A União Europeia declara guerra à paz

(Maria Vieira da Silva, in Observador, 23/03/2025, Revisão da Estátua)

(De uma pequena toca pode sair um grande coelho. Vejam lá que até o insuspeito jornal da direita, O Observador, publica peças de qualidade sobre a lunática postura da União Europeia relativamente à guerra na Ucrânia. Isto está muito pior do que se julga. O texto que o Parlamento Europeu aprovou, e é escalpelizado no artigo, é de fugir. Ou já nem eles acreditam no que aprovam, ou ficámos a um passo de a UE declarar guerra à Rússia.

Estátua de Sal, 23/03/2025)


Esta UE liderada por Von der Leyen, não rejeita a guerra como resolução de disputas internacionais, prepara-se para ela. 


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Não há palavras para descrever a indigna farsa belicista encenada no passado dia 12 no Parlamento Europeu (PE). A UE rejeita a paz como meio de resolver disputas internacionais e apoia a guerra como instrumento para recuperar a liberdade e o bem-estar de outros povos.

Sim, eu sei que o que acabei de escrever é o art. 3.º do Tratado de Lisboa, mas ao contrário. Mas, enquanto o art. 3.º afirma claramente que o objetivo da UE é promover a paz, os seus valores e o bem-estar dos seus povos, a resolução aprovada com 442 votos a favor, 98 contra e 126 abstenções, é o oposto. Na verdade, vai muito mais longe do que o obsceno plano ReArm Europe, de 800 mil milhões de euros, imposto por Von der Leyen a um Parlamento Europeu silenciado e privado do direito de voto, com recurso à vigarice de estarmos perante “um perigo claro e imediato” vindo de Moscovo, como se Putin pretendesse entrar em Berlim amanhã, em Paris depois de amanhã e em Roma no dia seguinte.

Mais do que reafirmar o apoio a Kiev, a resolução visa criticar Trump, acusando-o de uma “aparente mudança de posição” sobre a guerra. Em essência, o PE lamenta que, após a escalada alimentada por Joe Biden, Trump esteja disposto a encontrar uma saída diplomática para a carnificina, que a UE em clima de guerra repudia, como uma espécie de crime hediondo desde a época de Caim.

Diante desta loucura, sejam quais forem os resultados das negociações de paz em curso, a UE pretende explicitamente sabotá-los para pressionar os ucranianos a continuarem a ser mortos à toa e a perder mais território.

Leia para crer. No ponto 15, onde a UE e os seus estados-membros são instados a apoiar firmemente a Ucrânia, o parágrafo continua com a seguinte declaração:

Ele [o PE] relembra a sua convicção de que é nos campos de batalha da Ucrânia que futuro da Europa será decidido”.

Não na mesa de negociações de paz, por mais complexa que possa vir a ser, mas nas trincheiras, armados com canhões, tanques e mísseis. Não acabou. Depois de terem declarado que só com a guerra se pode construir o futuro radioso na UE, o PE insta os países-membros a fornecer mais armas e munições a Kiev “antes do fim das negociações” e convida todos, isto é, tanto os governos europeus como a NATO, a revogar todas as restrições à utilização de sistema de armas ocidentais fornecidos aos ucranianos para que possam ser usados “contra alvos militares em território russo”.

Ou seja, a resolução pressiona os estados-membros a remover os obstáculos que atualmente os impedem de atacar diretamente a Rússia. Na prática, estamos prestes a declarar guerra à Rússia. E, de facto, no ponto 9, a resolução insta a UE a “coordenar respostas conjuntas com os seus estados-membros semelhantes às utilizadas em tempos de guerra”.

No ponto 32 convida os países-membros a preparar-se “para contingências militares mais extremas”, e são instados a desenvolver “testes de esforço para legislação existente”, sublinhando a “necessidade de reduzir os obstáculos presentes na legislação nacional e na UE em vigor que comprometam a eficiência da defesa e da segurança europeias”. Por outras palavras, o artigo 3.º do Tratado de Lisboa e o art. 7.º, n.º 1 da Constituição da República Portuguesa devem ser removidos, porque são considerados obstáculos caso a UE decida atacar a Rússia ou algum outro aliado de Putin. Não só isso. No ponto 37 da resolução há um capítulo que diz respeito às forças armadas, para as quais é necessário passar da abordagem baseada em fluxos, que prevaleceu durante os tempos de paz para uma baseada em reservas.

Ou seja, é preciso encher os arsenais e preparar também planos de emergência e cooperação económica em caso de conflito, acelerando a mobilidade militar (ponto 52), permitindo que tanques, armas e munições passem pacificamente, sem muitas formalidades, através das fronteiras, sem que as alfândegas dos países-membros façam alarde. E também permitindo a possibilidade de uma revogação centralizada e justificada das “regras de circulação rodoviária e ferroviária”. Sim, em suma, se necessário, as rodovias e ferrovias de passageiros devem ser fechadas para deixar passar vagões de carga carregados de armas.

Esta desgraça esquizofrénica, não só estabelece, portanto, as regras que devem ser aplicadas em estado de guerra, como afirma, para quem ainda tinha dúvidas, de que esta UE liderada por Von der Leyen, não rejeita a guerra como resolução de disputas internacionais, segundo os princípios do direito internacional e da Carta das Nações Unidas, pelo contrário: prepara-se para ela.

O Costa, afinal, ri-se de quê? Bem, com 35 000€ por mês também eu me ria…

Suspeito, aliás — pela forma como a UE inventa invasões sem sentido e sem motivo, finge que a NATO foi abolida, fala de armamento como se a Europa não gastasse quase o dobro do que gasta a Rússia em armas e não estivesse pejada de ogivas nucleares americanas, francesas e inglesas –, que se esta infeliz guerra acabasse, Von der Leyen & Companhia imediatamente preparariam outra.

Apesar de tudo, este teatro do absurdo, aterroriza, mas não espanta, porque a narrativa da guerra é a mesma que saturou a perceção coletiva durante o caos da pandemia, com os slogans “segurança” e “risco zero”, sacrificando os jovens e os idosos, os primeiros segregados em casa, os últimos abandonados em asilos. Agora, com o slogan “risco”, sacrificam-se o desenvolvimento económico e um povo inteiro no altar de interesses geopolíticos. Em ambos os contextos ressalta a aversão intolerante e histérica a qualquer pensamento contrário ao mantra repetido pelos media (a propósito, já leram o manual linguístico publicado pela Comissão Europeia no passado dia 14 de Fevereiro? São cento e trinta páginas que impõem limites muito precisos e estreitos à liberdade de expressão).

Goste-se ou não – e eu não gosto nem um pouco – esta declaração de guerra à paz parece ainda mais grotesca quando decidida por um Parlamento e Comissão sem poderes para promover o rearmamento e a guerra (art. 24.º do Tratado de Lisboa), razão pela qual só poderá ser entendida à luz do aumento dos gastos militares exigidos por Trump.

Ou seja, a propaganda que visa levar as pessoas a acreditar que a UE é capaz de criar um exército muito poderoso e grande, capaz de derrotar a Rússia, capaz de controlar todas as ameaças e mais algumas, serve apenas para esconder que a UE está a seguir à risca as instruções recebidas, primeiro de Biden e depois de Trump. Não contra Trump, mas de acordo com Trump. Afinal estamos a falar da mesma UE, que continua a bater recordes em importações de combustíveis russos, apesar das sanções.

A UE terá de reduzir o bem-estar social para financiar a guerra

(Entrevista a Michael Hudson e Richard Wolff, in Resistir, 23/03/2025)

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NIMA ALKHORSHID: Olá a todos. Hoje é quinta-feira, 6 de março de 2025, e os nossos amigos Richard Wolff e Michael Hudson estão de volta connosco. Sejam bem-vindos.

RICHARD WOLFF: É um prazer estar aqui.

MICHAEL HUDSON: É bom estar aqui.

NIMA ALKHORSHID: Vamos começar, Michael, com o artigo do Financial Times que diz que três países europeus, França, Inglaterra e Alemanha, anunciaram que vão tornar inoperante qualquer acordo alcançado entre Donald Trump e Vladimir Putin. O que é que isso significa, Michael?

MICHAEL HUDSON: Bem, significa duas coisas. Por um lado, querem rearmar a zona euro, basicamente.

Ler entrevista completa aqui.

Balsemão, a queda de um anjo

(Por Pedro Almeida Vieira, in Página Um, 18/03/2025)


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Durante muitos anos, Francisco Pinto Balsemão foi um verdadeiro símbolo da liberdade de imprensa em Portugal – o homem que mesmo antes Revolução de Abril, fundou o Expresso, ergueu um título que, durante décadas, foi sinónimo de rigor, independência e seriedade. Era visto como um guardião da palavra livre, um exemplo de como o jornalismo poderia resistir à tentação dos poderes económicos e políticos, mantendo-se firme nos princípios da ética e da verdade. Aguentou até, estoicamente, o ‘seu’ jornal a atacá-lo durante o breve o período (1980-1983) em que teve funções governativas, incluindo o cargo de primiero-ministro entre 9 de Janeiro de 1981 e Junho de 1983, o que lhe granjeou um estatuto de elevada seriedade. A sua biografia poderia alcandorá-lo à figura de um “anjo” do quarto poder, pairando acima das pressões e influências que tantos outros não aguentariam evitar.

Mas mesmo os anjos, diz-nos Camilo Castelo Branco, podem cair. E o que assistimos nas últimas duas décadas, e sobretudo nos últimos 10 anos, é precisamente isso: a queda de um homem e de um projecto que outrora pareciam intocáveis. Se, nos primórdios, Balsemão compreendeu a importância de criar uma imprensa livre e exigente, a sua família teve dificuldades em perceber, com o tempo, que o desafio maior não vinha de um golpe militar ou de um poder político opressor, perante a consolidação da democracia, mas de um novo inimigo silencioso: a erosão da credibilidade.

Num tempo em que as tecnologias digitais e as redes sociais impuseram uma transformação radical na comunicação, a resposta de Balsemão e da Impresa foi hesitante e, muitas vezes, errada. Em vez de reforçar o jornalismo rigoroso, isento e independente – aquele que poderia distinguir o Expresso e a SIC no ruído informativo –, optou-se por atalhos fáceis. A dependência de negócios paralelos, os alinhamentos subtis (ou nem tanto) com os poderes instalados e a complacência com agendas políticas esvaziaram de sentido aquilo que um dia foi o seu maior trunfo: a credibilidade.

Balsemão parece não ter percebido que o seu nome, por mais prestígio que tenha acumulado no passado, não bastava para segurar o futuro. Um jornal ou um canal de televisão não vive da reputação passada, mas sim da confiança renovada todos os dias junto dos seus leitores e espectadores. Sem confrontar o poder político, sem independência em relação aos negócios e às pressões, o jornalismo torna-se apenas mais um instrumento de propaganda ou de entretenimento disfarçado.

Impresa, que podia ter liderado um novo paradigma de jornalismo sério e combativo em Portugal, preferiu o conforto das redacções domesticadas, das audiências fáceis e das alianças tácitas com quem manda. E nessa escolha reside a verdadeira queda do “anjo” Balsemão: não por corrupção moral ou por cedência consciente, mas por uma incapacidade de entender que sem verdade, não há jornalismo que resista.

Hoje, o Expresso já não é lido como antes. A SIC já não inquieta quem governa. E a Impresa, que foi exemplo, é agora apenas mais um grupo de comunicação social, à deriva entre as dívidas, os interesses e a irrelevância crescente. Balsemão deu ao país uma grande imprensa, mas não percebeu que um império só dura enquanto for construído sobre a confiança, não sobre um nome. A crise da Impresa, que arrasta a SIC, é um, colapso iminente por erros estratégicos.

E um anjo que cai, por mais títulos e medalhas que traga no peito, não deixa rasto de luz. Apenas um aviso: a credibilidade é tudo. E sem ela, não há futuro. E ele não merecia, aos 87 anos, este presente.

Fonte aqui.