Outro modo de ver o caso Spinumviva

(Pacheco Pereira, in Público, 03/05/2025)

Pacheco Pereira

Se este artigo tivesse um subtítulo, seria “O papel dos ‘centros de influência’ nas democracias”.


1. O erro de análise no caso Spinumviva é ter-se, desde início, passado ao largo do que é seguro: o papel de Montenegro como a “influência” do “centro de influência” do seu escritório de advogados e da sua metamorfose numa empresa familiar, transformando num caso de ilegalidade (que pode existir ou não) o que é um caso de más práticas, tornado grave pelo comportamento de Montenegro. Se se fosse por aí, o caminho crítico seria muito mais seguro, até porque, ao ser primeiro-ministro, faz das suas más práticas um caso nacional com sérios prejuízos.

2. Acresce que a análise deste caso permite olhar para os “centros de influência” existentes na democracia portuguesa, na advocacia, na consultadoria, nas agências de comunicação, nos partidos políticos, autarquias, gabinetes de ministérios e governos, na administração pública e nos poderes fácticos, seja do futebol à Igreja. Esses “centros de influência” significam muitas vezes que uma rede não escrutinada tem acesso directo e privilegiado ao poder político, seja a nível local ou nacional.

A Spinumviva num repositório de empresas

3. A Spinumviva é, a nível local, um desses “centros de influência”, e a sua clientela não foi ao escritório de advogados –​ que, como muito outros, se transformou em empresa por razões fiscais – pela sua competência, pelos seus colaboradores, pelos seus baixos honorários, seja pelo que for, visto que estamos a falar de uma empresa familiar sem estrutura e organização, sem sede fora da residência familiar, mas pelo facto de ser a “empresa” de Luís Montenegro. A sua força no mercado, como agora se diz, é apenas essa. A “influência” que gere é a de Montenegro, antes e depois de ele lá estar formalmente, como pessoa com os contactos certos no partido, na autarquia, no PSD local e nacional.

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4. Embora a Spinumviva faça a gestão dos interesses locais –​ e é por isso que o conhecimento dos seus clientes é relevante para perceber que todas as empresas e grupos económicos na zona de Espinho-Aveiro estão lá –, não é diferente de muitos outros “centros de influência” mais poderosos a nível nacional. É o caso de grandes escritórios de advogados, consultoras, agências de comunicação (ainda estou por perceber o trade-off que existe entre agências de comunicação que colocam notícias dos seus clientes nas páginas especializadas de economia, de advogados, etc., e os jornalistas), que são, por exemplo, a escolha quase imediata de qualquer grande interesse económico estrangeiro. Não é necessariamente pela qualidade do seu trabalho, mas pelos seus contactos próximos do Governo, a administração fiscal, autarquias poderosas, etc., que são “grandes escritórios” e continuam a sê-lo. Toda a gente sabe a que escritório de advogados deve ir para tratar de um assunto fiscal, de uma autorização administrativa, de uma matéria de defesa, etc., até porque o próprio Estado é um gigantesco cliente dos seus serviços sem verdadeiro concurso público ou à revelia dos seus próprios serviços jurídicos.

5. O problema não está no facto de existirem, nem serem em si ilegais; está na ténue fronteira entre a influência e o tráfico de influências, e deviam ser postos a milhas de distância do poder democrático. Pelo contrário, estão bem dentro dele e ganham com isso. Já escrevi que quem manda muito em Portugal não são muitas vezes os detentores de cargos formais, ministros, deputados, autarcas, mas esse círculo que actua nos gabinetes, que exerce o poder de escolha para cargos relevantes ou, ainda melhor, tem o poder de veto. A sua força vem da sombra da discrição e do segredo da sua actuação num Estado laxista sobre a obrigação de registos documentais, telefónicos, ou de correspondência electrónica.

6. O segredo e a discrição são fundamentais, até porque há um efeito perverso que vem da revelação destas “influências” no poder político, que é que o até então beneficiado passa a poder ser prejudicado, para evitar suspeitas. Os clientes da Spinumviva estão a fugir da empresa, porque o que era ontem uma vantagem hoje é um prejuízo.

7. Há, por isso, três erros graves no comportamento de Montenegro, repito, não me pronunciando sobre se há ou não ilegalidade no que aconteceu. A censura por más práticas graves não implica que essas práticas sejam ilegais. A tese de que a “ética republicana é a lei” não é verdadeira, porque a palavrinha “ética” vai mais longe, mesmo quando não se aceita o moralismo dominante, que incide mais sobre as pessoas do que sobre os procedimentos.

8. O primeiro erro é não ter fornecido a informação devida, e ainda o não ter feito ao dia de hoje, sobre os clientes da sua empresa familiar, para poder haver um julgamento sobre eventuais conflitos de interesse.

9. O segundo erro deriva do primeiro, é não ter dissolvido a sua empresa logo que se tornou primeiro-ministro. Se a empresa tivesse independência do homem político Montenegro e ele fosse apenas um sócio vulgar, ou um associado, poderia ter bastado suspender as suas actividades, nem que fosse para garantir a exclusividade na governação. Ao não o fazer, torna-se impossível dissociar a empresa da força que lhe trouxe clientes de vulto e facturação: Luís Montenegro.

10. O terceiro erro tem que ver com o facto de Montenegro, pela condução do processo e pela falta de esclarecimentos, ter transformado este caso numa crise nacional, levando à queda do Governo e a novas eleições, com os elevados custos que isso tem. Isto bastava para o condenar, mas chamaria a atenção para muitos outros casos de “influência” existentes nos grandes partidos, situação e oposição.

O autor é colunista do PÚBLICO


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Eu tinha umas asas brancas…

(Por Eduardo Maltez Silva, in Facebook, 04/05/2025)


(Vá lá, divirtam-se com o texto abaixo e não duvidem da honestidade do Luís Montenegro. A Estátua até acredita em bruxas e é por isso que lhe dedica um conhecido poema de Almeida Garrett, declamado no vídeo que segue.. 🙂

Estátua de Sal, 05/05/2025)


Eu tinha uma pequena empresa. Era só para gerir uma herança, muito simples, quase familiar — uma coisinha pequenina.

Tudo transparente.

Na verdade, era uma imobiliária, mas não era bem, porque não vendia imóveis. Era só de nome. Porque era muito séria e transparente… mas depois, afinal, fazia consultadoria. Já nem sei bem a quem. Coisas pequenas e éticas, pois claro.

A minha mulher, educadora de infância, é que tratava de tudo nos intervalos da lida da casa. Também vendia frangos assados, mas era só ao domingo.

No início, não havia clientes com ligações ao Estado. Juro de pés juntos!

Depois, afinal, até havia, mas era antes de eu ser Primeiro-ministro. Ou durante. Mas sem eu saber. Ou eu sabia, mas não mandava. Ou mandava, mas era sem querer. Foram lapsos transparentes.

Não me façam mais perguntas. Não tenho nada a esconder. Vamos a eleições porque não quero responder a perguntas. Está tudo resolvido, pronto.

Fazia consultadoria, claro. Mas ninguém viu os trabalhos. Eram secretos, todos em tinta invisível, por causa da espionagem chinesa… ou dos russos.

Fazia consultadoria para uma empresa de casinos enquanto, por coincidência, legislava sobre casinos. É multitasking. Deixem o Luís trabalhar.

E o pai da pessoa que — por puro acaso — escolhi para candidato à câmara de Braga pagou à minha empresa. Pagou bem. Acima do mercado… mas foi tudo transparente, menos o dinheiro, que esse via-se bem. Tão bem, que até daria para a nora do cliente, que trabalhava na Spinumviva, fazer o trabalho. Mas não fez.

Porque quem é que usa algo grátis quando pode pagar a um político? Já antes fazia consultadorias, mas por coincidência era só a câmaras do PSD. E todas por adjudicação directa. São daquelas coisas que acontecem uma vez em cada mil anos — e calhou-me logo a mim.

Não havia nada a esconder, mas foi tudo escondido da Entidade da Transparência. Várias vezes… Por modéstia, só pode… ou lapso… Ou uma interpretação da lei que me levou, sem querer, a fazer meia dúzia de contas bancárias para movimentar dinheiro. Tudo legal e transparente.

E aquela casa? Era uma reabilitação, claro. Só que foi construída toda de raiz. Uma casinha a cair que virou uma moradia de luxo — porque houve muito amor e betão. Tudo transparente. Até fui à televisão e disse que entreguei todos os documentos. Mas depois esqueci-me de os entregar.

Mais um lapso… tal como aquele de baixar 1.500 milhões no IRS das pessoas, mas esquecer-me de dizer que já incluía a descida de 1.300 milhões feita pelo anterior governo. Quem nunca teve lapsos? São coisas que acontecem… de forma transparente.

Uma das empresas pagava à Spinumviva por um serviço que já estava a pagar à empresa anterior… também minha. É tipo leve dois, pague um… mas ao contrário: leve zero e pague a dobrar.

E os trabalhos? Quem os fez? Bom… não fui eu, porque eu não podia. Deve ter sido à noite, ao deitar, depois de um dia a abanar bandeiras do PSD. Pelas contas da empresa, foi alguém que recebia o salário mínimo, vindo directamente do escritório de advogados do Hugo Soares… é outsourcing transparente intra-partidário. Até agora, ninguém viu um único trabalho feito. Nada. Nem um PDF, nem um PowerPoint, nem um post-it… sinal de que os trabalhos são igualmente transparentes.

Mas sabem que a empresa passou para os meus filhos. Os mesmos filhos que são novos, mas muito bons com computadores. E agora? Agora dizem que os clientes que estavam na última lista já não são actuais. O que quer dizer que há clientes novos… ou isso, ou é como o Observador, que funciona sem ter lucro há vários anos.

Mas não se preocupem. Está tudo sólido e ético. O Cavaco Silva já nos tranquilizou. Está tão sólido e ético como estava o BES. Está tudo resolvido e transparente — tão transparente como os trabalhos feitos que ainda ninguém viu.

Se perguntarem mais, é porque me estão a perseguir. A culpa é dos imigrantes e do socialismo. Vão mas é para a Venezuela. Viva Portugal. Viva o PSD.

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Omissão perante Gaza é vergonha que perseguirá Humanidade para sempre

(Wisam Zoghbour, in Diálogos do Sul, 02/05/2025)

Aqueles que apostam que o cerco e a fome os levarão à fuga ignoram que os palestinianos já enfrentaram a morte muitas vezes — e nunca renunciaram ao amor pela sua terra (Foto: UNRWA)

100 mártires por dia, crianças enterradas sob escombros, fome: nada é capaz de suscitar algo além de comunicados frios e tímidos; até quando?


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Não há nada mais horrendo do que fazer um povo inteiro passar fome para forçá-lo a abandonar sua terra. E não há nada mais evidente do que o crime que hoje se comete contra Gaza e seu povo, sob os olhos e ouvidos de todo o mundo.

O que revelou o relatório do jornal Financial Times não nos surpreendeu, nós, filhos da causa: Israel não está travando uma guerra contra o “Hamas”, como alega, mas executando um plano cuidadosamente elaborado para esvaziar Gaza de seus habitantes, abrindo caminho para um projeto de limpeza étnica sem disfarces. O cerco à água, à comida e aos medicamentos, a destruição de casas sobre a cabeça de crianças, e a abertura de “corredores da morte” para forçar os palestinos a fugir — tudo isso ocorre segundo um roteiro perverso que nada tem a ver com segurança, mas tudo a ver com colonialismo, saque e desenraizamento.

Mahmoud Al-Ghazali, que vê seus filhos morrendo de fome e de medo, não é um caso isolado. E Shadi Saqr, que jura que não partirá nem que seja por cima do próprio cadáver, representa todo gazaui que sabe que a pátria não se vende — nem que se passe fome, nem que se morra. Pedir ao palestino que escolha entre sua terra e sua vida é pedir que se suicide espiritualmente, que morra de pé em vez de se ajoelhar.

O primeiro-ministro da ocupação israelense, Benjamin Netanyahu, não se envergonha de anunciar seus planos: não quer paz, não quer “solução de dois Estados”, quer Gaza sem palestinos — uma terra vazia, pronta para ser vendida a empresas imobiliárias. E atrás dele está a fracassada administração Trump, que transformou o sofrimento das crianças em moeda de barganha, e que pressiona inclusive pela “migração voluntária” — como se fosse um passeio, e não uma deportação forçada sob ameaça de morte.

Onde está a comunidade internacional? Onde estão as Nações Unidas, que veem Gaza se transformar num “campo de morte” e nada fazem? Onde está a voz da consciência humana, que antes estremecia diante das notícias de fomes e guerras?! 100 mártires por dia, crianças enterradas sob os escombros, armazéns vazios de alimentos — e não encontramos senão comunicados tímidos e discursos frios.

Esse silêncio é cumplicidade no crime. Essa omissão é uma mancha de vergonha que perseguirá a humanidade para sempre.

O povo de Gaza não pede esmolas. Pede liberdade, direito, vida sobre sua terra. E aqueles que apostam que o cerco e a fome os levarão à fuga ignoram que o palestino já enfrentou a morte muitas vezes — e nunca renunciou ao amor pela sua terra.

Gaza não partirá. Gaza não se quebrará. E cada gota de sangue derramada sobre o seu solo jura que a Palestina não será apagada, nem será esquecida.

Fonte aqui