A eleição do Parlamento europeu : uma mascarada onerosa

(Por Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 15/05/2024)


A eleições europeias servem para mostrar que a União Europeia é democrática … uma vez que ela organiza eleições. Claro, este Parlamento não tem de forma alguma os atributos dos parlamentos nacionais. Na realidade, ele não serve para quase nada… salvo para ser eleito. Ele custará durante o seu mandato 15 mil milhões de euros.


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A eleição do novo Parlamento Europeu realizar-se-á de 6 a 9 de Junho, segundo os Estados-membros. Os parlamentares apenas terão um poder muito limitado : eles votam apenas as leis elaboradas pela Comissão. Desde a sua criação, esta não é mais do que uma correia de transmissão da OTAN-NATO nas instituições europeias. Ela apoia-se em simultâneo no Conselho de Chefes de Estado e de Governo como no Patronato europeu (BusinessEurope). Os parlamentares também só podem expressar opiniões por maioria simples, sem que ninguém as leia ou lhes dê seguimento. Sendo a actual maioria atlantista, todas estas opiniões repetem a logorreia da propaganda da OTAN.

Tradicionalmente, estas eleições servem de escape para as tensões nos diferentes Estados-Membros. Os Executivos, portanto, temem-nas e suscitam uma multiplicação de listas alternativas nos territórios dos seus concorrentes. Em França, onde a legislação de financiamento das campanhas é muito restritiva, o dinheiro que os Estados Unidos e o Eliseu injectam nestas campanhas provêm prioritariamente de Estados estrangeiros (geralmente africanos) e dos promotores de candidatos. Esta estratégia leva a uma impressionante multiplicação de listas : em França são já 21 e na Alemanha 35 !

Embora as eleições sejam sempre feitas mediante listas, cada Estado tem o seu próprio método de escrutínio. Na maior parte dos casos, trata-se de listas “fechadas”, como na Alemanha e na França. Noutros, as listas são transferíveis : os lugares a preencher são disputados um a um (o que diminui o papel dos partidos, mantendo o lado proporcional), como na Irlanda e em Malta. Noutros casos, os eleitores podem alterar a ordem da lista que escolherem, como na Suécia e na Bélgica. Ou ainda, como no Luxemburgo, podem escolher candidatos de listas diferentes. Cada um destes métodos de votação tem as suas vantagens e os seus inconvenientes, mas cada um deles mede coisas diferentes.

Os Tratados tinham previsto partidos “europeus”, mas até à data, não há nenhum; sinal de que não há um “povo europeu”.

Os Partidos nacionais são assim convidados a juntar-se em alianças partidárias europeias que possam designar o seu candidato à presidência da Comissão Europeia. A seguir, é entre eles que o Conselho europeu de Chefes de Estado e de Governo o irá escolher. Este método de eleição indirecta foi estabelecido em em 2014. Na prática, estava antecipadamente identificada a maior coligação. Assim Jean-Claude Juncker, e depois Ursula von der Leyen foram, portanto, designados mesmo antes da sua coligação obter uma maioria relativa.

A possível designação de Mario Draghi como próximo líder da Comissão, significaria que a coligação mais votada teria mudado a sua opinião à última hora. Em princípio teria designado de novo Ursula von der Leyen, mas depois do conhecimento do relatório Draghi sobre a competitividade das empresas europeias, ela iria escolhê-lo. Com efeito, esta manipulação permitiria mudar brutalmente os temas de discussão : durante as eleições fala-se do balanço da administração von der Leyen, mas depois subitamente da federalização da União Europeia em detrimento dos Estados-Membros.

Trata-se de um assunto sobre o qual os eleitores nada compreendem. Podem pensar que « a União faz a força », mas não percebem aquilo que o desaparecimento dos Estados-membros iria significar para eles. A União já não é de todo uma organização democrática, o Estado Europeu sê-lo-ia ainda menos.

Mesmo que Mario Draghi possa não se candidatar, a questão central, e na verdade escondida, é esta : « Devem as populações da União Europeia, ou não, formar um Estado único, embora até à data não constituam um povo único ? ». Por outras palavras, aceitarão que as decisões lhes sejam impostas por uma maioria de « regiões » (já não se falaria mais de Estados-Membros) das quais não fazem parte ?

Esta problemática tinha já sido explicitamente colocada, em 1939, pelo Chanceler alemão Adolf Hitler. Ele pretendia formar uma Grande Alemanha, composta por todos os povos falantes de alemão, colocada no centro de uma constelação de pequenos Estados europeus, todos com base numa etnia. Após a queda do Reich, em 1946, o Primeiro-Ministro britânico, Winston Churchill, que desejava assistir à criação dos Estados Unidos da Europa, ao qual o seu país não deveria de forma alguma pertencer [1]. Tratava-se, para o «Império onde o sol nunca se punha», de poder lidar com um único interlocutor que nunca poderia competir com ele. Este projecto jamais foi concretizado, em seu lugar surgiu um « mercado comum ». É a ele que voltamos agora.

Em matéria económica, a União dirige-se para uma especialização do trabalho : por exemplo, na Alemanha o automóvel, em França os produtos de luxo e na Polónia os produtos agrícolas. Mas, o que vão pensar os agricultores alemães e franceses que serão sacrificados ou os fabricantes de automóveis polacos (poloneses-br) que também o serão ?

Em matéria de política estrangeira e de defesa, a União está já numa linha atlantista. O que quer dizer que ela defende as mesmas posições de Washington e de Londres. Mas esta linha seria imposta a todos, aí incluídos os Húngaros que recusam se tornar Anti-Russos ou os Espanhóis que recusam apoiar os genocidas israelitas. Segundo os Tratados, é a OTAN que é responsável pela Defesa da União. O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, exigia que esta defesa não custasse nada aos Estados Unidos e, portanto, que os Europeus aumentem seus orçamentos militares para o nível de 2% do PIB. Até ao momento, apenas 8 Estados em 27 o fizeram. Se a UE se tornasse um Estado único, este desejo de Washington iria tornar-se uma obrigação para todos nós. Para certos Estados, como a Itália, a Espanha ou o Luxemburgo, isso implicaria uma punção súbita nos seus programas sociais. É pouco provável que as populações em causa apreciem isso.

Além disso, há o caso particular da França, que dispõe de um assento no Conselho de Segurança das Nações Unidas e da Bomba Atómica. Ela teria que pôr esses trunfos ao serviço do Estado único, correndo o risco que a maioria do Conselho Europeu os utilize contra as opiniões francesas. Mais uma vez, as populações em causa, os Franceses na ocorrência, não o aceitarão.

Por outro lado, o Estado-Europa (sem relação com o continente europeu que é muito mais vasto) seria, portanto, um Império, muito embora uma parte do seu território (Chipre-Norte) esteja ocupado pela Turquia desde 1974 e ao qual ele se acomoda tranquilamente.

Nenhum destes problemas é novo. Foi por causa deles que certos políticos, entre os quais o General Charles De Gaule, aceitaram o «mercado comum» e recusaram a «Europa Federal». Agora, voltam ao centro das preocupações dos dirigentes europeus atlantistas, mas não dos seus povos. É por isso que esses dirigentes tudo farão para os esconder durante estas eleições. Este é o assunto central, e é também o que realmente incomoda.

A estes problemas políticos acrescenta-se um problema organizacional. A era industrial deu lugar à da informática e da inteligência artificial. As organizações verticais do início do século XX, seja na economia ou na política, deram lugar a outras organizações horizontais, em rede. O modelo vertical do Estado-Europa está, pois, ultrapassado antes mesmo de ver a luz do dia. Além disso, todos os que a conhecem perceberam já o vazio desta enorme máquina administrativa que apenas leva, no fim de contas, ao abrandamento do crescimento que ela devia estimular. Agora a União está muito atrás da China, da Rússia e dos Estados Unidos. O projecto federal não só não lhe permitirá recuperar, mas irá fazê-la recuar mais diante das potências emergentes.

Poder-se-ia pensar que os partidários do Estado-Europa tem interesse em suscitar uma ampla participação a fim de legitimar o seu projecto. Mas não é esse o caso, uma vez que não se fala do projecto federal nesta campanha ; o qual se reserva para o dia seguinte com Mario Draghi. Por isso, fazem tudo o que está ao seu alcance para realçar que a instituição realiza eleições – o que supostamente bastaria para as tornar democráticas — e garantir que participe o menor número possível de pessoas. Assim, a participação em toda a UE poderia ficar abaixo da metade dos eleitores.

[1] « Discours de Winston Churchill sur les États-Unis d’Europe », par Winston Churchill, Réseau Voltaire, 19 septembre 1946.

Fonte aqui.

O Antigo Testamento – um manual de maus costumes

(Whale project, in Estátua de Sal, 13/05/2024, revisão da Estátua)


(Este artigo resulta de um comentário a um texto que publicámos, de Chris Hedges, sobre os protestos nas universidades americanas contra a atuação de Israel em Gaza, (ver aqui). Pela sua atualidade, explicando as origens antigas da crença dos judeus no seu destino de “povo eleito”, resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 14/05/2024)


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O escritor José Saramago, quase no fim da vida, ia sendo crucificado por dizer que a Bíblia era um manual de maus costumes.

Chamaram tudo ao homem mas, a verdade, é que o Antigo Testamento, ainda hoje seguido à letra pelos sionistas, é mesmo um manual de maus costumes.

E, um dos piores costumes lá relatados, para além de incestos, pais que matam filhos e filhos que matam pais, incentivos à violência contra crianças e jovens, é justamente o genocídio.

Segundo o mito fundador judaico, o tal Antigo Testamento, a primeira vítima foram os midianitas, ainda sob o comando de Moisés. Os guerreiros mataram todos os indivíduos do sexo masculino, dos velhos aos bebés, mas pouparam as mulheres. Ainda segundo este mito, Moisés terá ordenado que se matassem também as mulheres, exceto “as que nunca tiveram contacto com um macho”. Estás, deveriam rapar o cabelo e cortar as unhas, tornando-se escravas sexuais animalizadas dos assassinos das suas famílias. Mais lhes valeria a morte.

Tal como a Palestina do Século XX também a terra de Canaã tinha gente. Gente que nem sequer devia ser escravizada, devia ser toda morta, porque era impura e indigna de partilhar a terra com o povo de Deus. E, tal como hoje se desumanizam os palestinianos dizendo que são todos uns terroristas, se maltratam mulheres e se bodeiam homossexuais, também naquele tempo os cananeus eram acusados de licenciosidade sexual e sacrifício de crianças.

Nunca consegui perceber porque é que tal justificava que um bando de barbudos entrasse nas suas cidades e matasse, dos bebés aos velhos, e até os animais. No caso dos Amalequitas, o tal povo invocado pelo Netanyahu para justificar o seu genocídio, teria sido dada ordem para matar até os animais.

O primeiro rei de Israel, Saul, teria perdido os favores do carrancudo Deus de Israel por ter poupado a família real amalequita e alguns dos melhores animais, certamente a pensar numa eventual obtenção de um resgate por parte de povos aliados de Amaleque. O rei amalequita teria acabado retalhado por Samuel, um ensandecido e sanguinário sacerdote, que teria sido entregue pela mãe para servir os sacerdotes no templo, com a idade de seis anos.

Esta narrativa tornou-se um bico-de-obra para os cristãos quando se tratou de converter este Deus, apoiante do genocídio total, num Deus de paz, amor e perdão. O Islão resolveu o problema dizendo que Deus fez o seu pacto com Ismael e seus descendentes, e não com a descendência de Isaque. E que, mesmo fazendo-se a guerra santa contra os infiéis, se deveria dar uma oportunidade de conversão. Ou seja, Deus não mandou cometer genocídio, porra nenhuma. É talvez isso explique um bom número de confusões no islamismo.

O problema disto tudo é que os sionistas não evoluíram. Continuam como há quatro mil anos atrás. A maior parte dos católicos de hoje considera que os crimes da Inquisição foram isso mesmo, crimes. A maioria dos protestantes não caçaria hoje bruxas. Mas os sionistas voltariam a chacinar os cananeus e, é mesmo por isso, que hoje matam palestinianos como quem mata cães.

Os que protestam contra o genocídio mostram-se perplexos com o ódio manifestado pelos sionistas. Porque o sionismo é uma doutrina de ódio. Uma doutrina de vingança. Uma doutrina que diz que a vingança deve continuar até à septuagésima geração dos seus inimigos.

Eles vivem há quatro mil anos atrás mas usam a mais moderna tecnologia do século XXI para matar, matar e matar. Se pudessem matar todos os críticos de Israel, como estão a matar os palestinianos, não hesitariam um segundo. Mas, o que puderem fazer para lhes dar cabo do futuro, não deixarão de o fazer. Por isso é de louvar a coragem de quem não se cala. Apesar das ameaças, dos discursos de ódio de quem se baixa ao seu poderio económico, apesar de tudo.

Viva a coragem porque bem precisamos dela.


A batalha pela verdade factual

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 11/05/2024)

Quando em 1968 as forças do Vietname do Norte e da guerrilha Vietcongue iniciaram a sua poderosa Ofensiva do Tet, contra as tropas de Saigão e dos EUA, tinha eu acabado de completar 10 anos.

Lembro-me, vivamente, de como, apesar da censura, o trabalho dos repórteres ocidentais revelava cruamente, em imagens ainda hoje icónicas (como a da execução, à queima-roupa, de um prisioneiro comunista), a brutalidade da guerra. Nos lares de meio mundo, era possível ver as baixas e o sofrimento dos militares vindos das grandes cidades e do recôndito rural dos EUA. Nessa altura, a expressão “quarto poder” não era um exagero retórico, como o Caso Watergate o voltaria a provar em 1972. Contudo, os poderes que contam – o dinheiro e o seu braço político – aprenderam a prevenir, com mais ou menos sofisticação, essa liberdade capaz de manifestar a exuberância nua dos factos.

Sem o poder da imprensa livre, a Guerra do Vietname teria continuado e Nixon completaria tranquilamente o seu mandato.

Pouco antes da Ofensiva do Tet, a filósofa Hannah Arendt publicou na revista New Yorker um presciente ensaio intitulado Verdade e Política. Arendt salienta que o poder político tem uma incompatibilidade radical com a mais elementar manifestação da verdade, aquela que se limita a relatar e situar os acontecimentos nas coordenadas do espaço e do tempo: a verdade factual. A filósofa identifica até um conjunto de profissões e papéis sociais cuja essência consiste em testemunhar e defender a objetividade factual, correndo os seus praticantes o risco de ficarem sozinhos, ocupando “um ponto de vista fora do campo político”. O filósofo, o cientista, o artista, o historiador imparcial, o juiz, a testemunha e o repórter são, para ela, protagonistas de diferentes formas de dizer e defender a verdade factual.

Os factos suscitam opiniões e interpretações, mas não se confundem com elas. O conteúdo absoluto e único dos factos, é, contudo, muito frágil. Depende de validação, como ocorre nas testemunhas oculares de um crime chamadas a tribunal. Um exemplo: podem existir várias e contraditórias interpretações sobre as causas da I Guerra Mundial, mas nenhum revisionismo histórico pode anular a verdade factual absoluta de que a 4 de agosto de 1914, foi a Alemanha que invadiu a Bélgica e não o contrário.

A verdade factual está hoje em perigo por toda a parte. As democracias liberais, em recuo, cada vez mais subordinadas a interesses financeiros globais, não escapam à vontade de selecionar apenas os “factos” que satisfaçam as interpretações convenientes. A precariedade crescente da comunicação social torna-a mais vulnerável e menos independente. O assassinato deliberado de jornalistas em Gaza, pelo Exército israelita, mostra como até democracias podem ultrapassar a rudeza das autocracias.

Em contracorrente, o jornalista Bruno Amaral de Carvalho publicou um livro singular: A Guerra a Leste. 8 Meses no Donbass, Caminho. Ele ousou mostrar as vozes e os rostos, as vítimas, as pessoas de carne e osso, do outro lado da Guerra da Ucrânia. Começou a conhecer o Donbass, em 2018, quando o ataque do Governo de Kiev à sua população a leste, silenciado no Ocidente, provocava a fuga de refugiados para a Rússia. A invasão de 2022 tem atrás de si uma série causal que só os factos ajudam a compreender. São um sinal de esperança, os verdadeiros repórteres que preferem arriscar testemunhar os factos, recusando serem meros repetidores de interpretações prontas a usar.