A Economia do Fogo num país de aselhas governado por mentecaptos

(Por Pedro Almeida Vieira, in Página Um, 21/08/2025)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

O Governo voltou a anunciar um cardápio de medidas para acudir às zonas devastadas pelos incêndios deste ano: isenções, apoios financeiros a famílias, empresas e agricultores, reconstrução de casas, reforço dos cuidados de saúde, prorrogação de prazos fiscais e contributivos. Um extenso rosário de paliativos, embrulhado em discurso piedoso, que já conhecemos de cor e salteado.

A cada tragédia sucede a mesma liturgia: visitas oficiais, promessas de apoios, choradeira perante as câmaras, discursos sobre a “solidariedade nacional”. Depois, silêncio, esquecimento e a inevitável repetição da catástrofe. Este é um ciclo vicioso que se arrasta há décadas e que revela não apenas incompetência, mas uma deliberada recusa em alterar a estrutura de um país refém da sua própria economia do fogo.

Não se trata de má sorte. Não se trata de acidentes. Portugal não tem quatro anos malditos no espaço de um quarto de século por mero acaso – 2003, 2005, 2017 e agora 2025 não são caprichos da Natureza. São a prova empírica de que vivemos num país de aselhas e de mentecaptos políticos, incapazes de agir estruturalmente. Os Governos sucedem-se, mudam as caras, trocam-se siglas partidárias, mas o resultado é sempre o mesmo: hectares e hectares carbonizados, vidas destruídas, um território rural cada vez mais desertificado. Não é azar – é gestão criminosa. 

E, contudo, insiste-se na farsa dos bodes expiatórios. Há sempre quem aponte o dedo aos “incendiários”, às “ignições criminosas”, ao “clima extremo”, até aos “interesses do lítio”. Tudo serve para iludir a raiz do problema: a desordem fundiária, o minifúndio abandonado, a ausência de ordenamento florestal, a dependência do eucalipto e do pinhal, a ausência de políticas sérias de prevenção. O país não é um país de incendiários – é um país que aprecia cultivar essa narrativa, porque ela desvia atenções e permite manter de pé um status quo de interesses aparentemente obscuros mas evidentes nas sombras.

Fala-se pouco, mas há hoje uma verdadeira Economia do Fogo instalada, tão entranhada quanto as acácias invasoras que dominam os nossos matos. Essa Economia vive e prospera das chamas. Há nela múltiplos actores, todos satisfeitos com o imobilismo governativo. As empresas de meios aéreos, sempre prontas a engordar contratos chorudos a cada verão; as corporações de bombeiros “voluntários”, que já de voluntárias pouco têm e que transformaram a tragédia em mecanismo de financiamento; os madeireiros, que aproveitam a desgraça para adquirir madeira barata e lucrar com a miséria alheia; e, agora, uma nova vaga de empreiteiros da reconstrução, ávidos em receber milhões de euros públicos para erguer de novo o que amanhã pode tornar a arder. É um ciclo obsceno: o fogo destrói, o Estado distribui, meia-dúzia lucram, os contribuintes pagam.

silhouette of trees on smoke covered forest

Não pode continuar esta palhaçada. Não é com apoios pontuais, com moratórias fiscais, com subsídios de tesouraria que se resolve um problema estrutural. É preciso romper com a lógica assistencialista e com o oportunismo político que se alimenta da tragédia.

Portugal precisa de mudanças drásticas e corajosas: consolidação fundiária, gestão dos espaços florestais profissionalizada em larga escala, limitação séria da expansão de espécies silvícolas cada vez menos adaptadas às condições socio-ambientais (eucalipto e pinheiro-bravo), investimento continuado em prevenção e silvicultura sustentável. Não se trata de inventar a roda, mas de ter coragem política para enfrentar lóbis instalados e pôr fim à Economia do Fogo.

Em 2003, Durão Barroso prometeu uma reforma profunda após o verão infernal. Em 2005, já com Sócrates, repetiram-se juras de “nunca mais”. Em 2017, António Costa encenou a mesma coreografia, jurando que a tragédia de Pedrógão e os fogos do Outono seria um ponto de viragem. Hoje, Montenegro vem repetir o ritual: mais apoios, mais promessas, mais remendos. O guião é o mesmo, os protagonistas mudam.

bonfire

O país não aguenta mais este teatro macabro. Não basta reconstruir o que arde, é preciso impedir que arda. O Governo tem de escolher se quer ser cúmplice de um sistema parasitário ou se quer, finalmente, governar para o interesse público. Portugal não precisa de mais discursos piedosos nem de mais milhões a fundo perdido para sustentar esta Economia do Fogo. Precisa de líderes que tenham a coragem de dizer basta e que, em vez de lágrimas de ocasião, tragam reformas estruturais. Se Montenegro repetir o mesmo que prometeram Barroso, Sócrates e Costa, ficará inscrito na mesma lista infame de chefes de Governo que deixaram o país arder em cinzas.

Esse é o ponto de hoje: ou se rompe, ou continuaremos a ser um país de aselhas, governado por mentecaptos políticos, que confundem solidariedade com esmolas e política com oportunismo. O futuro da floresta, do território e da própria dignidade nacional não pode ficar refém desta Economia do Fogo.

Fonte aqui.

As cimeiras de Anchorage e de Washington

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 22/08/2025)


Zelensky e os europeus, que há um ano se preparavam afanosamente para organizar uma conferência de paz na Suíça, sem a presença da Federação Russa, desesperaram agora por um convite para se sentarem à mesa das negociações, apesar de se desconhecer qualquer proposta de paz da sua parte.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Os últimos desenvolvimentos políticos relacionados com a guerra na Ucrânia estão a ser marcados pela cimeira entre os presidentes Donald Trump e Vladimir Putin (15 de agosto), em Anchorage, no Alasca, e pelas reuniões, em Washington, entre os presidentes Trump, Volodimyr Zelensky e vários dirigentes europeus, a pedido destes. Apesar da interligação entre os eventos – os segundos decorrem do primeiro – merecem ser analisados separadamente.

O ambiente ao redor da cimeira no Alasca contrasta com o dos tempos de Obama e de Biden. Assistimos às duas maiores potências nucleares do mundo a tentarem estabelecer um clima de confiança mútua. A Rússia foi reconhecida como um par pelos EUA, abrindo as portas a um novo ciclo de diálogo e de normalização das relações diplomáticas entre os EUA e a Rússia baseado em reuniões de alto nível, em que Putin foi recebido como um igual.

O Alasca poderá ter sido o início de uma nova abordagem ao debate sobre a “indivisibilidade da segurança”. Para desgosto dos europeus, Trump não alinhou na política de ostracização de Moscovo alimentada pelo seu antecessor. Não por preconceito, mas por necessidade.

Percebeu que a estratégia da Administração anterior se tinha tornado insustentável. Não só não conduziu à tão almejada derrota estratégica da Rússia, como está longe de o conseguir, sonho que os alucinados dirigentes europeus ainda alimentam, depois de 18 ineficazes pacotes de sanções. É do interesse da América obter uma solução para o conflito. Neste cálculo, Trump sabe, embora não o diga, que os EUA não dispõem da capacidade e dos recursos que tiveram no passado. Por isso, a América tem de voltar a ser grande outra vez, porque deixou de o ser, por enquanto. Trump está ciente de que não é tão poderoso quanto alardeia publicamente.

Seria ingenuidade concluir que os EUA abandonaram o projeto da primazia global. Como alguém afirmou, “o sistema funciona, leia-se o estado profundo, independentemente de quem está na Casa Branca”. Permanece no ar até que ponto esse projeto foi abandonado depois dos recentes acontecimentos no Cáucaso do Sul, e da assinatura de um acordo de princípios, relativamente ao futuro das relações entre a Arménia e o Azerbaijão, mediado por Trump.

Trump sabia que a ameaça de tarifas contra a Rússia e os países com que Moscovo mantém relações comerciais, utilizada para calar os neocons republicanos, não era exequível. A marcação da cimeira no Alasca foi uma fuga para a frente inteligente, furtando-se a uma derrota humilhante. Trump sabia que Moscovo ia fazer ouvidos de mercador às ameaças, como o fez. Putin encontrava-se numa situação favorável.

Estão ainda por conhecer os assuntos discutidos na cimeira. A guerra na Ucrânia foi apenas um deles. Não se sabe qual foi o empenho de Trump na renegociação do Novo Tratado START e de outras ações no âmbito do controlo do armamento nuclear, ou a resposta à recente colocação de armas nucleares na Europa, em particular no Reino Unido, de onde tinham sido retiradas há 15 anos.

Ainda não foram ultrapassados os vários irritantes que têm vindo a inquinar as relações entre as duas potências, como seja a já acordada restituição do imobiliário russo arrestado pela Administração Biden. E também o desnecessário e inconveniente anúncio do general Christopher Donahue, comandante do Exército dos EUA na Europa e África, da existência de um plano da NATO para tomar rapidamente o exclave russo de Kaliningrado, no momento em que se encontram em curso iniciativas diplomáticas desanuviadoras das relações políticas entre as duas maiores potências nucleares do planeta.

Da cimeira ressaltou uma clarificação da posição de Trump quanto ao futuro do conflito: o acordo de paz deve preceder o cessar-fogo; aceitação das linhas vermelhas russas, em particular, aquelas com implicações securitárias. Em função disso, Trump colocou em Zelensky o ónus da paz, caso não ceda às condições russas. A ideia continua válida mesmo depois da reunião de Trump com Zelensky, na Casa Branca (18 de agosto). Trump abandonou o plano do general Keith Kellogg e as ameaças de sanções a Moscovo.

Alguns analistas desvalorizam a importância da cimeira devido à ausência de um acordo formal, fazendo vista grossa às declarações de Trump relativamente à adesão da Ucrânia à NATO, ao abandono das ilusões que Kiev ainda mantém relativamente à recuperação da Crimeia e de outros territórios do Donbass, em linha com os objetivos de Moscovo, que não podem, de modo algum, ser desconsideradas. Ganharam ainda maior relevância quando foram repetidas uma semana mais tarde em Washington, a Zelensky e aos dirigentes europeus que o acompanharam, aparentando Trump seriedade nas suas convicções.

Depois de uma reunião dos embaixadores dos 27 países da União Europeia (UE), no início da manhã de 16 de agosto, a UE não foi capaz de adotar prontamente uma declaração conjunta sobre a cimeira. Em vez disso, os líderes de cinco dos 27 Estados-membros da UE e do Reino Unido – emitiram uma declaração, que a presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen publicou no X, em que reiterava o discurso conhecido de Bruxelas sem apresentar uma proposta de paz.

A cimeira veio igualmente evidenciar o caminho da justiça penal internacional para a irrelevância. Está a perder eficácia como ferramenta de manobra política para penalizar líderes não alinhados com as políticas do Ocidente. Apesar de a Rússia e dos EUA não serem signatários do Acordo de Roma, não deixa de ser significativo o facto de mais um líder indiciado com um mandado de captura do TPI ser recebido com honras de estado e passadeira vermelha.

As reuniões na Casa Branca

Zelensky e os europeus, que há um ano se preparavam afanosamente para organizar uma conferência de paz na Suíça, sem a presença da Federação Russa, desesperaram agora por um convite para se sentarem à mesa das negociações, apesar de se desconhecer qualquer proposta de paz da sua parte, como acima referido, mesmo que essa aventura pudesse envolver desconsiderações.

O modo como foram recebidos contrasta com a receção dada a Putin. Trump não cumprimentou pessoalmente nenhum dos dirigentes europeus quando chegaram à Casa Branca. Não satisfeitos com o tratamento que receberam em Pequim, submeteram-se voluntariamente a um novo enxovalho. Foram propositadamente recebidos por um membro do staff para lhes mostrar o seu papel subalterno na presente reestruturação em curso da ordem mundial.

Não se registaram progressos tangíveis na reunião de Trump com Zelensky na Casa Branca e nas que se seguiram com a presença dos dirigentes europeus. A conversa de Trump com os seus homólogos, ao vivo e a cores para o mundo assistir, assumiu aspetos verdadeiramente bizarros e patéticos. Enquanto os dirigentes europeus regurgitavam as “lines” acordadas nas reuniões preparatórias com Zelensky, dias antes na Europa, Trump ia-os contradizendo. O chanceler alemão Friedrich Merz falava na necessidade de um cessar-fogo e Trump contrariava-o dizendo que se devia avançar de imediato para um acordo de paz, como condição para negociações futuras. Enquanto a presidente da Comissão Europeia Ursula Von Der Leyen mostrava preocupação com as crianças ucranianas, Trump informava-a que que não estavam ali para discutir esse assunto.

Atingiu-se o clímax com as intervenções do presidente francês Emmanuel Macron e do presidente finlandês Alexander Stubb. O primeiro obcecado por umas inexequíveis garantias de segurança, advogava a presença de “forças de dissuasão” em território ucraniano, reiteradamente vetadas pela Rússia. Como disse o presidente do Conselho Europeu Antonio Costa seria algo “similar ao Art.º 5.º da NATO” conjuntamente com os EUA a continuar o fornecimento de armamento a Kiev e a treinar as forças armadas ucranianas.” A parte americana esclareceu, uma vez mais, que não fornecerá armas nem dinheiro à Ucrânia. “Agora vendemos-lhe armas, e os países europeus pagam-nas.” Segundo a porta-voz da Casa Branca, “os EUA não enviarão tropas para a Ucrânia como parte das garantias de segurança concedidas ao país.”

Para não ficar atrás dos seus homólogos, contradizendo tudo o que tem vindo a dizer antes e depois da reunião, provavelmente sem ter a noção do alcance das suas palavras, e com base na longa experiência de relações da Finlândia com a Rússia, Stubb aconselhou a Ucrânia a seguir o exemplo da Finlândia. Sem o vocalizar, estava a sugerir que a Ucrânia, à semelhança da Finlândia, declarasse neutralidade e cedesse territórios, como teve de fazer em 1944 relativamente à URSS, depois de ter combatido durante a segunda guerra mundial ao lado das forças hitlerianas.

Como observou o Washington Post, “a reunião de várias horas não eliminou as evidentes divergências entre os líderes europeus e Trump, que afirmou estar Putin pronto para a paz e exigiu a Kiev amplas e dolorosas concessões para acabar com a guerra”. A Ucrânia e os seus apoiantes europeus não moveram um milímetro da sua posição inicial, demonstrando claramente os limites da influência de Trump.

Numa conferência de imprensa, imediatamente após as reuniões com os seus homólogos, defronte da Casa Branca, Zelensky admitiu deixar cair a ideia do cessar-fogo. Terá sido a única evolução tangível. Foi intransigente no restante, nomeadamente em relação à cedência dos territórios.

Trump quer realizar uma reunião com Putin e Zelensky, em 22 de agosto, mas Putin deixou bem claro que só se reunirá com Zelensky depois de os detalhes da rendição ucraniana terem sido acordados, o que está longe de acontecer. As condições não se encontram ainda maduras para que tal possa acontecer. Trump está erradamente convencido de que basta reunir Putin e Zelensky para se chegar a um acordo,

Moscovo referiu a possibilidade de estudar a proposta de reunião para que, jogando com a ambiguidade estratégica, confira espaço de manobra a Trump para «trabalhar» com os europeus e Zelensky.

Portanto, a guerra continuará até à exaustão de uma ou das duas partes. Entretanto, a propaganda continua com os mesmos argumentos de há três anos. A economia da Rússia está em dificuldades, a vitória é possível porque a economia russa está numa situação desesperada, à beira do colapso; as forças armadas russas não conseguem derrotar os soldados ucranianos, os soldados russos morrem diariamente aos milhares, e a situação militar encontra-se num impasse, etc. Os propagandistas só devem conseguir dormir mais relaxados depois de regurgitarem as suas verdades. Entretanto, os combates ucranianos continuarão até ao último ucraniano. Por fugas de informação provenientes do lado ucraniano, já terão perecido, segundo fontes ucranianas, cerca de 1,7 milhões de ucranianos. Excluem-se deste valor mercenários e amputados.

Reunião Trump-Europa-Ucrânia: A Divisão do Trabalho e o Sequenciamento Estratégico

(Brian Berletic, in Reseauinternational.net, 21/08/2025, Trad. Estátua de Sal)


Após o recente encontro entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente russo, Vladimir Putin, no Alasca, e depois do encontro dos líderes europeus, do presidente ucraniano e do presidente Trump, em Washington, uma política previsível dos EUA começou a tomar forma.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Como afirmou o Secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, em fevereiro passado, ao dirigir-se a líderes europeus no Grupo de Contato de Defesa da Ucrânia, a Europa foi encarregada de assumir o lugar de Washington na guerra por procuração contra a Rússia na Ucrânia, aumentando os gastos da NATO, a produção de armas e a transferência de equipamentos para a Ucrânia, permitindo assim que os Estados Unidos se concentrassem novamente na Ásia-Pacífico e priorizassem a contenção da China naquela região.

O secretário Hegseth deixou claro que o conflito seria congelado, não encerrado, e que tropas europeias e não europeias (não americanas) seriam transferidas para a Ucrânia para garantir esse congelamento, e então a Europa reorganizaria e reconstruiria as forças armadas ucranianas.

Como explicou o Secretário Hegseth, “a realidade da escasse ” impede que os Estados Unidos se envolvam direta e totalmente em dois conflitos de grande escala, com a Rússia e a China simultaneamente, exigindo o congelamento de um conflito enquanto os Estados Unidos se envolvem no outro.

O próprio facto de os Estados Unidos buscarem confrontar a China na região da Ásia-Pacífico, da mesma forma que confrontaram a Rússia na Ucrânia, demonstra um completo desinteresse numa paz real com qualquer um (ou todos) desses países. Os Estados Unidos acreditam que, se conseguirem conter a China mais cedo, poderão retornar mais tarde outras iniciativas para confrontar e conter a Rússia.

documento de 2024 da Iniciativa Maratona, “Sequenciamento estratégico revisitado“, escrito pelo ex-funcionário do governo Trump, Wess Mitchel, afirma explicitamente:

A ideia do sequenciamento é simplesmente concentrar recursos num adversário para enfraquecer a sua energia disruptiva antes de recorrer a outro, seja para o deter ou derrotá-lo“.

Mitchel também usou o termo “divisão de trabalho” em referência aos “aliados dos EUA na Europa e na região Indo-Pacífico“, um termo que o Secretário Hegseth repetiu literalmente em Bruxelas no início deste ano, revelando que “divisão de trabalho” e “sequenciamento estratégico” são duas políticas paralelas adotadas por Washington.

Princípios Fundamentais: A Busca dos Estados Unidos pela supremacia americana

No final da Guerra Fria, como o New York Times  (NYT)  relatou num artigo de 1992: “Plano estratégico dos EUA exige garantia de que nenhum rival se desenvolva“, Os Estados Unidos buscaram criar “um mundo dominado por uma superpotência cuja posição poderia ser perpetuada por comportamento construtivo e poder militar suficiente para impedir qualquer país ou grupo de países de desafiar a supremacia americana“.

O mesmo artigo destacou a rejeição de Washington do “internacionalismo coletivo“, agora designado como “multipolaridade”.

O que impulsiona as ambições americanas de conter a Rússia e a China, tanto na década de 1990 quanto hoje, não são preocupações legítimas de segurança nacional, mas sim a preservação dos “interesses” americanos no exterior, dentro e ao longo das fronteiras desses dois países, de uma forma que os próprios Estados Unidos jamais tolerariam a qualquer outro país.

O “sequenciamento estratégico” americano também não se limita à Rússia e à China. Combinado com várias implementações da “divisão do trabalho“, visa explorar e enfraquecer qualquer país que desafie a primazia americana.

Embora o foco atualmente esteja na Ásia-Pacífico, países do Médio Oriente, América Latina e África também estão sendo alvos estratégicos.

A desestabilização da Síria, a pressão persistente sobre o Irão e os esforços contínuos para isolar países com laços com a Rússia e a China (como a Tailândia e o Camboja, no Sudeste Asiático) do resto do mundo multipolar, fazem parte desse plano maior. O objetivo de Washington é impedir a formação de qualquer aliança multipolar coesa que possa efetivamente contrariar as suas ambições hegemônicas.

Ao eliminar países um por um ou alguns de cada vez, os Estados Unidos esperam manter o seu domínio e impedir a formação de uma frente unida.

Enquanto a primazia continuar sendo o princípio unificador da política externa americana, a “busca pela paz” será simplesmente um meio de ganhar tempo para corrigir contratempos numa região e, ao mesmo tempo, redobrar esforços noutra.

A Ucrânia é a guerra da América e somente da América

Em relação à guerra na Ucrânia em si, apesar das declarações recentes do governo Trump chamando-a de “guerra de Biden” ou afirmando que “O presidente ucraniano Zelensky pode acabar com a guerra contra a Rússia quase imediatamente”, esta guerra é, na verdade, o resultado da política externa dos EUA seguida por vários governos, incluindo o do presidente Trump durante seu primeiro mandato .

Os Estados Unidos atualmente comandam as Forças Armadas ucranianas, conforme foi revelado num artigo do New York Times publicado no início deste ano. Desde 2014, a CIA (Agência Central de Inteligência dos EUA) controla e dirige os serviços de inteligência ucranianos, informou também o New York Times.

Portanto, o conflito na Ucrânia só poderá terminar quando os Estados Unidos decidirem ou forem forçados pela Rússia a fazê-lo.

Entender esses princípios fundamentais da política externa dos EUA em relação ao conflito na Ucrânia é essencial para navegar com sucesso na propaganda usada pelos Estados Unidos e pelos seus estados clientes para tentar uma “divisão de trabalho” e “sequenciamento estratégico“.

Continuidade do programa com Trump

Desde que assumiu o cargo, o governo Trump deu continuidade a todos os conflitos e confrontos herdados do governo anterior de Biden, em busca da primazia global, incluindo a guerra por procuração liderada pelos EUA contra a Rússia na Ucrânia, o confronto com o Irão que se transformou em guerra aberta em junho passado e a expansão contínua da presença militar dos EUA na região da Ásia-Pacífico, na periferia da China e até mesmo dentro das suas fronteiras, na província insular de Taiwan.

A política dos EUA em relação à Rússia é analisada em detalhe  num artigo da RAND Corporation de 2019 intitulado “Ampliando a Rússia : competindo em terreno vantajoso“.

O documento lista medidas económicas – como “obstruir as exportações de petróleo“, “reduzir as exportações de gás natural e dificultar a expansão de oleodutos” e “impor sanções” -, medidas que foram tomadas pelos Estados Unidos na época da publicação do documento e continuam desde então, inclusive durante o primeiro governo Trump, o governo Biden e agora no segundo mandato do presidente Trump.

As medidas geopolíticas listadas no documento da RAND incluíam “fornecer ajuda militar à Ucrânia“, que começou durante o primeiro governo Trump; “aumentar o apoio aos rebeldes sírios“, que resultou no final do ano passado no derrube bem-sucedido do governo sírio pelos Estados Unidos; “promover a mudança de regime na Bielorrússia”, que a Rússia neutralizou com sucesso até agora; e “explorar as tensões no Cáucaso do Sul“, que estão atualmente a desenrolar-se no governo Trump sob a forma de um arrendamento de 99 anos de um território que provavelmente hospedará tropas americanas ao longo das fronteiras da Rússia e do Irão.

Juntas, essas políticas representam uma tentativa contínua dos Estados Unidos de cercar, conter, minar e expandir excessivamente a Federação Russa, com o objetivo final de precipitar um colapso ao estilo soviético, mesmo que os Estados Unidos finjam ter interesse na “paz” com a Rússia na Ucrânia.

Assim como no passado, assim também no futuro

Quaisquer que sejam os contratempos e as limitações, enquanto os Estados Unidos continuarem a procurar ter a primazia sobre todos os países do mundo, em vez de pactuarem com uma cooperação construtiva com eles, qualquer abertura americana em direção à “paz” com países que foram rotulados como “adversários” e “ameaças” representa um padrão bem estabelecido de pausa, reorganização, rearmamento e retomada das hostilidades, não uma mudança genuína na política.

O exemplo mais recente é a guerra liderada pelos EUA para derrubar o regime sírio. Após a intervenção da Rússia em 2015, a guerra foi suspensa. Os EUA aproveitaram a pausa para rearmar e reorganizar os seus aliados dentro e ao redor da Síria, enquanto os aliados da Síria, Rússia e Irão, foram arrastados para uma série de conflitos custosos noutros lugares. Assim que a Rússia e o Irão ficaram suficientemente enfraquecidos, os EUA retomaram os combates no final de 2024, derrubando o governo sírio de forma rápida e bem-sucedida.

O colapso da Síria foi seguido por operações militares dos EUA e de Israel contra o próprio Irão, combinadas com uma ofensiva em andamento com o objetivo de eliminar o que restava dos aliados do Irão no Líbano, Iraque e Iémen.

Uma pausa na guerra por procuração de Washington contra a Rússia na Ucrânia só desviará os esforços dos EUA para outros lugares.

Como o Secretário Hegseth indicou em fevereiro, qualquer pausa seria acompanhada por uma ocupação da Ucrânia por tropas europeias, assim como os Estados Unidos e a Turquia ocuparam a Síria. Isso incluiria o rearmamento e a reorganização das Forças Armadas ucranianas — como mencionado especificamente na recente reunião EUA-Europa-Ucrânia em Washington — e a retoma das hostilidades posteriormente, quando os fatores forem novamente favoráveis ​​a Washington.

Não é apenas isso que as declarações do Secretário Hegseth sobre uma “divisão de trabalho” e “sequenciamento estratégico” implicam, mas é também o que os Estados Unidos têm feito durante a Guerra Fria e que continuam a fazer atualmente.

Durante o governo Bush Jr., é sabido que os Estados Unidos procuraram derrubar os regimes de vários países do Leste Europeu, bem como da Geórgia, na região do Cáucaso. Em 2003, os Estados Unidos derrubaram com sucesso o governo georgiano, assim como o governo ucraniano em 2014. Tal como na Ucrânia, os Estados Unidos começaram a reorganizar e a fortalecer as forças armadas georgianas e, em 2008, após a conclusão de uma investigação da UE , a Geórgia lançou uma guerra curta e malsucedida contra as forças russas.

No ano seguinte, já no governo Obama, os Estados Unidos buscaram “reiniciar” as relações EUA-Rússia, com a ex-secretária de Estado americana Hillary Clinton, literalmente entregando ao ministro das Relações Exteriores russo Sergei Lavrov um botão físico de “reinicialização” simbolizando o novo relacionamento.

Na realidade, os EUA estavam simplesmente a tentar ganhar tempo e espaço para se prepararem para a próxima rodada de provocações, o que fizeram a partir de 2011, dividindo e destruindo grande parte do mundo árabe, incluindo ataques contra os aliados da Rússia, Líbia e Síria, e derrubando com sucesso o governo ucraniano em 2014, juntamente com o “pivô para a Ásia” dos EUA, que começou durante o governo Obama e continua até hoje.

Não apenas as políticas atuais dos EUA parecem ser unicamente o episódio mais recente de um ciclo de apresentação como um ator de paz enquanto se preparam para a próxima etapa do confronto, mas os EUA praticamente declararam que congelar o conflito na Ucrânia tem a intenção de ganhar tempo e espaço para dar prioridade à contenção da China, o que implica que, após isso, retornarão para se oporem à Rússia na Ucrânia.

Só o tempo dirá até que ponto a Rússia aceitará ou interromperá as tentativas dos EUA implementarem uma “divisão de trabalho” em relação à Ucrânia, a fim de executarem um processo de “sequenciamento estratégico” visando derrotar a Rússia, a China e os seus aliados, e se o resto do mundo multipolar se unirá o suficiente para ajudar a Rússia ou se se deixará dividir e distrair por esforços semelhantes dos EUA para interromper e desestabilizar os seus respectivos países.

O cálculo da Rússia será baseado na sua confiança em continuar a Operação Militar Especial (OME) até à sua conclusão, no colapso do exército ucraniano e no derrube do regime fantoche instalado pelos EUA em Kiev desde 2014, ou na necessidade de aceitar uma pausa que Moscovo acredita que pode aproveitar melhor do que o Ocidente coletivo e confrontar os EUA e seus representantes no futuro a partir de uma posição ainda mais forte.

A Rússia pode estar a procurar libertar recursos para o seu próprio “pivô” a fim de auxiliar aliados como Irão e a China, enquanto os Estados Unidos voltam a sua atenção para o leste. Ao contrário dos Estados Unidos, porém, a Rússia não possui uma longa lista de Estados-clientes que possa recrutar para gerir um conflito enquanto se desloca para outro, como Washington pode e já faz.

O futuro do mundo multipolar pode depender tanto de ajudar os países a impedir a sua captura e exploração política pelos Estados Unidos quanto da cooperação entre os países multipolares para se defenderem contra a invasão, coerção e captura pelos EUA.

O teste definitivo para a Rússia e o mundo multipolar emergente reside não apenas na capacidade de resistir aos desígnios dos EUA contra eles, mas também na capacidade de voltar essa estratégia contra\ Washington. Se a Rússia conseguir realizar com sucesso a sua operação militar especial na Ucrânia, ao mesmo tempo em que fortalece as suas alianças com países como a China e Irão, poderá tornar a “divisão do trabalho” desnecessária.

Da mesma forma, se a China usar esse período para consolidar a sua influência regional e aprofundar os seus laços com países fora do bloco ocidental, os Estados Unidos verão a mudança do seu foco para a Ásia-Pacífico perder muita da sua eficácia.

O cenário geopolítico atual é um jogo de xadrez geopolítico de alto risco, e se os Estados Unidos acreditam que podem encurralar os seus rivais um por um, um xeque-mate coordenado ao mundo multipolar que pode encerrar o jogo para sempre.

Sucesso significa um mundo definido pela paz, estabilidade e prosperidade num equilíbrio global de poder. Fracasso significa entregar o nosso futuro coletivo a um punhado de interesses particulares dos Estados Unidos que já demonstraram, ao longo de um século, ter os meios e a vontade de o destruir.

Fonte aqui.