Ucrânia, o campo de treino militar para a extrema-direita mundial

(Ricardo Cabral Fernandes, in Público, 21/06/2020)

(Podem perguntar porque publico um artigo de 2020. Porque, nessa altura, a comunicação social podia dizer a verdade sobre a Ucrânia, mostrá-la como o regime nazi e antro da extrema-direita que é, e hoje esconde tudo isso dos olhos dos cidadãos, para que o Governo possa continuar a mandar armas e milhões para Zelensky sem sofrer a censura dos portugueses. Portugueses que, talvez a maioria, ignoram a gente corrupta e sanguinária que andam a apoiar.

Muitos mesmo, sujeitos que tem sido a sucessivas lavagens ao cérebro, até julgam que os nazis estão na Rússia, quando um dos principais objetivos desta é “desnazificar” a Ucrânia. Que leiam o artigo e que, em consciência e honestamente, tirem as inerentes conclusões e fiquem a saber, sem sombra de dúvida, quem andam a apoiar.

Estátua de Sal, 05/03/2025)


A Ucrânia tornou-se para a extrema-direita o que a Síria foi para o Daesh. Militantes recebem treino, melhoram tácticas e técnicas e estabelecem redes internacionais, e depois regressam aos seus países. Milhares de estrangeiros combateram em milícias contra os separatistas pró-russos no Leste do país.


A Ucrânia é hoje um dos principais pólos de atracção para a extrema-direita internacional e quase quatro mil estrangeiros de mais 35 países já receberam treino e combateram nas fileiras de milícias na Guerra Civil Ucraniana. Uma delas, o Regimento Azov, transformou-se num alargado movimento, criou um Estado dentro do Estado ucraniano, estendeu tentáculos por toda a Europa e quer criar uma Legião Estrangeira ucraniana.

“Olho para a Ucrânia como o local onde a extrema-direita pode adquirir treino, capacidades militares e partilhar ideias. É, de muitas formas, para a extrema-direita o que o Daesh conseguiu na Síria”, disse ao PÚBLICO Jason Blazakis, investigador associado no Soufan Center e director do Centro sobre Terrorismo, Extremismo e Contraterrorismo, na Califórnia, Estados Unidos. “A Ucrânia é a porta das traseiras para a União Europeia no que à extrema-direita diz respeito, e a ameaça é muito grande. Os indivíduos recebem treino nos campos de batalha ucranianos e depois regressam aos seus países de origem”.

Uma situação que o relatório White Supremacy Extremism: The Transnational Rise of the Violent White Supremacist Movement, do Soufan Center e publicado em Setembro de 2019, classifica como preocupante. “Tal como os jihadistas usaram conflitos no Afeganistão, Tchetchénia, Balcãs, Iraque e Síria para melhorarem as tácticas, técnicas e procedimentos e solidificarem as suas redes internacionais, também os extremistas de direita estão a usar a Ucrânia como laboratório de campo de batalha”, lê-se no documento.

terrorista responsável pelo massacre em duas mesquitas de Christchurch, na Nova Zelândia, em Março de 2019, estava bem integrado na extrema-direita mundial e o colete balístico que envergou no atentado tinha o símbolo do sol negro, popularizado pelo Regimento Azov. No manifesto, intitulado A Grande Substituição, que escreveu para justificar o massacre, o terrorista disse ter visitado a Ucrânia. Não tardaram a surgir suspeitas de que terá estado com o Azov pouco depois de ter sido criado, em 2014, apesar de a milícia ter negado ter tido qualquer contacto com ele.

Meses depois do massacre que matou 50 muçulmanos, o manifesto foi traduzido para ucraniano por militantes neonazis de uma organização com ligações ao Azov, a Wotanjugend, noticiou o site de investigação Bellingcat. Milhares de cópias foram impressas e houve milicianos, cuja filiação se desconhece, que posaram para fotografias com exemplares nas mãos.

Jason Blazakis: “A Ucrânia é a porta das traseiras para a União Europeia no que à extrema-direita diz respeito, e a ameaça é muito grande” Pierre Crom/Getty Images

O massacre de Christchurch chamou a atenção para os riscos que a extrema-direita na Ucrânia representa para a Europa e EUA, seja por causa de possíveis atentados terroristas cometidos por pequenas células ou “lobos solitários” ou por, ao regressarem aos seus países, criarem ou fortalecerem as suas organizações de origem – as organizações terroristas neonazis The Base e Attomwaffen Division queriam e já têm ligações estabelecidas com o Azov, respectivamente, para receber treino. No Ocidente, o terrorismo de extrema-direita é hoje mais significativo do que o jihadista.

A realidade é ainda mais preocupante se se tiver em conta o número de combatentes estrangeiros identificados no mesmo relatório que já lutaram na guerra que opõe o Estado ucraniano aos separatistas pró-russos: um total de 17.241. Destes, 3879 estrangeiros, dos quais 879 de 36 países — Suécia, Estados Unidos, Israel, Itália, Dinamarca, Alemanha, França e até Portugal — estiveram nas fileiras de milícias que combatem do lado ucraniano. A maior fatia (3000) provém da Rússia, uma vez que o movimento neonazi russo se dividiu entre apoiar ou combater o que dizem ser o imperialismo da Rússia.

Voluntário da milícia Azov durante um acção de treino em Urzuf, arredores de Mariupol, em 2015 Marko Djurica/Reuters

E, no que a Portugal diz respeito, pelo menos um português combateu num dos batalhões do Corpo de Voluntários Ucranianos, da organização de extrema-direita Sector Direito. “Há dois anos [2018], descobri um cidadão português que participou em combates, por dois a três meses, nas fileiras do Corpo de Voluntários Ucranianos”, disse ao PÚBLICO o investigador que recolheu os dados do relatório, sem conseguir, no entanto, dar mais pormenores sobre a sua identidade.

Porém, a grande maioria de combatentes europeus de extrema-direita juntou-se aos separatistas pró-russos contra os militares e milicianos ucranianos (13.372, dos quais 1372 russos).

A estimativa de combatentes que já passaram pelas milícias ucranianas foi feita através de fontes abertas, ou seja, fotografias e comentários em fóruns e redes sociais, não se descartando a possibilidade de os números serem bem maiores, como ressalva o documento. Mas como se chegou a esta situação?

Azov nasce com a guerra

A extrema-direita ucraniana já tinha saído das margens da política quando a Revolução EuroMaidan, contra o Presidente ucraniano Viktor Ianukovich, tomou as ruas de Kiev em 2013. Ianukovich, aliado do Presidente russo, Vladimir Putin, foi deposto e, pouco depois, em Março de 2014, Moscovo anexou a Crimeia e apoiou os separatistas de Donetsk e Lugansk, dando início a uma guerra que ainda hoje se arrasta e que já causou mais de 13 mil mortos, entre os quais muitos civis, e milhares de deslocados.

Com o Exército ucraniano sem capacidade para combater os separatistas, o então recém-eleito Presidente ucraniano, Petro Poroshenko, apelou a voluntários que pegassem em armas contra a ameaça russa. Assim o fizeram, e em massa: foram formados entre 30 e 40 batalhões de voluntários para combater os separatistas.

Um dos homens por trás deste esforço foi o oligarca Ilhor Kolomoiski, um dos dois homens mais ricos da Ucrânia e a sombra do Governo de Poroshenko e, agora, do de Zelensky. Em 2014, rompeu com a discrição que o caracterizava e saiu em defesa da Ucrânia, dando entrevistas e financiando vários batalhões, entre os quais o Azov, o Dnipro 2, o Shakhtarsk e o Poltava. E, em Abril do mesmo ano, prometeu uma recompensa de dez mil dólares (nove mil euros) a quem capturasse um mercenário russo.

Ilhor Kolomoiski Valentyn Ogirenko/Reuters

Com o arrastar da guerra, Kolomoiski passou a usar os paramilitares que financia quase como exército privado, para obter dividendos políticos, entrando em choque com o actual Presidente ucraniano. “Os empresários precisam destes grupos como apoio físico, por ser muito mais fácil controlarem as suas estruturas empresariais. Os grupos de extrema-direita são parte deste mercado a favor dos grandes empresários”, disse ao PÚBLICO Viacheslav Likhachev, politólogo ucraniano especialista na extrema-direita do país.

Uma das pessoas que responderam ao apelo de Poroshenko e recebeu dinheiro do oligarca Kolomoiski foi Andrii Biletski, líder do antigo partido neonazi Patriotas da Ucrânia, com a criação do então Batalhão Azov a 5 de Maio de 2014 — transformou-se depois em regimento e está em vias de se tornar divisão, apesar de ainda não ter militares suficientes (10 mil). A proeminência de Bilitski foi tanta que chegou a ser deputado entre 2014 e 2019, primeiro como independente e depois pelo braço político do Azov, o Corpo Nacional.

Andriy Biletsky, ex-deputado e líder do partido de extrema-direita Corpo Nacional durante uma manifestação em Kiev contra a corrupção, em Março 2019 Sergei Chuzavkov/SOPA Images/LightRocket via Getty Images

Os milicianos, com pouco treino, foram para as linhas da frente e as baixas tornaram-se incomportáveis, ao enfrentarem separatistas bem treinados e apoiados por Moscovo. A unidade paramilitar foi então integrada por Poroshenko na Guarda Nacional ucraniana a 12 de Novembro de 2014, no que foi visto como tentativa de a manter sob controlo e meio para lhe fornecer armamento militar topo de gama, fornecido pelos Estados Unidos (em 2018, o Congresso aprovou uma lei a proibir que material militar chegasse ao Azov, sem se saber como é aplicada na prática), União Europeia (não-letal, como coletes balísticos) e Canadá. Até Israel permitiu a produção da sua arma padrão, a Tavor-21, em fábricas ucranianas, acabando por chegar às mãos dos neonazis — o Azov tinha no seu site, na parte dos apoios, o logótipo da empresa israelita que detém a patente da espingarda de assalto.

Hoje, o Azov dispõe de artilharia, blindados e infantaria, e até de campos de treino. O principal está localizado em Mariupol, no Sul da Ucrânia, na costa do mar de Azov, e lá são treinados os combatentes estrangeiros que respondem ao apelo para pegarem em armas em seu nome — a milícia fê-lo pouco depois de ser criada. Em 2015, os estrangeiros tinham um responsável que os seleccionava: Gaston Besson, mercenário francês que combateu no Camboja, Laos, Birmânia, Suriname e Croácia. Disse, na altura, que recebia centenas de contactos todos os dias.

FotoO mercenário francês Gaston Besson

O regimento evoluiu de simples unidade paramilitar para movimento em larga escala, ganhando espaço e legitimando-se junto da sociedade, por os seus combatentes serem apresentados como heróis que enfrentam o expansionismo russo. O Azov é uma grande organização de extrema-direita que se descreve como Movimento Azov e responde a um único líder: Andrii Biletski. O movimento inclui várias organizações: o Regimento Azov, o partido Corpo Nacional, o movimento de rua Milícia Nacional, a Irmandade dos Veteranos, etc.. E tem outras na sua órbita de influências, muitas das quais neonazis, como a WotanJugend.

Os paramilitares têm uma forte presença nas redes sociais, várias revistas e uma rádio e, sempre que um camarada de armas é morto em combate, organizam cerimónias com tochas e parada militar.

Infiltração no aparelho de Estado

O Movimento Azov infiltrou-se no Estado ucraniano e é hoje indissociável dele. Recebe milhares de euros em financiamento para programas de incentivo ao patriotismo direccionado à juventude (crianças com nove anos recebem treino militar, por exemplo), apoio político e militar. E essa infiltração é mesmo reconhecida pela secretária do Departamento Internacional do Corpo Nacional, Olena Semeniaka. “Em apenas quatro anos, o Movimento Azov tornou-se um pequeno Estado dentro do Estado”, escreveu a dirigente no Facebook a 29 de Outubro de 2018.

O ministro do Interior de Poroshenko e do actual Presidente é acusado de ser um dos responsáveis pela crescente influência neonazi no aparelho de Estado ucraniano. Arsen Avakov tem beneficiado da unidade paramilitar para defender os seus interesses — apresenta-se como indispensável para a controlar e fez recentemente uma aliança com o multimilionário Ilhor Kolomoisky, que tem tido fricções com Zelensky — e sai em defesa dos milicianos sempre que são alvo de críticas pelo seu cariz neonazi. Zelensky também o faz, ainda que mais timidamente, e chegou até a condecorar os paramilitares do Azov por actos de bravura na linha da frente, ao mesmo tempo que se reúne com as suas altas patentes.

Activistas do partido Corpo Nacional durante uma manifestação a que chamaram “Marcha dos Esquadrões Nacional”, em Março de 2019 Pavlo Conchar/SOPA Images/LightRocket via Getty Images

O Azov tem neste momento tanto poder que chega a rejeitar as ordens do chefe de Estado quando não concorda com elas, no que já é visto por analistas como uma ameaça ao próprio Estado ucraniano. No final de Outubro, o comandante supremo das Forças Armadas ordenou o recuo das tropas ucranianas de Zolote e de duas outras cidades para aumentar a distância entre as linhas da frente — eram de 30 metros, distância de arremesso de uma granada de mão — e evitar as constantes escaramuças e violações de cessar-fogo. O líder do Azov não gostou e ameaçou enviar dez mil voluntários para Zolote, para “defender as posições conquistadas com sangue”.

Publicamente desafiado, Zelensky foi à linha da frente para convencer os milicianos, mas acabou por os acusar de o considerarem um “tolo” e de lhe estarem a fazer um “ultimato”. Os milicianos mantiveram-se firmes e acabaram por ser desarmados por militares ucranianos e retirados da linha da frente, com a imprensa ucraniana a referir que se temia que a explosiva situação levasse ao derramamento de sangue.

Olena Semeniaka: “Em apenas quatro anos, o Movimento Azov tornou-se um pequeno Estado dentro do Estado”

Avakov teve um papel fundamental no desarmar da crise e, dentro do Governo, conquistou pontos, mostrando mais uma vez ser indispensável para a ordem interna. O seu poder depende daquilo a que a imprensa ucraniana diz ser um jogo duplo: apoiar as forças de segurança e militares e, ao mesmo tempo, os milicianos.

A 28 de Outubro de 2019, Avakov visitou o campo de treino da unidade em Mariopol para lhe mostrar apoio público e, dias antes, deixou claro que “a força especial Azov é uma unidade legal da Guarda Nacional ucraniana e os seus militares têm sido exemplares nas tarefas de combate desempenhadas na defesa da pátria”. “A campanha de informação sobre a alegada propagação de ideologia nazi entre os militares é uma tentativa deliberada para descredibilizar a unidade, principalmente entre os parceiros internacionais da Ucrânia, e provocar uma crise na relação com os nossos aliados”, continuou o ministro. Ao nível da comunicação visual, o Regimento Azov tem demonstrado recentemente um cuidado particular para não ser conotado politicamente.

Azov estende tentáculos à Europa

A anexação da Crimeia e o apoio ao separatismo no Leste da Ucrânia dividiu a extrema-direita europeia a favor de Moscovo. A maior parte dos grupos viu nas acções militares de Putin, promovidas por um dos seus mais próximos conselheiros e ideólogo de extrema-direita, Aleksandr Dugin, uma oposição ao atlanticismo ocidental, isto é, aos Estados Unidos, à NATO e à União Europeia. A francesa União Nacional e a italiana Liga continuaram a apoiar a Rússia – por seu lado, o Chega já assumiu no Parlamento a defesa da Ucrânia com um voto de condenação da agressão russa, e foi por isso elogiado pelo Movimento Azov.

Com a frente de batalha a ser-lhe desfavorável, a extrema-direita ucraniana viu-se isolada no palco internacional e o Azov não perdeu tempo a tentar inverter a situação, conseguindo-o com relativo sucesso. Em 2013, três militantes ucranianos de extrema-direita criaram a Misanthropic Division (MD), uma rede internacional neonazi, com o objectivo de estabelecer um Estado etnonacionalista no país da Europa de Leste. No entanto, a partir de 2015, por causa da guerra com a Rússia, a rede passou a promover a causa ucraniana e a recrutar combatentes internacionais para as fileiras do Azov — a MD ainda hoje se mantém activa, principalmente na Ucrânia.

Membros da Misanthropic Division

Por outro lado, o braço político do Azov, o Corpo Nacional (antes Corpo Cívico), montou uma campanha internacional de sensibilização sobre a ameaça russa e uma rede internacional cuja responsabilidade coube a Olena Semeniaka, seguidora de Dugin até à anexação da Crimeia e que viaja recorrentemente pela Europa participando em conferências — esteve em Portugal em 2018 a convite do Escudo Identitário, organização neofascista portuguesa inspirada no italiano CasaPound.

As acções de propaganda e o estreitar de ligações protagonizados por Semeniaka começaram na Europa Central e de Leste e, depois, foram alargados a países europeus mais distantes: Itália, Portugal, Noruega, Suécia e Reino Unido.

E, ao mesmo tempo, organizou eventos políticos na capital ucraniana: as conferências PanEuropa, em 2017 e 2018 em Kiev, e o projecto político Intermarium Support Group, um grupo de apoio fundado em 2016 por Biletskii que se baseia num conceito geopolítico alternativo ao atlanticismo e cujas raízes históricas vêm do pensamento do polaco Jósef Pilsudski, do período entre guerras mundiais. O conceito, apropriado pela extrema-direita, defende uma estratégia de segurança focada no “etnofuturismo” e visa integrar países do Báltico ao mar Negro numa aliança regional — foi a resposta do Azov ao sentimento de abandono da Ucrânia pelo Ocidente.

Voluntários da Batalhão Azov numa manifestação em Kiev Vladik Musienko/NurPhoto via Getty Images

O Azov convida para estas palestras teóricos da extrema-direita, entre os quais o norte-americano Greg Johnson (deportado da Noruega em Novembro de 2019, por elogiar o terrorista Anders Breivik, falhando um voo para Portugal, onde vinha assistir a uma conferência no Iscte-IUL sobre imigração e extrema-direita) e líderes políticos, focando-se, no caso do Intermarium, nos países que fariam parte da desejada aliança.

Esses contactos internacionais têm também como objectivo a formação de uma Legião Estrangeira Ucraniana. “Os voluntários estrangeiros começaram a juntar-se ao Batalhão Azov em 2014-2015. Assim, quando o Partido Corpo Nacional foi fundado, a orientação política sobre a criação de uma Legião Estrangeira Ucraniana – o nosso sonho em comum – foi inserida no nosso programa político”, lê-se numa publicação de Facebook do Intermarium Support Group em que anunciou que a IV conferência da organização, em Zagreb, na Croácia, “promete levar a cooperação a outro nível”.

O Regimento Azov já é membro honorário da organização de veteranos Francopan, que coopera com a Legião Estrangeira Francesa. “Para esta organização [o Azov], a cooperação sinergética comforças armadas estrangeiras não tem precedente”, continua a mesma publicação de 23 de Junho de 2019.

Artes marciais para recrutar

A violência sempre foi uma característica da extrema-direita e o militarismo e as artes marciais os escapes. Com o sucesso das artes marciais mistas (MMA), os seus militantes viram um novo terreno onde se podiam implantar, prosperar e, mais importante, recrutar. E, pelo meio, tecem ligações internacionais através de torneios em que participam lutadores dos Estados Unidos e Europa.

O Azov percebeu-o e agarrou essa oportunidade aliando-se a Denis Kapustin (conhecido por Denis Nikitin), um dos mais influentes militantes da extrema-direita europeia, cidadão russo-alemão e dono da marca desportiva White Rex. Nikitin dedicou-se em tempos a treinar militantes do britânico Acção Nacional, grupo neonazi banido pelas autoridades, e é o verdadeiro responsável pelo Reconquista Club, local onde o Azov organiza torneios em Kiev.

Denis Kapustin

“Se matarmos um imigrante por dia, são 365 imigrantes por ano. Mas dezenas de milhares chegarão de qualquer forma. Percebi que estamos a combater as consequências, não as causas. Agora combatemos pelas mentes; não nas ruas, mas nas redes sociais”, disse Nikitin ao The Guardian, em Abril de 2018.

Nikitin é o responsável por trazer lutadores dos EUA e da Europa para os torneios que organiza através de uma rede de ginásios em todo o continente europeu. Em França, organiza o Pride France desde 2013 em Paris, e o Day of Glory em Lyon, em parceria com o Blood and Honor, considerado grupo terrorista pela Europol. E desde 2015 que organiza o festival alemão Kampf der Nibelungen (entretanto banido pelas autoridades alemãs) e o grego Pro Patria, em parceria com antigos e actuais elementos do neonazi Aurora Dourada. Já em 2018 fundou o Shield and Sword, um festival de extrema-direita com um torneio de MMA.

As ligações de Nikitin estendem-se a todo o continente e chegam até aos russos do Fathers Frost Mode (FFM), que também organiza torneios de MMA — o Hammer of the Will, por exemplo. Nikitin e o líder do FFM, Max Savelev, são próximos — o segundo esteve em Portugal em 2018.

Mas há quem não tenha pudor em dizer que a Ucrânia pode ser uma base para os militantes de extrema-direita. No início de Maio, Bogdan Khodakovski, líder do grupo neonazi ucraniano Tradição e Ordem, próximo do Azov, apareceu num vídeo em directo no Instagram, em que Nikitin fez de tradutor, e disse que a “União Europeia tem de ser destruída”.

Membros do movimento paramilitar Azov numa manifestação em Mariupol, em 2015 Pierre Crom/Getty Images

“Estamos a apelar às forças na Europa: estamos prontos para vos dar uma base, um espaço seguro e avançar em conjunto com uma Cruzada contra Bruxelas, os liberais e os imigrantes”, disse Khodakovski, sublinhando “serem bem recebidos na Ucrânia para todo o tipo de treinos”. E vários foram os internautas que perguntaram “como posso fazer para treinar convosco na Ucrânia?”, tendo como resposta a sugestão de enviarem mensagens privadas.

Os dois líderes de extrema-direita anunciaram ainda no mesmo directo que a Tradição e Ordem vai abrir uma filial na Alemanha, para unir “eslavos e alemães” e “partilhar conhecimento teórico e prático”. Os contactos de MMA servem, assim, para estabelecer pontes e criar organizações com ligações à extrema-direita ucraniana, que lhes oferece treino militar. Transformado num grande movimento com enorme influência na Ucrânia, o Movimento Azov e seus aliados tornaram o país num farol para uma parte da extrema-direita.

Fonte aqui (Para que não venham dizer que a Estátua publica fake news).

Um pequeno passo atrás para Zelensky – um enorme recuo para os seus apoiantes

(António Gil, in Substack.com, 05/03/2025)

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E ao 4º dia Zelensky não ressuscitou, apenas pediu meia desculpa, disse que queria a paz e por isso assinaria o que se recusou a assinar 3 vezes. Assim sendo, a comédia continua mas já não é ele nem sua equipa amadora que escreve o guião.

Há danos colaterais e não me refiro aqui aos ingénuos que se apressaram a celebrar a ‘dignidade’ de Zelensky, esses não contam para nada. Oh sim, a sua rendição devolveu-o – e também aos líderes europeus, mais um canadiano – à sua estatura natural. Afinal, tanto barulho para nada!

Efectivamente, se era para acabar assim, mais valia todos eles terem-se poupado a tantas vergonhas e terem até – quiçá – rebobinado o discurso triunfalista como andaram 3 anos a debitar, 24 horas por dia, 7 dias por semana dizendo ‘agora é que a Rússia vai ver como elas lhe mordem’ Os imbecis do costume acreditariam e escusavam, todos eles, de passarem por mais uma depressão.

Isso seria porém pedir demais, é claro. É provável que ainda o façam, no entanto, agora que tudo se tornou muito claro porque o importante não é ganhar nem a guerra nem a paz mas convencer seus súbditos mais idiotas que no fim ‘os bons vão ganhar’, tal como acontece nos filmes.

No fundo, acredito, todos respiram de alívio porque ninguém queria de facto a continuação na guerra e certas bravatas, se fossem cumpridas, acabariam por precipitar a queda mais que certa dos patéticos ‘líderes’.

Mas isto vai deixar marcas. Para começar, Zelensky cederá a Trump o que já tinha cedido a Starmer. Macron, sentir-se-á despeitado, ainda mais que o britânico, já que nunca foi sequer convidado para comer tal bolo.

Meloni já disse que jamais enviaria soldados e Merz…bom que pode ele dizer? Ainda nem tomou posse e certamente sentiu-se feliz por Scholz ter de fazer o seu último passeio dos tristes, papel idêntico aliás, ao de Trudeau.

E assim, até a ‘famosa’ proposta de paz europeia ( com o Canadá a bordo) se desfez em fumo antes mesmo de ser apresentada a Trump que, de qualquer forma, nunca lhe ligaria nenhuma.

Fonte aqui.

Uma Europa parada no tempo e sem centralidade

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 02/03/2025)

(Este texto é longo, mas vale a pena lê-lo até ao fim. É uma brilhante e magistral lição de geopolíca e devia ser enfiado pela cabeça abaixo dos líderes europeus, Costas, Ursulas e companhia. Parabéns ao Hugo Dionísio.

Estátua de Sal, 04/03/2025)


A Europa, incapaz de abraçar o projecto euroasiático, divorciada de si e dos seus, inactiva e imóvel, como que parada no tempo, deixou que o fim da história dos EUA, se tornassem no seu próprio fim da história.


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A União Europeia está absolutamente devastada. Falta saber bem porque razão tal sucede. Há quem diga que é porque os EUA a abandonam, trocando a atenção que lhe davam, por uma atenção maior ao Pacifico e, em especial, à China. Há quem diga que, o seu receio está relacionado com a incapacidade de a União Europeia se defender das suas ameaças, leia-se, do arqui-inimigo das nações do centro europeu, concretamente a Federação Russa. Há quem diga, ainda, que o desespero tem causa na perda da liderança, o que é caricato: tanto falar de liberdade e, ao mesmo tempo, parecer ter medo de ser livre. A Europa tem medo de se libertar dos EUA e, perante essa possibilidade, sente-se abandonada.

Seja qual for, todas radicam numa só: a perda da sua centralidade. A União Europeia, tantas vezes confundida com “a Europa”, por quem não percebe o que é “a Europa”, está aterrorizada com a perda definitiva da sua centralidade. Apelidada de “Velho Continente”, a Europa ocidental habituou-se, durante séculos a fio, a ser sede e berço das mais avançadas ideias de civilização e receptáculo da pilhagem e sucção dos recursos mundiais. A “civilização” europeia terá representando, em termos de importância e nesse período, o que representaram as designadas civilizações da antiguidade.

Da Grécia antiga à Roma republicana à imperial, da França iluminista à Inglaterra liberal, acabando na Rússia socialista. A Europa foi berço de algumas das ideias mais transformadoras da história humana, as quais, com as contradições próprias de tudo o que é humano, levaram o mundo mais longe.

Da Europa vieram também as maiores desgraças deste tempo, da inquisição ao despotismo, do tráfico negreiro ao esclavagismo, do capitalismo selvagem, ao fascista ou nazi. Provando sempre que, em cada momento de acção, sonho e aventura, lhe correspondeu sempre a reacção, o pesadelo e a distopia. A Europa não seria o que foi, o que é, sem as duas faces da moeda, como nenhuma civilização, aliás. É da condição humana. Não podemos esquecer que os EUA hegemónicos e imperiais e a China socialista super-industrial, são também resultados concretos da influência europeia e das suas ideias centrais de civilização. Como se a cada um correspondesse um pólo oposto da disputa ideológica ocorrida na própria Europa.

Mas esta Europa, em especial a Europa ocidental, já nesta fase decadente, habituou-se, mesmo assim, a ser o centro das atenções, o centro do mundo, o mundo disputado. Se a China era conhecida como o império do meio, num outro período histórico, a Europa ocidental também o pretendeu ser. Na guerra fria, era na Europa ocidental que se vendiam as ideias de convergência de sistemas, aliando o liberalismo privado anglo-americano ao socialismo científico soviético, resultando numa mescla de socialismo utópico com capitalismo, a que chamámos de “social-democracia”, apenas porque não negava os principais direitos políticos aos ricos, permitindo-lhes a criação de partidos e a tomada do poder, através do uso do seu maior poderio económico. Hoje, temos à vista de todos em que resultou tal democracia, totalmente ancorada em partidos que representam os mais ricos, financiados por eles e muitos com “empresários” como representantes. Quando Jeff Bezos assume que no Washington Post só será publicada a sua opinião sobre “liberdade e mercado livre” e nenhuma outra, percebemos que a sublimação da democracia liberal, consiste na revelação das suas próprias limitações democráticas.

A Europa ocidental tentou e terá, nalgumas dimensões, conseguido, durante algum tempo, fazer a síntese da contradição entre uns EUA neoliberais, assumidamente individualistas, minarquistas e uma URSS colectivizada, socialista e muito centralizada. Entre uma visão individualista do “salve-se quem puder”, do “ganhador e perdedor” e a visão colectivista do “ninguém pode ficar para trás”. Foi o tempo da reformista social-democracia, ideologia que visou impedir a transição para o socialismo de todo o continente europeu. Para além de o continuar a fazer, actualmente a EU vê-se encerrada num fanatismo centrista e situacionista, como que ideologicamente imobilizada. É uma Europa agarrada ao acessório, para não mudar nas questões centrais.

Em bom dizer, a perda da centralidade europeia encontra tradução na obsolescência histórica da Europa com uma “economia social de mercado” conceito que se tornou redundante, face à emergência de uma China que consegue aliar uma direcção socialista a um mercado ultra-dinâmico e com amplas liberdades de iniciativa, não apenas encerradas na tradicional “iniciativa privada”. A perda da centralidade geográfica encontra paralelo na perda da centralidade ideológica. Quando ouvimos Von Der Leyen afirmar que a Europa tem uma “economia social de mercado”, o que assistimos é à passagem de um atestado de irrealizável idealismo, nada condicente, nem com as suas intenções, nem tão pouco com as intenções das forças que a suportam e, ainda menos, nada condicente com as necessidades actuais dos povos europeus, a quem foi roubado o sonho, a ideia de progresso e desenvolvimento permanentes, trocada por uma falácia chamada de “fim da história”, que celebra os “mercados livres” e a liberdade dos super ricos viverem à custa da produção de milhões de pobres.

É caricato que, em grande medida, o “fim da história” de Fukuyama, avidamente comprado pelas elites europeias, acabou por representar “o fim deste capítulo da história europeia”. Sem o perceberem, a celebração do fim da história, com a queda do bloco soviético, representou, também, o fim da centralidade ideológica europeia, o fim da sua virtude, o fim da relevância central das suas ideias. Neste novo mundo, a Europa nada tem para oferecer que não seja oferecido por tantos outros e de forma mais efectiva.

A Europa, a União Europeia, não perdeu apenas a sua centralidade, perdeu a sua relevância. A Europa deixou de fazer a síntese de dois opostos. Ao sucumbir ao neoliberalismo do consenso de Washington, a EU transformou o pólo central que representava, entre dois pólos opostos, num mundo de dois pólos apenas. Com dois pólos, a centralidade deixa de existir, passa a ser fisicamente impossível.

A perda da relevância ideológica acabou por desaguar na perda da relevância geográfica. Situada entre a Rússia czarista, primeiro, ruralista, atrasada, feudal, a URSS socialista, colectivizada e a Federação Russa com o capitalismo reconstituído, mas defensora veemente da sua soberania, fonte de recursos minerais, energia e alimentos, uma civilização que, nas suas várias reencarnações, estava mais virada para a sua vertente ocidentalista, europeísta, pretendendo ser aceite na elite das nações mundiais que constituíam a Europa ocidental, esta Europa tinha, a ocidente, uns EUA, muito concentrados na relação com a URSS, primeiro, e, mais tarde, ainda vivendo em modo de guerra fria, sobrevalorizando a “ameaça” russa e as suas capacidades militares. Uns EUA que ainda não haviam acabado a tarefa a que se haviam proposto quando fizeram colapsar a URSS. A tarefa era fragmentar todo aquele território.

Esta Europa que, de um lado tinha um amigo que dizia “não te juntes à Rússia, que eles são uma ameaça”, para tal alimentando e alimentando-se da ideia de permanente necessidade de corrida militar, olhando para o continente europeu como veículo e terreno de batalha de uma conquista de toda aquela fortuna em recursos naturais, e, de outro lado, tinha uma “ameaça” que, repetidamente tentava convencê-la de que era uma nação igual, uma nação europeia, como que tentando dizer “não me vejas como inimigo, quero ser teu amigo”, era, em resultado disso mesmo, uma Europa que representava o centro das atenções de duas das maiores potências mundiais, em torno das quais orbitava grande parte do mundo.

Se, nos EUA, esta Europa bebia as suas ideias neoliberais, o investimento estrangeiro directo, os capitais e atingia o maior mercado de consumo do mundo, na URSS, na Federação Russa, a Europa tinha a energia e recursos baratos de que necessitava para alimentar uma indústria competitiva, a nível mundial. Esses recursos de um lado e o mercado do outro lado do Atlântico, associados a triliões de capital acumulado em pilhagens da era colonial e neocolonial, permitiram à UE financiar o seu alargamento e estender por mais algum tempo ainda, a sua centralidade.

A atenção de dois pólos opostos permitia a continuação da sua versão sintética, da sua versão mediadora, da conexão entre dois mundos opostos. O facto de os EUA ainda verem na Rússia, uma versão da URSS, contribuía para esta centralidade. Esta posição, de uma certa independência – vejamos a posição de Schroeder e Chirac na guerra do Iraque – deu à Europa mais uns anos de vida como centralidade das atenções mundiais.

Mas haviam nuvens negras sob o céu europeu. Não se tratou apenas de não se proteger dessas nuvens, de antecipar a sua vinda e tomar as necessárias prevenções. Foi mais grave do que isso. A UE decidiu fazer de conta que não as via, primeiro, e, à medida que se aproximavam, já apanhada pela chuva intensa, decidiu dizer que fazia sol, quando a borrasca já nos congelava os ossos. Daí até cancelar quem à sua frente lhe aparecia molhado, foi um passo. Podemos discutir muito sobre as razões pelas quais esta ultra burocratizada União europeia, esta Comissão Europeia omnipresente e omnipotente, foi incapaz de ver, analisar e lidar com a tempestade que se aproximava. A resposta, penso, que pode ser encontrada num livro sobre a URSS, chamado de “Socialismo Traído”, que trata de forma objectiva e evidente, sobre as causas que levaram à queda do bloco soviético e que radicam na cooptação das suas elites por interesses antagónicos ao serviço do inimigo.

Também as elites europeias foram amplamente cooptadas e a resistência que havíamos presenciado aquando a guerra do Afeganistão e do Iraque, não mais aconteceu. Investimentos brutais em cursos “Fullbright”, programas de “Leadership” e muita USAID na comunicação social mainstream, resultaram numa elite europeia americanizada, sem qualquer traço de independência, mas com todos os traços de subordinação. Paulatinamente assistimos à queda do PIB europeu em relação ao dos EUA (nos anos 80 e 90, o PIB dos EUA era inferior ao da Alemanha, Inglaterra, França, Espanha e Itália) e ao domínio norte americano das estruturas de capital na Europa. Com o poder económico instalado estavam criadas as condições para a tomada definitiva do poder político, como estava previsto desde o Plano Marshal e a criação da Comunidade europeia do Carvão e do Aço.

A intenção de não dissolver a NATO em 1991, foi uma das primeiras nuvens negras que a EU não quis enfrentar. Esta incapacidade em acolher a “nova” Federação Russa no seu seio, traduziu na acção europeia as intenções da Casa Branca em ajudar o mínimo possível aquele país. Não contente com a manutenção das tensões securitárias dentro do continente europeu, nas suas próprias fronteiras, as sucessivas administrações europeias e respectivos estados, foram assistindo, primeiro, ao alargamento da NATO em direcção às fronteiras do país europeu que constituía um dos seus pontos de apoio económico, e, posteriormente, à instrumentalização da EU como extensão da própria NATO. Se não vai para a NATO, vai primeiro para a UE e depois fica com via aberta (“fast track” como diz a “americana” von der Leyen). A resistência europeia inicial à entrada de novos estados ex-soviéticos foi removida com o tempo.

Não contente, a União Europeia embarcou na revolução laranja, no Euromaidan e nas perseguições aos povos russófonos da Ucrânia. Foi uma Europa incapaz de impedir as manobras dos EUA no seu espaço, incapaz de impedir o apoio a grupos neonazis, fascizantes e xenófobos. Esta Europa deixou fazer da russofobia a sua agenda principal e, ao abrigo da mesma, cancelou muitos dos seus próprios cidadãos, ostracizou outros, censurou, cortou relações, decepando um dos seus pontos de apoio económico, aquele em que assentava o peso da sua necessidade de energia e minérios baratos e em quantidade. Ao invés de afastar os EUA e dizer “na Europa somos nós quem resolvemos as coisas”, deixou-se condicionar e instrumentalizar, assistindo impávida à sabotagem das suas próprias infra-estruturas. A Ucrânia passou a constituir a raison d’être da UE.

Estava bom de ver o que aconteceria caso a Europa hostilizasse a Federação Russa. Não apenas perderia todas as vantagens de ter perto o que agora tem de ir buscar longe, de ter fácil o que agora custa muito a comprar e de ter barato o que agora é muito caro. Mas fez ainda pior, permitindo o afastamento e a viragem da Federação Russa para oriente. Não querendo comprar o gás, os lubrificantes, papel, cereais, ouro ou alumínio russos, o executivo chefiado por Vladimir Putin fez o que dele se esperava: virou-se para a China, num movimento que, no fundo, teve tanto de natural como de contraditório em relação à história russa dos últimos 30 anos. Mesmo a URSS sempre viveu naquela dúvida sobre a sua orientalidade ou europeísmo.

A viragem da Rússia para a China, não apenas reforçou a superpotência asiática, permitiu à Federação Russa uma vitória retumbante na questão ucraniana, e ainda retirou a centralidade à Europa. Não mais a Europa seria importante, para a Rússia, para o mundo. Com o tempo, também deixaria de o ser para o seu líder, os EUA.

Como só tem centralidade o que é objecto de olhar e atenção, menos um bloco a querer confluir para a Europa, já por si, seria um resultado negativo. Mas com a união estratégica entre Federação Russa e República Popular da China, deu-se outro efeito: tal realidade obrigou os EUA a decidirem, de forma definitiva, o que fazer em relação à Ásia. Perante a falta de recursos para um combate em dois campos, os EUA foram obrigados a “entregar” a defesa da Europa à própria UE e a desviar recursos para o Pacífico. Trump só acelerou um processo que haveria de chegar, mesmo sob Biden e o Partido Democrata. Os EUA não são nação de ficar à espera de outros, acabariam sempre por se decidir.

O reforço estratégico da economia chinesa que representou o entendimento com a Rússia, obrigou os EUA a desviar a sua atenção para Oriente. Quando a Federação Russa iniciou a “Operação Militar Especial”, as autoridades russas referiram que esta acção visava “desmantelar a hegemonia dos EUA e do Ocidente”. O primeiro passo foi a eliminação da UE, do quadro da competição com a Rússia, sendo tal passo também almejado pelos EUA. A NATO, que teve como objectivo “manter a Alemanha em baixo, a Rússia fora” e os “outros dentro”, cumpriu o objectivo de eliminar a Europa, instrumentalizando-a, enquanto competidora dos EUA.

Hoje, quando vemos Trump negociar com a Federação Russa a cooperação na área dos recursos minerais e apropriar-se, de forma neocolonial, dos recursos ucranianos, não apenas confirmamos a suspeita de que a Ucrânia era uma colónia dos EUA, como a de que, no final, a Europa é trocada pelos EUA, como destino preferencial dos vastos recursos minerais russos. Mas os EUA ainda garantiram outra coisa: que eles os recebem e a Europa não. Esta Europa fanatizada, russófoba, é incapaz de retirar as vantagens que tem no seu próprio continente, deixando competidores entrar, apropria-las e impedirem que ela própria as utilize. Um trabalho perfeito, portanto.

A UE, divorciada que foi da federação Russa, deixou os EUA mais descansados com a possibilidade de união dos dois blocos, podendo estes então voltar-se para a Ásia e, subitamente, eis que os dois olhares mais importantes sob a Europa, os que lhe conferiam a centralidade que ainda tinha, confluem ambos para a Ásia. A República Popular da China, voltou, dois séculos depois, a ser o império do meio, centralidade essa conseguida também à custa da Europa, que com ela também não foi capaz de se contentar. De repente, os EUA, querendo evitar a centralidade chinesa, acabam a dar-lha de mão beijada. Seja porque, primeiro, obrigam a Europa a forçar a Federação Russa a divergir para Oriente, depois, obrigam-se, em resultado dessa acção, a voltar-se, a si próprios, para Oriente.

Se EUA e UE parecem andar os dois ao sabor dos acontecimentos, correndo atrás do prejuízo e actuando de forma reaccionária em relação às acções alheias, a verdade é que, dos dois, só um, os EUA, actuam de acordo com os seus próprios desígnios, o que é sempre uma vantagem. Aliás, dos três competidores em confronto, dos quais a Europa constituía o centro da disputa, apenas esta última se vê ultrapassada pelos acontecimentos, não actuando de forma a contrariá-los, mas, ao invés, actuando de forma a agravá-los. Federação Russa e EUA, é certo que em resultado das contingências, escolheram ir para onde foram. A EU ainda nada decidiu, nem parece encaminhada para tal.

A República Popular da China, de repente, vê-se a fazer de centro, de síntese. E é aqui que se dá a perda da relevância civilizacional europeia. Novamente para a China rejuvenescer como potência da inovação. Se antes a Europa havia conquistado esta posição por estar na frente da tecnologia, das ideias, da cultura e da economia, hoje, são a China e a Ásia, quem ocupa tal espaço. A China faz uma síntese perfeita em capitalismo mercantil e direcção socialista baseada em sectores estratégicos. Na China moderna convive a liberdade de empresa, com a liberdade da propriedade pública, cooperativa e social, todas convivendo e competindo por mais e melhor. Tudo isto, com uma capacidade de planeamento descentralizado no longo prazo que torna todo o universo circundante mais estável. A China proporciona harmonia, estabilidade, previsibilidade. A UE passou a representar o oposto. Errância, indecisão, reacção e inacção.

Enquanto no Ocidente, na Europa, a Comissão Europeia, a Casa Branca, obrigam à privatização, na China promove-se a liberdade de iniciativa através de novas formas históricas e mais diversas de propriedade, sendo de cada um a escolha de como fazê-lo. O resultado é uma revolução tecnológica – e consequentemente ideológica – que corresponderá ao que foi, para o mundo, a revolução industrial na Europa do século XVIII. Se antes era à europa que vinham os estrangeiros estudar o sistema económico, hoje é na China que se aprende a construir o futuro. Todos querem saber, cada vez mais, como emular em si próprios, o sucesso chinês.

Imiscuindo-se, ao contrário da Europa e EUA, de impor e propor aos outros o que fazer, a Republica Popular da China possibilita a absorção dos ensinamentos que o seu modelo importa, sem restrições ou condicionamentos, admitindo o seu aproveitamento em conexão com outros modelos, potenciando o surgimento de novas propostas e modelos de gestão pública e privada. Sem a rigidez ocidental de outrora, a superioridade do modelo chinês dará ao mundo a democratização económica sem a qual não é possível a democratização social.

A Europa dos “valores” perde porque optou por construir os “valores” a partir do telhado, a partir da burocracia e não da matéria, da ciência ou da economia. Ao invés, acabou a destruir as dimensões económicas que lhe deram os anos de ouro da Europa moderna e social- democrata, que assentavam numa relação simbiótica e mais virtuosa entre formas diferentes de propriedade.

As formas democráticas de propriedade (colectividades, cooperativas, associações, empresas publicas) iam convivendo entre si, gerando relações de produção diversas e inovadoras, bem como movimentos sociais fortes, de onde emanava a democracia. Tudo isso a Europa dos “valores” deixou destruir, ao ponto de, hoje, já não o poder ensinar a ninguém. Tudo se reduziu ao estado minarquista, ao privado e às parcerias “público-privadas” que garantem aos privados o rentismo a partir de serviços públicos essenciais. A União europeia passou a confundir-se com os EUA.

O mais interessante desta perda de centralidade, por países, por nações, é que a própria União Europeia se partirá, no caso de não encontrar uma direcção estratégica que resolva, efectivamente, os problemas dos seus povos e, entre eles, não se encontra, ainda, a guerra. Ainda! A Europa, os estados membros da UE têm de construir uma defesa para defender a sua soberania e não para impor a terceiros o que fazer, considerando ameaças todos os que não são como ela. Não o fazendo, assistiremos ao confluir de nações europeias também para a Ásia.

Em resultado da “Operação Militar Especial”, a própria Turquia transformar-se-á num importante pólo económico, industrial, energético e de segurança. Pela sua posição euroasiática, tal como a Federação Russa, servirá de ponto de passagem de Oriente a Ocidente. As nações mediterrânicas terão de se virar para aí. Por aqui vemos o quão sozinhas se sentem a França, Portugal, Inglaterra, Países Baixos ou os Bálticos. De repente terão de aprender a viver com os seus vizinhos, porque o seu padrinho se voltou para outro lado e o Partido Democrata, quando vier, nada poderá fazer.

Esta “nova” Europa está naquele período da vida em que se é adulto da idade, mas criança no comportamento. O que é ofensivo para as crianças, uma vez que estas são capazes de se dar com os seus vizinhos.

O medo do abandono de que os EUA padecem e que os levou a manipular a Europa, a UE, concretizou-se no próprio continente europeu. Por não ter compreendido que a discussão era entre si e os EUA, restando saber qual dos dois ficaria esquecido nesta viragem para Oriente, ao fazê-lo primeiro, são os EUA quem deixa a Europa abandonada, solitária. Esta Europa, incapaz de abraçar o projecto euroasiático, divorciada de si e dos seus, inactiva e imóvel, como que parada no tempo, deixou que o fim da história dos EUA, se tornassem no seu próprio fim da história. Tivesse a Europa abraçado o projecto euroasiático, unindo-se com a Ásia e a África, numa só massa de desenvolvimento, cooperação, partilha e competição e seriam os EUA quem ficaria ao abandono. Eis o nível da traição de que formos alvo pelos “nossos governantes”.

Ao invés, a Europa de Von Der Leyen, Costa e Kallas, decidiu abandonar-se a si própria e com esse abandono, ser abandonada por quem julgava que a protegia. Um dia serão julgados por tão crassos e inconsequentes erros. Para já, todos ficaremos um pouco mais insignificantes, até que, um dia, as nossas mentes sejam capazes de se reinventar e abraçar o futuro. O que apenas sucederá quando os povos europeus perceberem que os tempos de grandeza e centralidade se foram, abandonarem a sua arrogância e pedantismo e, com humildade, se comportarem como exigem os desafios impostos.

A recuperação de qualquer tipo de centralidade só será possível através de uma política soberana, justa, promotora da liberdade e diversidade, no respeito pela identidade nacional de cada povo, de cada estado nação, aproveitando essa multiplicidade como força motriz da reinvenção, ao invés de coarctá-la ou condicioná-la por recurso a modelos fechados e ultrapassados como os liberais e neoliberais.

Por este caminho só nos restará o isolamento e a depressão.

Fonte aqui.