Esta senhora é perigosa

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 12/07/2024)

Esta senhora, Lucília Gago, é perigosa. É certo que se vai embora dentro de três meses, mas a cultura que deixa instalada é, em si mesma, um perigo.


Das duas, uma: ou Lucília Gago não entende a gravidade das coisas que diz ou deixa por dizer, das coisas que cala ou consente, e isso é altamente preocupante, ou, pelo contrário, entende-o muito bem mas não o considera grave, e isso é perigoso. Mas depois de seguir atentamente a sua entrevista à RTP não me restam dúvidas algumas de que a hipótese válida é a segunda. A senhora procuradora-geral da República (PGR) não apenas defende a sua dama, os seus métodos e os seus resultados, como ainda considera quaisquer críticas à actuação do organismo a que preside nada mais nada menos do que o resultado de “uma campanha orquestrada”. Segundo o seu raciocínio, vivemos num país onde todos podem ser livremente criticados, como é próprio de uma democracia, e onde o Ministério Público (MP), que ela supostamente dirige, pode instaurar por sua única iniciativa processos de averiguações criminais ao primeiro-ministro (PM), ao Presidente da República (PR) e a quem mais entender, mas o contrário — qualquer crítica ao MP ou à PGR — só pode ser resultado de uma campanha orquestrada e necessariamente de má-fé. Porque eles são infalíveis, “altamente competentes” e não devem explicações nem pedidos de desculpas a ninguém. Mesmo que escutem a troco de nada um ministro durante quatro anos, mesmo que façam cair um Governo anunciando que o PM está sob suspeita num inquérito e depois o Tribunal da Relação reduza essa suspeita a simples ridículo, ou que mantenham durante anos suspensa a vida de pessoas suspeitas de pretensos crimes gritados para a praça pública e depois deixadas a vegetar na secretária de um procurador.

Nada, ela e eles não têm nada de que se arrepender, nada que explicar, nada que reflectir. Nem a banalização das escutas telefónicas, que de meio excepcional para a descoberta da verdade degenerou no meio habitual ou único de investigação. Nem a “normalidade” da detenção prévia de pessoas para interrogatório junto de um juiz de instrução, podendo esperar presas entre três dias ou três semanas, em lugar do que seria normal, que era convocá-las para o interrogatório e depois, se o juiz assim o entendesse, ficarem então em prisão preventiva. Nem a sistemática violação do segredo de justiça como forma de pré-julgamento público favorável ao MP e tão fácil de evitar se houvesse vontade de o fazer. Nem sequer, ela que se diz avessa ao “espalhafato”, ter uma palavra de arrependimento perante as espalhafatosas operações de busca e apreensão de meios de prova junto de suspeitos, transformadas em operações militares mediáticas como se de combate ao terrorismo se tratasse. Nem ao menos os grosseiros erros na interpretação da lei processual, como no caso do parágrafo que fuzilou António Costa, em que dois telefonemas de dois intervenientes do processo que diziam ir falar com o PM é levado à conta de “notícia de um crime”, como exige a lei para abrir um processo de averiguações.

Esta senhora é perigosa
Ilustração Hugo Pinto

Diz a senhora que se não tivesse aberto um processo de averiguações a António Costa e se o não tivesse divulgado publicamente — sem mesmo saber se ele chegou, de facto, a ter o tal encontro com os outros intervenientes e de que constou ele — estaria a fazer uma “tentativa de encobrimento”. Mas encobrimento de quê, senhora Procuradora? Se fosse possível acreditar na ingenuidade de quem dirige o MP, seria de ficar estarrecido ouvir a PGR declarar que investigar criminalmente o PM em exercício “não requer nenhum cuidado acrescido”, porque “ninguém está acima da lei”. Portanto, ela pode escrever os disparates que lhe ocorrer nos comunicados da Procuradoria sem ter de se preocupar se isso derruba um Governo, porque a única coisa que lhe interessa e que deve interessar aos portugueses saber é que dois escutados no processo Influencer foram ouvidos a dizer que queriam falar com o PM. “Crime!”, concluiu ela, que, todavia, confessou não seguir de perto nem sequer os processos mais sensíveis e mediáticos do DCIAP, porque interferiria na sagrada autonomia dos magistrados do MP, além de que são muito “minuciosos”. A sério? Em que outro país do mundo é que esta rebaldaria se passará? Em que outro país do mundo é que um simples procurador do MP pode abrir investigações criminais ao PM e ao PR sem que o procurador-geral acompanhe passo a passo a investigação e esteja ciente, por exemplo, da necessidade de evitar a “coincidência” da divulgação de investigações com momentos políticos sensíveis?

Mas o pior da entrevista de Lucília Gago, para mim, foi a arrogância e o tom de ameaça que ela utilizou no lugar das explicações devidas. Arrogância quando, confrontada com a disparidade das acusações do MP face às decisões dos juízes, respondeu que “é muito difícil admitir um erro do MP, porque os magistrados do MP envolvidos são de grande competência”. Os juízes, portanto, é que são incompetentes. Pior foram as ameaças: João Galamba foi escutado quatro anos e, afinal, não foi acusado de nada e nem sequer ouvido? “As investigações prosseguem.” António Costa foi investigado, mas não constituído arguido, e a Relação arrasou os fundamentos da investigação sobre ele? “As investigações prosseguem e se o inquérito não foi ainda encerrado é porque algo a tal obsta.” Ou seja, que ninguém descanse em paz, o MP pode demorar anos, décadas, mas, tal como os agentes do FBI, nunca larga os seus Al Capones.

Esta senhora, Lucília Gago, é perigosa. Ela não apenas despreza as críticas à actuação do organismo que dirige, venham de onde vierem, como nem sequer aceita que, tendo os poderes que tem nas mãos, o MP não pode funcionar em roda livre, sendo hoje o único poder não escrutinado em Portugal, apesar de deter essa arma letal de poder privar da liberdade e da honra qualquer um, culpado ou inocente. É certo que ela se vai embora dentro de três meses, mas a cultura que deixa instalada é, em si mesma, um perigo.

2 Outra senhora que se transformou num perigo é a NATO. Os seus 75 anos, agora celebrados, não são um período homogéneo. Até ao desmantelamento da URSS e ao consequente fim do Pacto de Varsóvia, a NATO foi essencial para preservar a paz na Europa e no Ocidente, como organização de defesa face à ameaça soviética. Com um sábio jogo de contenção e firmeza, a NATO acabou por vencer em toda a linha a Guerra Fria. Porém, como algumas vezes acontece na história, os vencedores da Guerra Fria não souberam administrar a sua vitória. Assim aconteceu em Versalhes, em 1918, em que a humilhação alemã conduziu à ascensão de Hitler e à II Guerra Mundial. Ou no Iraque, em que a vaidade imbecil do Presidente George W. Bush quis “completar” a vitória exemplar do seu pai na I Guerra do Golfo, com isso conduzindo toda a região ao caos permanente. Com o fim da ameaça que justificara a sua fundação, a NATO não só optou por não se extinguir como também se lançou, sem justificação plausível, no expansionismo em direcção à Rússia — que muitos, como Henry Kissinger, logo avisaram que não poderia deixar Moscovo indiferente. Pela mesma razão, porque Kennedy não podia aceitar mísseis russos em Cuba em 1963, também Putin avisou que não poderia aceitar a Ucrânia na NATO, e eventualmente com mísseis nucleares da NATO na sua fronteira sul — isso constava, aliás, implicitamente do Acordo Minsk II, que Moscovo e Kiev tinham assinado, sob os auspícios de Paris e Berlim. Mas os Estados Unidos e a NATO responderam a Putin que qualquer país era soberano nas suas decisões e que a geopolítica não contava ali para nada. E deu-se a invasão — a qual podia ter terminado logo um mês depois, quando Moscovo e Kiev chegaram a um acordo de paz mediado por Israel e a Turquia, em Ancara, mas que Boris Johnson, primeiro, e Lloyd Austin, secretário da Defesa americano, depois, boicotaram, convencendo Zelensky a não assinar, prometendo-lhe em troca as armas necessárias para derrotar a Rússia. A chave para o fim da guerra da Ucrânia é Kiev renunciar à adesão à NATO, em contrapartida da retirada russa dos territórios ocupados. Mas a versão que nos vendem é que a única alternativa é prosseguir a guerra até à derrota total da Rússia ou Putin virá por aí fora até ao Terreiro do Paço. E por isso nesta celebração dos 75 anos da NATO, verdadeira cimeira de guerra, em cima da mesa está a adesão “irreversível” da Ucrânia à NATO, para que o facto consumado evite qualquer tentativa de pôr fim à guerra através de negociações de paz. E assim, num mundo em que o dinheiro necessário para combater as alterações climáticas foi desviado para fabricar armas para a Ucrânia, onde falta dinheiro para acorrer in loco às necessidades básicas dos imigrantes que atravessam o Mediterrâneo, vemos o Presidente dos Estados Unidos saudar os membros da NATO, que já aumentaram ou vão aumentar as suas despesas militares. E o secretário-geral cessante, Jens Stoltenberg, condecorado com a Ordem Presidencial da Liberdade, mais uma vez apontar à próxima fronteira e ao próximo inimigo da chamada aliança defensiva do Atlântico Norte: a região da Ásia-Pacífico e a China. É todo um horizonte de esperança a perder de vista. Se ainda houver próximas gerações, não lhes invejo a sorte.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

A crescente obsolescência do “centro” político ocidental!

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 09/07/2024)

As últimas semanas constituem um capítulo profundamente esclarecedor, quanto às razões explicativas da crise da apelidada “democracia liberal” e dos problemas profundos que afectam o Ocidente e a União Europeia, em particular.


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As últimas semanas constituem um capítulo profundamente esclarecedor, quanto às razões explicativas da crise da apelidada “democracia liberal” e dos problemas profundos que afectam o Ocidente e a União Europeia, em particular. Seja o debate Trump/Biden que nos diz que quem está ao leme não dá a cara, e quem dá a cara, não está ao leme; sejam as eleições na UE, que demonstram a contradição entre um “centro” político monolítico e as necessidades das suas populações; nos dois casos, constatamos a crescente obsolescência do sistema político para fazer face aos desafios anunciados, bem como o esgotamento real das “soluções” que preconiza.

Em consequência profunda desse esgotamento, verifica-se a ausência de uma estratégia de futuro que não passe por um conturbado navegar à vista e uma total falta de base material que justifique as decisões políticas que se vão tomando, todas resultando em fracasso após fracasso. É absolutamente incrível que se consiga falhar tanto e tantas vezes. As medidas aplicadas pelos EUA, e mimetizadas pela UE contra os seus adversários, não apenas falham, como têm, reiteradamente, os efeitos inversos aos enunciados. Não obstante, elas permanecem imutáveis.

Para confirmar esta verdade, recentemente, a União Europeia decidiu aplicar tarifas aos cereais da Rússia e Bielorrússia. Para além do disparate tremendo que é, num contexto de crise, caracterizado pela necessidade de controlo da inflação e preço elevado dos fatores de produção, a UE decide repetir a receita aplicada ao gás e contribuir para o encarecimento da alimentação. O objectivo de redução das importações de cereais, provindos destes países, está relacionado, segundo a burocracia europeia, com o objectivo de negar à Rússia rendimentos económicos. Tomando como exemplo o que tem sucedido com as sanções, resta-me perguntar se, para derrotar a Rússia, não teremos de morrer todos à fome primeiro.

Exemplo do que é que o monolitismo e inamovibilidade deste “centro” político, construído a partir e à imagem de Washington, através do recurso às ONG’s, à academia, Think Thank e dos organismos internacionais, é a própria designação de Úrsula Von Der Leyen e António Costa. Alguém explique, por favor, com base em que escrutínio é que esta senhora voltou a ser escolhida para Presidente da Comissão! Qual foi a dimensão democrática em que a senhora foi bem-sucedida, a não ser na replicação cega, para a União Europeia, da política externa de Washington? E por que razão, a família política dos S&D, aprovou a sua designação? Trocaram pelo o apoio do PPE a António Costa!

Também no caso de António Costa é consagrado o poder deste “centro” político. Depois do seu adversário político e actual Primeiro Ministro português, ter andado, em Portugal, a acusá-lo de incompetência e de ter chefiado um dos piores governos da história democrática portuguesa, porque razão veio, depois, quando se tratou de o designar para o Conselho Europeu, dizer que Costa cumpria todos os requisitos? O facto é que a vida política no Ocidente colectivo faz-se, cada vez mais, em circuito fechado, em que a propaganda, ao contrário de antes, já não visa convencer os de fora, a entrar; visa, sim, convencer os dentro, a ficar!

Esta situação demonstra a complexidade do problema e, ao contrário do que muitos querem fazer crer, não basta à União Europeia, ou aos EUA, substituir a classe política comprometida com esta decadência. Pode parecer atractivo pensar que “a culpa é dos políticos”, e que basta mudar os de má qualidade, por outros melhores, e tudo se resolverá. Políticos melhores dependem da subida do nível de consciência das populações e estas ainda estão demasiado recuadas para os poderem produzir, em quantidade e qualidade. Os poucos que existem são rejeitados pelo “centro” político todo poderoso, por não se alinharem com as suas pretensões.

Por isso, lamento desiludir os que vêem uma mudança profunda nos últimos resultados eleitorais. Os resultados eleitorais, caracterizados pela “ameaça” da “extrema” direita, representam, sobretudo, que uma parte crescente da população se sente muito mal. Mas correspondem ainda, a meu ver, a um estado primário de consciência. O discurso político do centro dominante, focado no mal dos outros (“a economia russa está em pedaços”; “A economia chinesa vai cair”, uma e outra vez), já não pode esconder o estado grave em que nos encontramos. As populações começam a perceber que estão doentes, sim, mas ainda não conhecem as causas da doença, quanto mais o caminho da cura.

Para já, e até numa lógica de resistência a qualquer tipo de mudança substancial, as escolhas incidem, sobretudo, em agendas partidárias que apenas abordam questões superficiais (não quer dizer que não tenham importância) sem nunca tocarem no fundamental. Sem nunca colocarem em causa o modelo de exploração económica. Reconheçamos que é mais fácil assumir que a culpa é dos outros, que o mal vem de fora, do que assumir que ele está cá dentro e é profundo!

Seja como for, o movimento eleitoral dirige-se, crescentemente, no sentido do voto nas forças que melhor exprimem este mal sentir, mas que raramente apresentam soluções de fundo para o resolver. Daí que, depois de um apelo de décadas à “moderação centrista”, as populações se sintam impelidas ao “politicamente incorrecto”, confundindo acusações de culpa a terceiros (aos imigrantes, aos ciganos, aos corruptos) e a gritaria com a necessária “mudança”. E é este “politicamente incorrecto” que é exprimido pela dita “extrema direita”. E, em muitos casos, é isso que a distingue, no fundamental, do “centro” político em crise.

Se existe estagnação e inamovibilidade no “centro” político ocidental, tal sucede como resultado da histórica capitulação da social-democracia e da sua captura pelos interesses da classe dominante. Tal conduziu a uma concentração, sem precedentes, do poder político (também resultante da concentração da riqueza nos estratos sociais mais ricos), passando, este “centro” político, a funcionar como um cartel ideológico em que as diferenças superficiais não colocam em causa o que os une. Este centro político é “woke” (pensavam que o “wokismo” era esquerda?), partilhando a agenda de Soros; é neoliberal, partilhando a agenda do consenso de Washington; é globalista, partilhando a agenda do Grande Reset do Fórum Económico Mundial.

As diferenças superficiais que constatamos entre um centro-esquerda mais “woke” e um centro-direita mais neoliberal, não podem ser confundidas entre “direita e esquerda” e ainda menos entre esquerda progressista e direita reaccionária. Elas refletem apenas a abrangência do centro político. Ao invés, essas diferenças perdem expressão perante a ideia de “civilização ocidental neoliberal”, chefiada pelos EUA, e a sua expansão neocolonial, para o resto do mundo, a qual representa o pilar ideológico fundamental que une as famílias políticas mais poderosas. Vejamos o caso do Reino Unido, em que se circula, ficando parado, entre um partido conservador dominado por multimilionários e um partido trabalhista dominado por empregados de multimilionários. Mas a política de fundo nunca muda.

Para evitar o desgaste, os interesses dominantes recorrem à alternância eleitoralista, criando a aparência de rotatividade, escrutínio e responsabilização democráticas. Contudo, uma vez que o poder está cartelizado entre oligarquias políticas, a alternância tem sido, como se previa, incapaz de traduzir, a rotação alternante, em mudanças políticas concretas.

O sistema tornou-se prisioneiro de um mero movimento aparente. Qualquer que seja o sistema político, mais ou menos sufragista, existe algo que decreta a sua morte a prazo: a insusceptibilidade de mudar; o monolitismo ideológico, principalmente perante as dificuldades das populações.

A suposta “moderação” deste centro de poder sempre foi medida através do índice de insusceptibilidade de contestação às directrizes económicas e de política externa, europeias e ocidentais, em especial emanadas de Washington. A grande preocupação dos governos nacionais, pertencentes ao centro político dominante, passou a ser o de, burocraticamente, “cumprir as directrizes europeias”. Já a UE vive obcecada com o alinhamento atlantista. A margem de governação para resolver os problemas dos povos europeus passou a ser mínima. Neste sentido, este “centro” político representa uma forma de extremismo militante atlantista.

Dado o monolitismo deste “centro” político, a sua arrogância e sectarismo, em que não aceitar uma das regras que preconiza significa ficar de fora, a direita que rejeita a guerra é afastada para as margens. E é a partir daqui que se sustenta parte da ideia de “extrema” direita e do seu perigo, não se distinguindo entre “extrema” direita que o é porque rejeita a política externa globalista e de confronto (onde até já vi alinharem Vucic e Fico!!!), e a extrema direita de facto, xenófoba, fascista e atrasada.

Neste sentido, o “centro” político pode ser tão extremista e perigoso como a “extrema direita” de facto, uma vez que é este mesmo “centro moderado” que abraçou o militarismo e pretende a continuação e alargamento da frente de guerra (existe algo pior e mais extremo que a guerra?).

E é aqui que se estabelece a diferença fundamental dos nossos dias entre o “centro moderado”, alguma “extrema” direita e alguma “extrema” esquerda. A oposição à guerra e o apoio ao diálogo com a Rússia. Aspectos que, adicionados ao caso de Orban, que também defende as relações com a China, ameaçam fazer ruir, a estratégia hegemónica Norte Americana, apropriada de forma tão militante pela Comissão europeia de Úrsula Von Der Leyen e pelo seu “centro” político. Para fora da discussão política são chutadas todas as forças de “extrema esquerda” que preconizem a mudança do modelo económico de exploração.

Daí que possamos tirar várias conclusões a partir do histórico dos últimos tempos. Uma, é que este centro político explora, propagandisticamente, uma falsa ideia de “moderação” assumida como o modo de governação característico que, supostamente, reúne e representa as virtudes de todo o espectro político-ideológico. Nada mais falso. Hoje, a questão da guerra contra a Rússia, o apoio ao regime de Kiev e a atitude face à China constituem um autêntico divisor de águas que promete baralhar o espaço político. Mesmo forças políticas abertamente capitalistas defendem o aprofundamento das relações com ambas, na medida em que representam facções que pretendem “surfar” o crescimento destas potências.

A este respeito, é o “centro moderado” que surge como a área política mais extremada e mais incapaz de se conciliar e dialogar com a Federação Russa (totalmente) e com a República Popular da China (crescentemente). Este “centro moderado” assume uma postura totalmente arrogante (nós é que estamos certos, o outro lado está errado); sectária (ou estás connosco ou contra nós) e fracturante (não há diálogo possível). Ao invés, são alguns dos que o “centro” designa como “extremos” que surgem como verdadeiramente moderados.

Outra conclusão decisiva é a de que, face à concorrência sistémica internacional, traduzida no conceito de “Sul Global” (a que devemos chamar de “maioria global”), composto por organizações internacionais como a Organização de Cooperação de Xangai, a União Económica Euroasiática, a ASEAN, os BRICS, União Africana e outras, o Ocidente Colectivo cristalizado, cada vez mais proteccionista, surge em frontal contradição com o movimento de abertura, expansão e desenvolvimento a que se assiste no mundo não ocidental. O “Sul Global”, em movimento de libertação do neocolonialismo dos últimos 100 anos, surge como mais integrador da diversidade do que o Ocidente Colectivo.

O Ocidente Colectivo apenas admite um modelo de governação, na sua versão de exportação, a que todos devem aderir, mais tarde ou mais cedo, se com ele se quiserem relacionar. A não adesão ao modelo cristalizado ocidental implica uma enorme insegurança nas relações, sujeitando o parceiro aderente à possibilidade constante de sanções, revoluções coloridas e demais movimentos de ingerência externa nos seus afazeres. Ao contrário, as organizações do Sul Global partem de uma premissa mais tolerante e pluralista, admitindo, no seu seio, diferentes visões do mundo e da política, sem que uns queiram, pela menos até ver, impor o seu modelo aos demais.

Não é difícil identificar qual será o modelo mais apto a vingar, evoluir e resultar num encontro inovador de premissas ideológicas que respondam aos problemas da humanidade. Um modelo fechado, impositivo, imposto de cima para baixo, conformador e autoritário, na medida em que não admite outra atitude que não seja a sua aplicação, impondo a destruição das soberanias como condição para uma “libertação” e que sujeita as nações ao poder do seu “centro” político; ou, por outra via, um modelo diverso, em que diferentes sistemas contactam e cooperam entre si, mutuamente aprendendo e retirando dos demais as melhores e mais bem sucedidas aprendizagens, num caldo plural e despretensioso, por isso mesmo, mais propício à inovação e ao progresso, assumidos pelas nações, de forma voluntária e soberana? Ente estas duas visões, afinal, qual é que nos surge como mais moderado, dialogante e equilibrado?

Ao monolitismo extremista do sistema ocidental liberal contrapõe-se, paulatinamente, um novo mundo. Um mundo multipolar e por isso mesmo, mais plural, diverso e inclusivo, logo mais apto a inovar, e inovando, mais apto a desenvolver-se, sobreviver e vencer!

Ao cristalizar-se num centro monolítico, cada vez mais obsoleto, a “democracia” liberal anuncia a sua morte! Quando o “centro” ocupa todo o espectro, deixa de ser “centro” para passar a ser “extremo”.

Fonte aqui.


Aquilo era o retrato do inferno

(José Goulão, AbrilAbril, 11/07/2024)

Estivemos perante a inquietante prestação dos dois putativos chefes do império norte-americano, ou seja, do globalismo, do «mundo civilizado», os patrões dos nossos políticos «vocacionados» para o poder, os donos das nossas vidas.


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As palavras que encimam este texto são do já saudoso Fausto Bordalo Dias no épico monólogo de Fernão Mendes Pinto em «o barco vai de saída»; tiveram evocação recente não apenas pela partida triste de tão emblemático e inconfundível cantor e autor mas também pelo dramático, igualmente arrepiante e nada épico debate entre os dois candidatos à presidência dos Estados Unidos da América, Joseph Biden, pelo Partido Democrático, e Donald Trump, pelo Partido Republicano; isto é, segundo a praga dos comentadores que infesta os nossos dias, entre «a esquerda» e «a direita».

Aquilo era o retrato do inferno, não só porque entre os debatentes venha o diabo e escolha, mas também porque estivemos perante a inquietante prestação dos dois putativos chefes do império norte-americano, ou seja, do globalismo, do «mundo civilizado», os patrões dos nossos políticos «vocacionados» para o poder, os donos das nossas vidas.

Achei prudente aguardar algum tempo antes de abordar o tema, não pela complexidade e a profundidade do conteúdo ideológico, intelectual, político e programático dos dois ogres; esperei até ter uma ideia feita sobre as abordagens dominantes assumidas pela comunidade dos comentadores, analistas, especialistas, politólogos e cartomantes que transtornam os cérebros das populações submetidas ao «nosso modo de vida», pelo menos dos cidadãos que ainda têm pachorra ou estômago para se deixarem torturar por eles.

E estiveram uns para os outros, candidatos e analistas, domésticos ou da estranja «civilizada». A indigência pega-se, pelo menos foi o que demonstrou o tenebroso efeito em cadeia. Não apenas porque a corporação do «comentariado» – parece que é assim que se autodenominam – conseguiu encontrar matéria relevante no vácuo das ideias expressadas pelos contendores, espremeu-se até para encontrar um vencedor e um vencido, teorizou sobre as capacidades cognitivas de cada um, como se a demência política pudesse ser aferida por uma qualquer escala científica. O drama que tornou assustadoramente exponenciais as consequências da contenda entre dois indivíduos sem carácter, esclerosados, irresponsáveis, ignorantes, avatares de seres humanos degenerados, foi a maneira como este universo da opinião única ignorou ou omitiu deliberadamente o que esteve e está verdadeiramente e quase exclusivamente em causa nos episódios que envolvem os candidatos e as próprias eleições presidenciais nos Estados Unidos da América.

Eles são os nossos chefes

Aquilo, o debate, era sem qualquer dúvida o retrato do Inferno. O Inferno em que vivemos sem que muitos, talvez a maioria, se dêem conta do risco de podermos transformar-nos em poeiras radioactivas de um momento para o outro; o Inferno da vida que os poderes representados por aqueles dois psicopatas nos impõem e garantem continuar se as relações de forças internacionais e, sobretudo, a impaciência activa dos povos do mundo não fizer desmoronar o império. Existem muitos indícios de que ele já mal se aguenta de pé, mas não tenciona suicidar-se. Ainda possui muitos recursos, explora sem reservas o ódio pelos seres humanos, põe e dispõe das nossas vidas através dos métodos mais violentos e também mais insidiosos, sem que se vislumbrem quaisquer limites para a sua sanha capazes de o travar antes de chegar ao extremo de eliminar a vida no planeta. 

Ainda há quem entenda estas considerações como coisa de lunáticos, mas não percamos a noção de que o simples facto de observarmos a colocação de marionetas transtornadas à cabeça das coisas político-militares dominantes no mundo revela o grau supremo de liberdade usufruído pelos monstros que, movendo-se silenciosamente em mundos subterrâneos, conduzem a economia e as finanças globais. Esse poder real, absoluto e incontestado serve-se da política e do militarismo como braços visíveis, como centros de imposição comportamental, de manipulação e engenharia social para transformar metodicamente os seres humanos em meros instrumentos ao serviço de interesses que não são os seus, tornando-se até inimigos involuntários de si próprios. 

Joseph Biden e Donald Trump são os nossos chefes visíveis. Para todos os efeitos, pensando apenas em termos da ponta do iceberg dos poderes mundiais, são eles que mandam na NATO, na ONU, na União Europeia, em cada um dos nossos países que em tempos foram soberanos; que mexem os cordelinhos do terrorismo transnacional «moderado», como a al-Qaida, o Isis e tantos outros heterónimos, que fazem a guerra e decidem sobre a paz, que definem o que é a democracia e como deve ser praticada, que funcionam como o alfa e o ómega do grande aparelho transnacional de controlo mental, que impõem o mercado como a ditadura das nossas existências, que espiam e se apropriam da nossa privacidade com métodos e meios cada vez mais desumanos e sofisticados; que agem como arbitrários «legisladores» e gestores da «ordem internacional baseada em regras», sistema comportamental compulsório que subverte e impede o regular funcionamento do direito internacional. São eles, em suma, o paradigma actual da nossa democracia liberal, o «farol» da liberdade, dos «valores ocidentais», do respeito pelos «direitos humanos», da «responsabilidade de proteger», através da guerra, em cada recanto do mundo. A imagem que esses trastes alienados transmitem aos olhos da população mundial espelha fielmente o estado em que se encontram a política ocidental e a «nossa» democracia liberal – um retrato do Inferno.

Veja as diferenças

Há quem pretenda estabelecer distinções entre Joseph Biden e Donald Trump, como fariam em relação a qualquer outra dupla em competição, suponhamos Hillary Clinton e a vice-presidente de turno Kamala Harris. É uma atitude que não passa de um esforço irresponsável para dar credibilidade a um sistema caduco, subvertido desde as proclamações iniciais, já lá vão quase 250 anos, malévolo, desumano em nome da humanidade, agressor em nome da paz e da democracia, expansionista e salteador dos bens e das riquezas alheias, cobrindo e fundindo agora, sob as suas asas, o velho e o novo colonialismo como práticas inerentes ao sistema imperial.

Diferentes e iguais, Biden e Trump representam, apesar da pungente exibição de um grau irreversível de decadência humana, duas faces da mesma moeda, um autêntico partido único imperial gerindo simultaneamente os seus tentáculos que se movem através do Ocidente colectivo como instrumentos indispensáveis da democracia liberal, a autêntica, exclusiva e à qual temos de obedecer em rebanho e sem balir. 

Nos Estados Unidos, os aparelhos encarregados de fazer política designam-se Partido Democrático e Partido Republicano; na Europa e no resto do Ocidente podem chamar-se, entre outras coisas, «centro político», «bloco central», «convergência» entre socialistas, conservadores e liberais, sistema que prevalece na composição e funcionamento do aparelho autoritário baptizado como União Europeia.

Mecanismos de poder todos diferentes e todos iguais, a exemplo do que sucede na cúpula do poder imperial – quando é necessário que a política exerça o papel que lhe está reservado para fazer cumprir as ordens do neoliberalismo e do seu deus inquestionável, o mercado.

Analistas de «esquerda», muito úteis para compor o ramalhete «pluralista» do comentariado doméstico, chegam a qualificar Biden como um candidato «sério» perante um «mitómano» e outras coisas do mesmo jaez que Donald Trump efectivamente é, além de mentiroso contumaz, corrupto, ladrão de petróleo e outras riquezas alheias. Actividades que, mantendo a memória em funcionamento, também não são estranhas ao presidente e incumbente democrata.

Pela «seriedade» de Joseph Biden falam a sua carreira política medíocre, mas, principalmente, corrupta, manipuladora, belicista, cleptómana e sangrenta ao longo de mais de 50 anos. E sempre afecta ao poder, fosse democrata ou republicano, como no caso do apoio activo às invasões do Iraque cometidas por Bush pai e filho.

Biden foi fervoroso adepto dos golpes terroristas na América Latina, África e Oriente, distinguiu-se nas frentes de apoio ao sanguinário desmantelamento da Jugoslávia, à colonização neoliberal e saqueadora da Rússia, às invasões do Iraque, do Afeganistão e da Somália. Meteu e mete directamente as mãos nas permanentes carnificinas sionistas contra o povo palestiniano – dizendo-se «sionista cristão» – e nas invasões da Síria, através de «procuradores» terroristas, e da Líbia, patrocinando a destruição e matança gerais, a começar pelo bárbaro assassínio de Muammar Gaddafi. «Chegámos, vimos e ele morreu», proclamou, num arroubo imperial, a então secretária de Estado Hillary Clinton, da administração Obama, na qual Biden foi vice-presidente. Cargo onde desempenhou funções primordiais no golpe nazi da Praça Maidan, na capital da Ucrânia, abrindo as portas ao massacre de aproximadamente 14 mil pessoas no Donbass, entre 2014 e 2022, e à perda de pelo menos 500 mil vidas no confronto militar directo entre a Ucrânia e a Rússia que se lhe seguiu. Um currículo invejável para um político «sério».

A elite de «referência» do garboso exército do comentariado acha que no confronto entre os Partidos Democrático e Republicano tem o dever de assumir uma polida e até snob inclinaçãozinha pela ala democrata, de comportamento muito mais «europeu», eivada de boas maneiras, capaz de fazer das guerras acontecimentos humanitários e até ecológicos, – como se diz a propósito das manobras militares da NATO. Exprime até sonoras condescendências e bem calibradas manifestações de afecto pelas minorias LGBT, negras, de salvadores do planeta e tantas outras causas ditas «fracturantes» como as questões do aborto e dos direitos da mulher. Ao contrário do brutamontes Trump, que solta pela boca fora o que lhe passa pela cabeça, carecendo da moderação, do cinismo e do oportunismo de discurso que Biden foi praticando ao longo de meio século, movendo-se pelos corredores e gabinetes de Washington.

Não esqueçamos, além disso, que o Partido Democrático tutela até a Internacional Socialista, um ponto a seu favor para a penetração mais profunda da Europa, com o mérito acrescido de ter contribuído, como nenhuma instituição, para a evolução do anacrónico «socialismo democrático» – uma aberração em tempos de extinção das ideologias – em direcção ao «socialismo» com as cores neoliberais, que devem ser obrigatoriamente ostentadas por todos os partidos «com vocação de poder».

Joseph Biden, um demente político ao nível do seu rival Trump mas com um património de poder que deixa o adversário nas divisões distritais, encaixa às mil maravilhas na encenação cultivada pelo Partido Democrático. Fala bem (às vezes titubeia um pouco, é certo, e quando mente é em defesa da democracia e dos direitos humanos), veste melhor, exibe um esgar de sorriso bastante diplomático, caminha como se estivesse numa passerelle (os esporádicos tropeções devem-se a sujidade nos Ray-Ban de sol, imagem de marca dos expoentes securitários), cuida do corte de cabelo e mantém o branco natural; usa boné apenas quando lhe é emprestado ou oferecido por um craque da primeira liga de beisebol; até a sua evidente demência cognitiva não passa de um sintoma de jet leg e de cansaço inerente à complexa e aturada actividade no desempenho do cargo.

Donald Trump traduz melhor que ninguém a actualidade do Partido Republicano. Fala como um trauliteiro, mente por vício e não é para defender a democracia e os direitos humanos, veste como um bimbo, ri-se de maneira alarve e boçal, caminha como um arruaceiro e provavelmente até escarra no chão, tem o cabelo oxigenado e um penteado que não lembra a ninguém, engana a Melânia, usa óculos escuros comprados nos escaparates à porta dos armazéns Valmart numa vilória perdida do Kentucky, prefere bonés nacionalistas e bacocos copiados dos gangs do Metro de Nova York; e a sua demência cognitiva é de nascença, nada tem a ver com a provecta idade.

Biden e Trump são como a água e o azeite também quando chega o momento de produzir os cartazes e os videoclipes de campanha, quando são chamados à televisão para debater ideias que não têm, preocupações que não sentem, para usar e abusar dos truques ensinados pelos assessores de imagem – e para reduzirem o confronto a ataques e insultos pessoais, ainda que com ademanes díspares e opostos de elegância. 

Porém, são gémeos na política, igualmente eficazes quando se trata de servir como agentes administrativos e «democráticos» do neoliberalismo; isto é, cumprem a tarefa para a qual são indigitados pelo omnipresente e submerso «Estado profundo» e posteriormente «escolhidos pelo povo» através de mecanismos eleitorais distorcidos, antecedidos de peditórios milionários junto da gente que conta, concebidos em delicadas degustações e capitosas soirées dançantes; e recorrendo também a feiras de comércio político montadas em cenários de Hollywood, seguindo guiões da série mais rasca onde se estipulam discursos ricos em piadas idiotas recebidas com coros de gargalhadas a pedido, abrilhantadas por claques de cheerladies equipadas à Barbie.

É assim a política que orienta a prática da democracia liberal, a «nossa democracia», uma sucessão de rituais cumpridos enquanto os verdadeiros donos disto tudo, de nós todos, senhores dos impérios económicos e financeiros planetários decidem quanto há para decidir nos cenáculos do mercado, deus da modernidade política, militar, social e cultural. De vez em quando juntam-se nos conclaves conspirativos e decisórios de Bilderberg, da Trilateral, do Fórum Económico Mundial e outros, para os quais arrolam alguns plebeus prometedores para fazer deles os magarefes que mantêm a política e os universos do comentariado nos eixos.

E a guerra, as guerras que estamos vivendo e sofrendo, com as catástrofes humanitárias e as incertezas inerentes, mais não são do que os veículos a que recorre o império em desespero, tentando evitar que a evidente e irreversível decadência se torne real mais dia menos dia, dando eventualmente lugar a uma ordem internacional assente no direito internacional existente e na cooperação entre países soberanos e iguais. Caso isto não aconteça, a loucura dos políticos «com vocação de poder» instalados no areópago dos areópagos ocidentais, mergulhados no seu autismo demente ao mesmo tempo que são manipulados pelos insaciáveis senhores do dinheiro, deixar-nos-á sem apelo à mercê desses degenerados. Num cenário assim consumado os insaciáveis monstros do mercado, que não admitem limites ao respeito pelas suas exigências e são imunes a qualquer vínculo emotivo com os seres humanos, usarão e abusarão do poder absoluto facultado pelo fascismo neoliberal e, se acharem necessário, não hesitarão em condenar-nos ao terror supremo capaz de limpar o planeta do excedente de gentalha que os incomoda.

O debate patético, incongruente, surreal na verdadeira acepção do conceito entre os dois homúnculos que lutam pela gestão formal e a rogo de um império agónico revelou que a «nossa civilização», o orgulhoso e arrogante «mundo ocidental» atingiu o grau zero e mais rasteiro da política. Os políticos a quem o mercado entrega o poder por via «eleitoral» e «liberal» não passam hoje de burocratas serviçais que, a bem dizer, já quase nem tentam convencer-nos de que representam os nossos interesses e a nossa vontade manifestada em papelinhos inúteis depositados num caixotinho sem fundo. Eles são, afinal, juntamente com os acólitos da propaganda e os salteadores do jornalismo, da academia e da cultura, os autênticos idiotas úteis de um sistema infernal e incontrolável de poder do qual só nos apercebemos (e já não é pouco) por via dos afloramentos que infernizam a vida de cada um.

Aquele debate entre a fina-flor demente dos idiotas deste «Ocidente» – e que terá pelo menos uma sequela, segundo se diz – foi um retrato do inferno.

Desejamos, e para isso temos uma tarefa tão urgente como gigantesca nas nossas mãos, que tal retrato não se transforme num facto da vida – ou talvez aqui deva escrever-se morte – real.