Dicionário da propaganda ocidental

(Zé Oliveira Vidal, in Estátua de Sal, 23/04/2025, revisão da Estátua)

Imagem gerada por Inteligência Artificial

(Este artigo resulta de um comentário a um texto que publicámos sobre a guerra na Ucrânia do Major-General Carlos Branco (ver aqui). Pela sua acutilância e pedagogia sobre o reconhecimento das narrativas mediáticas da propaganda ocidental, resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 24/04/2025)


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Tudo, TUDO o que passa nos mainstream média ocidentais é DESINFORMAÇÃO USAmericana! TUDO!

Se vês/ouves a CNN, estás a ver/ouvir o que os porcos imperialistas em Washington querem. A mesmíssima coisa para a FOX News e companhia.

Da Rússia, a “propaganda” que vem são FACTOS. A parte central da propaganda USAmericana na Europa e Portugal passa por chamar “propaganda russa” aos factos e até mesmo às opiniões neutrais ou equidistantes.

Noutros países da Europa, debate-se a NATO, a União Europeia e o Euro. Debate-se a vassalagem aos EUA e o apoio aos nazis ucranianos e a tolerância para com os genocidas israelitas/sionistas. Em Portugal não. Porquê? Porque, ao contrário da MENTIRA da CNN, Portugal é, isso sim, um dos maiores vitimizados pela presença de propaganda USAmericana!

Poderia separar a propaganda da BBC/Mi6, daquela outra da Mossad/Israel, ou da Euronews/UE, mas, nos dias que correm, não vale a pena. É tudo do mesmo saco: avençados e agentes ao serviço de Washington.

Queres saber como isto funciona? Lê sobre os escândalos da USAID, NED, e companhia. A forma como eles corrompem “jornalistas” e políticos por toda a Europa.

Obviamente, terás de ler sobre isto em meios de comunicação fora do Ocidente, ou muito alternativas dentro do Ocidente, como é o caso do jornalismo de investigação do Greyzone, ou do blog de geopolítica MoonOfAlabama, ou o excelente Consortium News, ou o grande exemplo de real jornalismo da Wikileaks, ou de gente independente como a Caitlin Johnstone.

Se vês o que quer que seja na CNN/FOX, ou BBC, Euronews, ou RTP/SIC/TVI/Now/CMTV, e se não percebeste ainda que são antros de corrupção e fakenews, que debitam propaganda e manipulação 24 horas por dia, então não percebeste nada do que se está a passar no mundo e, em particular, em Portugal.

A mesma coisa em relação aos meios escritos, como o Expresso/Público, o Der Spegel, The Guardian, El País, etc, e obviamente o Washington Post, The Economist, New York Times, etc.

Aqui tenho de falar finalmente do texto do Carlos Branco: se se baseia no que o New York Times publicou, então baseia-se na mentira.

Obviamente os EUA são quem planeou durante décadas esta guerra proxy contra a Rússia, obviamente os EUA estão envolvidos em TUDO, desde o financiamento a nazis para fazerem o golpe Maidan, até à invasão de Kursk.

Se o New York Times agora publica isso, é porque a Casa Branco assim ordenou. A atual administração quer fazer de conta que está “de fora” de uma guerra proxy que o próprio Trump ajudou a preparar no seu primeiro mandato, em total prolongamento com a agressão imperial seguida por Obama e Biden. Não houve HIMARS a bombardear em Kursk? Houve! Logo aqui se deteta a mentira do New York Times.

Mas para saberes o que eu sei, precisas de ir aos OSINT (Open Source Intelligence) – fontes abertas de inteligência -, que diariamente falam de FACTOS sobre as linhas da frente. Recomendo o Defense Politics Asia, o Southfront (censurado na EUroditadura), o Geroman (a conta Telegram dele compila mapas de várias fontes credíveis, e tem imagens/vídeos com geolocalização), e ainda o WarMonitor (um site do Líbano que fala sobretudo da agressão/genocídio que o ocidente/sionismo comete na Palestina e arredores.

No caso da TV, como a RT está censurada pela EUroditadura, já só sobram os canais CGTN (China) e TeleSUR (Venezuela) para te poderes informar sobre a realidade. E mesmo aqui tens de ter atenção à propaganda de cada um. TODOS fazem propaganda. Mas isso não significa que os outros façam como o Ocidente onde a mentira é descarada e a toda a hora!

E eis uma lista de pistas simples para identificar quem é quem:

  • Se diz “NATO defensiva” ou “agressão Russa”, então é um canal de propaganda ocidental. Obviamente, factualmente, a NATO é ofensiva, criminosa, e a Rússia está a intervir justificadamente contra quem golpeou a Ucrânia e violou a paz de Minsk.
  • Se chama “guerra Israel – Hamas”, então é propaganda ocidental. São três mentiras em três palavras. Não é guerra, é GENOCÍDIO. Não é só de Israel (nem é de todos os israelitas), mas sim de sionistas sanguinários ocidentais, e em particular da extrema-direita racista israelita (Netanyahu e companhia são comparáveis a nazis). E não é contra o Hamas, mas sim contra todo o povo palestiniano, acima de tudo mulheres e crianças indefesas.
  • Se glorifica Zelensky, então é propaganda ocidental. Zelensky é um vassalo corrupto dos EUA, e é de facto um ditador no regime UcraNazi. Só merece condenação, não merece um pingo sequer de tolerância. É contra a paz, persegue a oposição, acha normal glorificar o nazismo, proibiu eleições, ataca crentes ortodoxos, etc.
  • Se critica a Venezuela, é propaganda ocidental. A Venezuela é uma democracia soberana anti-imperialista. Só merece a nossa admiração e apoio.
  • Se apoia a União Europeia e as suas instituições de opressão, então é propaganda ocidental. A UE é, de facto, uma ditadura que nos roubou a soberania. Hoje violamos a nossa Constituição e fazemos censura de canais de notícias, por ordem da UE. Recebemos ordens de NÃO-eleitos, como a Leyen e a Kallas, que são obviamente agentes dos EUA com a missão de nos colocar a pagar mais para garantir o lucro da Lockeed Martin, Raytheon, Boeing, etc. Quando estas corruptas ameaçam quem celebrar o Dia da Vitoria a 9 de maio, mas apoiam descaradamente quem glorifica nazis, e repetem toda a propaganda da CIA/Pentágono, então está tudo dito sobre a natureza da UE.
  • Se promovem Hollywood/Netflix, e seus palhaços/atores, então é propaganda ocidental. Não há arte nem cultura nenhuma nestes meios. Só há propaganda dos EUA e Israel. A “Mulher Maravilha” é uma agente da Mossad apoiante de genocídio. A Marvel coloca a NATO ao lado dos Avengers. Filmes atrás de filmes colocam os russos como os mauzões, e chamam “heróis” aos porcos imperialistas dos EUA/NATO que foram invadir tantos países e assassinar milhões de humanos (no Iraque, no Afeganistão, na Líbia, etc.).
  • Se falam de cantores dos EUA como “os melhores”, mas não têm espaço para falar sequer de artistas portugueses ou de outras partes do mundo, então é propaganda ocidental. Quantas vezes tu ouviste nas “notícias” na TV falar da Madonna ou da Taylor Swift? Agora compara com as vezes que tais “noticiários” falaram dos portugueses Killimanjaro ou Eu.Clides ou Kleft ou Romeros ou Inês Marques Lucas, etc.. Do melhor que se faz em Portugal nos respectivos géneros, e com ZERO tempo de antena nos “noticiários”.

Abre os olhos!

A Rússia, a China, o Irão, a Venezuela, a Geórgia, a África do Sul, a Argélia, a Bolívia, Cuba, Sérvia e Srpska, até o Hezbollah do Líbano e os Houthis do Iémen, estão do lado certo da História e da Humanidade. Que mal é que algum destes povos te fez a ti ou à Europa? Nenhum! Que mal é que esta gente faz ao mundo? Nenhum!

Nós, em Portugal, é que somos uma mera província sem qualquer independência nem acesso à verdade, num império dos EUA que é terrorista, antidemocrático, fascista, colaborador de nazis, e GENOCIDA.

Os soldados russos estão na sua fronteira e no seu território histórico a salvar gente que é vítima do nazismo ucraniano e do imperialismo ocidental.

Mas os nossos soldados andam a invadir o Kosovo (Sérvia), o Iraque, o Afeganistão, etc., onde quer que o imperador em Washington nos mande invadir.

A Rússia na Crimeia (onde só vivem russos) é “ilegal” e “agressão”, mas nós a exterminar meio milhão de palestinianos ou um milhão de iraquianos ou a colocar a al-Qaeda no poder na Síria é só “democracia e liberdade”.

E todos os que, como eu, já abriram os olhos e contrariam as mentiras do império GENOCIDA ocidental, dizem eles que somos todos “propagandistas do Putin”…

Queres saber como é que a Alemanha foi convencida nos anos 30? Foi assim. Manipulação em massa. Um povo inteiro a acreditar numa narrativa completamente separada da realidade. E a demonização/cancelamento de quem se opõe à narrativa do regime.

Tu, em 2025, ainda andares a acreditar na estrumeira que passa na CNN, é o equivalente a um alemão, em 1945, a andar a acreditar naquilo que a máquina de propaganda de Hitler dizia.

És uma vítima! Não tem mal nenhum abrires os olhos e admitires que foste enganado. Mal será, para todos nós, se a maioria continuar de olhos fechados e a negar a realidade.

Notas Soltas, entre a ironia e a cólera

(Carlos Esperança, in Facebook, 23/04/2025, Revisão da Estátua)

Os cravos já não são vermelhos… (Imagem gerada por AI)

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Ministério Público – Na terceira vez que entrou em período eleitoral, prejudicando o PS, criou uma investigação preventiva para arquivar suspeitas graves sobre o líder do PSD; depois, inventou outra para, através da imprensa, criar suspeitas sobre o líder do PS.

Primeiro-ministro – Montenegro foi à Madeira inspirar-se em Miguel Albuquerque para aprender com o exemplo a ganhar as eleições. Não foi por acaso que prometeu continuar a governar(-se), mesmo que fosse constituído arguido. É a ética a render votos.

Funeral do Papa – Marcelo, Montenegro, Aguiar Branco e Paulo Rangel vão ao funeral do Papa, e deixam o Moedas. Acompanham o Papa à última morada, mas regressam. É, aliás, o regresso que preocupa, depois de gozarem a época baixa da hotelaria romana!

André Ventura – O homem é tão pequenino que cabe numa casa de 30m2 onde cabem ainda o Moedas e as malas do Miguel Arruda. Trump há de orgulhar-se dele por ver no discípulo um modelo tão inspirador.

Ministério da Administração Interna – Em 14 de abril disse ignorar em absoluto o apagão do capítulo sobre a extrema-direita do Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) e como o Governo não mente só pode presumir-se uma relação difícil com a verdade e fácil com o álcool. (Ver na imagem ao lado).

Presidente da República – O homem gosta de funerais, mas podia ter-nos poupado às suas divagações sobre a vida eterna e à convocação dos telespetadores para comunicar estados de alma às 20h quando podia não o fazer ou tê-lo feito a qualquer hora.

25 de Abril (1) – Depois de ter substituído o Primeiro-ministro, o Presidente da Assembleia da República e a maioria, e alterado a correlação de forças na Assembleia da República, o Presidente da República não podia desejar melhor, para preitear o pai, do que deixar o país de luto no 25 de Abril e com as forças antidemocráticas à solta. Isto não se inventa.

25 de Abril (2) – A emigração do Estado e o luto papal no dia da Liberdade é a maior canalhice dos últimos 51 anos pós Abril. Isto é o recreio do Presidente da República, Primeiro-ministro e Presidente da Assembleia da República que exoneram o patriotismo, a democracia e a decência e transformam o Estado em offshore da democracia.

Brincando à guerra mundial

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 22/04/2025)


Para os ucranianos, os americanos não estavam dispostos a fazer o que era necessário para os ajudar a vencer. Ao passo que os americanos achavam que os ucranianos não estavam dispostos a fazer o que era imprescindível para serem ajudados a vencer.


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Para os ucranianos, os americanos não estavam dispostos a fazer o que era necessário para os ajudar a vencer. Ao passo que os americanos achavam que os ucranianos não estavam dispostos a fazer o que era imprescindível para serem ajudados a vencer.

Uma reportagem do “New York Times” (29 de março de 2025) trouxe à luz do dia o envolvimento secreto – e direto – dos EUA na guerra da Ucrânia, confirmando aquilo que temos vindo a dizer ao longo dos últimos três anos, e tantas vezes sonegado e/ou desvalorizado pela comunicação social.

Em abril de 2022, os EUA estabeleceram no quartel-general do Exército americano para a Europa e África, em Wiesbaden (Alemanha), um posto de comando (PC) operacional orientado exclusivamente para o planeamento e direção das ações militares ucranianas, “trazendo a América muito mais próximo da guerra do que se sabia do antecedente,” onde, lado a lado, oficiais americanos e ucranianos planeavam as ações militares de Kiev. Esta parceria, a espinha dorsal das operações militares ucranianas, considerada por Moscovo como violação de uma linha vermelha, esteve na base de sucessivas ameaças veladas de uma possível resposta nuclear russa. Nesta aventura participaram também, entre outros, oficiais britânicos, canadianos e polacos.

A atividade desse PC inclui(u) um enorme esforço de recolha de informações sobre alvos russos, que eram posteriormente passadas aos soldados ucranianos no terreno, funcionando como um centro de fusão de intelligence, produzindo informações detalhadas sobre as posições, movimentos e intenções russas. Inicialmente, a identificação dos alvos reportava-se “apenas” a alvos russos em território ucraniano.

Como adiante veremos, com o andamento da guerra essas regras foram sendo alteradas e aplicadas também a alvos em território russo, e ao emprego de drones marítimos, desta feita com recurso ao apoio da CIA e dos britânicos. A sobrevivência ucraniana no campo de batalha deveu-se não só ao equipamento fornecido pelos EUA, mas, sobretudo, a este tipo de apoio responsável pela morte de vários generais russos no início da guerra.

A desconfiança mútua

Apesar da estreita colaboração entre ucranianos e americanos ser apresentada como uma parceria, a reportagem dá-nos nota de uma permanente desconfiança recíproca. “Rivalidades, ressentimentos, imperativos e agendas diferentes” contribuíram para isso.

Ilustrativo desse sentimento foram as palavras do general Oleksandr Syrsky, então comandante das forças terrestres ucranianas, na primeira vez que se encontrou com americanos, “nós estamos a lutar contra os russos. Vocês não. Porque é que havemos de vos dar ouvidos?”. Para essa desconfiança terá contribuído o facto de os ucranianos “verem, por vezes, os americanos como prepotentes e controladores – o protótipo do americano paternalista. Por outro lado, os americanos não conseguiam compreender porque é que os ucranianos não aceitavam simplesmente os seus bons conselhos.”

Como ponto de partida dessa desconfiança estava a distância entre os objetivos estratégicos de cada uma das partes. “Os ucranianos queriam ganhar a guerra de uma vez por todas. Mesmo partilhando essa esperança, os americanos queriam certificar-se [apenas] de que os ucranianos não a perdiam.” O objetivo estratégico de Washington era derrotar estrategicamente a Rússia, numa versão maximalista a sua implosão, e a mudança de regime em Moscovo (sem nunca entendermos qual seria a alternativa de Washington a Putin, se é que havia) sem uma confrontação militar direta.

Foram vários os desencontros entre os principais atores envolvidos nessa parceria. Por um lado, os ucranianos “estavam sempre zangados com o facto de os americanos não poderem, ou não quererem, dar-lhes todas as armas e o equipamento que desejavam.” Por outro, “os americanos estavam irritados com o que consideravam ser exigências pouco razoáveis dos ucranianos.”

Na opinião destes, os americanos não estavam dispostos a fazer o que era necessário para os ajudar a vencer. Por sua vez, os americanos achavam que os ucranianos não estavam dispostos a fazer o que era imprescindível para serem ajudados a vencer. Como pano de fundo de tudo isto estava a soberba norte-americana. Como disse o General Christopher Cavoli, SACEUR e por acumulação de funções comandante das forças americanas na Europa, afinal os ucranianos “não tinham de ser tão bons como os britânicos e os americanos; tinham apenas de ser melhores do que os russos.”

Num assomo de sinceridade, o comandante desta parceria ucraniana-americana instalada em Wiesbaden, o General Christopher Donahue explicou que os ucranianos lutavam e morriam, testavam o equipamento e as táticas americanas e partilhavam as lições aprendidas. “Sem vocês”, disse ele, “nunca poderíamos ter construído todas estas coisas.”

Um dos primeiros acontecimentos que marcou essa desconfiança foi o afundamento do Moskva, o navio almirante da esquadra russa no Mar Negro, em abril de 2022. Numa reunião rotineira de partilha de informações, entre oficiais da marinha americana e ucraniana, o navio apareceu inesperadamente nos radares. A Administração Biden não tinha intenção de permitir que os ucranianos atacassem um símbolo tão importante do poder russo. Não obstante, com a ajuda dos ingleses, e sem avisarem os seus parceiros americanos, nem os informarem de que possuíam mísseis capazes de atingir o navio, afundaram-no contra a sua vontade.

Outro dos momentos do desconforto instalado, foi a contraofensiva ucraniana no verão de 2023, quando os ucranianos contrariando as instruções dos norte-americanos atacaram simultaneamente em três direções, com os resultados conhecidos, comprometendo assim a possibilidade de um volte-face no conflito, dado o volume de meios destruídos nessa operação. O que mereceu o grito desesperado de Cavoli “não é esse o plano!”. “A estratégia concebida em Wiesbaden foi vítima da política interna fraturante” onde a política se intrometia nas operações militares, e os generais competiam entre si por protagonismo.

No início de 2024, Zelensky deu instruções ao general Valery Zaluzhnyi para empurrar os russos de volta para as fronteiras da Ucrânia de 1991, até ao outono desse ano. O general chocou os americanos quando lhes apresentou um plano que exigia cinco milhões de granadas de obuses e um milhão de drones, ao que o general Christopher Cavoli respondeu, em russo fluente: “E onde é que os vou buscar?”

“À medida que os ucranianos foram ganhando maior autonomia na parceria, foram mantendo as suas intenções cada vez mais secretas.” A incursão ucraniana na região de Kursk, no segundo semestre de 2024, veio agravar esse sentimento de desconfiança. Os ucranianos não só mantiveram novamente os americanos na ignorância da operação, como atravessaram secretamente uma linha mutuamente acordada, levando equipamento fornecido pela coligação, em particular o americano, para território russo.

Mais uma vez, os ingleses não desperdiçaram a oportunidade para mostrar serviço e dar uma facada nos americanos, participando ativamente no planeamento da operação, que não contou com o apoio dos HIMARS e dos serviços secretos dos EUA. O resultado desta imprudente operação, decidida pelo presidente Zelensky contra o parecer de Zaluzhny, subordinada a objetivos políticos, também é conhecido. Os danos em material e pessoal foram imensos, e provavelmente irrecuperáveis.

As dificuldades de relacionamento entre os diferentes atores são conhecidas e estão documentadas. Por exemplo, entre Zaluzhny e o seu homólogo americano, o general Mark A. Milley. Mas alargam-se às lutas intestinas entre as lideranças ucranianas, algo que a propaganda ocidental impediu a divulgação. A reportagem dá conta dos choques entre Zelensky e o seu chefe militar general Zaluzhnyi (e potencial rival eleitoral), e entre este e o general Syrskyi, inconformado por o seu subordinado ter passado a ser seu comandante.

Na sequência do incómodo causado pela irrealizável utopia instalada na cabeça de Zelensky de recuperar todos os territórios sob controlo russo, Zaluzhnyi publicou um longo artigo no “The Economist” (1 de novembro de 2023) em que declarava estar a guerra num impasse, precisando os ucranianos de um avanço tecnológico quântico para a vencer, contradizendo o apelo à vitória total do seu presidente.

As linhas vermelhas

Com o prolongar do conflito e a evidente incapacidade de ucranianos e americanos infligirem uma derrota militar a Moscovo, o envolvimento americano foi progressivamente aumentando, fornecendo aos ucranianos armas cada vez mais sofisticadas, ultrapassando muitas das suas próprias linhas vermelhas e avançando para terrenos cada vez mais perigosos e movediços. Passaram a autorizar operações clandestinas anteriormente proibidas, colocando militares no terreno. Foram enviados conselheiros militares para Kiev, posteriormente autorizados a deslocarem-se para a linha da frente, próximo dos combates.

O mesmo fizeram os britânicos enviando secretamente dezenas de militares para a Ucrânia. Uns com a missão de instruir os soldados ucranianos a operar os sistemas anticarro fornecidos por Londres; outros (maio de 2023), após a transferência dos mísseis cruzeiro Storm Shadow para Kiev, para formar os ucranianos a utilizá-los. À semelhança do NYT, o “The Times” dá nota do papel crucial desempenhado pelos comandantes militares britânicos na Ucrânia.

Como atrás referido, numa fase inicial, os americanos apenas identificavam alvos russos em território ucraniano. Se os ucranianos quisessem atacar dentro da Rússia, teriam de o fazer recorrendo aos seus próprios serviços secretos e a armas produzidas pela Ucrânia. “A nossa mensagem [americanos] para os russos era: Esta guerra deve ser travada dentro da Ucrânia.” Os americanos “apenas” informavam os ucranianos onde é que se encontravam as forças russas em território ucraniano.

Perante a ausência dos resultados desejados, os generais Cavoli e Donahue optaram por subir a parada e pediram autorização para se utilizarem os HIMARS (High Mobility Artillery Rocket Systems), o que proporcionou um enorme salto qualitativo nas capacidades ucranianas. A reportagem do NYT chama à atenção para o facto de um oficial americano, num ato de lucidez, se interrogar “se não estamos [americanos] a dar um passo na direção da Terceira Guerra Mundial?” Transformado no back office da guerra, Wiesbaden supervisionou os ataques com os HIMARS.

Os ucranianos pediram autorização para utilizar as armas fornecidas pelos Estados Unidos para atingir o outro lado da fronteira, leia-se, território russo. O que foi autorizado, desde que os alvos se situassem nas designadas “caixas de operações”, isto é, zonas mais ou menos retangulares com cerca de 190 milhas, previamente selecionadas. Os ucranianos passaram a poder utilizar os seus novos ATACMS fornecidos pelos EUA para atingir alvos no interior da Rússia. “O impensável tinha-se tornado real. Os Estados Unidos estavam agora envolvidos na morte de soldados russos em solo russo,” o que legitimava um ataque russo ao quartel-general das forças americanas na Europa.

Neste perigoso processo de sucessivas alterações das regras do jogo, Wiesbaden desempenhava um papel decisivo, orientando os ataques, como vinha fazendo por toda a Ucrânia e na Crimeia fornecendo os objetivos e as coordenadas dos alvos. Oficiais americanos e britânicos supervisionavam todos os aspetos de cada ataque, desde a determinação das coordenadas até ao cálculo das trajetórias de voo dos mísseis.

Em 2024, a continuação da falta de progresso das forças ucranianas e a necessidade de manter os ucranianos à tona de água “forçou” a Administração Biden a ultrapassar novamente as suas próprias linhas vermelhas. Numa entrevista, já depois de ter abandonado a função de conselheiro de segurança nacional, na Administração Biden, Jake Sullivan disse que não foi por medo da 3ª Guerra Mundial que os ATACMS não foram inicialmente distribuídos à Ucrânia, mas porque não os tinham.

O stock existente era insuficiente para satisfazer as necessidades de dissuasão americana. Esse problema foi posteriormente resolvido pelo aumento da produção. Segundo ele, “à medida que tomávamos decisões sobre o fornecimento de equipamentos, avaliávamos o nível de risco aceitável de modo a evitar uma espiral de escalada”, como se eles próprios, com estas decisões, não estivessem a escalar o conflito.

De acordo com esta evolução e contrariando uma política de longa data, que impedia a CIA de fornecer informações sobre alvos em solo russo, a CIA teve luz verde para apoiar ataques a objetivos específicos dentro da Rússia. A Administração Biden autorizou a CIA a ajudar os ucranianos a desenvolverem, fabricarem e instalarem uma frota de drones marítimos para atacar a frota russa do Mar Negro.

Militares e operacionais da CIA em Wiesbaden planearam e apoiaram a campanha de ataques ucranianos à Crimeia. Em outubro, com margem de manobra para atuar na própria Crimeia, a CIA apoiou secretamente os ataques de drones ao porto de Sebastopol. Para além disso, a Casa Branca autorizou os militares e a CIA a trabalharem secretamente com os ucranianos e os britânicos num projeto para derrubar a ponte de Kerch.

Quem, na verdade, combatia com um braço preso atrás das costas, não eram os ucranianos, como se tornou comum afirmar, mas sim os russos, impossibilitados de atacar o olho da serpente localizada em Wiesbaden, responsável pelos ataques ucranianos e protegida pela NATO. Uma resposta russa a Wiesbaden significaria a guerra mundial. Foi com esta espada de Dâmocles que vivemos durante mais de dois anos.

Entretanto, os comentadores nacionais, imitando o que a propaganda internacional ia propalando, apelidavam irresponsavelmente Putin de frouxo e medroso, por recuar nas linhas vermelhas sucessivamente ultrapassadas, esquecendo que “tantas vezes vai o cântaro à fonte, que um dia lá deixa a asa.” Para eles, indiferentes ao perigo, na sua puerilidade e ignorância apregoavam a necessidade de continuar a pressão sobre a Rússia, sem terem a noção de quão perto se encontravam do abismo.

Estamos em crer que outro dirigente russo talvez não tivesse a paciência estratégica de Putin e não tivesse resistido a tamanhas provocações. Não temos muitas dúvidas sobre qual seria a resposta dos EUA, se os russos decidissem reciprocar o tratamento, colocando misseis “defensivos” em Cuba ou na Venezuela.

Portanto, não podemos deixar de assinalar a ligeireza, a insensatez, a falta de preparação e a imprudência com que a Administração Biden lidou com este assunto. Ainda teremos de perceber o quão perto estivemos da catástrofe, a dimensão da irresponsabilidade das lideranças europeias, e o grau de desonestidade do comentariado nacional.” Andaram mesmo a brincar às guerras mundiais.