Os resultados das recentes eleições presidenciais nos Estados Unidos revelaram, mais uma vez, a fragilidade e o enviesamento gritante de um sistema de análise política que se auto-intitula como imparcial, mas que, na prática, se mostrou profundamente tendencioso.
A expectativa amplamente propagada de um “empate técnico” ou até mesmo de uma vitória de Kamala Harris, apoiada por analistas, comentadores e empresas de sondagens, revelou-se ilusória e desastrosamente distante da realidade. Este episódio trouxe à tona não só uma falha de proporções monumentais, mas também uma perigosa tentativa de manipular a percepção pública.
É inegável que a cobertura mediática, sobretudo nos principais meios de comunicação portugueses e internacionais, foi permeada por um alinhamento político evidente. As previsões e análises não apenas falharam no cálculo preciso das intenções de voto, mas foram igualmente caracterizadas por uma insistente narrativa que beneficiava um lado específico. Essa inclinação não é acidental, mas uma demonstração clara de como o discurso mediático contemporâneo pode ser moldado para influenciar a opinião pública.
Comentadores e analistas deveriam, por princípio, buscar uma postura de imparcialidade. No entanto, o espetáculo oferecido por muitos destes profissionais foi vergonhoso: declarações categoricamente erradas foram repetidas ad nauseam, moldando a expectativa coletiva em direção a um desfecho conveniente para uma determinada perspetiva política. Não é aceitável que tais figuras, após o erro evidente, simplesmente sigam em frente sem qualquer forma de retratação pública. A sua responsabilidade, enquanto formadores de opinião, é imensa, e a falha em reconhecer a falta de isenção só mina ainda mais a confiança do público.
As empresas de sondagens, por sua vez, desempenham um papel crítico no processo democrático. Contudo, os erros repetidos e a metodologia enviesada suscitam questões sobre a sua credibilidade. A tendência de “puxar” a narrativa para um lado é inaceitável e enfraquece o propósito fundamental das sondagens: fornecer uma leitura justa e honesta da vontade popular. Ao afastarem-se desse propósito, estas empresas tornam-se cúmplices na manipulação da opinião pública.
Diante das evidências esmagadoras da distorção, os responsáveis têm a obrigação moral e ética de se retratar. A cobertura de eleições, especialmente em democracias de alta importância global, deve ser feita “sem lados”, com total comprometimento com a verdade. Continuar a privilegiar uma narrativa política específica, ao custo da precisão e da confiança, só perpetua um ambiente de desinformação e polarização. É hora de exigir responsabilidade e compromisso real com a isenção.
(Hugo Dionísio, in Estátua de Sal, 05/11/2024, revisão da Estátua)
(Este texto resulta de um comentário a um artigo de Alexandre Dugin que publicámos sobre o Estado Profundo (ver aqui).
Pela sua atualidade – vide as eleiçoes americanas a decorrer -, e pela profundidade da análise – em algum contraponto contraditório com o autor -, resolvi dar-lhe destaque.
Não estando de acordo com toda a análise, não posso deixar de ver nela algum sentido e atualidade. Acusações de “irregularidades”, sempre que as eleições não dão para o lado pretendido pelos EUA, são já uma prática normal.
A assunção de que o Ocidente é “liberal” e vive na “ordem baseada em regras” que ninguém sabe quais são, mas sabemos todos quem as faz, também constitui, hoje, uma realidade evidente.
Um estado que assuma, desde logo, frontal e abertamente, a sua ideologia de classe e estabeleça as formas governativas que transmitem o poder a essa classe, é um estado mais honesto e menos insidioso do que o totalitarismo invertido, do qual filósofos americanos falaram. Não quer dizer que seja “totalitário” e não se enquadre num estado de direito, embora numa ordem jurídica com regras substancialmente diferentes.
Quem acreditar que o poder de Xi não se enquadra na lei e constituição chinesas, ou que os planos quinquenais e as regras institucionais não são criados de acordo com a lei chinesa, não conhece a China moderna.
O liberalismo é mais totalitário pois, entrando de forma subliminar, escondida, como uma “não ideologia”, como “um pragmatismo”, apanha as pessoas desarmadas e aliena-as de tudo o que é seu: das suas raízes, nacionalidade, género, cultura, produto do seu trabalho, tradições, crenças… Não existe nada mais totalitário do que uma forma governativa que molda, inexorável e de forma subliminar, as nossas vidas. Isto está estudado e refletido por muita gente, incluindo liberais como Ben Chul Han.
Para além da atribuição – determinística – da lógica totalitária ao comunismo e ao socialismo, apenas porque estes assumem uma ideologia, quando se tratam de ideologias libertadoras e quando o termo “totalitarismo” é uma invenção liberal para atirar contra os governantes que, na sua maioria democraticamente escolhidos (porque suportados na vontade popular, com ou sem eleições liberais – as eleições liberais são uma forma de escolha, apenas isso, estando a democraticidade na suscetibilidade de identificação entre o povo e uma forma de governo e a sua aprovação pela praxis diária ou por sistemas de sufrágio), esta análise não faz uma ligação entre a escolha de populismos reacionários, abertamente fascistas e neonazis e a onda de revisionismo histórico que o neoliberalismo promoveu, aliando-se, nesse revisionismo à extrema-direita.
Esse revisionismo, impregnado nos manuais escolares, associado à propaganda anticomunista e antissocialista, porquanto constituírem a única alternativa ao estado capitalista (mesmo que não lhe chamem socialismo, o caminho alternativo passará sempre pela socialização e coletivização da propriedade, por oposição á sua liberalização e privatização), criou as condições, não apenas para a legitimação da ordem neoliberal, mas para a procura de alternativas onde estas não existem e em modos que favoreçam, mesmo assim, as oligarquias.
Dugin sabe bem – porque é muito inteligente – que não se pode esperar de Trump, de Meloni, ou de Le Pen, políticas de classe a favor dos trabalhadores, que se afirmem através da transição da riqueza produzida, das classes proprietárias para o trabalho. E Dugin sabe que, a distribuição de mais riqueza pelos trabalhadores, só pode encontrar-se do lado socialista.
Na Itália de Meloni, na Hungria de Orban, a vida do povo continua má. Na Rússia melhora, mas suportada numa imensa propriedade pública, dos sectores estratégicos, e de um potencial instalado e sabedoria histórica, herdados da URSS. Ou seja, com uma contribuição importante de duas coisas: maior grau de socialização da propriedade que possibilita impostos mais baixos mantendo serviços públicos; menor incidência do revisionismo histórico, pois Putin percebe o papel da URSS, mesmo não se identificando ideologicamente com esse papel. Mas, como homem pragmático e inteligente, consegue refletir nos aspetos positivos de muitas das políticas prosseguidas. A educação soviética, de grande qualidade, protege o povo russo do revisionismo do plástico ocidental. Estas relações materiais – tal como a concentração de riqueza a operar-se no Ocidente e cuja tendência na Rússia e China são inversas – são decisivas para se perceber a procura pelos “populistas” de direita.
Quanto ao estado profundo e às análises que faz, Dugin está correto noutra coisa: num sistema socialista não existe estado profundo, pois este afirma-se como é; mas num estado fascista, o estado profundo existe na mesma, na medida em que o sistema apresenta-se com uma cara que não é a sua. Basta ver como operavam, aqui em Portugal, os fascistas. Mas, mesmo assim, num estado fascista é mais fácil reconhecer o poder real.
A forma mais insidiosa, enganadora e alienante, a forma superior do sistema capitalista, é a neoliberal. Especialmente o americano, em que uma candidata a presidente necessita de teleponto nos discursos. E é escolhida apenas e tão só, por ser mulher, o que constitui um desprezo absoluto pelas mulheres e pela sua capacidade e dignidade. Quantas mulheres nos EUA seriam mais capazes de serem presidentes do que Kamala? E quantas estariam dispostas a serem fantoches do poder real? Nesse caso, Trump é mais honesto, é o que é, e pretende não enganar. É interessante que, o aparentemente mais autoritário dos dois, é o que, democraticamente está mais em linha com as pretensões de mudança e é o que mais reflete as ansiedades de mudança nos EUA. Mas podemos confiar nele? Claro que não. Não apenas pelo que é, mas pelos valores que representa. Nos EUA, este é o máximo a que se pode democraticamente aspirar, em termos de mudança.
Bernie Sanders tentou algo mais humanista, e logo lhe disseram os barões neoliberais que, para isso, preferiam votar Trump. Votar Trump era, para eles, preferível do que votar social-democrata. Está tudo dito. Esta “democracia” já não suporta, sequer, a tese da convergência, de que fala Dugin. Apenas admite a acumulação rápida, a pilhagem e a concentração.
Os povos terão de se organizar e procurar outros escapes e alternativas onde estas não existam. Não podem esperar grandes mudanças em sistemas eleitorais neoliberais, pois esses estão feitos para a casa ganhar. O máximo a que pode almejar, apenas na Europa e outros países pluripartidários, consiste em paliativos sociais democratizantes. Mas logo serão derrubados, apesar do seu sucesso económico (vide Portugal e agora Espanha). O problema desta gente não é se a economia cresce, mas para quem cresce.
Esta dimensão da organização das massas também nada diz a Dugin, que olha para a política numa perspetiva messiânica, de cima para baixo, em que as elites dominam a partir de cima as massas. O seu olhar não é, ele mesmo, democrático. Daí que, uma vez mais, venha o erro do totalitarismo socialista ou comunista. Desvios de direita em sistemas destes também existem, desvios autoritários, indisciplina e revisionismos. Contudo, nenhum destes sistemas nasce e cresce sem ter organização das massas populares em torno de um projeto e um partido que o aplique; mobilização das classes populares e aliados pela conquista do poder; proteção do poder pela força da maioria, isto é, pela força das massas populares, que conquistam as ruas, as empresas, os meios de produção.
Existe algo mais democrático do que um poder construído assim? Claro que não. Só as classes populares unidas vencem a oligarquia minoritária. A maioria vence a minoria e o terreno revolucionário constitui o mais democrático e transparente dos terrenos.
Aí, revelam-se todas as identidades. Na prática revolucionária e na sua análise concreta, não é possível esconder a ideologia. Basta analisarmos o PREC em Portugal e o papel que o PS teve. Se assumisse o papel, que dizia representar, democraticamente, o PREC teria vencido e as forças reacionárias teriam sido eliminadas. Hoje não teríamos uma classe patronal atrasada, reacionária e mesquinha. Na pior das hipóteses ter-se-ia constituído uma burguesia mais progressista e aberta. Ao invés, ficámos com as estruturas mentais do antigamente. Essa conquista teria sido amplamente democrática, porque suportada na maioria. O que vem depois da revolução são formas de exercício do poder, mas a fundação desse poder é profundamente democrática.
No nosso país, o papel do PS consistiu na rejeição dessa construção democrática e na legitimação, cobarde, insidiosa, do poder reacionário instituído. É por isso que, hoje, 50 anos depois, temos um Chega ou uma IL. Na era liberal, em Portugal, na revolução francesa e americana, também o poder fundacional era democrático. A degeneração democrática deste sistema dá-se porque o capitalismo em que assenta o poder da burguesia, então aliada às classes populares através de promessas de liberdade, igualdade e fraternidade, acaba a subverter a democracia e a promover uma anormalidade e irregularidade democráticas, que favorece a reação.
Engels falou disto e Marx também. A irregularidade democrática em que vivemos (escolha superficial sem projeto; figuras sem projeto e sem vontade própria; partidos que governam com minorias parlamentares suportados no poder da elite; admissão de partidos fascistas e racistas; ataque à igualdade de tratamento na comunicação social) favorece a extrema-direita e os populismos reacionários e demagógicos.
A regularidade democrática, as regras claras, o jogo transparente, protege os revolucionários e os progressistas. Dugin também não foca este aspecto, de que Engels e Marx falaram a respeito da Comuna de Paris. E não fala destas coisas porquê? Porque não é um materialista. Dugin é uma espécie de hegeliano, que não rejeita a dialética, mas apenas a vê no espírito e na matéria. E como tal, adota uma posição messiânica, atribuindo mais importância às figuras do que às relações materiais subjacentes.
Não obstante, o artigo é excelente e tem um enorme potencial para nos fazer pensar e questionar. Não estar de acordo não significa não reconhecer a qualidade da análise. Apenas não me identifico com os pressupostos. Mas quem sou eu para criticar Dugin?
Muito se tem falado sobre a crise no Ocidente e, em especial, na União Europeia. O discurso tem-se concentrado sobretudo na crise energética, militar, social ou migratória. Contudo, estas crises são resultado de um mal muito mais profundo, representativas, sobretudo, da vitória da ignorância sobre o conhecimento, do individuo sobre o colectivo, do económico sobre o social.
Ao contrário do que muitos possam pensar, é nos próprios países ocidentais que a pilhagem neoliberal, operada pelas oligarquias ocidentais, mais se tem intensificado. Podemos mesmo dizer que esta pilhagem aumenta à medida que diminui a dos povos da maioria global.
Mas, para infelicidade dos que aí residem, esta dicotomia vais mais longe: quanto mais alertados estão os povos, da maioria global, para o caracter predatório da oligarquia ocidental, menos conscientes estão, os povos ocidentais, das razões, pelas quais, se agravam as suas condições de vida. Os povos ocidentais estão em contraciclo com os povos da maioria global, em todos os sentidos. À medida que os segundos ganham consciência de si, os primeiros tornam-se cada vez mais inconscientes do seu ser, alienados que estão das suas raízes, culturas, famílias, comunidades…
Vector fundamental para a produção desta inconsciência, traduzida na incapacidade crítica e analítica crescentes, por parte das populações ocidentais, tem sido, precisamente, a área da educação.
A degradação dos sistemas públicos de educação, não apenas constitui uma das características mais repugnantes, por parte dos sistemas que sucumbem ao reaccionarismo e revisionismo histórico e científico, como constitui, também, o motor desse processo reaccionário.
Portanto, não foi surpresa, para os mais avisados, que um estudo da EDULOG, um Think Thank da Fundação Belmiro de Azevedo (um dos principais multibilionários portugueses já falecido, que pertencia à Forbes 500), tenha retirado, entre muitas outras, a seguinte conclusão: “A crise de falta de professores está a tornar-se sistémica em todas as economias da OCDE”.
Como razões para este drama, entre outras, o estudo aponta: “a degradação da imagem e estatuto dos professores; a fraca atractividade dos salários e das condições de trabalho; a falta de perspectivas de progressão e evolução na carreira profissional”.
Este estudo trouxe-me à memória (uma coisa criminosa no Ocidente) que – já em 2002, durante o governo de “sua eminência”, o Dr. Durão Barroso, ex-Primeiro Ministro de Portugal, Ex-Presidente da Comissão Europeia e homem de confiança da Golden Sachs -, se havia intensificado um processo de redução dos salários dos professores, mascarado sob a forma de “sistema de avaliação”, o qual, à boleia da introdução de um sistema de medição da qualidade do desempenho acabava a reduzir os salários e, principalmente, a progressão na carreira dos professores.
Eu pergunto-me porque razão o Professor Doutor David Justino, à data Ministro da Educação, não teve em conta o que lhe transmitiram os sindicatos dos professores da CGTP-IN (maior central sindical em Portugal). Nomeadamente, alertando para as consequências nefastas que o seu ataque teria para a escola pública, a profissão do professor e para os alunos. Vejam lá o que se teria poupado em estudos e políticas desastrosas.
Fossemos ingénuos e acreditaríamos que, à data, David Justino não poderia prever estas coisas, mas a ingenuidade que não temos, é proporcional à inexistência de espinha dorsal por parte de quem, um dia atacou os professores portugueses e, passados 22 anos, fez um estudo concluindo que as políticas que então defendeu, estão todas absolutamente erradas.
Os argumentos que hoje são conclusão deste estudo, foram, à data, esgrimidos contra o governo de Durão Barroso e de que fazia parte David Justino. É caricato pensarmos que, hoje, a União Europeia de Úrsula Von Der Leyen convida sindicatos e patrões europeus para celebrar um “Pacto Europeu para o Diálogo Social”, quando, repetidamente, desconsideram todas as propostas e argumentos, empíricos, científicos ou outros, que contrariam os seus planos de guerra, concentração de riqueza e supressão das soberanias, e com elas, das liberdades nacionais.
Como prova a história, o resultado de tão intenso “diálogo social”, entre sindicatos da educação e os sucessivos governos, consistiu na “elevação” do Secretário Geral da FENPROF (Federação Nacional dos Professores), Mário Nogueira, a inimigo público número um, um dos ódios predilectos da oligarquia dominante. De cada vez que alertou para o facto de que a destruição do estatuto dos professores resultaria numa destruição a escola pública, o exército de comentadores e jornalistas de serviço, acusaram-no de “corporativismo” e de apenas se importar com os professores. Faz lembrar os EUA quando acusam os outros de fazerem, ou quererem fazer, tudo o que eles já fizeram, querem continuar a fazer e querem ser os únicos a poder fazer. O oportunismo excepcionalista constitui uma das mais odiosas expressões do supremacismo neoliberal norte americano.
Hoje tão preocupada com as “competências”, Ursula Von Der Leyen até se esquece que é parte da organização, que integrou a maldita Troika governativa (FMI, BCE e EU), que se seguiu à crise de 2008, introduzida em Portugal pela mão de um governo do Partido Socialista (só de nome, sendo um partido liberal social) e continuando a todo o gás, com um governo do Partido Social Democrata (só de nome, é neoliberal puro e duro), coligado com o partido do Centro Democrático Social (só de nome, sendo um partido da oligarquia mais reaccionária e nostálgica do fascismo), que prometiam “ir além da Troika”, produzindo uma espécie de choque neoliberal ao modo Chileno ou Argentino. Tudo isto com o beneplácito de Durão Barroso, então já Presidente da comissão Europeia.
Foi neste período que se assistiu a um abrupto desinvestimento nos gastos públicos com a educação. Dizer que este cenário é decalcado do que sucedeu nos EUA e Reino Unido, seria redundante. Seria não se perceber que factores políticos provocaram tal situação e de onde foram importados.
Mas se existe coisa que este estudo, tal como todos os estudos do tipo, nunca fazem, consiste em fazer a ligação entre estes resultados desastrosos, em matéria de política pública, e as teorias económicas que o ocidente exporta e quer impor, através do FMI, Banco Mundial e BCE, a todo o mundo. Não admira que muitos olhem para o que se passou em Kazan na semana passada, como um evento histórico. Afinal, se existe algo comum a todos esses países, consiste na tentativa de afirmarem a sua soberania económica, política e social, rejeitando o “paraíso” liberal (ou neoliberal) idealizado por Fukuyama.
Pelas razões apontadas, olhar para as conclusões deste estudo é como sofrer um déjà-vu, revivendo numa fracção temporal mínima todas as horas, dias e anos de combate político aceso, por parte de todos os que – como eu próprio – se opuseram (e opõem), de forma veemente, ao neoliberalismo, ao consenso de Washington e às charlatanices que, mascaradas de discurso tecnocrático, alegadamente pragmático e extirpada de cientificidade, mais não visaram do que desviar enormes quantidades de recursos – produzidos pelo trabalho – para a oligarquia dominante, com resultados nefastos para a própria normalidade democrática, hoje ameaçada pelo retorno do fascismo e do nazismo.
Já em 2015, aponta o estudo, um grupo de investigadores (Padhy et al., 2015) concluiu que a probabilidade de se escolher a profissão “aumenta com a percepção de ser uma carreira agradável, com bom ambiente de trabalho, colegas que colaboram e com quem se estabelecem boas relações profissionais, ter uma garantia de emprego com contratos de longo prazo”.
Acresce ainda que, “mais recentemente, um estudo alargado e desenvolvido em vários países (BCG, 2023) identificou as características mais valorizadas num emprego: emprego estável, com um bom equilíbrio entre vida pessoal e trabalho; um horário de trabalho fixo e que não se arraste pelos fins de semana; um salário compatível com as habilitações e possibilidade de evoluir na carreira; possibilidade de negociar condições adaptadas à situação individual, incluindo adaptação de horários de trabalho, períodos de férias e planos de reforma”.
Perante tais conclusões, chegou o momento de sermos jocosos: quem diria que as pessoas, os trabalhadores, querem estabilidade, salários adequados, horários fixos e não muito extensos, progressão na carreira e capacidade de negociação, férias e bons planos de reforma? Eu questiono-me sobre quantos estudos são necessários, quantos biliões de euros terão de ser gastos, quantos Think Thank de bilionários têm de ser fundados, para se chegar a esta “brilhante” conclusão. Seja para os professores ou para todos os trabalhadores, em geral.
Vale a pena questionar onde se enquadram as políticas de desregulação do mercado de trabalho, destruição da contratação colectiva, defesa da precariedade laboral e da flexibilidade do horário de trabalho. Onde se enquadram então as propostas de “contenção dos custos laborais” e “promoção da mobilidade laboral”, como encontramos, de forma repetidamente doentia, nos compêndios normativos da EU, da Reserva Federal, do BCE ou do FMI.
Numa era em que o ocidente, e a europa em particular, se debate com graves problemas de mão de obra, envelhecimento populacional e enceta uma corrida por recursos humanos, apenas para conter salários; numa época em que se desenvolve, instrumentos como a Inteligência Artificial e torna-se possível produzir em maior quantidade, com melhor qualidade, em muito menos tempo e consumindo menos recursos ainda; nesta época, em que tanto se fala de quarta revolução industrial, automação e digitalização; poucos, muito poucos, defendem que toda esta inovação, este aumento brutal da produtividade, a que se acumulam os subsídios estatais que faltam aos serviços públicos e o desagravamento fiscal para a oligarquia dominante, todos estes factores resultando, eles próprios, do trabalho, devam de reproduzir-se na melhoria das condições de vida, de quem deu vida a tais recursos..
Ao invés, as mesmas vozes que calam a conferência de Kazan, que escondem o descalabro do regime de Kiev, que nos contam que a Federação Russa e esse “maléfico” Vladimir Putin, querem conquistar a europa toda; as mesmas vozes que calam, consentem e são cúmplices do genocídio palestiniano; são as mesmas vozes que, apesar de todas as evidências, empíricas e científicas, continuam a considerar que a solução passa por intensificar ainda mais as medidas que tanto falham.
Louve-se, contudo, que o estudo da EDULOG vem, pelo menos, dizer que os governos devem evitar fazer, o que afinal têm feito em toda a linha: “Baixar (e desregular) a qualificação dos docentes; alargar o horário de trabalho dos professores; aumentar o número de alunos por turma”.
Ao mesmo tempo que, para os professores (poderia ser para qualquer outro profissional) os estudos científicos dizem que não se devem “baixar as qualificações” de acesso, a União Europeia, ansiosa por captar mão de obra migrante e, ainda mais ansiosa, por poupar na sua integração e qualificação, adopta, ao invés de uma agenda para as qualificações, para a valorização das profissões ou do trabalho, opta antes por uma “Agenda para as Competências”. Não pensem que é despiciendo ou se trata de um acaso. O objectivo é bem claro. Uma vez, trata-se de flexibilizar e desregular qualificações e profissões.
Para libertar os sistemas nacionais de qualificações da necessidade de investirem em processo de educação e formação mais estruturados, de maior duração, mas com maior amplitude de conhecimentos e competências, resistindo mais tempo à obsolescência e à desactualização e possibilitando um maior leque de escolhas profissionais, a EU vem promover a atomização do sistema de qualificações, com vista a reduzir o investimento com a formação estrutural dos indivíduos, promovendo uma lógica de formação de curta ou curtíssima duração, mas sem o suporte de competências chave essenciais para o desenvolvimento pessoal, social e profissional (literacia, numeracia, pensamento crítico, competências digitais…). Uma vez mais, dos EUA importam-se então coisas como as “micro-credentials”, tentando reproduzir no espaço europeu, todos os cancros educacionais e formativos que se observam no centro imperial.
Coincidentemente, é o próprio estudo da EDULOG que nos diz que EUA e Reino Unido, não apenas já sofrem, com agudeza, o problema da falta de professores, como não o conseguem resolver.
Quando me recordo, nos idos anos 80 e 90, sobre o papel que os meus professores tiveram na minha vida, nunca me esqueço que os professores eram um pilar fundamental do nosso desenvolvimento individual e social. Era absolutamente impensável, para mim ou um colega meu, falar mal, de forma gratuita, de um professor.
A crise no sistema de educação ocidental é, sobretudo, reflexo de uma crise moral e éticas profundas. As brilhantes, mas banais conclusões a que este estudo chegou- este e muitos outros –, pecam por tardias, pecam, sobretudo, por anacronia. A experiência histórica, o conhecimento científico e os instrumentos de análise permitiam em 1989 (ano da celebração do consenso de Washington), como hoje, perceber o quão erradas estavam aquelas propostas políticas. Não faltaram avisos, críticas e análises fundamentadas sobre as reais intenções e as falácias montadas para deturpar a realidade e justificar o movimento ilusório. Todas foram e são secundarizadas, quando não perseguidas e ostracizadas.
No máximo dos máximos faz-se como faz este estudo: nunca ligam as causas e as conclusões à vivência política. Fazê-lo, dizem, é “ideologizar”, não o fazer é “pragmatizar”. E assim se justifica e branqueia a candidatura e eleição, mesmo que precária e democraticamente pouco representativa, de todos os que defendem o erro e, mais grave ainda, a sua continuidade e aprofundamento.
Décadas de testes americanos – de escolha múltipla – em que se diz ao aluno o que pensar, ao invés de o fazer pensar por si mesmo, de burocratização e mercantilização do ensino, ataque à escola pública e destruição do estatuto individual e colectivo do professor, foram os veículos usados pelo neoliberalismo para conseguir o que o fascismo fazia com o analfabetismo: convencer o povo de que os seus interesses eram, na realidade, os interesses da oligarquia que o oprime.
Para o conseguir, retirou-se dos programas de ensino o desenvolvimento e utilização de um instrumento cognitivo essencial para qualquer ser humano: a análise dialéctica, ou seja, a capacidade de analisar a realidade em movimento e como parte de um processo histórico. Fazendo-o, conseguiram apresentar uma versão histórica unicista e unificadora, a versão liberal. A história tinha acabado e era importante transmitir esse facto, fazendo acreditar que, não apenas era impossível outra realidade, como não era sequer desejável. Para tal diabolizaram-se todas as experiências indesejáveis e perigosas para a oligarquia. Hoje, quando se assiste ao fenómeno BRICS, os EUA apresentam-no como uma espécie de “união das autocracias”. Trata-se de um elogio, um elogio dito pelo medo, o medo de ficarem para trás.
Neste mundo neoliberal, para chegar ao topo, o fundamental é saber operar, mas não pensar. Stoltenberg não soube responder à questão de quantas invasões a China tinha praticado nos últimos 40 anos ou de quantas bases possui no estrangeiro; o Ministro da Defesa de Portugal, Nuno Melo, não sabia o que queria dizer a sigla NATO, chamando-lhe Tratado do “Atlético” Norte; Von Der Leyen acreditava que a Rússia retirava semicondutores de máquinas de lavar…).
Num mundo em que o conhecimento é pernicioso e perigoso para a oligarquia dominante, não admira que não existam professores suficientes. Não admira que a sua imagem tenha sido degradada e destruída, afastando os jovens dessa profissão.
Não admira que o ocidente seja o mundo do populismo, das fake-news, da pós-verdade, das revoluções coloridas, das vitórias eleitorais contestadas, dos golpes de estado judiciais e da alternância sem alternativa. Neste quadro, o professor torna-se uma personagem, não apenas redundante, como indesejada. O professor da escola pública, que se organiza e organiza os alunos em turmas, que transmite, pensa e faz pensar, é persona non grata.
Num sistema que promove o individualismo e o narcisismo, em que os heróis são os que enriquecem à custa de bilionários contrato públicos, o professor constitui, ainda e apesar de todas as limitações, um elo social precioso, ainda representativo da nossa conexão social, podendo conferir-lhe coesão e sentido de unidade.
Neste sentido, a destruição da sua imagem, do seu estatuto, é consequência inevitável da aceleração e intensificação do processo neoliberal, um sistema que vive precisamente do isolamento, solidão e desconexão social. O professor, enquanto elo de ligação entre seres de uma comunidade, é triturado por um sistema que sonha ver-nos aprender sozinhos, ligados a um ecrã e apenas comunicando pelo tempo estritamente necessário e sem conexão real, emocional.
Como qualquer fascismo, também o neoliberalismo tem ódio ao grupo, ao nosso ser social e colectivo, à civilização que a existência colectiva importa. “Em 2018, já mais de metade dos países da UE reportavam falta acentuada de professores”. A violência e o sentimento de desagregação social a que se assiste no ocidente, tem muito a ver com esta aniquilação do estatuto do professor.
Não é possível viver numa sociedade civilizada, que valorize o conhecimento e a sabedoria, e ao mesmo tempo, promova o neoliberalismo, o imperialismo e a hegemonia. A sua sobrevivência depende da destruição do sistema público de educação e das suas componentes fundamentais: a turma, o grupo, a escola e o elo que liga tudo isto, o professor.
Torna-se, portanto, imperioso para o neoliberalismo, “matar” a figura do professor, para melhor dominar e chegar ao aluno. Eis o que se esconde por detrás da destruição da escola pública! No final, basta apresenta-lo como uma consequência inesperada, prometer que se vai mudar, e tudo fica como está. “Democraticamente” imóvel, em degradação constante até final.
Com a destruição do professor, o ocidente neoliberal destrói algo mais importante ainda: a consciência de nós próprios!
O individualismo extremo consiste na inconsciência mais absoluta.