Roménia, Georgescu e a intolerância ao dissenso no Ocidente

(João-MC Gomes, In VK, 10-03-2025)


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A ascensão de Georgescu à cena política romena representa mais do que uma simples candidatura presidencial; ela expõe as contradições do discurso ocidental sobre democracia e liberdade política. Um outsider no espectro político convencional, ele mobilizou uma parcela significativa da população romena com propostas nacionalistas e de autossuficiência, desafiando o alinhamento incondicional do país com a NATO e a União Europeia. O seu sucesso, no entanto, foi rapidamente confrontado com investigações, acusações e, por fim, sua exclusão do processo eleitoral, o que irá levar a uma ação popular intensa e grave na Roménia, caso não se reponham os direitos eleitorais deste candidato.

A democracia liberal, que se apresenta como um modelo político de inclusão e pluralismo, parece ter limites bem definidos quando confrontada com figuras que não seguem o alinhamento esperado. O Ocidente, que constantemente prega a autodeterminação e a soberania dos povos, é o mesmo que não hesita em marginalizar candidatos ou governos que questionam a sua agenda geopolítica. Georgescu, ao propor um caminho de soberania económica e política, sem envolvimento em conflitos regionais, tornou-se rapidamente um alvo.

A sua ligação com figuras como Alexander Dugin e as suas críticas à relação da Roménia com a NATO foram exploradas para associá-lo a uma suposta influência russa, transformando o seu discurso nacionalista num pretexto para a sua exclusão. Esse padrão repete-se constantemente: qualquer político que questione a ortodoxia ocidental em relação à Rússia, à China ou a outros centros de poder alternativos é imediatamente rotulado como uma ameaça. A democracia, neste caso, não se mede pelo apoio popular, mas pela conformidade com a agenda estabelecida pelas elites transatlânticas.

Se Georgescu era, de facto, um populista sem bases sólidas para governar, caberia ao povo romeno decidir isso nas urnas, e não a um processo nebuloso de desqualificação política. A sua exclusão levanta uma questão central: até que ponto as nações da Europa Oriental, supostamente soberanas, podem realmente escolher seus próprios caminhos sem interferência externa? O caso de Georgescu não é único, mas sim parte de um padrão maior de neutralização de lideranças que desafiam a ordem unipolar ocidental.

O discurso sobre democracia e liberdade perde credibilidade quando se torna evidente que ela só é permitida dentro dos limites da narrativa dominante. A Roménia, como outros países da região, enfrenta agora o dilema entre seguir um caminho imposto ou insistir na sua autonomia. A exclusão de Georgescu não foi apenas um episódio eleitoral; foi um sinal de que a margem de manobra para visões alternativas na política europeia está cada vez menor.

2 pensamentos sobre “Roménia, Georgescu e a intolerância ao dissenso no Ocidente

  1. Um sinal de que estamos mesmo lixados com f muito grande isso e de certeza.
    Porque até a possibilidade de votarmos em alguém que não nos queira sacrificar no atoleiro da Ucrânia nos e vedada.
    Foi o que se inaugurou na Europa de Leste.
    Quando os povos da Europa de Leste começaram a ver que o leite e mel não chegavam, pelo contrário, estavam a cair numa miséria negra, rapidamente os partidos comunistas foram ilegalizados em todo o lado não fosse a malta ter mas tentações.
    Achamos normalissimo, afinal de contas aquela gente tinha sofrido muito com o antigo regime e nada mais normal que os partidos que o tinham suportado fossem ilegalizados.
    O que ninguém parava para pensar era que se esses partidos eram odiados pela população e nunca chegariam ao poder por via democrática para que dar se ao trabalho de os ilegalizar?
    Claro que gente desesperada com a democracia liberal acabou por se voltar para alternativas a direita por não as haver a esquerda como foi o caso da Hungria.
    Mas a Ucrânia não descobriu a pólvora quando ilegalizou o Partido Comunista la do sítio.
    O que ninguém percebeu é que quando os bons democratas começam a cancelar um partido vão acabar por cancelar qualquer um que lhe faça sombra.
    Se não for porque e de extrema esquerda e porque e de extrema direita.
    Sendo que não teem nada contra a extrema direita desde que essa tenha os competentes pergaminhos de russofobia, como tem a extrema direita ucraniana ou polaca.
    E nunca tivemos nada contra a extrema direita desde o tempo em que torcionarios como Pinochet eram recebidos na Europa com honras de estado.
    Georgescu não foi cancelado por ser da extrema direita. Foi cancelado porque esta canalha viu que, ao contrário da Meloni, a criatura não estava a mentir para ganhar votos. Queria mesmo tirar um país que tem mais onde gastar o dinheiro que no atoleiro da Ucrânia e poupar a depauperada juventude do seu país a um eventual envio para o moedor de carne ucraniano.
    Foi cancelado porque disse com as letras todas que o que se pretende e mesmo pilhar os imensos recursos da Rússia e o seu país não deve ter nada a ver com isso.
    E mais uma vez o crime ficara impune. Quem vier para a rua protestar não terá o carinho que teem os que fazem o mesmo por nossa conta na Georgia.
    Serão acusados de radicalismo e aos primeiros mortos outro remédio não terão de recolher a casa.
    Georgescu será acusado de apelar a subversao, a insurreição ou outra porra qualquer e será preso.
    Isto se não houver um qualquer lobo solitário que lhe aplique o remédio que tentaram aplicar a Robert Fico.
    Ou então terá de fugir para a Rússia o que levará os bons democratas a dizer que tinham razao. O homem era um cavalo de Troia da malévola Rússia e agora o seu país está no bom caminho dos nossos valores e da democracia.
    E nós continuaremos todos a fruir a liberdade e a democracia como já foi dito por aqui.
    Ate que esta gente queira e até tudo poder correr muito mal.
    Que grande patranha e que grande sarilho em que estamos metidos.

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