Do “rouba mas faz” ao “rouba e nem sequer faz”

(Por Eduardo Maltez Silva, in Facebook, 03/05/2025)


Durante décadas, Portugal conviveu com o cínico ditado “rouba mas faz”. Não era amor à corrupção — era desespero disfarçado de pragmatismo. José Sócrates ou Isaltino Morais conquistavam votos porque, apesar de tudo, deixavam obra feita. A democracia parecia funcionar com um verniz de eficiência. Havia cinismo, mas também havia estrada, hospital, escola.

Hoje, esse pacto quebrou-se. Com Luís Montenegro, inaugurámos o ciclo do “rouba… mas nem sequer faz”.

Um governo vazio, colado com marketing e espuma mediática, que se apresenta como alternativa ao desgaste do PS — sem mostrar alternativa nenhuma. Só um cenário de exaustão emocional generalizada em relação ao PS permite que um líder que nada propôs, nada construiu e nada vislumbra para o país seja premiado com os destinos da Nação.

Não estamos apenas perante maus gestores ou vendedores de ilusões. O que nos está a falhar, sistematicamente, é o próprio Estado. O SNS não colapsou por excesso de Estado — colapsou por menos Estado. A escola pública não perdeu professores por burocracia — perdeu-os porque deixou de os valorizar. A habitação tornou-se inacessível não por excesso de regulação — mas por falta dela. Os salários não estagnam porque o Estado intervém — estagnam porque não intervém onde devia: na proteção dos trabalhadores, na redistribuição, no planeamento económico.

Em cada crise — da pandemia ao apagão, da habitação à imigração — o problema é sempre o mesmo: o Estado foi encolhido até à irrelevância. É fraco onde devia ser forte, e forte apenas quando é para proteger os privilégios dos mais ricos.

É irónico, quase cruel, que se vote como resposta a isso em projetos que prometem ainda menos Estado… A receita falhou, e duplicam-na. Um neoliberalismo requentado, vendido como modernidade, onde o único plano é cortar impostos aos mais ricos e esperar que a magia do “crescimento espontâneo” apareça.

Mas não há magia no abandono. Não há futuro possível num país onde a única ambição é “não fazer ondas”. Onde se entrega o poder a quem só sabe inaugurar obras feitas por outros. Onde se promete “mudança” cortando na única coisa que protege os fracos: um Estado forte, competente e justo.

O PS perdeu-se porque deixou de ser alternativa — tornou-se uma versão domesticada da direita económica, gerindo o que havia em vez de transformar o que faltava. Não caiu por ser “socialista”. Caiu por ser tímido, tecnocrático, conservador nos tempos em que era preciso coragem.

E agora? Agora reina o ilusionismo fiscal. A política do PowerPoint. A governação do slogan. Os que iam cortar impostos afinal cortaram muito menos do que o governo PS e ainda aumentaram a carga fiscal, mas ninguém quer saber disso… as emoções e percepções são mais fortes que as razões.

Enquanto isso, os problemas reais — salários, habitação, serviços públicos, coesão territorial — continuam sem resposta.

Estamos no “rouba e nem sequer faz”, e agora entrámos na fase final: o “rouba, não faz, mas parece que faz”. Um país que aplaude o simulacro e castiga quem faz. Que enterra os factos e os contextos para navegar em percepções, emoções e preconceitos.

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Eu tinha umas asas brancas…

(Por Eduardo Maltez Silva, in Facebook, 04/05/2025)


(Vá lá, divirtam-se com o texto abaixo e não duvidem da honestidade do Luís Montenegro. A Estátua até acredita em bruxas e é por isso que lhe dedica um conhecido poema de Almeida Garrett, declamado no vídeo que segue.. 🙂

Estátua de Sal, 05/05/2025)


Eu tinha uma pequena empresa. Era só para gerir uma herança, muito simples, quase familiar — uma coisinha pequenina.

Tudo transparente.

Na verdade, era uma imobiliária, mas não era bem, porque não vendia imóveis. Era só de nome. Porque era muito séria e transparente… mas depois, afinal, fazia consultadoria. Já nem sei bem a quem. Coisas pequenas e éticas, pois claro.

A minha mulher, educadora de infância, é que tratava de tudo nos intervalos da lida da casa. Também vendia frangos assados, mas era só ao domingo.

No início, não havia clientes com ligações ao Estado. Juro de pés juntos!

Depois, afinal, até havia, mas era antes de eu ser Primeiro-ministro. Ou durante. Mas sem eu saber. Ou eu sabia, mas não mandava. Ou mandava, mas era sem querer. Foram lapsos transparentes.

Não me façam mais perguntas. Não tenho nada a esconder. Vamos a eleições porque não quero responder a perguntas. Está tudo resolvido, pronto.

Fazia consultadoria, claro. Mas ninguém viu os trabalhos. Eram secretos, todos em tinta invisível, por causa da espionagem chinesa… ou dos russos.

Fazia consultadoria para uma empresa de casinos enquanto, por coincidência, legislava sobre casinos. É multitasking. Deixem o Luís trabalhar.

E o pai da pessoa que — por puro acaso — escolhi para candidato à câmara de Braga pagou à minha empresa. Pagou bem. Acima do mercado… mas foi tudo transparente, menos o dinheiro, que esse via-se bem. Tão bem, que até daria para a nora do cliente, que trabalhava na Spinumviva, fazer o trabalho. Mas não fez.

Porque quem é que usa algo grátis quando pode pagar a um político? Já antes fazia consultadorias, mas por coincidência era só a câmaras do PSD. E todas por adjudicação directa. São daquelas coisas que acontecem uma vez em cada mil anos — e calhou-me logo a mim.

Não havia nada a esconder, mas foi tudo escondido da Entidade da Transparência. Várias vezes… Por modéstia, só pode… ou lapso… Ou uma interpretação da lei que me levou, sem querer, a fazer meia dúzia de contas bancárias para movimentar dinheiro. Tudo legal e transparente.

E aquela casa? Era uma reabilitação, claro. Só que foi construída toda de raiz. Uma casinha a cair que virou uma moradia de luxo — porque houve muito amor e betão. Tudo transparente. Até fui à televisão e disse que entreguei todos os documentos. Mas depois esqueci-me de os entregar.

Mais um lapso… tal como aquele de baixar 1.500 milhões no IRS das pessoas, mas esquecer-me de dizer que já incluía a descida de 1.300 milhões feita pelo anterior governo. Quem nunca teve lapsos? São coisas que acontecem… de forma transparente.

Uma das empresas pagava à Spinumviva por um serviço que já estava a pagar à empresa anterior… também minha. É tipo leve dois, pague um… mas ao contrário: leve zero e pague a dobrar.

E os trabalhos? Quem os fez? Bom… não fui eu, porque eu não podia. Deve ter sido à noite, ao deitar, depois de um dia a abanar bandeiras do PSD. Pelas contas da empresa, foi alguém que recebia o salário mínimo, vindo directamente do escritório de advogados do Hugo Soares… é outsourcing transparente intra-partidário. Até agora, ninguém viu um único trabalho feito. Nada. Nem um PDF, nem um PowerPoint, nem um post-it… sinal de que os trabalhos são igualmente transparentes.

Mas sabem que a empresa passou para os meus filhos. Os mesmos filhos que são novos, mas muito bons com computadores. E agora? Agora dizem que os clientes que estavam na última lista já não são actuais. O que quer dizer que há clientes novos… ou isso, ou é como o Observador, que funciona sem ter lucro há vários anos.

Mas não se preocupem. Está tudo sólido e ético. O Cavaco Silva já nos tranquilizou. Está tão sólido e ético como estava o BES. Está tudo resolvido e transparente — tão transparente como os trabalhos feitos que ainda ninguém viu.

Se perguntarem mais, é porque me estão a perseguir. A culpa é dos imigrantes e do socialismo. Vão mas é para a Venezuela. Viva Portugal. Viva o PSD.

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