Uma lista incompleta de coisas que não se podem dizer nem fazer na Europa democrática

(António Gil, in Substack.com, 06/05/2025, Revisão da Estátua)


(Tudo para salvar a democracia, claro).


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Na Europa podemos opinar sobre tudo menos sobre o genocídio dos palestinos. Mas vivemos em democracia. Em alguns países também não se pode questionar o Holocausto dos judeus. Mas esses países são democráticos e isso não deve ser contestado. Também não se pode questionar a pertença de nenhum país à NATO ou à UE, isso seria muuuiiito antIdemocrático.

Nem se pode discordar da ajuda financeira enviada à Ucrânia. Essa ajuda foi democraticamente decidida pelos respectivos líderes porque eles são tão democráticos que não têm de consultar os seus povos a tal respeito.

Dizer que a Rússia está a vencer a guerra na Ucrânia também não é boa ideia, porque isso é defender um ditador autoritário que, por acaso até foi eleito, mas as eleições russas não são como as europeias, portanto não são democráticas.

A UE e a NATO têm líderes não eleitos, mas isso não importa porque os líderes eleitos nos garantem que essas pessoas são democráticas, então, estão dispensados de eleições.

Ocasionalmente os líderes europeus impõem medidas autoritárias mas, como foram eleitos, podem reprimir as manifestações de protesto enviando polícias democráticos, treinados para distribuirem democraticamente bastonadas, balas de borracha e gás lacrimogéneo.

As democracias da Europa Ocidental constroem muros ou erguem barreiras de arame farpado junto às fronteiras com a Rússia mas isso é muito diferente dos muros construídos durante os tempos da cortina de ferro porque esses não eram muros democráticos; os actuais são tão democráticos que nalguns casos as populações que vivem perto deles até roubam os seus materiais para vender na sucata ou a empresas de construção civil a preços de amigo.

As leis dos países europeus proíbem as suas empresas de negociar com a Rússia e dificultam a vida aos cidadãos comuns que querem visitar a Rússia (até de alguns líderes europeus) mas isso é a democracia em acção, porque as pessoas deste lado não estão bem informadas sobre todas as coisas más que acontecem do lado russo, nem se deseja que estejam, porque poderiam convencer outros cidadãos que tudo o que há de errado nesse país poderia dar certo deste lado e isso colocaria em perigo a democracia europeia.

Ainda assim, os nossos governos descobriram recentemente que havia falhas nas nossas democracias, sendo a mais grave de todas a possibilidade de os eleitores escolherem democraticamente partidos e personalidades não democráticas; então baniram ou querem banir esses partidos e prender essas personalidades.

Sim, é verdade que dizem que é isso que Putin faz, mas ele faz isso para defender o seu posto de ditador eleito, ao passo que os nossos mandantes querem apenas ser democratas dizendo-nos que temos de os eleger a eles. Não queremos ser governados por ninguém como Putin, ou queremos?

Por favor, ninguém pense que eu sou antidemocrata. Eu vejo muitas vantagens em viver num país democrático e, tanto assim é, que acho que devíamos (todos os europeus) pelo menos tentar viver num país democrático, coisa que pelos vistos não estamos a conseguir.


Fonte aqui.

Do “rouba mas faz” ao “rouba e nem sequer faz”

(Por Eduardo Maltez Silva, in Facebook, 03/05/2025)


Durante décadas, Portugal conviveu com o cínico ditado “rouba mas faz”. Não era amor à corrupção — era desespero disfarçado de pragmatismo. José Sócrates ou Isaltino Morais conquistavam votos porque, apesar de tudo, deixavam obra feita. A democracia parecia funcionar com um verniz de eficiência. Havia cinismo, mas também havia estrada, hospital, escola.

Hoje, esse pacto quebrou-se. Com Luís Montenegro, inaugurámos o ciclo do “rouba… mas nem sequer faz”.

Um governo vazio, colado com marketing e espuma mediática, que se apresenta como alternativa ao desgaste do PS — sem mostrar alternativa nenhuma. Só um cenário de exaustão emocional generalizada em relação ao PS permite que um líder que nada propôs, nada construiu e nada vislumbra para o país seja premiado com os destinos da Nação.

Não estamos apenas perante maus gestores ou vendedores de ilusões. O que nos está a falhar, sistematicamente, é o próprio Estado. O SNS não colapsou por excesso de Estado — colapsou por menos Estado. A escola pública não perdeu professores por burocracia — perdeu-os porque deixou de os valorizar. A habitação tornou-se inacessível não por excesso de regulação — mas por falta dela. Os salários não estagnam porque o Estado intervém — estagnam porque não intervém onde devia: na proteção dos trabalhadores, na redistribuição, no planeamento económico.

Em cada crise — da pandemia ao apagão, da habitação à imigração — o problema é sempre o mesmo: o Estado foi encolhido até à irrelevância. É fraco onde devia ser forte, e forte apenas quando é para proteger os privilégios dos mais ricos.

É irónico, quase cruel, que se vote como resposta a isso em projetos que prometem ainda menos Estado… A receita falhou, e duplicam-na. Um neoliberalismo requentado, vendido como modernidade, onde o único plano é cortar impostos aos mais ricos e esperar que a magia do “crescimento espontâneo” apareça.

Mas não há magia no abandono. Não há futuro possível num país onde a única ambição é “não fazer ondas”. Onde se entrega o poder a quem só sabe inaugurar obras feitas por outros. Onde se promete “mudança” cortando na única coisa que protege os fracos: um Estado forte, competente e justo.

O PS perdeu-se porque deixou de ser alternativa — tornou-se uma versão domesticada da direita económica, gerindo o que havia em vez de transformar o que faltava. Não caiu por ser “socialista”. Caiu por ser tímido, tecnocrático, conservador nos tempos em que era preciso coragem.

E agora? Agora reina o ilusionismo fiscal. A política do PowerPoint. A governação do slogan. Os que iam cortar impostos afinal cortaram muito menos do que o governo PS e ainda aumentaram a carga fiscal, mas ninguém quer saber disso… as emoções e percepções são mais fortes que as razões.

Enquanto isso, os problemas reais — salários, habitação, serviços públicos, coesão territorial — continuam sem resposta.

Estamos no “rouba e nem sequer faz”, e agora entrámos na fase final: o “rouba, não faz, mas parece que faz”. Um país que aplaude o simulacro e castiga quem faz. Que enterra os factos e os contextos para navegar em percepções, emoções e preconceitos.

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Sobre a morte de Bergoglio

(Por Andrea Zhok, in Euro-Synergies, 03/05/2025, Trad. Estátua)


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Os últimos vinte anos do pontificado, acredito, pintaram um quadro no qual o declínio da influência internacional do papado de Roma se tornou evidente. Os dois últimos pontífices tentaram caminhos complementares, em parte opostos, para restaurar um lugar central para a Igreja Católica.

O Papa Bento XVI, durante o seu pontificado de oito anos (2005-2013), tentou seguir um caminho de consolidação doutrinária com a restauração de certos fatores tradicionais. Nesse caminho “tradicionalista”, ele encontrou tanta resistência dentro do Vaticano que tomou a decisão sem precedentes de renunciar ao trono papal para sempre. O gesto de Bento XVI pretendia ser emblemático, admoestador.

A referência ao fundador da principal ordem monástica, São Bento, foi concebida por Ratzinger como um desejo e inspiração para um “renascimento” do mundo ocidental, assim como os mosteiros beneditinos foram a sua matriz após o colapso do Império Romano (a deposição do último imperador ocidental, Rómulo Augusto, ocorreu em 473 d.C., e a composição da Regra Beneditina ocorreu em 525 d.C.). Esta esperança e inspiração de Bento XVI falharam. Os papas, como os soberanos do passado, nunca reinam sozinhos, mas precisam de um ambiente funcional, de um “tribunal”, de um “aparelho” eficaz e aderente à “missão”, para poderem traduzir o seu magistério em costumes e instituições. E ambiente existente mostrou-se inadequado para traduzir os ensinamentos de Ratzinger.

O Papa Bergoglio ascendeu ao trono papal referindo-se a outra figura emblemática, menos decisiva no plano institucional, mas poderosa no plano ideal: São Francisco de Assis.

A figura de Francisco, asceta, místico, com traços quase panteístas, expressava um desejo e uma inspiração diferentes dos de Bento, mas também conotava uma renovação radical. A orientação ideal do Papa Francisco era apoiar os humildes, os “perdedores” do mundo moderno; ele queria criticar a exploração do homem pelo homem e do homem sobre a natureza.

A encíclica “Laudato Si” continua a ser um texto exemplar, uma encíclica de grande poder analítico e rara profundidade na mensagem. Laudato Si’ é frequentemente citada como uma “encíclica ecológica”, como se fosse uma das muitas manifestações de “greenwashing” que contaminam o discurso público atual. Mas, quem se der ao trabalho de a ler, encontrará uma riqueza analítica extraordinária, uma integração do tema ambiental no da exploração económica geral, uma crítica aos mecanismos do capital, à dominação da economia financeira sobre a economia real, à dominação tecnocrática, uma crítica às chamadas “soluções de mercado” para a degradação ecológica (como os “créditos de carbono”) e muito mais.

Mas, além das esperanças iniciais, os doze anos de pontificado de Bergoglio mostraram mais uma vez a enorme dificuldade que o papado atual tem em propor com sucesso uma mensagem autónoma.

As características do magistério de Bergoglio que foram adotadas e promovidas são todas e somente aquelas poucas características de “liberalização da moral” (por exemplo, aberturas LGBT com a carta ao Padre Martin) e amplificação da narrativa atual (por exemplo, adesão à leitura dominante sobre a Covid) que correspondiam a uma imagem de “modernismo” estereotipado. Muitas outras posições desconfortáveis ​​sobre o capitalismo financeiro ou questões internacionais, de Israel à Líbia, do Irão à Rússia, foram silenciadas, às vezes até censuradas.

A impressão geral é que os dois últimos pontificados mostraram duas tentativas — intelectualmente sólidas e espiritualmente elevadas — de restaurar o lugar central do catolicismo romano e da sua mensagem histórica.

A primeira tentativa, com conotações mais “conservadoras”, rapidamente caiu em paralisia. A segunda tentativa, com uma conotação mais “progressista”, foi reduzida a uma impotência substancial em todas as áreas em que não condizia com a status corrente — onde “corrente” se refere às modas ideológicas favorecidas pelas oligarquias financeiras anglo-americanas.

Pode dizer-se qualquer coisa sobre Ratzinger e Bergoglio, mas certamente não que eles foram papas sem inspiração, preparação ou caráter. Longe disso.

No entanto, é difícil dizer que, duas décadas depois, o status ideal e operacional do cristianismo católico ganhou centralidade ou autoridade.

Ninguém sabe o que o próximo fumo branco do conclave trará, mas acho que é sensato não esperar muito.

As condições históricas não parecem ser tais que permitam que um novo pontífice, quaisquer que sejam suas possíveis qualidades pré-clássicas, reverta uma tendência estagnada. E o problema não é que “o Papa não tenha divisões militares”, como disse Estaline em Yalta: “alavancas espirituais” podem fazer coisas extraordinárias.

Mas as alavancas espirituais são aquela “força fraca” que só funciona quando repousa sobre um ponto de apoio espiritual dentro das pessoas. E hoje, eu não apostaria na disseminação de tal ponto de apoio, mesmo entre aqueles que habitam os salões dos palácios do Vaticano…

Fonte aqui