladimir Putin com os correspondentes das agências noticiosas internacionais organizada pela TASS, que decorreu na semana passada.

Porque o pensamento do líder russo é constantemente adulterado pela imprensa corporativa, o Contra faz um breve resumo das questões levantadas durante a reunião, que durou mais de três horas e incluiu dezenas de perguntas.

Erros dos EUA

Putin afirmou estar certo de que a política dos EUA em relação à Rússia permanecerá inalterada, independentemente do resultado das próximas eleições presidenciais. De qualquer forma, Moscovo “trabalhará com qualquer presidente eleito pelo povo americano”.

O líder russo disse estar surpreendido com o facto de “não apenas na esfera da política internacional, na política interna, mas também na política económica, a actual administração [norte-americana] comete erros sucessivos, de forma rápida e generalizada”. “Por vezes é até surpreendente observar o que está a acontecer”, acrescentou.

Falando sobre o julgamento do ex-presidente dos EUA Donald Trump, Putin disse que o ex-presidente está a ser perseguido por razões políticas, e este facto destrói a liderança imaginária de Washington na esfera da democracia e até mesmo o sistema político do país.

Comentando as alegações de suposta interferência da Rússia nos assuntos internos dos EUA, o presidente disse que Moscovo “está a observar tudo à distância”. “Nunca interferimos nos processos políticos internos dos Estados Unidos e nunca o faremos”, afirmou.

Falando sobre a Ucrânia, disse que Washington não se preocupa com o país e o seu povo. “Ninguém nos Estados Unidos se preocupa com a Ucrânia. O que lhes interessa é a grandeza dos EUA, não estão a lutar pela Ucrânia ou pelo povo ucraniano, mas pela sua grandeza e liderança. E não podem, em circunstância alguma, permitir que a Rússia tenha sucesso, porque acreditam que, nesse caso, a liderança dos EUA será prejudicada. É esse o objetcivo do que os EUA estão a fazer”, afirmou.

Putin descreveu a decisão de Washington de utilizar o dólar americano como instrumento de sanções como um grande erro, porque mina a confiança na moeda americana.

UE sem lógica nem coragem.

Segundo o inquilino do Kremlin, a Rússia e os países da União Europeia seriam capazes de resolver os problemas existentes nas relações bilaterais, mas os líderes europeus não têm coragem e confiança para defender os seus interesses nacionais. Como resultado, o bem-estar dos cidadãos europeus está actualmente em risco.

Falando sobre a Alemanha, Putin disse que esta República Federal nunca foi um país totalmente soberano após a Segunda Guerra Mundial, mas a sua economia é uma força motriz para a Europa e, se a Alemanha começar a “espirrar e a tossir”, “todas as restantes economias europeias vão ficar doentes”.

Como exemplo, mencionou a França, cuja economia está agora “à beira da recessão”.

A Gazprom sobreviverá à recusa da Europa em consumir gás russo e “comprar gás natural liquefeito que vem do oceano a preços exorbitantes”, disse Putin, acrescentando que não vê “nenhuma lógica formal” nas acções da Europa. “Não quero ofender ninguém, mas a formação dos decisores no Ocidente, incluindo na Alemanha, deixa muito a desejar”, afirmou.

O Ocidente tem de tolerar os delírios de Kiev e esconder as baixas.

Putin acredita que os Estados Unidos vão tolerar o líder ucraniano Vladimir Zelensky até à Primavera de 2025, mas que depois ele será substituído. O Ocidente já escolheu “vários candidatos” para o substituir, segundo o inquilino do Kremlin.

No entanto, o Ocidente ainda precisa que Zelensky “tome certas medidas”, como reduzir a idade de mobilização, antes de se livrar dele. Na opinião de Putin, a campanha de mobilização da Ucrânia mal serve para substituir as baixas e os EUA insistem em reduzir a idade de recrutamento para 18 anos.

O presidente russo não deu números exactos sobre as perdas da Rússia no conflito, dizendo apenas que são “certamente muito menores do que as da parte oposta”. “Quanto às perdas irrecuperáveis, o rácio é de um para cinco”, especificou Putin.

No entanto, disse que um total de 1.348 soldados e oficiais russos estão detidos como prisioneiros de guerra na Ucrânia, enquanto 6.465 militares ucranianos estão detidos na Rússia. Os países europeus e os EUA mantêm-se silenciosos sobre as baixas dos seus formadores e conselheiros na Ucrânia, acrescentou.

Os militares ucranianos não podem utilizar sozinhos as armas ocidentais de longo alcance, porque todas as decisões têm de ser tomadas pelos países que as forneceram, continuou o Presidente russo. “Como já disse, é necessária uma missão de voo. E, de facto, isso é feito por aqueles que fornecem essas armas: pelo Pentágono, no caso dos ATACMS, e pelos britânicos, no caso dos Storm Shadow”, explicou.

Desafiando as sanções.

Os países ocidentais planearam minar a economia russa num período de três a seis meses, mas tal não aconteceu, afirmou o líder russo, acrescentando que o objectivo que estabeleceu para que o país entrasse nas quatro principais economias do mundo foi alcançado.

É importante manter o ritmo de desenvolvimento, sublinhou Putin. Na sua opinião, a Rússia vai começar a produzir tudo o que precisa por si própria, sendo que a concretização desse desígnio “é apenas uma questão de tempo”.

Liberdade de expressão.

Comentando a repressão do Ocidente contra os meios de comunicação social russos, Putin afirmou que estes estão a transmitir a opinião russa e têm todo o direito de o fazer.

“Os países ocidentais dificultam o trabalho dos nossos jornalistas”, continuou o Presidente russo, afirmando que os jornalistas do seu país estão a ser intimidados, as suas contas bancárias estão a ser fechadas, os seus transportes pessoais estão a ser confiscados e isso está em contradição com a proclamada liberdade de expressão do Ocidente.

Caminhos para a paz.

O Presidente russo manifestou a sua esperança de que as relações entre a Rússia e o Ocidente, bem como no mundo em geral, progridam gradualmente em direcção à paz, em vez de uma escalada interminável de tensões e hostilidades.

Putin rejeitou os relatos de alegados planos russos para atacar a NATO, considerando-os absurdos. Ao mesmo tempo, falando sobre a doutrina nuclear russa, o Presidente afirmou que “se as acções de alguém ameaçarem a nossa soberania e integridade territorial, acreditamos que é possível utilizar todos os meios à nossa disposição”.

Putin sublinhou que a Rússia não tem ambições imperiais. O Presidente agradeceu a todos os delegados que participaram na reunião e pediu-lhes que transmitissem informações verdadeiras aos seus leitores.

Fonte aqui.

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Como a Rússia deixou de se preocupar e passou a amar as sanções

(António Gil, in substack.com, 10/06/2024)

 E se um dia esse amor se tornar contagioso?

 Nunca entendi a fé ilimitada do Ocidente nas sanções. A verdade é que nunca vi nenhum país vergado pelas ditas, pelo menos num passado relativamente recente. Cuba, Venezuela, Irão, Coreia do Norte vivem há décadas sob sanções ‘mutilantes’, um adjetivo simpático, introduzido na gíria do economês por cortesia dos anglo-saxónicos, esses grandes defensores dos Direitos Humanos. 

Seguiu-se a Rússia,  na extensa lista dos países sancionados. Os ‘génios’ que (pelo menos nominalmente) mandam no ocidente prometeram que os russos ficariam de joelhos numa primeira fase e logo a seguir revoltar-se-iam a tal ponto que no mínimo, espetariam a cabeça de Putin e seus ministros em várias estacas, ao longo de todo o perímetro do Kremlin.

Bom, ninguém sabe onde, nem como, nem porquê esses cérebros brilhantes adquiriram tal certeza. 

Se uma ilha relativamente pequena como Cuba resistiu durante 3 gerações não só a sanções como a um feroz embargo, esperar resultados diferentes com uma nação imensa e plena de recursos é uma loucura selvagem, no mínimo. 

Não seria sensato pensar que o inverso aconteceria? Que as sanções reforçariam a economia russa em vez de a enfraquecerem? Muitas pessoas previram que assim sucederia. Afinal os russos poderiam produzir eles mesmos o que antes compravam, porque razão o não fariam? Recursos materiais e humanos não lhes faltavam, certamente. 

E entre os muitos que fizeram essa previsão, muitos nem sequer frequentaram uma escola superior de economia, não era necessário. 

Bastaria pensar assim: se eu quero muito comer bolo e vivo a milhas de uma pastelaria mas sei que tenho ovos, farinha, leite, chocolate, frutas e um forno, provavelmente poupo muito tempo e dinheiro fazendo-o eu mesmo em lugar de fazer uma longa e dispendiosa viagem e ainda ter de pagar pelo bolo. 

Com a vantagem de saber que nenhum ovo ou leite estragado entrará na confecção, coisa que não está assegurada quando compro um bolo numa pastelaria. 

Então a sério que isto é surpreendente? – Desde que começou a ser sancionada, a Rússia não parou de crescer economicamente, coisa que o ocidente colectivo não se pode gabar. Recentemente a Alemanha e o Japão ficaram para trás. 

E os EUA que se cuidem pois estão a cair continuamente e nem poderia ser de outra forma, sendo os maiores devedores do mundo. Contrair dívidas nunca foi uma boa ideia para enriquecer e se esse item entrasse nas contas, ninguém sabe para que lugar essa nação cairia. 

As sanções sempre foram utilizadas como arma geopolítica mas agora correm o risco de se tornarem um prémio em vez de um castigo. Talvez ainda vivamos uma época em que os povos supliquem aos sancionadores que os incluam na lista:

– Sancionem-nos, sancionem-nos, não se esqueçam de nós, que mal precisamos de vos fazer para merecer as vossas adoráveis sanções?

Fonte aqui.

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