O jornalismo em extinção

(António Guerreiro, in Público, 10/05/2024)

Protesto de jornalistas do grupo português Global Media

“Estamos ainda em democracia?”. Esta pergunta tem uma especial incidência quando se pensa no que está a acontecer aos jornais e ao jornalismo.


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A palavra “extinção” começa a aparecer com alguma frequência em artigos sobre a crise – em boa verdade, uma devastação – que atinge actualmente os jornais e o jornalismo.

Encontrámo-la recentemente nos títulos de dois diagnósticos desta situação nos Estados Unidos: um, publicado no final de Janeiro na revista Atlantic, assinado por Paul Farhi, que foi um importante repórter do Washington Post; outro, no mês seguinte, da autoria de Clare Malone, na The New Yorker.

Usando um acento catastrófico que uma prudente interrogação não consegue relativizar, ambos evocam a extinção como um horizonte plausível. O primeiro pergunta: “Is American Journalism Headed Toward an ‘Extinction-Level Event?’”; a segunda insiste quase com os mesmos termos: “Is the Media Prepared for an Extinction-Level Event?”. Não é ainda um requiem, mas está próximo.

O que se passa nos Estados Unidos, neste domínio, não é certamente muito diferente do que se passa na Europa, só que talvez num grau mais elevado e com algum avanço no tempo. O horizonte é o mesmo.

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O que ficamos então a saber acerca do estado de coisas nos Estados Unidos, informados por estes e outros artigos sobre o mesmo assunto? Ficamos a saber que a hemorragia mais forte é a da imprensa regional: em média, todas as semanas morrem duas publicações e meia (jornais diários, semanários, mensais).

Num país tão extenso como os Estados Unidos, os jornais regionais tiveram sempre um papel importantíssimo e foram um factor fundamental dos equilíbrios democráticos e da vida cultural e comunitária. Quando esse espaço é ocupado pelas redes sociais, ficam à solta as teorias do complot, as fake news, os conteúdos gerados pela inteligência artificial que multiplicam a desinformação, o caos, o convite à passagem aos actos de violência. O ambiente de radicalização e pré-guerra civil que se vive nos Estados Unidos faz parte deste panorama que promove e alimenta a divisão e os extremismos.

Há uma pergunta que começa a ser posta e que leva a pensar os caminhos que estão a tomar as tradicionais democracias liberais: “Estamos ainda em democracia?”. Esta pergunta tem uma especial incidência quando se pensa no que está a acontecer aos jornais e ao jornalismo.

Alguns números fornecidos nos artigos citados: em 2023 foram eliminados nos Estados Unidos 21.400 postos de trabalho nos media tradicionais. Grandes jornais como o Los Angeles Times (que despediu mais de 20% da sua redacção) e o Washington Post não foram poupados. Este último teve no ano passado um défice de cem milhões de dólares. No entanto, tinha sido um dos que mais prosperou durante a presidência de Donald Trump. Como é sabido, o “espectáculo” Trump proporcionou aos jornais um festim permanente que lhes valeu um grande aumento de leitores.

O declínio dos meios de comunicação tradicionais já suscita esta pergunta formulada pela autora do artigo da New Yorker: “Estamos a assistir ao fim da era dos meios de comunicação de massa?”. Este declínio já começou há décadas, mas foi acelerado pela Internet, pela digitalização generalizada, pelas plataformas. As receitas publicitárias que garantiam o negócio dos jornais passaram a fluir na direcção de colossos como a Google. Quando deixa de ser possível sustentar o jornalismo como um negócio, muitas publicações usam um pseudojornalismo como operação de fachada para outros negócios e entram numa zona obscura.

De todas as “grandes regressões” que se deram desde o início deste século, esta é uma das mais velozes e contundentes. O seu efeito político é bem visível, no avanço de factores que levam à degradação do espaço público, ao enorme teor de conflito social e político, ao empobrecimento cultural. As noções de pós-verdade e pós-democracia assentam nestes terrenos onde vacila tudo o que dantes parecia seguro.

E assim estão criadas as condições para promover um mundo em que já nem serve a distinção entre o verdadeiro e o falso, nem faz apelo a uma ideologia dotada de uma coerência sistemática, como acontecia nos regimes totalitários do século XX.

A mentira ideológica e a propaganda eram ainda uma peça da engrenagem da política moderna. Aquilo a que hoje se chama pós-verdade tem que ver com a hegemonia das novas fontes de informação e dos meios de produção e circulação de notícias, dados e visões do mundo que apelam à divisão e à violência, subtraindo-se a qualquer controlo editorial.

Perante isto, o jornalismo está a revelar-se tanto mais impotente quanto está obrigado a investir a sua energia na luta pela própria sobrevivência.



Banda sonora para um genocídio

(José Goulão, in AbrilAbril, 16/05/2024)

Para orgulho de todos nós, foram portuguesas as vozes que melhor se ouviram, vozes de cidadãs, de mulheres de paz, que tiveram a coragem de se distanciar da cumplicidade objectiva da EBU e afins com a carnificina e a limpeza étnica que o regime sionista comete há 76 anos na Palestina.


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É compreensível que o leitor não tenha estômago, tempo e paciência para frequentar anualmente esse happening de decadência cultural, cívica e humanista a que chamam Festival da Eurovisão. Numa outra perspectiva, porém, saiba que não é fácil encontrar um concentrado tão perfeito, directo e completo para ilustrar o estado de degradação a que chegou a «civilização ocidental», aquela que diz carregar os valores que enformam a sociedade perfeita e o ser humano ideal.

Num Festival da Eurovisão resumem-se os comportamentos, os tiques e as práticas inerentes à necessidade de continuar a impôr à generalidade do mundo um conceito civilizacional, cultural e humanista superior, único e inquestionável. O Festival da Eurovisão tem, por isso mesmo, uma virtude insubstituível: dá-nos a oportunidade de observarmos um Ocidente desnudado de cuidados e disfarces hipócritas usados em circunstâncias não enquadráveis na área do entretenimento, deixando cruamente perceber aquilo em que se transformou – exactamente o contrário do que diz ser.

Que o espectáculo e as incidências em seu redor sejam uma réplica da mediocridade tóxica que Hollywood exporta como arte oficial do neoliberalismo globalista e das oligarquias dominantes, não temos de nos surpreender. É a ordem natural e colonial das coisas, a cultura formatada para transformar as grandes massas de cidadãos em rebanhos de imbecis da mesma maneira que o aparelho transnacional mediático gera exércitos de ignorantes, pessoas desabituadas de se interrogarem sobre as realidades que as cercam.

Ora, a União Europeia de Radiodifusão, esse antro de perversão ética conhecida anglo-saxonicamente por EBU, é um braço qualificado da central globalista de propaganda que reúne as rádios e televisões públicas dos países europeus, todos eles europeus de gema como, por exemplo, Israel e a Austrália, talvez num futuro próximo a Nova Zelândia, o Canadá, os Estados Unidos. Aliás, todos estamos informados, através de uma prática quotidiana que se prolonga há séculos, de que o Ocidente é onde o Ocidente quiser.

Cabe à EBU organizar anualmente o Festival da Eurovisão onde, no essencial, se promovem o ruído em vez da música, versículos delicados como martelo-pilão no lugar da poesia e a incandescência de luzes que cegam aconselhável para criar um ambiente irracional de plena fruição niilista.

A EBU abusa do seu direito discricionário ao transformar a música, a poesia e a encenação no equivalente ao fast food das artes de palco – nada disso deveria esperar-se do tão falado serviço público. É verdade que o espectador só consome se quiser, tem sempre a possibilidade, graças às benesses do mercado, de emigrar para as estações privadas – que lhe servem mais do mesmo porque assim determinam a lei do lucro e o culto da cabeça oca. O consumidor não se sente satisfeito? Culpa do próprio, esquisito ou demasiado exigente.

Nada de políticas

O Festival da Eurovisão tem um dogma existencial: é um acontecimento apolítico. E a EBU assume esse estatuto até às últimas consequências, afinal com a mesma seriedade com que a «civilização ocidental» defende os direitos humanos.

Para que as tentações políticas sejam expurgadas do sistema, a EBU censura, persegue, ameaça, expulsa, mente, mas graças a esses comportamentos tão inequivocamente democráticos cumpre-se o desígnio sagrado.

Provavelmente, o festival deste ano foi o mais elucidativo quanto ao que representa a EBU como instrumento da «nossa civilização», dos nossos valores. A Rússia foi liminarmente excluída do concurso por ter invadido a Ucrânia; à Bielorrússia aconteceu o mesmo, embora não se saiba muito bem o que fez, talvez penalizada por ser aliada de Moscovo.

Nunca a EBU admitiu excluir a Ucrânia por conduzir há dez anos uma guerra contra as populações civis de vastas regiões do país, aliás de acordo com as consignas nazis e racistas do «nosso» regime de Kiev. Como entidade apolítica, não cabe à EBU inteirar-se dos crimes cometidos por um regime nazi; aliás, no ano em que foi invadida pela Rússia, a Ucrânia teve o privilégio visivelmente apolítico de ganhar o Festival da Eurovisão.

Este ano, os ambientes em redor do festival toldaram-se um pouco mais porque alguém, completamente a despropósito e parece que confundindo o que não pode ser confundível, alegou que também Israel deveria ficar de fora do concurso devido ao genocídio e à limpeza étnica que continua a praticar contra o povo palestiniano.

Nada disso, contrapôs a EBU, excluir Israel seria o mesmo que politizar o festival. Além disso, é completamente descabido comparar o caso de Israel ao da Rússia. Explica a EBU que o festival é um concurso de estações públicas de rádio e TV e não de países. A organização deve avaliar se os comportamentos dessas empresas respeitam as normas apolíticas do concurso e, analisando as circunstâncias, concluiu que a televisão pública sionista se comporta como deve ser, o que não acontece com a da Rússia, que apoia a invasão da Ucrânia.

Deveremos deduzir que a televisão israelita trata de maneira objectiva e apolítica as operações militares de chacina em Gaza, além de funcionar sob censura militar. Faz todo o sentido.

Em matéria de coerência, o comportamento da EBU não fica por aqui. Alguém lembrou aos organizadores do festival que, se o certame se disputa entre empresas de rádio e televisão, por que razão se usam as bandeiras dos países e não as das instituições concorrentes? Não será isso uma opção política e até nacional-populista? A EBU respondeu que se trata de uma falsa dúvida, sem qualquer lógica. E mais não disse.

Mulheres corajosas e de paz

Apesar destas convincentes explicações, continuou a haver gente recalcitrante quanto à presença de Israel no concurso, pessoas visivelmente antissemitas, quiçá simpatizantes do Hamas, como informados comentadores, organizadores, generais e politólogos desde logo sugeriram.

Para desgosto da EBU e de vários outros meios dotados com a vocação civilizacional do Ocidente, o rebanho em construção tem ainda muitas dissidências. Demasiadas dissidências – até, imagine-se, entre membros dos júris nacionais, e mesmo entre os concorrentes. Assim como há aqueles participantes que ainda insistem em apresentar música e poesia, sujeitando-se, inapelavelmente, à secundarização e ao desrespeito pelo seu trabalho, há também os que não desistem de pensar, de se interrogar e até de invocar a paz – o que levou a EBU a sacar da censura e da ameaça de penalizações tal como, em seu tempo, Hitler puxava da pistola quando ouvia falar em cultura.

Felizmente, para orgulho de todos nós, foram portuguesas as vozes que melhor se ouviram, vozes de cidadãs, de mulheres de paz, que tiveram a coragem – é preciso ter coragem num terreno de tal maneira minado – de se distanciar da cumplicidade objectiva da EBU e afins com a carnificina e a limpeza étnica que o regime sionista comete há 76 anos na Palestina. «A paz prevalecerá», proclamou a autora-intérprete Iolanda ainda em palco, no final da sua belíssima actuação. A cantora Mimicat, como porta-voz do júri nacional, enviou igualmente uma mensagem de paz, salientando que o fez ciente de que «somos um país que acredita na liberdade e na paz».

As vozes bem audíveis destas duas mulheres resgataram, em cenário global, a letra da Constituição e a dignidade do país de Abril que tantas vezes são hipotecadas, por sistema, tacanhez e subserviência, pelos titulares dos mais elevados cargos políticos.

Sabemos que Mimicat e Iolanda não são exemplos isolados; no meio artístico e musical português há muitos actores, actrizes, compositores, cantores e cantoras que usam os seus talentos sem esquecer causas nobres como a paz, a solidariedade e as liberdades, algumas tão ameaçadas como são as de opinião e expressão. E usam-nos com muita qualidade, para benefício de todos nós e até para prestígio do país.

O chamado «voto do público» ou «televoto» em Portugal, porém, não alinhou com as posições humanistas das representantes portuguesas, seguiu antes o «fenómeno» registado em quase todos os lugares onde houve «votações», isto é, a contagem de chamadas telefónicas em massa num processo hermético no qual os espectadores não têm acesso a qualquer garantia de fiabilidade dos resultados. A canção de Israel, isto é, a delegação sionista no festival, foi a que recebeu mais «votos» em 15 das contagens realizadas, incluindo Portugal, contrariando de maneira bastante acintosa a escassa receptividade que teve entre os júris nacionais.

Sendo quase certo que nenhum «votante» saberá sequer alinhar duas notas da cantoria sionista, que passaria despercebida não fosse o alarido em seu redor, estamos perante um voto politicamente induzido num certame «apolítico».

E aqui, perante a enxurrada de supostas chamadas telefónicas de apoio à presença sionista, deixando toda a concorrência a uma distância inusitada e sem qualquer nexo com os pareceres dos jurados em cada país, várias hipóteses de explicação podem aventar-se: uma fraude em massa no processo telefónico assegurada em cada terminal de contagem; uma monstruosa mobilização de «votantes» patrocinada pela mafia sionista transnacional (não confundir com as comunidades judaicas espalhadas pelo mundo); ou – o que será o mais inquietante – uma grande manifestação de apoio das populações europeias, e de outras zonas do mundo, à delegação de um país comprovadamente responsável por uma política genocida e sangrenta conduzida sob os olhos do mundo inteiro. Se for este o caso, teremos de reconhecer que a imagem de Israel «concorrente perseguido» cultivada por toda a estratégia «apolítica» da EBU e, sobretudo, a poderosíssima vaga mediática internacional para branquear os crimes sionistas têm um êxito assombroso. À luz desta hipótese, o estado de indigência e insensibilidade de grandes massas internacionais perante os crimes de guerra sionistas está muito mais avançado do que seria de supor.

Um microcosmos

A EBU, ao aglutinar as estações públicas de rádio e televisão dos países «civilizados», é um microcosmos do aparelho de imposição da corrente política e geoestratégica neoliberal, de mentalidade colonial, dominante no chamado «Ocidente global».

Daí que o carácter «apolítico» invocado a todo o momento seja parte da sua estratégia de manipulação, uma falsificação grosseira da realidade.

Na preparação e emissão do Festival da Eurovisão, tal como acontece regularmente noutros anos, talvez com menor evidência, tornou-se claro que as preocupações «apolíticas» dos organizadores do certame tentaram esconder um apoio político específico à participação sionista, desde logo estampado nas alegações esdrúxulas, segundo as quais as razões que determinaram a exclusão da Rússia não se aplicam ao Estado de Israel.

Depois assistiu-se a uma perseguição e a uma actividade censória doentias contra tudo o que fosse, ou mesmo parecesse, uma contestação da política genocida israelita ou um gesto de solidariedade para com o povo palestiniano. Ou até contra uma simples proclamação em defesa da paz – um conceito que, como salta cada vez mais aos olhos de todos, se tornou verdadeiramente subversivo ou um sintoma de traição em todo o Ocidente.

Os esbirros da EBU abandonaram todos e quaisquer filtros de conveniência quando se tratou de censurar a eito para proteger Israel. O som das emissões nas meias-finais, nos ensaios e na final foi manipulado de modo a diminuir ou abafar os apupos e os protestos na sala contra a presença israelita; a actuação de um intérprete convidado na abertura de uma das sessões foi apagada dos registos oficiais do festival porque o cantor exibiu uma pulseira com símbolos associados à causa palestiniana; são conhecidas igualmente várias tentativas dos organizadores para ocultarem que a representante portuguesa Iolanda actuou com as unhas solidariamente decoradas com simbologia palestiniana. A publicação do vídeo oficial da sua actuação foi protelada até ao momento em que a RTP, honra lhe seja feita, decidiu intervir.

Durante uma conferência de imprensa, o representante holandês teve um gesto espontâneo que a enviada de Israel e os fiscais da organização interpretaram como sendo hostil à presença sionista. Ao cabo da perseguição que logo lhe foi movida acabou por ser expulso, vítima de uma provocação montada num ápice e à qual não teve experiência para resistir. Por ironia do destino, o rapaz fora apurado para a final com uma espécie de redacção pateta e pueril sobre as delicodoces maravilhas da União Europeia capaz de derreter até às lágrimas qualquer federalista mais sensível. De nada lhe valeu: calaram-no sumariamente e nem sequer recebeu qualquer conforto solidário da TV pública neerlandesa, além de fazer agora parte da avultada lista mundial de antissemitas assim definidos pelas autoridades sionistas. Um rol que, aliás, acaba de ser engrossado com a presença de um «sionista cristão» de luxo, o presidente dos Estados Unidos, Joseph Biden, ao cometer o pecado de ameaçar (apenas ameaçar, como é óbvio) suspender a entrega de armas ao regime sionista para continuar o seu genocídio do povo palestiniano.

Comentadores geopolíticos norte-americanos asseguram que o sionismo internacional controla o aparelho mediático e a política externa dos Estados Unidos. Têm certamente as suas razões para o afirmar.

A realidade internacional que podemos acompanhar e escalpelizar em todas as suas cambiantes confirma-nos isso e vai mais além. Não existe actualmente qualquer entidade no mundo, qualquer lei ou mesmo qualquer «regra» da ordem internacional definida pelos Estados Unidos capaz de conter o comportamento arbitrário, criminoso e ilegal do regime de Israel. O sionismo internacional assume, através das práticas do governo israelita, as mais gravosas decisões contra as mais elementares normas de convívio internacional, de respeito pelos povos, pelas pessoas, pelas leis, pelos direitos humanos.

Cumprindo a regra de ouro do sionismo como uma variante de fascismo, o regime de Israel comporta-se como se não fosse deste mundo, respondendo apenas perante um deus, como invocam muitos dos seus dirigentes mais representativos.

Os episódios do Festival da Eurovisão, em escala reduzida mas com um impacto internacional considerável, mostram que os tentáculos sionistas actuam em todas as áreas onde seja oportuno e conveniente mostrar quem manda. Neste caso, ganhar o certame não era sequer uma prioridade. Bastou mostrar que uma delegação sionista estará presente sempre que queira, independentemente das circunstâncias, das atrocidades cometidas pelo país, e que a sua vontade nunca deixará de prevalecer sobre quaisquer contestações.

Somando exemplos sobre exemplos de comportamentos que tentam branquear os crimes israelitas, os mais atrozes desde os tempos de Hitler, parece cada vez mais difícil adivinhar no horizonte as hipóteses de conter este rolo compressor, assassino e, comprovadamente sem limites.

A «civilização ocidental» cria os seus monstros, alimenta-se deles, associa-os à própria sobrevivência. E nada garante, levando a sério declarações e intenções só aparentemente tresloucadas proferidas por expoentes sionistas, que não venha a ser vítima deles.

São Tomé e Príncipe e Rússia, arrogância e preconceito

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 16/05/2024)

Passados 50 anos, não se assimilou o facto das relações de Portugal com os novos países de língua oficial portuguesa terem de se subordinar a uma lógica de pares inter pares.


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Nos 50 anos do 25 de Abril, o Presidente da República (PR) de Portugal tomou a importante iniciativa de reunir no Centro Cultural de Belém os seis presidentes das antigas colónias portuguesas, que malogradamente arruinou por declarações inoportunas e sem sentido.

A assinatura de um acordo de cooperação militar entre São Tomé e Príncipe (STP) e a Federação da Rússia provocou um enorme frisson no establishment político doméstico. O PR disse que não sabia nada sobre o referido acordo, mas que o vai “querer conhecer”, defendendo simultaneamente a importância de salvaguardar a unidade da CPLP; o Ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE) afirmou que Portugal e “outros Estados europeus manifestaram estranheza, apreensão e perplexidade perante este acordo”.

Além disso, um muito preocupado deputado da Iniciativa Liberal (IL) afirmou que Portugal não se pode manter “surdo e mudo” perante o que se está a passar ao nível da política externa de vários estados-membros da CPLP, referindo-se à participação do presidente da Guiné-Bissau nas celebrações do dia da vitória sobre as tropas nazis em Moscovo.

Tal ousadia das autoridades são-tomenses e guineenses exigia uma reprimenda pública para terem vergonha e não voltarem a “prevaricar”. Habituados a calarem-se quando outros Estados opinam sobre a sua política interna, presumiu-se que os visados se iriam comportar do mesmo modo. Mas o tiro saiu pela culatra. A resposta foi direta e poderosa, com o inconveniente de algumas das considerações serem difíceis de engolir. Puseram-se a jeito.

Não precisamos de Portugal“, disse o primeiro-ministro Patrice Trovoada. STP não precisa de Portugal para se relacionar com a Europa. As autoridades portuguesas só conhecerão o acordo militar com a Rússia se vier a ser publicado. “Aqui há o respeito pela soberania e há o respeito das regras diplomáticas, por conseguinte há coisas que não fazem sentido”, prosseguiu Trovoada.

Em resposta ao MNE, Trovoada disse que “isto é o problema do MNE de Portugal. Nós [STP] temos relações bilaterais com muitos países e não precisamos de Portugal para nos relacionarmos com outros países. Sejamos claros, se um país europeu quer manifestar preocupação, fala comigo, e não fizeram isso”. “[STP] Não pede para ver quando Portugal assina acordos com terceiros.”

E para dar o assunto por terminado, o chefe do governo são-tomense recordou que muitos países, incluindo os europeus, continuam a manter relações com a Rússia, apesar da guerra com a Ucrânia. “Eu quero também lembrar que muitos países europeus… continuam a importar gás, petróleo e urânio da Rússia”. Adiantando que “as coisas estão claras, estão tranquilas”, e o acordo com a Rússia “está em vigor” e vai acontecer.

O presidente guineense Umaro Sissoco Embaló fez declarações semelhantes às do primeiro-ministro Trovoada: “Não preciso de autorização de nenhum outro país ou Presidente da República para visitar a Rússia ou onde quer que seja. Eu sou soberano… não vou aceitar também que um presidente me peça autorização para visitar o Senegal. Isso não. A Guiné-Bissau é um Estado soberano e independente”, salientando que a política externa do país é determinada pelo respetivo governo.

No mesmo sentido, Zacarias da Costa, Secretário Executivo da CPLP, afirmou mais diplomaticamente que o acordo de cooperação militar celebrado entre STP e a Rússia “não é um drama”, sublinhando que, “naturalmente, temos [CPLP] de respeitar as decisões soberanas das autoridade de STP”. Seria bom retirar ilações destas reações, que colocaram Portugal numa situação incómoda e de grande fragilidade.

Cinquenta anos parece não ter sido tempo suficiente para se ultrapassar o paternalismo e algum complexo de superioridade do tempo colonial. Não se assimilou o facto das relações de Portugal com os novos países de língua oficial portuguesa terem de se subordinar a uma lógica de pares inter pares.

As declarações dos intervenientes nacionais foram tremendamente insensatas e imprudentes. Não nos recordamos de alguma vez terem criticado publicamente o Brasil pela adesão aos BRICS, ou os países europeus que participaram nas sanções à Rússia e que continuam a fazer negócio com Moscovo. Não entendemos por que motivo não expressaram o seu desconforto sobre o modo como a Hungria e a Eslováquia se relacionam com o Kremlin.

Comportamentos desta natureza não ajudam a diplomacia nacional a ganhar votos no Sul Global, ainda não refeito das marcas do colonialismo, na candidatura de Portugal a ocupar um dos dois lugares de membro não permanente do Conselho de Segurança da ONU, atribuído ao grupo da Europa Ocidental e Outros Estados, para o biénio 2027-2028.

As declarações do PR e do MNE criaram tensões desnecessariamente e alienaram a posição de Portugal no seio da CPLP. A crispação e o ruído que se seguiram não contribuíram para reforçar a coesão da organização. A participação do Brasil nos BRICS não colocou em causa a CPLP. Não se percebe porque é que o aprofundamento das relações de STP com a Rússia iria colocar agora. Faz sentido que os países diversifiquem as suas relações exteriores e escolham os seus parceiros. É uma prerrogativa dos Estados soberanos.

Os puristas da indignação tardia deviam fazer jus à sua incomodidade e levantar a voz contra a presença da Guiné Equatorial na CPLP, um país que não pauta exatamente o seu comportamento pelos valores democráticos que defendem. E, já agora, por uma questão de coerência, estenderem o critério a Angola e a Moçambique.

Estes desenvolvimentos com a Rússia não comprometem as cordiais relações de STP com os EUA, nomeadamente ao nível militar. Não há manifestação da vontade de STP renunciar ao acordo celebrado com a Voz da América, respeitante às estações de retransmissão que esta mantém em território são-tomense.

Ao contrário do que afirmam as cartomantes do comentário, o acordo entre STP e a Rússia, que só a estes diz respeito, não tem por objetivo atacar Portugal. São comentários sem sentido, que escamoteiam o cerne da questão e o que está verdadeiramente em jogo: as tensões que opõem o Ocidente à Rússia e à China numa competição geopolítica por influência no Sul Global. Esta é a interpretação mais plausível para esses acordos. Está ainda por perceber até onde vai a concertação entre Moscovo e Pequim. É subordinado a esta lógica que se deve ver a presença do presidente Embaló em Moscovo.

No debate deste tema, não podemos excluir a assinatura de um memorando de entendimento entre empresas chinesas e a Guiné-Bissau para construir infraestruturas ferroviárias, rodoviárias e aeroportuárias no país, em particular, um porto de águas profundas em Buba, que permitirá o escoamento da bauxite e a atracagem, em simultâneo, de três navios até 70 mil toneladas, abrindo as portas ao interior do continente.

A sua concretização contribuirá para aumentar a integração regional, desbloqueando o comércio internacional e o desenvolvimento do fluxo comercial de mercadorias em grande escala. Sem nos esquecermos do petróleo e do gás que existem em grandes quantidades nas águas sob soberania da Guiné-Bissau e do Senegal.

Como nos recordou em tempos um primeiro-ministro, estamos mesmo fadados para sermos alunos bem-comportados. A reprimenda à STP e à Guiné-Bissau serviu para mostrar serviço e obediência a um Deus maior, mesmo que isso seja em detrimento do interesse nacional. Assim, é difícil construir um país a sério.