A farsa do narco-Estado venezuelano

(Bruno Carvalho, in AbrilAbril, 03/09/2025)

Dezenas de milhares de pessoas saíram às ruas na Venezuela para demonstrar o seu compromisso com a revolução bolivariana, integrandos as milícias de defesa da nação, em face às ameaças do Governo dos Estados Unidos da América. Numa conferência de imprensa realizada no dia 2 de Setembro, Donald Trump anunciou ter destruído um barco “de droga” com bandeira venezuelana. Caracas, 29 de Agosto de 2025

A administração norte-americana acusou Nicolás Maduro de ser o líder do Cartel de los Soles, uma fantasia criada para justificar mais uma agressão à Venezuela com um único objectivo: as maiores reservas de petróleo do mundo.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Há poucos dias, o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, alertou para o risco de uma invasão norte-americana à Venezuela que, a acontecer, poderia levar toda a região a uma situação semelhante àquela que vive, hoje, o Médio Oriente. Apesar de já terem passado mais de dois séculos sobre as declarações do então inquilino da Casa Branca, James Monroe, que proclamou que a América era para os americanos, reclamando aqueles territórios como esfera de influência de Washington, a Doutrina Monroe continua vigente.

Desde 2000, todas as administrações norte-americanas tentaram derrubar Hugo Chávez e Nicolás Maduro: através de golpes de Estado, invasões com mercenários, atentados com drones, com militares venezuelanos comprados, com a imposição de um falso presidente, etc.

Só nunca ousaram invadir a Venezuela de forma directa. A razão é óbvia. Para além de uma orientação política e económica divergente dos interesses norte-americanos, com influência em vários países da região, a Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo.

Para além dos regulares navios da marinha e da guarda costeira norte-americana, Washington enviou agora para a costa venezuelana uma força composta por uma frota de sete navios de guerra, incluindo um submarino nuclear, e um grupo anfíbio, envolvendo 4500 soldados. Na região, as forças armadas dos Estados Unidos têm ainda aviões espiões P-8 para recolher informações e fazer trabalho de inteligência.

A verdadeira razão é o petróleo

De acordo com a Casa Branca, Nicolás Maduro é o líder de um cartel de droga e a Venezuela é uma ameaça para a segurança dos Estados Unidos porque supostamente seria uma plataforma de trânsito de substâncias ilícitas para esse país e para a Europa. E há até um precedente histórico. Em 1989, os Estados Unidos invadiram o Panamá e prenderam o seu presidente, o General Noriega, antigo colaborador da CIA, acusado por Washington precisamente de estar envolvido no narcotráfico.

Contudo, a acusação parece não fazer qualquer sentido, como defende Pino Arlacchi, antigo director da UNODC, o departamento das Nações Unidas para as Drogas e o Crime. Num artigo intitulado «O grande engano contra a Venezuela: a geopolítica do petróleo disfarçada de guerra contra as drogas», explica porque é que é uma mentira definir aquele país como um «narco-Estado». 

Segundo Pino Arlacchi, durante o seu mandato à frente da UNODC, esteve em países como a Colômbia, Bolívia, Peru e Brasil, mas nunca visitou a Venezuela.«Simplesmente porque não havia necessidade», explica. «A cooperação do governo venezuelano na luta contra o narcotráfico era uma das melhores da América do Sul, só pode ser comparada ao histórico impecável de Cuba». Para além disso, no Relatório Mundial sobre Drogas de 2025 da UNODC, há apenas uma breve menção à Venezuela, indicando que uma fracção mínima da produção colombiana de drogas passa por esse país rumo aos Estados Unidos e à Europa. Segundo a ONU, a Venezuela consolidou-se como um território livre do cultivo de folha de coca, marijuana e produtos similares, bem como da presença de cartéis criminosos internacionais. «O documento não fez outra coisa senão confirmar os 30 relatórios anuais anteriores, que não falam do narcotráfico venezuelano porque ele não existe. Apenas 5% das drogas colombianas transitam pela Venezuela», sublinha o antigo director da UNODC.

Nesse sentido, importa atentar aos números dos outros países. A Colômbia e a Guatemala encabeçam a produção e comercialização de cocaína. «No Equador, por exemplo», explica, «57% dos contentores de bananas que saem de Guayaquil chegam à Bélgica carregados de cocaína. As autoridades europeias apreenderam 13 toneladas de cocaína num navio espanhol proveniente de portos equatorianos, controlados por empresas protegidas por funcionários do governo equatoriano. A União Europeia elaborou um relatório detalhado sobre os portos de Guayaquil, que descreve como «as máfias colombianas, mexicanas e albanesas operam amplamente no Equador». A taxa de homicídios no Equador disparou de 7,8 por 100 000 habitantes em 2020 para 45,7 em 2023.

Pino Arlacchi diz que os Estados Unidos usaram o narcotráfico como justificação para o que realmente lhes importa: o petróleo. É por isso que não incomodam minimamente os verdadeiros produtores de drogas. O Relatório Europeu sobre Drogas de 2025, por exemplo, não menciona sequer a Venezuela. Curiosamente, a Colômbia tem a presença de soldados norte-americanos em sete bases militares e uma presença substancial da agência dos Estados Unidos para o combate às drogas (DEA) e o país continua nos primeiros lugares na produção e comercialização de cocaína.

Um povo em armas

No seu livro de memórias, o ex-director do FBI, James Comey, confessou que entre as motivações das políticas dos Estados Unidos contra a Venezuela estava o chamado ouro negro. Trump ter-lhe-á dito que o governo de Maduro era «um governo sentado sobre uma montanha de petróleo».

A Venezuela é um dos países que mais cresce na América Latina e a previsão deste ano é para uma subida do PIB em 9%. Simultaneamente, apesar do crescimento da produção e comercialização de petróleo, o país diversificou mais a sua economia para fazer face ao cerco económico imposto pelos Estados Unidos. Hoje, a situação económica é muito diferente daquela a que esteve sujeita desde há cerca de uma década com as sanções dos Estados Unidos. A Venezuela apostou na construção de um modelo soberanista que teve de se adaptar à guerra económica imposta pelos EUA. Há bancos que têm dinheiro de Caracas congelado como o Novo Banco. Há um cerco económico à Venezuela para a asfixiar. A estratégia das sanções procurou empurrar o povo venezuelano para a miséria, como aconteceu noutras latitudes, para vergar governos aos interesses de Washington. Contudo, os últimos anos mostram a capacidade de resistência económica de Caracas.

Nas últimas décadas, a oposição venezuelana tem estado dividida e tem sido incapaz de derrubar o poder chavista pela força ou pela via eleitoral. Há opositores a governar câmaras municipais e governos estaduais, o que em si demonstra que não é certa a falta de liberdade. Os Estados Unidos contam com uma parte da oposição, como é o caso de Maria Corina Machado, que no passado pediu uma invasão do seu próprio país, mas há quem conteste essa opção.

O facto é que mais de oito milhões de venezuelanos, num país de 25,5 milhões, fazem parte do sistema de milicianos e reservistas. Ou seja, de acordo com dados do governo venezuelano, em poucas semanas, perante a ameaça de invasão, cerca de três milhões de venezuelanos inscreveram-se na Milícia Nacional Bolivariana, um corpo de civis armados e treinados para combater. Já com mais de 25 anos de chavismo no poder, a aliança das forças armadas com o povo venezuelano tem sido a peça-chave para garantir a soberania nacional e a continuação de um projecto que nunca escondeu a vontade de romper com as ingerências dos Estados Unidos e abraçar um modelo de relações internacionais multilaterais, justas e soberanas.

Fonte aqui

O “dia inicial” de um novo regime?

(Manuel Loff, in Público, 03/09/2025)


A direita nunca gostou do 25 de Abril e quer encontrar no 25 de Novembro uma data para comemorar.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Todos os regimes políticos comemoram o seu nascimento. Procuram com uma narrativa fundadora reforçar os laços da comunidade. Quanto mais emancipadora for essa narrativa – o fim de uma ditadura e/ou de uma guerra ilegítima, como ocorreu com o 25 de Abril –, mais a comemoração é genuína e popular e mais potencia uma vontade de resistência ao autoritaritarismo e à desigualdade.

Assine já

A democracia portuguesa nasceu com o 25 de Abril e com todas as transformações que, nos dois anos seguintes, fizeram com que a democratização se chamasse Revolução: a libertação dos presos políticos, a dissolução da PIDE e a prisão dos seus agentes, o desmantelamento do Estado autoritário, o fim da guerra e a autodeterminação dos povos coloniais, o salário mínimo e novas regras que, pela primeira vez na história dos portugueses, deram um mínimo de dignidade às relações de trabalho, os direitos das mulheres, o sufrágio universal, a Reforma Agrária… Um país novo, pela primeira vez feito à imagem do que o povo verdadeiramente queria. Construído nas ruas e nos locais de trabalho, ratificado em eleições, transposto para a mais democrática das constituições.

É por tudo isto que a direita nunca gostou do 25 de Abril e quer encontrar no 25 de Novembro uma data para comemorar. Já no ano passado, decidiu-se por aquilo que um dos seus melhores porta-vozes reconheceu ser “uma inevitável vingançazinha”: “Comemorar os 49 anos [do 25 de Novembro] como se fossem os 50 – com uma cerimónia absolutamente despropositada, que copia a do 25 de Abril, com o único objetivo de chatear a esquerda” (João Miguel Tavares, PÚBLICO, 22/11/2024).

Um ano depois, o Governo, pela mão de Nuno Melo (que gosta deste papel, tão de moda, de importador das teses fascistóides das direitas extremas para dentro das direitas tradicionais), sem se atrever a fechar a Comissão Nacional (presidida pelo Presidente da República) das Comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, criou uma “comissão para comemorar os 50 anos do 25 de Novembro”. A intenção é que ela permaneça em atividade até maio de 2026 para que “possam ser suficientemente assinaladas datas e acontecimentos que só foram possíveis por causa do 25 de Novembro” – por exemplo, diz Melo manipulando a História, a aprovação da Constituição e “as primeiras eleições livres” [sic], ou seja, não as constituintes de 1975 mas as legislativas de 1976 (PÚBLICO, 28/8/2025).

Ou seja, parece evidente a vontade de se sobrepor ao programa há muito anunciado pela Comissão Executiva das Comemorações do 25 de Abril (dirigida há três anos pela historiadora Inácia Rezola, cujo desempenho tem sido unanimemente elogiado) e que inclui, obviamente, todos estes acontecimentos. Tratados por quem os estudou cientificamente, mobilizando unidades de investigação – e não este somatório insólito de entidades que cumprem tudo menos a “natureza apartidária” e a “grande diversidade” que o ministro se atreveu a assegurar que teria a nova comissão: a Sociedade Histórica da Independência Nacional, que tem como presidente o antigo líder do CDS, Ribeiro e Castro, e como vice-presidente uma deputada municipal do mesmo partido; a Associação de Comandos cujas direções se situam há muito no que habitualmente se chama a direita radical e nostálgica; o diretor-geral de Política da Defesa Nacional. Não se sabe quem a presidirá, mas o CDS há anos disse quem queria para o lugar: Rui Ramos.

A direita quer ter o seu “dia inicial” (ainda que não “inteiro e limpo”) de um regime que sinta seu. E não quer que ele o obrigue – como o 25 de Abril obriga – a comemorar o fim da ditadura e da guerra. O seu não é o regime da Constituição de 1976, mas um novo regime a construir. Ao escolher o 25 de Novembro, quer comemorá-lo como derrota do 25 de Abril. Dê as voltas que quiser e nomeie quem quiser para fazer a sua nova “história oficial”. A memória coletiva e a investigação digna desse nome cá estará para lhe fazer frente.

****

Quero deixar aqui uma homenagem ao Zé Luís Borges Coelho, um dos homens mais extraordinários e, em toda a sua humanidade, mais simples e genuínos que conheci. Há pessoas a quem, em vida, nunca agradecemos suficientemente o que fizeram.

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

II Guerra Mundial – 1 de setembro de 1939

(Carlos Esperança, in Facebook, 01/09/2025)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Há 86 anos, Hitler invadiu a Polónia, apesar dos correligionários que aí tinha, e iniciou a II Guerra Mundial. O clima político e económico tinha semelhanças com o atual. As fronteiras e o «espaço vital», hoje trocados pelos mercados, foram detonadores de uma catástrofe em que, pela segunda vez, a Alemanha ganhou todas as batalhas e perdeu a guerra.

Dessa tragédia, do desvario belicista, dessa delinquência nacionalista, a História regista nomes sinistros: Hitler, Goebbels, Bormann, Himmler, Goering, Eichmann, Ribbentrop, Rosenberg e Rudolf Hess.

Hoje, 86 anos depois, parecem mais confiáveis os principais entusiastas da corrida ao armamento e mais generosa a justificação. Defender as fronteiras de um país invadido é bem mais aceitável do que pretender conquistar um território, mas o entusiasmo de dois alemães causa alguma perplexidade.

Friedrich Merz e Von der Leyen, o primeiro em nome da Alemanha, e a segunda no da UE, apoiam o país europeu invadido por outro igualmente europeu, e arrastam a Europa para um confronto que só acabará, como todas as guerras, pela capitulação de um deles, ou à mesa das negociações. E surpreende que, depois de três anos e meio de guerra, jamais tenham equacionado um plano de paz para negociar.

Quem apoiou a divisão da Jugoslávia e o ataque à Sérvia, para lhe amputarem o Kosovo, e se conformou com a ocupação de cerca de 37% do território e divisão do Chipre pela Turquia, certamente justificaria maior recato na defesa de uma causa, por mais justa que seja, com recurso à guerra.

A política externa da UE, ora confiada a Kaja Kallas, só beneficiou a Turquia e a China, dois países que são a antítese das democracias que nós defendemos. Não foi a Rússia, o País invasor da Ucrânia, que virou costas à Europa Ocidental, foi esta que a escorraçou para benefício geoestratégico dos EUA.

Agora, quando os EUA se desinteressam da guerra na Ucrânia, limitando-se a vender-nos armas para manter a guerra, ainda nos impõe tarifas sem reciprocidade e exige o sacrifício de 5% do PIB em detrimento dos apoios sociais.

E a senhora Von der Leyen, parece uma gladiadora a gritar ao imperador Cláudio, digo Trump, “Salve, César, aqueles que vão morrer te saúdam”.

O mundo está diferente e quando pensávamos que já não havia um país comunista, apenas ditaduras e democracias, vemos o neoliberal Trump a disparar tarifas e o “comunista” Xi Jinping, a defender o comércio livre! 😊

O que dói é ver a deriva belicista e o desvario de Trump sufragados pela UE e a China a ser a beneficiária da guerra na Europa, que destrói a UE e a confiança nos EUA.

Ontem assistimos ao tropismo da Índia para a China, a esquecer a rivalidade histórica, com o PM Narendra Modi a declarar que o problema das fronteiras estava resolvido.

Abandonámos o Brasil à vingança de Trump, provavelmente a vítima que não resiste a mais uma ditadura pró-americana, e assistimos ao regresso do obscuro regime da Coreia do Norte ao convívio da China, Rússia e Índia.

E a UE fica a persistir na guerra com o RU, o país satélite dos EUA que quis destruí-la.  A UE quis isolar a Rússia e isolou-se.

É de desconfiar da pressa e segurança com que a senhora Von der Leyen atribuiu à Rússia o ataque ao sistema de GPS no voo que a levou à Bulgária.

Sabemos como começam as guerras. Raios partam a sorte!

1 de setembro de 2025