Washington pisca o olho primeiro: pequenos passos para Moscovo, mas a Rússia tem todas as cartas.
O enviado de Trump, Steve Witkoff, indo a Moscovo não é uma negociação, ainda não. É um choque de realidade. O Império sabe que está a perder, mas precisa de encenar a retirada, para fazer a sua derrota inevitável parecer uma recalibração estratégica em vez de um colapso humilhante.
Porque sejamos honestos: Moscovo venceu esta guerra antes mesmo de ela começar. A NATO está esgotada, a Ucrânia é um cemitério, a UE está falida e o bloco BRICS+ está a expandir-se a cada minuto. O tabuleiro do xadrez global está a mudar da fantasia unipolar para a realidade multipolar. Mas Washington não se pode dar ao luxo de o admitir abertamente, nem aos seus vassalos, nem à sua imprensa e, certamente, nem ao público americano que já está a ferver devido a outro desastre imperial.
Então, qual é a jogada? Salvar a face. Os EUA precisam de uma maneira de sair da Ucrânia sem parecer que estão a ser expulsos. Eles vão exigir “concessões” sem sentido a Moscovo para salvar a sua face política. Mas a Rússia não precisa de lhes dar nada. Esta guerra termina nos termos da Rússia, no campo de batalha, não na mesa de negociações.
Já vimos esse script antes: • Vietname, 1975: Os EUA perdem, mas fingem que foi uma “causa nobre”. • Afeganistão, 2021: Os EUA perdem, mas Biden culpa Trump. • Ucrânia, 2024-2025: Os EUA perdem, mas Zelensky leva uma facada nas costas.
E a NATO? A grande “aliança defensiva” que não conseguiu nem defender os seus próprios stocks de munições? Este é o momento da Crise do Suez, um ponto de viragem irreversível onde o mundo inteiro vê o poder ocidental como ele realmente é: um Império em declínio a tentar controlar o futuro com ameaças ultrapassadas.
Entretanto, a Rússia tem todo o tempo do mundo. Ela está militarmente, economicamente e diplomaticamente mais forte do que nunca. O Kremlin não está a correr para uma paz menos que perfeita, está a esperar a realidade afundar. Porque quando os EUA vierem a rastejar para um acordo real, eles não estarão a ditar os termos do mesmo.
Não se trata de negociações. Trata-se de Washington lentamente aceitar que perdeu.
E quando o fumo se dissipa, o mundo multipolar avança para a próxima batalha.
(Viriato Soromenho Marques, in Jornal de Letras, 05/03/2025)
(A cambada lá conseguiu calar o Viriato na sua coluna semanal que mantinha, há anos, no Diário de Notícias, Andava a ser demasiado incómodo a abrir os olhos aos carneirinhos. Pelos vistos o homem agora tem que publicar no Jornal de Letras e em blogs, tendo muito menos visibilidade. Mas há sempre alguém atento nas redes sociais a chamar a atenção da Estátua para este excelente artigo.
Estátua de Sal, 10/03/2025)
Os EUA nunca acreditaram, ao contrário da ignara arrogância de Bruxelas, que a máquina de guerra russa poderia ser derrotada no plano convencional. Como o secretário da Defesa L. Austin afirmou, logo em maio de 2022, o objetivo dos EUA era o de fazer “sangrar a Rússia”, enquanto Kiev tivesse capacidade para o fazer.
As grandes crises revelam os grandes líderes. Contudo, apenas quando os povos têm a sorte e a capacidade de os produzirem. A guerra da Ucrânia, que já entrou no seu quarto ano é, sem dúvida, a maior crise existencial de toda a história portuguesa, pois é a primeira vez que Portugal tem um governo que se deixou, com entusiástica estultícia, enrolar num confronto com a Rússia, totalmente contrário ao interesse nacional mais elementar, o salus populi suprema lex esto (seja a salvação do povo a lei suprema), imortalizado no De Legibus, de Cícero. Nem os fanáticos que queriam declarar guerra ao império britânico, na sequência do Ultimato de 1890, nem o furioso Afonso Costa, colocando Lisboa a ferro e fogo em maio de 1915 para enviar, por decisão unilateral, milhares de soldados analfabetos para a Flandres, se comparam à façanha do mesquinho consenso nacional que vai de António Costa a Rui Tavares, numa contemporânea demonstração da veracidade da tese de Unamuno que considerava ser Portugal um país de suicidas. O que continua em causa é a possibilidade de Portugal ser destruído num conflito total com a Rússia, o país com o mais poderoso e moderno arsenal nuclear do planeta.
Estamos a falar de acontecimentos vertiginosos, desde a chegada de Trump à Casa Branca. Vejamos, apenas, alguns das dimensões mais permanentes, neste quadro de incerta mudança.
Sergey Lavrov e Marco Rubio
Primeira. As negociações de paz, iniciadas por Trump com a Rússia, são boas notícias para os povos da Europa e do mundo. Afastam, pelo menos provisoriamente, o pior cenário, para onde estaríamos a rumar caso a linha de escalada bélica seguida por Biden tivesse prosseguido. Essas negociações, onde nem Zelensky nem a UE contam, revelam a justeza dos analistas, entre os quais me encontro desde sempre, que consideraram esta guerra como uma guerra de procuração (proxy war) dos EUA contra a Rússia, usando o território e o sangue ucranianos como instrumentos. Bruxelas protesta, porque Trump deixou cair o véu de Maia, a cortina ilusória, que fazia do apoio da UE à Ucrânia um assunto de direito internacional. Na verdade, tratava-se da prova de que os nossos governantes europeus não hesitam em sacrificar a qualidade de vida e a segurança dos seus povos, para servirem o império americano, e o seu desígnio persistente de fragmentar a Rússia. O caso mais aberrante de autoflagelação europeia é o da Alemanha, quando o governo de Scholz tudo fez para manter a lealdade canina com Washington, imolando para isso a qualidade de vida e a saúde económica do seu próprio país.
Segunda. As perspetivas de “paz imperfeita”, mil vezes melhor do que a continuação do conflito, só foram possíveis, para além das mudanças em Washington, pela clara superioridade militar das forças convencionais russas, apesar da valentia das tropas ucranianas e das correntes inesgotáveis de material bélico recebido dos países da NATO ao longo destes três anos. Os EUA nunca acreditaram, ao contrário da ignara arrogância de Bruxelas, que a máquina de guerra russa poderia ser derrotada no plano convencional. Como o secretário da Defesa L. Austin afirmou, logo em maio de 2022, o objetivo dos EUA era o de fazer “sangrar a Rússia”, enquanto Kiev tivesse capacidade para o fazer. No cenário, altamente improvável, de as tropas de Kiev com o apoio de “voluntários” ocidentais se aproximarem de uma derrota das forças convencionais russas, Moscovo não se renderia. Faria o que a sua doutrina há décadas promulga: escalaria ao uso limitado do nuclear, para obrigar o inimigo a pensar duas vezes antes de prosseguir até à guerra total. Por outras palavras, a vitória convencional e limitada da Rússia, parece ter salvo os povos da Europa de serem vítimas da irresponsabilidade estratégica dos seus dirigentes.
Terceira. A paz que está a ser negociada só poderá ser duradoura se se traduzir num tratado que defina as regras do jogo no sistema internacional europeu, pretensão que a Rússia sempre perseguiu, mesmo desde os tempos de Gorbachev. Há, contudo, dois obstáculos no caminho. Por um lado, aquilo que prevalece no discurso europeu (com apoio da administração Trump) é a ideia de a UE fazer da corrida armamentista o novo objetivo estratégico (rasgando e substituindo o famoso Pacto Ecológico, onde a minha derradeira credulidade se esgotou). A Rússia jamais permitirá que uma nova guerra seja preparada à sua vista, sem nada fazer. Por outro lado, Trump está a jogar perigosamente não só com os seus aliados, mas também com o próprio aparelho de Estado federal e com alguns dos poderosos interesses nele instalados. Considero bastante provável que um atentado contra Trump, desta vez bem-sucedido, possa desencadear uma segunda guerra civil americana, cujas consequências são totalmente imprevisíveis.
Quarta. Só um milagre poderia impedir as forças centrífugas dentro da UE de prevalecer. Não sei quanto tempo ainda teremos antes de este edifício, cheio de fissuras, nos tombar sobre a cabeça. A zona Euro, totalmente dependente de Wall Street e da Reserva Federal, irá contribuir para que governos e povos fiquem paralisados à espera do pior. Curiosamente, os furiosos governos anti-russos do Leste da Europa, darão, provavelmente, lugar a novos governos favoráveis à colaboração com Moscovo. A UE será a grande vítima da guerra da Ucrânia. Os insensatos que em Bruxelas abraçaram uma política totalmente oposta às realidades históricas e geopolíticas da Europa, serão, pelo menos, testemunhas do imperdoável caos em que nos fizeram mergulhar.
Post scriptum
O artigo acima foi escrito antes da famosa “disputa” de Zelensky contra Trump e toda a sua equipa na Sala Oval, no dia 28 de fevereiro de 2025. Aconselho os leitores da Estátua a visionarem o filme completo (49’47’’), antes de fazerem coro com a transformação de Zelensky numa vítima heróica. Fazer um juízo a partir da parte final dessa conversa, satisfaz o alinhamento manipulatório que foi dado na Europa a essa longa conversa. Também não tenho simpatia por Trump, mas reconheço que existe um esforço sério da sua administração para acabar com esta guerra, em absoluto contraste com a corrida para o confronto total com a Rússia a que nos conduziria a continuação da política de Biden e Blinken. Pelo contrário, Zelensky aproveitou a amabilidade dos seus anfitriões norte-americanos para mostrar, perante um auditório universal, a sua total oposição a esse processo de paz. Para um cidadão europeu, ao fim de três anos de guerra, não perceber onde é que está o nosso interesse vital, preferindo o discurso de ódio ao discurso da via diplomática, significa até que ponto chagámos na Europa a um lamentável estado de degradação da nossa capacidade coletiva e individual de distinguir entre o que é essencial e o que é perigosamente ilusório.
Ver o debate completo com legendas em português, no vídeo abaixo, no Youtube.
A ascensão de Georgescu à cena política romena representa mais do que uma simples candidatura presidencial; ela expõe as contradições do discurso ocidental sobre democracia e liberdade política. Um outsider no espectro político convencional, ele mobilizou uma parcela significativa da população romena com propostas nacionalistas e de autossuficiência, desafiando o alinhamento incondicional do país com a NATO e a União Europeia. O seu sucesso, no entanto, foi rapidamente confrontado com investigações, acusações e, por fim, sua exclusão do processo eleitoral, o que irá levar a uma ação popular intensa e grave na Roménia, caso não se reponham os direitos eleitorais deste candidato.
A democracia liberal, que se apresenta como um modelo político de inclusão e pluralismo, parece ter limites bem definidos quando confrontada com figuras que não seguem o alinhamento esperado. O Ocidente, que constantemente prega a autodeterminação e a soberania dos povos, é o mesmo que não hesita em marginalizar candidatos ou governos que questionam a sua agenda geopolítica. Georgescu, ao propor um caminho de soberania económica e política, sem envolvimento em conflitos regionais, tornou-se rapidamente um alvo.
A sua ligação com figuras como Alexander Dugin e as suas críticas à relação da Roménia com a NATO foram exploradas para associá-lo a uma suposta influência russa, transformando o seu discurso nacionalista num pretexto para a sua exclusão. Esse padrão repete-se constantemente: qualquer político que questione a ortodoxia ocidental em relação à Rússia, à China ou a outros centros de poder alternativos é imediatamente rotulado como uma ameaça. A democracia, neste caso, não se mede pelo apoio popular, mas pela conformidade com a agenda estabelecida pelas elites transatlânticas.
Se Georgescu era, de facto, um populista sem bases sólidas para governar, caberia ao povo romeno decidir isso nas urnas, e não a um processo nebuloso de desqualificação política. A sua exclusão levanta uma questão central: até que ponto as nações da Europa Oriental, supostamente soberanas, podem realmente escolher seus próprios caminhos sem interferência externa? O caso de Georgescu não é único, mas sim parte de um padrão maior de neutralização de lideranças que desafiam a ordem unipolar ocidental.
O discurso sobre democracia e liberdade perde credibilidade quando se torna evidente que ela só é permitida dentro dos limites da narrativa dominante. A Roménia, como outros países da região, enfrenta agora o dilema entre seguir um caminho imposto ou insistir na sua autonomia. A exclusão de Georgescu não foi apenas um episódio eleitoral; foi um sinal de que a margem de manobra para visões alternativas na política europeia está cada vez menor.