O inquisidor-mor abriu o jogo

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 27/03/2025)


Se a informação-propaganda regimental silencia o contraditório, este terá de dar a volta por cima, tentar fazer-se ouvir alto e bom som através de todos os meios possíveis.  


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O  acto de terrorismo mediático praticado por José Rodrigues dos Santos contra o Partido Comunista Português na pessoa do seu secretário-geral, Paulo Raimundo, marca uma subida qualitativa na campanha geral contra a liberdade ideológica, de pensamento e de opinião; e, distorcendo as temáticas das próximas eleições legislativas, define o tom  a adoptar na viciação da escolha dos eleitores através do objectivo de marginalizar, até à exclusão, o partido que se opõe à opinião única militarista numa sociedade que entrou em estado de guerra.

Neste quadro, o pivot do Telejornal da estação pública que desempenha o cargo de propagandista e inquisidor-mor, ocupando o cargo há quase tanto tempo quanto Salazar esteve na sua cadeira, é, apesar disso, apenas um peão, uma árvore podre no meio de uma floresta infestada por uma praga sem antídoto suficiente.

E, apesar da degradação generalizada do jornalismo e da profissão de jornalista, a arruaça protagonizada por JRS não mancha mais esta actividade porque o indivíduo nada tem a ver com ela.

O comportamento pidesco do energúmeno aparentado com o Chega, usando o falso engodo da discussão política sobre as eleições para disparar em defesa do nazi-banderismo de Kiev, é uma amostra do ambiente que está a ser imposto em toda a União Europeia desde que esta entidade, numa desesperada fuga para a frente e para uma guerra suicida, se encerrou num manicómio.

JRS não é mais nem menos terrorista de opinião do que os lunáticos Rogeiro&Milhazes mais toda a cáfila dos «comentadores» dominantes na SIC, na TVI/CNN e na própria RTP.

As suas presenças nesses lugares não resultam de qualquer iniciativa voluntarista deles próprios. Não seria o que é sem o aval e a decisão dos respectivos directores de informação e dos directores das próprias empresas, pelo que não é difícil deduzir que estamos numa nova e agravada fase de uma política de propaganda administrada como informação, dirigida contra uma opinião pública cada vez mais vulnerável, indefesa perante a mentira e a manipulação, à qual o contraditório é sonegado; e que está sequestrada no interior de uma realidade paralela em aperfeiçoamento constante. A intoxicação é reforçada pela alienação perpetrada pela indústria de imbecilidade do entretenimento mais consumido, complementar da informação viciada e distorcida.

O ambiente mediático dominante caminha a passos largos para a propaganda de guerra. Os esgares e a face ensanguentada de JRS tentando intimidar Paulo Raimundo, usando e abusando da sua prolongada e manhosa experiência perante as câmaras, assinala um momento de agravamento da perseguição e controlo de opinião, mas longe de ser um caso isolado – em Portugal como em toda a União Europeia, mergulhada criminosamente em clima de guerra.

O PCP e Paulo Raimundo simbolizaram, neste caso, todos os alvos a abater através dos 27 – ou dos 28, porque o Reino Unido parece ter assumido o papel de comando militar em todo o espaço europeu, substituindo a aparentemente tresmalhada vertente imperial do lado de lá do Atlântico.

Esses alvos são fáceis de definir, que não de derrotar, desenganem-se os que julgam ser capazes de o fazer através da perseguição e da repressão, do terror verbal, político ou mesmo físico. Para ficarem sob fogo basta que defendam a paz em vez da guerra, o diálogo em vez do paleio entre surdos, a democracia em vez da via para o autoritarismo como antecâmara do fascismo, do investimento no desenvolvimento social e não na indústria da morte.

A RTP montou um banco dos réus para o secretário-geral do PCP porque este partido tem sido o único em Portugal – o único, leram bem – que defende e sempre defendeu as soluções de paz para os conflitos, os caminhos do diálogo para as atingir e que nunca deixou de proclamar o que todos os outros escondem (assumindo a cumplicidade) sobre o cariz do regime antidemocrático e putrefacto de Kiev. Além disso, é um partido que não contorna a realidade histórica determinante em toda a actual situação ucraniana: o golpe de Estado de 2014 contra o sistema de democracia liberal através do recurso a venerados grupos nazis saudosos de Hitler, cometido pelos Estados Unidos e a União Europeia.

O PCP, em suma, é a única voz incómoda que tenta fazer chegar à opinião pública os riscos potenciais e trágicos que uma aventura de guerra transeuropeia acarreta para os povos do continente, especialmente para as suas camadas médias e as mais desfavorecidas. O PCP é a voz contra a corrente da guerra. Por isso, atendendo às novas circunstâncias de militarização da sociedade a todo o custo e custos, já não é suficiente dissolvê-la através da manipulação e distorção mediática das suas posições, das suas intervenções, das suas mensagens e dos seus programas populares. Parece ter chegado o momento de calar essa voz, de correr com os comunistas de órgãos de soberania, principalmente da Assembleia da República; em suma, é necessário erradicar de vez o contraditório democrático, que é como quem diz, no limite a própria democracia. Acontece em Portugal em relação ao PCP como acontecerá a quaisquer outras vozes pacifistas e dialogantes dentro da União Europeia, precisamente por tentarem ainda impedir a catástrofe. Tal é o objectivo da vertente mediática da propaganda belicista como parte da estratégia para instauração de uma sociedade em que o culto da guerra seja «unânime».

JRS, como outros correligionários da grande burla do «comentariado», apontam o caminho, definem  que as entrevistas dialogantes, ainda que possam levantar controvérsia mas sejam abertas e esclarecedoras, já não devem ser permitidas a representantes do PCP e do contraditório em geral. Há que transformar esses episódios em actos inquisitoriais, em julgamentos sumários onde não haja espaço para o acusado se defender. Por este caminho, também é essencial impedir a abordagem de uma vasta panóplia temática esclarecedora, coerente e programática, impondo como único tema em cima da mesa, numa atmosfera agressiva, intimidatória, desrespeitosa, de preferência humilhante, aquele que mais quebra o unanimismo. De maneira a que seja absolutamente descreditado.

Do tumulto às falinhas mansas

Como exercício que contribua para perceber a manobra pode o leitor comparar a acção terrorista contra o PCP com as falinhas mansas, as conversas suaves e até promocionais que JRS mantém com os representantes dos outros partidos, sabendo, à partida, que nenhum deles – nenhum, leram bem – põe em causa a política armamentista e de guerra em sociedade com os carrascos de Kiev, inimigos do povo ucraniano. Talvez nada seja mais esclarecedor do que essa comparação.

JRS engasgou-se e entupiu quando Paulo Raimundo lembrou uma outra realidade simples: a de que a União Europeia, vivendo numa espécie de delírio de destruição, sangue e morte, deixando-se afogar no pântano ucraniano, não mostra a ínfima preocupação com a mortandade genocida praticada pelo regime nazi-sionista de Israel contra o povo palestiniano. Se pensarmos mais maduramente, porém, talvez não estejamos perante um daqueles casos habituais de dois pesos e duas medidas. Existe até uma apreciável coerência nas posições da União Europeia: a insensibilidade em relação aos palestinianos é a mesma em relação à liquidação de um milhão de ucranianos, por culpa do seu governo, e até no que diz respeito aos jovens europeus para quem se planeiam missões de morte.

O feitiço contra o feiticeiro

As reacções ao que se passou no covil inquisitorial de JRS revelam, porém, que este perdeu a batalha e as suas intenções ficaram prosaicamente desmascaradas. O facínora virou-se contra si próprio à medida que percebia a incapacidade para extrair a Paulo Raimundo as respostas que pretendia ouvir. Além disso, o secretário-geral do PCP resistiu à tentação de lhe fazer a vontade, a de que abandonasse o estúdio, carregando o ónus de uma campanha acrescida e previsível contra um «inimigo do diálogo». Mesmo que de diálogo nada tenha havido, esse era um dos objectivos centrais do ressabiado JRS.

Ao invés, o dirigente comunista conseguiu ainda, no meio das rajadas incessantes do seu inquisidor, fazer-lhe alguns dribles e fazer passar mensagens essenciais que incentivam a pensar e demonstram o estado de insanidade a que chegaram a classe política governante portuguesa e os dirigentes da União Europeia.

As palavras de Paulo Raimundo deixaram claro que os 800 mil milhões de euros que a União Europeia não tem, mas se propõe gastar em armas e no esforço de uma guerra contra a Rússia, representam machadadas violentas em serviços e direitos fundamentais para os povos europeus como a saúde, o ensino, a habitação, criação e manutenção de infraestruturas públicas e o próprio desenvolvimento económico, prejudicando as camadas médias e mais desfavorecidas.

Outra das mensagens deixadas pelo responsável comunista é talvez ainda mais dramática. Os dirigentes europeus, ensandecidos e movendo-se à deriva no interior de um manicómio, preparam-se para transformar uma geração de jovens europeus em carne para canhão considerada indispensável para reabastecer o talho onde foram sacrificadas as vidas de um milhão de ucranianos; jovens esses que, pela ordem natural das coisas, seguirão o mesmo caminho. Dizer isto, porém, é uma heresia, uma razão suficiente para que o atrevido herege seja reduzido ao silêncio. No entanto, cinco décadas depois da libertação, mais uma geração de portugueses está ameaçada de ter o seu futuro adiado, ou mesmo hipotecado, em uma nova guerra inútil e sem sentido, como afinal são todas.

Uma outra mensagem deixada pelo secretário-geral do PCP, esta implícita mas ainda decorrente do atentado de que foi vítima, é a de que o unanimismo militarista e neoliberal, uma vez que estas correntes desumanas são interdependentes, não pode passar. Se a informação-propaganda regimental silencia o contraditório, este terá de dar a volta por cima, tentar fazer-se ouvir alto e bom som através de todos os meios possíveis. Até porque, pelas reacções que choveram imediatamente a seguir à sessão inquisitorial, certamente oriundas até de muitas pessoas indignadas que não estão, de alguma maneira, associadas ao PCP, revelam que existe uma base de consciências despertas, ou a despertar, para os perigos representados pela ameaça de autoritarismo inerente à instauração do estado de guerra. Essas pessoas sabem que a marginalização dos comunistas seria sempre uma porta aberta para o aparecimento das formas mais negras de poder.

A prestação de JRS, que se denunciou ao ser vítima do próprio comportamento, teve pelo menos uma vantagem: abriu o jogo e permitiu-nos ficar a conhecer, sem qualquer dúvida, o tom persecutório contra o PCP e a democracia da campanha para as eleições de 18 de Maio. Alertou todos quantos continuam a bater-se por uma democracia na qual a vontade do povo seja soberana de que a campanha não vai ser limpa nem democrática. Já não basta que a escolha tenha sido, há muito, restringida a dois partidos; há também o objectivo claro de expulsar o PCP dos espaços de soberania e, para concretizar esse objectivo, vai valer tudo. Mais tarde ou mais cedo, outros partidos que se atrevessem a ter pontos de dissonância seguiriam o mesmo caminho. Nada que, para já, os incomode enquanto aplaudem os nazi-banderistas de Kiev.

Perante uma campanha como a que se prevê é necessária uma verdadeira contra-campanha através do recurso, pelos democratas, a todas as formas de contacto e esclarecimento, nas redes sociais, actuação directa, imaginativas e inovadoras formas de comunicação tirando proveito de novas tecnologias, enfim tudo o que possa minimizar os efeitos da previsível e despudorada campanha oficial do regime – na comunicação social e em iniciativas públicas.

Não será abusivo, nem exagerado, nem alarmista deixar claro que esta campanha é de vida ou de morte, na verdadeira acepção das palavras. Nas mensagens permitidas a Paulo Raimundo, apenas porque este não desistiu do confronto desigual, foi possível perceber que o povo português, numa espécie de dormência induzida pelos mecanismos sórdidos da propaganda, não se apercebeu ainda do alcance do enorme perigo que corre devido à crescente e doentia irresponsabilidade dos nossos dirigentes nacionais e europeus. O perigo de ser atingido por uma guerra real, não como aquelas de faz de conta com que pretendem entreter-nos nas superproduções da Netflix, Hollywood e correlativos, ou mesmo nos telejornais de JRS e respectivos clones.

Em boa verdade, é urgente que as portuguesas e portugueses se apercebam da necessidade de travar o envio dos nossos filhos e netos para um matadouro que nada tem a ver com os nossos interesses, apenas existe por razões que não são as nossas e nenhuma relação tem com a democracia, antes pelo contrário – digam o que disserem as classes políticas e respectivos propagandistas.

É urgente, por isso, que se evite o arrastamento dos nossos jovens para o sacrifício antes de começarem a regressar, em massa, inertes e dentro de sacos de lona. É disto que também trata a campanha eleitoral em curso.

Fonte aqui.

Crónica de um combate em Sala Oval

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 05/03/2025)


E a Europa que ia tão bem à sombra de Washington, vivendo do que sobrava da rapina norte-americana, o que dava para a nossa classe política viver bem, desde que não faltasse também a riqueza que continua a escorrer enquanto esprememos os nossos povos. Trump veio estragar tudo. 


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A ópera bufa protagonizada, no cenário certo, por dois políticos reles e irresponsáveis, sociopatas de gema que quase se envolveram à estalada por causa da bagatela de 350 mil milhões de dólares e milhão e meio de mortos, é o retrato do império que nos subjuga, um exemplo cru de como funciona a «ordem internacional baseada em regras» que engoliu o Direito Internacional.

Do lado de cá do Atlântico, uma horda de pequenos mafiosos, suseranos do galifão de crista que ameaçava com o dedo em riste o tipo ostentando o grafismo do nazi-banderismo na farda, espremiam-se fazendo claque pelo pequeno führer, eles mesmos em pânico por se sentirem abandonados pelo padrinho de Washington – quem vai agora defender-nos do papão de Leste?

Assim vai o Ocidente, espelho da «nossa civilização».

Aos 350 mil milhões de dólares da discórdia, esbanjados numa vergonhosa derrota segundo o imperador de turno, devem acrescer-se mais uns milhares de milhões, não de dólares mas de euros, que os nossos dirigentes sacaram dos nossos bolsos, sem o decoro de pedir licença – há várias designações para o acto, o leitor tem muito por onde escolher – agravando a fome e a miséria, o analfabetismo funcional, a indigência cívica, o racismo e a xenofobia, espalhando a habitação precária abarracada e humilhante por territórios cada vez mais vastos; enquanto primeiros-ministros, como o de Portugal, dando-se muito bem por conta própria, explicam que vivemos no paraíso, os povos é que não sentem nem sabiam.

Se calcularmos por alto os valores envolvidos, no meio dos quais os cinco mil milhões de dólares investidos em 2014 pela equipa Obama/Biden no golpe sangrento de Maidan em Kiev, o óvulo disto tudo, não são mais do que uma gorjeta; o somatório situa-se, pelo menos, nos 400, 500 mil milhões de dólares/euros. Essa é verba despendida pelos paladinos dos direitos humanos e proprietários dos «valores ocidentais» para liquidarem mais de um milhão de ucranianos e, ao que parece, umas centenas de milhares de russos; seres humanos que não lhes fizeram mal nenhum e que, no caso ucraniano, lá iam vivendo naquela recomendada democracia liberal desde a independência do seu país estabelecida à martelada sobre o cadáver da União Soviética. Um sistema que não funcionava nem melhor nem pior do que noutros países guiados pelo farol democrático de Washington, equipado para alumiar todo o mundo no tal futuro mirífico em que nada teremos e seremos felizes.

A democracia liberal, porém, não é perfeita. E no caso ucraniano tinha escolhido quem não devia, pelo que o imperador e os colonos se viram obrigados a corrigir o defeito através de métodos mais eficazes. Tal remedeio, é certo, teve como resultado a chacina de aproximadamente milhão e meio de pessoas numa guerra tão artificial como o jardim de Borrell, mas todos aprendemos há mais de 30 anos, pela voz de grandes mestres na matéria, que os esforços para implantar a democracia entre os bárbaros não conseguem evitar os danos colaterais. Como explicam os deuses do neoliberalismo, progenitor da democracia liberal, não há almoços grátis. 

Combate viciado, como é próprio do império

A altercação na Sala Oval da Casa Branca, onde a cada segundo se define como deve andar o mundo, foram provocadas, em primeira instância, pelo ajuste de contas entre agiota e credor sobre os tais 350 mil milhões da discórdia, mas o contexto é mais vasto. Sem deixar de assinalar que a anterior administração de Washington informara a ditadura de Kiev de que a fartura de armamento era expedida em leasing, método interpretado pelos acarinhados terroristas como cedida a fundo perdido. Portanto, agora é que são elas. 

Num canto do ringue, o imperador não deixou dúvidas de que pretende fugir a todo o custo, não apenas da vergonha militar na Ucrânia como dos encargos que os incapazes suseranos europeus lhe provocam por causa do seu entranhado pavor do que pode vir do Kremlin, seja o ocupante quem for, chame-se Putin, Estaline, Lenine ou outro alguém com nome e coroa de czar. Não interessa: no Kremlin não se pensa noutra coisa que não seja dar cabo dos malandros dos europeus.

É certo que Napoleão procurou instalar-se nesse mesmo Kremlin para que o perigo fosse eliminado de vez. A coisa correu mal e só então os malditos russos saíram da toca e vieram Europa fora até deixarem o imperador francês em Paris, no lugar de onde nunca devia ter saído.

Hitler repetiu a façanha mais de um século depois e aconteceu mais ou menos o mesmo. E lá vieram outra vez os russos, desta feita até Berlim, onde refeições de cianeto ou de outra coisa do género impediram o führer e seus comparsas de os receber.

Se os acobardados dirigentes europeus não fossem uns cábulas em História ou não se entretivessem apenas com os contos de fadas narrados pelos seus historiadores amestrados, saberiam que os russos não têm por hábito deixar o sossego das suas terras e o usufruto das suas riquezas humanas e naturais para se virem imiscuir neste ninho de víboras a que chamam União Europeia, confundida abusivamente com a Europa. Seria até um caso de masoquismo a merecer acompanhamento especializado. Sejamos práticos e realistas: o que ganhariam eles em meter-se numa megaempresa falida gerida por incompetentes não eleitos e que têm como ocupação única, além de remoerem a ameaça russa, a de maltratarem os seus povos? Tratar do seu país imenso já lhes dá bastante que fazer.

É certo, como todos verificámos, que aquele combate na Sala Oval foi viciado, como é da praxe nos espectáculos imbecis da luta livre americana. Trump usou como reforço o seu segundo, JD Vance, especializado em falar verdade aos europeus, explicando-lhes o que eles verdadeiramente são, desnudando-os sem decoro. Um formato injusto, sem dúvida, mas que fazer? A «ordem internacional baseada em regras» é assim, quem dita as regras ou a ausência delas é a única nação «indispensável» e «excepcional». Citando mais uma vez o sabichão Kissinger, o que nunca é demasiado enquanto os invertebrados europeus berram como carpideiras contratadas, «ser inimigo da América é perigoso, mas ser amigo é fatal».

No outro canto do ringue da Sala Oval esteve o imitador de führer banderista, marioneta manipulada até agora por Obama e Biden («stupid president», lhe chamou Trump como quem dá um murro nos rins de Zelensky) e também pelos europeus –  a quem o nazismo não faz comichão e até complementa cada vez mais a democracia liberal.

O bando de criminosos que o golpe norte-americano de Maidan instalou em Kiev, com apoio de Bruxelas – que até aceitou como merecida autoflagelação o «fuck the EU» de Nuland – encorajou os nazi-banderistas a assumirem a raça pura que um qualquer deus lhes soprou para limparem o país da escória russa dos territórios de leste. Apesar da carnificina, na qual contaram com o apoio «diplomático» em formato de burla garantido por gente de bem da democracia liberal como Angela Merkel e François Hollande, não completaram a tarefa porque os russos do Kremlin perderam a paciência e disseram «acabou-se a brincadeira».

Caiu o Carmo e a Trindade com tal atrevimento. Vêem como os russos afinal saem da toca? Ao que parece, contudo, pouco mais traziam do que as mãos a abanar, quanto muito umas pás e outras alfaias agrícolas como munições, peças de máquinas de lavar até estariam a mais para quem acabara de sair da Idade Média para se atrever a confrontar-se com o futuro antecipado.

Mesmo assim, haveria que ter cuidado. De Washington e Bruxelas choveu dinheiro, transportaram-se para Kiev armas e outros equipamentos militares de muitas gerações, até das que estão para vir, a vitória esteve à mão de semear, as ofensivas de Verão iriam despachar os russos com as caudas entre as pernas, mas os instrumentos agrícolas e outros adereços arrancados a electrodomésticos afinal pareciam trazer poderes sobrenaturais: e a verdade é que a vitória esmagadora se transformou numa aterradora derrota, a mãe de todos os medos.

Nos cemitérios ampliados para dimensões nunca vistas, nos campos de batalha distribuídos através de toda a Ucrânia jazem e apodrecem mais de um milhão de seres humanos. O país está em ruínas, falido, os cidadãos comuns fogem desesperadamente aos raptos para não serem enviados para os cadafalsos da frente. Grande parte da população abandonou o naufragado barco, se bem que sejam muitos os que aproveitaram para ajudar ao saque do país.

A comunicação social que tem os senhores da guerra como patrões cantou hossanas às gloriosas vitórias, atiçou-nos a todos contra os selvagens dos russos e agora geme como quem encomenda as almas na Quaresma. Não se importa de ter jogado com a sensibilidade, a boa fé e a credibilidade das pessoas a quem era suposto servir. Cumpriu a sua missão, na altura certa haverá condecorados.

Ai que vêm aí os russos, clamam os inúteis chefes europeus, com as mãos na cabeça e perdidos entre visitas e reuniões «de emergência» onde tomam decisões que nascem inaplicáveis. Zelensky bem avisa, dando agora o dito por não dito: eles têm, afinal, um exército terrível; «se a Ucrânia cair os russos tomarão conta de toda a Europa». Talvez seja exagero: no caso de se cumprir o histórico da História, de Kiev não passarão – até pode acontecer que abdiquem de chegar lá. 

Ao fim e ao cabo desta cegada entre gente sem sentimentos nem emoções, Zelensky deve sentir-se afortunado por sair da Sala Oval apenas com uns tabefes verbais. 

Atribulações dos europeus na Europa

Na hora da debandada e do salve-se quem puder, os primeiros a tentar safar-se são os mesmos que, na qualidade de donos do mundo, criaram a catástrofe e a matança de inocentes. A comandar as hostes golpistas está agora Trump, não Obama ou Biden, os responsáveis directos. Trump exerceu um primeiro mandato como presidente já a agressão contra as impuras minorias estava há muito em andamento, mas como as vítimas eram ainda apenas os russos do Donbass, deixa andar que segue tudo sobre rodas. 

Agora o caso mudou de figura, é preciso recorrer à estratégia usada no Vietname ou no Afeganistão: salvar a pele, não deixar pedra sobre pedra, não sem antes acertar contas e assegurar os despojos a que, sendo o império o que é, tem direito por concessão divina. Afinal as guerras fazem-se para ganhar dinheiro em negócios sem limites e sem regras, podendo ainda contribuir para um alívio demográfico do planeta, como defendem credenciados eugenistas instalados em posições influentes nas mais poderosas seitas neoliberais.

Interpretando o que está a passar-se, percebe-se que chegou a hora de exigir, de um lado, e regatear, do outro; é aí que estamos, com os resultados a que o mundo pôde assistir ao vivo e a cores a partir do ringue da Sala Oval. O agiota exige o capital e os juros que calcula como lhe apetece; o pedinchão sente pela primeira vez o que é alguém pôr limites aos seus caprichos sanguinários: «você está a brincar com a Terceira Guerra Mundial» – nunca o verme da Casa Branca tivera um momento de tamanha lucidez, com recado extensível aos parasitas da Europa. 

Pela boca de Trump, os Estados Unidos querem como recompensa  a riqueza da Ucrânia em terras raras, elementos naturais pouco abundantes, como explica o seu baptismo, indispensáveis para a indústria dos chips e susceptíveis de garantir o monopólio da inteligência artificial, que pertence ao império, nem poderia ser de outra maneira. Até porque, sendo a Natureza traiçoeira como é, as principais reservas de terras raras, numa percentagem esmagadora de mais de 80% e violando todos os princípios do mercado e da leal concorrência, estão lamentavelmente enterradas na República Popular da China, que sabe bem quanto valem.

Por isso há que deitar mão ao remanescente existente na Ucrânia, ainda que seja minério a escorrer sangue humano, que se há-de fazer, a vida continua e ao império o que é do império. E há que assegurá-lo antes que os europeus reclamem o seu quinhão. Mais uma vez, Nuland é que a sabia toda, «fuck the EU».

Mas os europeus, senhor, porque lhes dais tanta dor?… O pequeno Napoleão desmultiplica-se em expedições, por ele ia até ao Kremlin porque em tais situações mesmo o diabo pode ser útil. O desastrado candidato a mini-fuhrer de Berlim, mascarado de social-democrata, foi atirado para o lixo mas, ainda assim, conseguiu cumprir uma missão histórica: devolver a Alemanha às extremas direitas e deixar de pantanas o velho, ainda que abastardado, partido que dizia representar.

Em Bruxelas, Von der Leyen, Kallas e Costa, este no papel de basbaque impante quando se passeia ao lado de Zelensky, mimam e embalam o moribundo ditador de Kiev, ameaçam mandar tropas de «paz» que não têm – e ainda bem para elas porque já chega de cadáveres no território ucraniano.

Mas garantem que vão fazer com que a Ucrânia vença a guerra a todo o custo. Sim, não somos cobardes nem interesseiros como o arrivista do Trump, mesmo que da velha Europa, sequestrada pela fraude da União Europeia, nada mais reste. Não nos renderemos, vamos defender-nos atacando, não precisamos dos traiçoeiros Estados Unidos para nada: e assim terminará ingloriamente a ficção da União Europeia, ficando a própria NATO a duvidar se tem futuro.

O que existe para lá do eixo franco-alemão e do triunvirato ditatorial de Bruxelas em que assenta o poder executivo da União, fala mas não diz nada, reúne-se mas não vai além de rabiscos insignificantes no bloco de apontamentos, com excepção de duas ou três aberrações a quem o mostrengo de Putin não provoca pesadelos.

Em bicos de pés, Macron, o debutante Friedrich Merz, o imitador de Blair chamado Keir Starmer tentam falar grosso, mas o som sai-lhes fininho das entranhas, falta-lhes qualquer coisa; não temos armas, não temos dinheiro, não temos indústria, não temos recursos naturais. E a Europa que ia tão bem à sombra de Washington, vivendo do que sobrava da rapina norte-americana, o que dava para a nossa classe política viver bem desde que não faltasse também a riqueza que continua a escorrer enquanto esprememos os nossos povos. Trump veio estragar tudo. 

Por isso queremos prosseguir a guerra e, ao mesmo tempo, entrar nas negociações de paz – nós que até proibimos a palavra «paz» e perseguimos quem insistia em usá-la – e levar o Zelensky connosco; temos esse direito, afinal deixaram-nos na penúria, desarmados e à mercê dos gananciosos e insaciáveis do Kremlin, capazes de nos arrancar a pele. Também somos gente, gritam enquanto ninguém os ouve.

Moral desta história de terror: não é dos russos que a Europa e os europeus têm de se proteger. É dos seus próprios dirigentes. 

Para isso não há outro remédio que não seja substituir a mafiosa democracia liberal pela democracia, isto é, o sistema em que os desprezíveis da classe política que sequestraram o poder de decidir sejam varridos de cena – noutros tempos seriam defenestrados – e os povos se façam ouvir com a sua legítima voz de comando.

Fonte aqui.

Velhas alianças afundam-se no Atlântico

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 19/02/2025)


Não tenhamos ilusões nem dúvidas de que, mais de um milhão de mortos depois, a paz continua longínqua. Sob a tutela de Putin e Trump, o cenário de hipotéticas negociações formais é ainda um magma de contradições que, até aqui, têm sido insanáveis.


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E o feitiço está a virar-se contra o feiticeiro.

Os inspiradores, condutores e financiadores do golpe de Estado de 2014 na Praça Maidan, em Kiev, estão a sofrer as consequências desse atentado grosseiro contra a democracia montado exclusivamente para defender interesses alheios aos do povo ucraniano e estender o campo de acção da NATO até às fronteiras da Rússia.

O Ocidente está em choque com a derrocada de pilares que sustentam as alianças transatlânticas, que pareciam sólidas, como se correspondessem a um devir histórico, e afinal são vulneráveis quando os interesses contraditórios envolvidos finalmente entram em conflito. O que Davos tem vindo a construir tão laboriosamente com golpes, manipulação e propaganda no sentido do globalismo, a conferência de Munique veio agora atrapalhar.

Não poderá dizer-se que se trata de um caso de zanga entre comadres. É muito mais uma ruptura do tipo de relações habituais mantidas numa teia mafiosa entre o Padrinho e os seus Cappos.

Como ainda recentemente – em termos históricos – aconteceu no Afeganistão, os Estados Unidos estão em debandada da Ucrânia, arrastando consigo uma NATO atónita e dentro da qual o secretário-geral não sabe o que há-de dizer, a não ser dislates em que consegue pronunciar considerações e as suas contrárias numa mesma intervenção.

À fuga norte-americana das consequências da situação que criou há 11 anos em Kiev, e que custaram, logo para começar, cinco mil milhões de dólares à Fazenda de Washington, segundo versão oficial, corresponde a entrada numa fase ainda mais grave da longa agonia que antecede a morte da União Europeia. Enredada nos laços que criou por se ter envolvido, desde o primeiro momento, no apoio acrítico ao regime totalitário nazi-banderista instituído através do golpe, os 27 ficam agora com o menino nos braços e sem o direito a negociar soluções. Continuam a proclamar que apoiarão até às últimas consequências a casta corrupta e criminosa da qual a figura mais visível é o presidente ilegítimo Zelensky, de modo a «que a Ucrânia vença». Para alimentar a ilusão de que irão alcançar esse objectivo, cultivam a ideia insana de enviar tropas com uma dimensão de efectivos que não têm; dispõem-se a mandar dinheiro em cima do que já voou em anteriores donativos para as contas da seita nazi e que agora também não possuem porque cumprem com obediência canina as sanções à Rússia decretadas pelos Estados Unidos; e consideram-se obrigados a encaminhar ainda mais armas para o regime ucraniano – em estado muito mais para lá do que para cá – com os seus próprios arsenais já esvaziados. E se, com risco do seu próprio futuro a curto prazo, quiserem continuar com essa «democrática» missão, vão ter de comprar armamento aos senhores norte-americanos da morte, que já esfregam as mãos antecipando mais esse bónus.

Numa reacção patética, uma parcela ínfima dos chefes de governo europeus mais o secretário da NATO e os principais eurocratas não eleitos de Bruxelas, Van der Leyen e Costa, reuniram-se em Paris «de emergência» para decidirem como continuar a dar «todo o apoio» ao  regime ucraniano; e também para exigir a participação nas negociações de paz e preparar o envio de tropas para a Ucrânia. 

Este conclave daqueles que abdicaram de ter voz e agora pretendem falar grosso merece duas notas adicionais. A de que esses agora órfãos de Washington ainda não perceberam o tremendo alcance do problema em que se meteram ao longo destes anos. A sua situação é do tipo daquelas que o povo às vezes invoca, neste caso aplicada a propósito da negociação de Putin com Trump: não é preciso falar com os cães quando se pode falar com o dono dos cães. E se a ideia peregrina de enviar tropas como «forças de paz» continuar a ir para a frente é porque a União Europeia decidiu finalmente suicidar-se, abreviando o permanente definhamento de que tem padecido.

Até um político reles humilha a União Europeia

Como se não fossem bastantes as consequências do desprezo total a que a União Europeia foi condenada pelos Estados Unidos, depois de anos e anos de vassalagem indigna a Washington em todos os assuntos de âmbito internacional, os dirigentes europeus ficaram a saber que o vice-presidente norte-americano, JD Vance, usando o púlpito da chamada «conferência de segurança» de Munique, diagnosticou que «a principal ameaça à Europa vem de dentro, não da Rússia ou da China». Ouviram o que merecem até de um indivíduo reles, um desqualificado sofrendo de histeria do poder.

Aqui chegados é uma boa altura para recordar o sábio conspirador Henry Kissinger: «Ser inimigo da América é perigoso, mas ser amigo da América é letal». A casta governante dos 27 não pode alegar que não estava avisada.

Vance não se ficou por aí no constrangedor discurso de Munique. Em muitas das passagens da oratória sobressaiu a total desconsideração e a ostensiva desvalorização da sabujice dos dirigentes da União Europeia em relação a tudo quanto se decide em Washington, incluindo a maneira suicida como se emaranharam na teia tecida pelos nazi-banderistas de Kiev confiando em que a tutela norte-americana sobre a situação seria garantida enquanto necessária.

O vice-presidente dos Estados Unidos humilhou a União Europeia definindo-a como «fraca» e acusou-a de «sair da linha dos interesses americanos e valores compartilhados». Especificou, como um toureiro que termina triunfalmente a faena e inicia a volta ao redondel, que o Ocidente hoje «se expõe por não ter consenso sobre coisa alguma» e, acrescentando um pouco mais de sal à ferida, acusou os governos europeus «de censurar a liberdade de expressão e recuarem nos valores democráticos fundamentais». 

Os argumentos de Vance para chegar a esta conclusão são de um reacionarismo ultramontano e atroz, o que destroça ainda mais o abalado prestígio da União Europeia ao seguir obedientemente Washington. Porém, num dos argumentos explicitados o vice-presidente norte-americano tem alguma razão: o da Roménia, onde recentemente foram anuladas as eleições presidenciais devido à vitória de um opositor do regime oriundo da extrema-direita populista. Disse: «Podemos aceitar que é errado a Rússia comprar anúncios nas redes sociais para influenciar as vossas eleições, mas se a vossa democracia pode ser posta em causa por algumas centenas de milhares de dólares em publicidade digital de um país estrangeiro, então não é assim tão forte».

Os dirigentes europeus que assistiram em directo a esta exibição do representante trauliteiro do nacionalismo imperial arengando aos suseranos ficaram em choque, acharam que não mereciam tamanha ingratidão.

«Pode ficar registado na História que este foi um dia negro para a Europa», queixou-se amargamente Marko Mikkelson, presidente do Parlamento da Estónia; a sua pobre compatriota Kaja Kallas, em missão de serviço como chefe da «política externa» da União Europeia, ficou estarrecida com o facto de os Estados Unidos estarem «em confronto» com a Europa.

O diário britânico The Telegraph decidiu resumir o desgosto de todos na sua manchete: «Agora é o mundo de Putin e Trump. Estados Unidos deixaram de estar interessados em garantir a segurança na Ucrânia e na Europa».

A paz estará mais próxima?

JD Vance foi o primeiro enviado de alto nível de Donald Trump à Europa depois de ter novamente tomado posse na Presidência dos Estados Unidos. Não trazia qualquer «plano de paz», informou o presidente. Quanto aos seus outros enviados à conferência de Munique, o secretário da Defesa Hegseth e o intermediário para as negociações sobre a Ucrânia Kellog, estiveram na capital bávara apenas «para ouvir o que os parceiros têm a dizer». Afinal, bem no estilo imprevisível de Trump, Vance tinha recomendações para fazer estalar a ténue camada de verniz das relações transatlânticas, que a União Europeia cuidava ter a solidez de betão.

Estas danças e contradanças agitando a paz podre e dominadora que as administrações democratas norte-americanas impõem de maneira mais soft à Europa teve como música de fundo as notícias sobre a conversa telefónica de hora e meia entre o chefe do Kremlin e o mega oligarca da Casa Branca.

Notícias que também pareceram deixar os dirigentes europeus à beira de um ataque de nervos, porque este formato os deixa isolados na tarefa de apoiar o regime ucraniano sem terem uma palavra a dizer na procura de uma solução para pacificar o país. Os eurocratas, tecnocratas e autocratas de Bruxelas ficaram incomodados com o facto de Zelensky também ter sido posto de lado, em parte porque Trump e Putin parecem de acordo quanto à ilegitimidade da sua presença na presidência em Kiev. O presidente norte-americano manifestou-se até céptico quanto ao futuro político do chefe formal do nazi-banderismo comentando que, numa perspectiva eleitoral, «os seus números nas sondagens não são óptimos, para dizer o mínimo». 

As vagas informações sobre a conversa entre Putin e Trump, a primeira entre os principais dirigentes russo e norte-americano em longos anos, estão a ser amplamente especuladas em relação inversa com o seu conteúdo pobre e quase de circunstância, uma espécie de soma de itens canónicos de relações públicas.

Se algumas intenções atribuídas a Trump não forem por este invalidadas, conhecidas que são as suas tendências contumazes para a mentira e a incoerência, Putin terá obtido a aceitação de duas das exigências russas em relação a um eventual plano de paz: a impossibilidade de regresso às fronteiras de 2014 – a inclusão de quatro oblasts (províncias) no território russo parece ter sido uma hipótese levantada; e a Ucrânia não fará parte da NATO, travando-se assim a expansão da aliança para Leste.

Trump terá dado igualmente garantias de que nem tropas dos Estados Unidos ou da NATO integrarão qualquer «força de paz» que hipoteticamente seja expedida para o território ucraniano. A concretização desta intenção significará que o artigo 5.º do Tratado do Atlântico, que implica resposta de toda a aliança no caso de um membro ser atacado, não será válido para quaisquer tropas europeias que pretendam instalar-se na Ucrânia – ficando assim por sua conta e risco. Putin, recorda-se, já afirmou que militares de países europeus que entrem em território ucraniano, incluindo os que se declararem membros de uma «força de paz», sujeitam-se a não regressar com vida aos seus países.

A União Europeia, contudo, continua a insistir nesta intenção, embora entre os 27 haja quem comece a levar a sério as declarações do chefe do Kremlin.

Na verdade, o exército russo que, segundo perspectivas comuns na Europa, mal saíra ainda da Idade Média e a carência de armamento era tal que os soldados se viam obrigados a usar utensílios agrícolas do género de pás, forquilhas e ancinhos, ou mesmo peças de máquinas de lavar como munições, transfigurou-se, de um momento para o outro, num terrível e gigantesco monstro de eficácia.

Ouçamos o ministro da Defesa  da Lituânia, Davilé Sakaliené: «As capacidades militares russas já são três vezes maiores do que eram quando começou a invasão da Ucrânia em larga escala há três anos; e tudo isso aconteceu num contexto de guerra activa».

E o próprio Volodymyr Zelensky, que durante meses e meses se declarou à beira da vitória contra as incapazes e saloias tropas russas, garante agora que, «depois da queda da Ucrânia, a Rússia ocupará a totalidade da Europa com toda a facilidade».

Pelo que a Europa, segundo a publicação alemã Die Welt, tem um problema com a fuga e a traição de Trump. Diz-se que a «força de paz» necessita de pelo menos 120 mil efectivos no terreno mas os países europeus, segundo aquela fonte, não seriam capazes de mobilizar mais de 25 mil.

Tentando interpretar o que fluiu para o exterior da conversa de Trump com Putin há dados a garantir que a paz não está próxima, ao contrário de considerações que correm abundantemente; não por as eventuais negociações excluírem a União Europeia ou Zelensky, mas sim porque existe uma discordância de fundo à partida: o presidente norte-americano quer um cessar fogo imediato na actual linha de contacto e Putin, escaldado com o desrespeito por acordos anteriores como os de Minsk, aproveitados para reforçar as tropas  ucranianas, quer entendimentos acompanhados por garantias legais e a eliminação das causas profundas do conflito, no âmbito das quais a impossibilidade de a Ucrânia entrar na NATO é apenas uma delas. 

A Rússia, tudo o indica, não abdicará das desnazificação e da neutralidade da Ucrânia e também, como foi proposto anteriormente em documento que está nas mãos da União Europeia e da NATO, de um acordo de segurança indivisível ao nível da Europa no qual a segurança de qualquer país não possa ser obtida à custa da segurança de outro ou outros.

Nada nas informações escassas saídas da conversa permite perceber se Trump aceita ou não discutir nessas bases. Sem esse acordo, garante Moscovo, «a guerra deverá continuar e a Rússia terá de usar meios militares para garantir a sua segurança e a dos aliados». O vice-ministro dos Negócios estrangeiros russo, Sergei Ryabkov, disse o mesmo por outras palavras: «A suposta oferta de um grande favor em troca de exigências inaceitáveis dos Estados Unidos está fadada a fazer fracassar quaisquer negociações com a Rússia.»

Postas as coisas neste pé, uma paz negociada está, por enquanto, quase tão distante como antes da conversa, sobretudo se Trump fizer depender tudo de um cessar-fogo imediato. No entanto, segundo afirmou enigmaticamente o vice-presidente Vance em Munique, «acho que há um acordo que vai sair disto tudo e que chocará muita gente».

De concreto, sempre com a ressalva do facto de o presidente norte-americano ser capaz de dar o dito por não dito de hora a hora, parece assegurado que os Estados Unidos abandonam o auxílio militar a Kiev, deixando a Europa com essa responsabilidade, se for capaz disso, correndo o alto risco de antecipar a sua implosão; e não permitirão que a Ucrânia venha a fazer parte da NATO. Também parece ser intenção de Trump não aceitar que qualquer acordo seja assinado por Zelensky pela parte ucraniana, pelo menos sem que este se submeta a eleições presidenciais.

Fugir sim, mas de bolsos cheios

Os Estados Unidos fogem militarmente da Ucrânia, mas não com as mãos a abanar. Em vez das pretendidas conversações com Trump, Zelensky foi forçado a receber o secretário norte-americano do Tesouro, Scott Bessent, já depois de ser informado pelo secretário da Defesa, Peter Hegseth, de que «a Ucrânia terá de ceder territórios à Rússia» e «o regresso às fronteiras de 2014 é irreal», de acordo com declarações publicadas pelo New York Times.

Quanto a Scott Bessent, o único objectivo declarado foi o de extrair concessões minerais da Ucrânia. Um acordo já estabelecido, segundo fontes ucranianas e norte-americanas, resulta da exigência dos Estados Unidos de fazer contas aos 300 mil milhões de dólares que o país investiu para garantir a sobrevivência militar e política do regime nazi-banderista; esse acerto do deve e haver contabilizado desde o golpe de Maidan fez-se, ao que consta, mediante a aplicação de juros de agiota porque Zelensky aceitou que os Estados Unidos possam deitar a mão a 500 mil milhões de dólares em terras raras, minerais indispensáveis ao fabrico das mais modernas tecnologias, sobretudo microchips, e de que as reservas mais abundantes, a um nível de 90%, existem no território da China.

Dentro da Ucrânia registou-se imediatamente uma primeira reacção desfavorável ao acordo. A 79.ª brigada de assalto anfíbio, Brigada Tavri – muito interligada com os nazi-banderistas do Azov – deixou de combater alegando que não pretende defender interesses de outros. «Zelensky não tem nada que dar, muito menos duas ou três vezes mais que o apoio recebido», disseram porta-vozes da brigada. «É tudo nosso».

Parece, contudo, que Washington não está ainda satisfeito com os 500 mil milhões de dólares, uma vez que, segundo palavras de Trump, «a Ucrânia pode ser russa qualquer dia». Da conferência de Munique saíram informações citadas pelo jornal Washington Post, segundo as quais os Estados Unidos puseram Zelensky diante de um acordo sobre matéria não especificada que teria como contrapartida a concessão a Washington de 50% das futuras receitas minerais ucranianas. O jornal revela que Zelensky não aceitou, mas certamente o assunto não fica por aqui.

Na conversa que mantiveram, Trump e Putin terão concordado em que «o bom senso» deverá prevalecer no caminho para negociações e a celebração de um eventual tratado de paz nesta guerra que, «numa presidência minha nunca teria existido», disse o dirigente norte-americano.

Verdade ou mentira? Jamais o saberemos. Mas não tenhamos ilusões nem dúvidas de que, mais de um milhão de mortos depois, a paz continua longínqua. Sob a tutela de Putin e Trump, entre os quais existe logo à partida um diferendo limitador relacionado com o cessar-fogo, o cenário de hipotéticas negociações formais é ainda um magma de contradições que, até aqui, têm sido insanáveis. A Rússia, porém, é a parte que menos pressa tem, talvez convicta de que o tempo joga a seu favor para prosseguir os avanços militares e reforçar o poder negocial. Daí, por sua vez, a urgência de Trump num cessar-fogo.

Fonte aqui.