Descobriram uma limpeza étnica? Tem 80 anos…

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 07/02/2025)


A transformação de Gaza, ou pelo menos a sua costa, em empreendimentos habitacionais e turísticos fechados já foi testada e esteve em vigor durante quase um quarto de século. 


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O boçal pato-bravo de negócios globais em comissão de serviço na Presidência dos Estados Unidos da América, Donald Trump, ignorando ostensivamente os filtros do cinismo político dominante e assumindo a ganância inerente ao seu empreendedorismo, deitou os olhos gulosos à costa mediterrânica da Faixa de Gaza e deduziu que ali se poderia construir uma nova, paradisíaca e altamente lucrativa «Riviera».

Sem o saber, ou talvez tentando desde já marcar posição, o construtor civil-presidente entrou nos terrenos entretanto reclamados pelos colonos sionistas, já que estes há muito tempo reivindicam o regresso à Faixa de Gaza para explorarem o paraíso segundo os seus próprios interesses.

A transformação de Gaza, ou pelo menos a sua costa, em empreendimentos habitacionais e turísticos fechados já foi testada e esteve em vigor durante quase um quarto de século. Os 19 colonatos sionistas existentes na Faixa de Gaza entre 1982 e 2006 eram condomínios privados e de luxo, protegidos pela tropa de Israel;  ocupavam 120 quilómetros quadrados, um terço do território, com sete mil habitantes e uma densidade próxima de 60 habitantes por quilómetro quadrado. Cerca de milhão e meio de palestinianos viviam então em dois terços do enclave, sem acesso ao mar e com uma densidade brutal de sete mil habitantes por quilómetro quadrado, a mais elevada do mundo, a grande distância. A título de exemplo, a densidade da Índia é de 500 habitantes por quilómetro quadrado, a da China é de 145 e a de Portugal é de 115.

Em 2006, o criminoso de guerra Ariel Sharon, então primeiro-ministro, mandou evacuar os colonatos de Gaza, não por qualquer acesso anti-colonização, mas porque pretendia iniciar as ofensivas terroristas regulares contra o território, continuadas por Netanyahu,  e não queria ter limites na envergadura das operações militares por nele habitarem sionistas.

Em termos gerais, poderia haver um impedimento concreto a resolver para que o plano de Trump se concretizasse. No enclave viviam até há pouco, antes de Benjamin Netanyahu lançar esta nova etapa do genocídio da população original da Palestina, mais de dois milhões de pessoas. Agora há menos, mas muitas das recentemente expulsas estão a regressar, mesmo que seja para as ruínas deixadas pelos nazi-sionistas; porém, uma vez que a violação de cessar-fogo é um dos desportos em que Israel está no topo, não tarda que, mais uma vez, sejam obrigadas a seguir o caminho inverso, pelo menos as que restarem vivas.

Para Trump, afinal, não existe qualquer problema. Despacham-se os habitantes do território para países árabes, que vão ter de os acolher e integrar, talvez ignorando que este processo, a versão mais recente de «solução final», está em curso há quase oitenta anos e sem que haja integração. Ele próprio, na pessoa do genro, inventou durante a primeira administração os chamados «acordos de Abraão», que assentavam na transferência dos palestinianos de Gaza e da Cisjordânia para a península egípcia do Sinai e para uma moderníssima e imensa cidade criada de raiz, Neom, já em construção na província de Tabuk, na Arábia Saudita, ligada à citada Península do Sinai passando pelo Golfo de Aqaba e o sul da Jordânia. Para não fugir ao espírito de um dos objectivos do empreendimento e para que a construção de Neom seja concretizada em áreas despovoadas, já se processou, a mando do governo saudita, uma limpeza étnica do território, vitimando principalmente a tribo Howeitat.

Os palestinianos expulsos para Neom e o Sinai iriam servir principalmente os turistas milionários que poderiam usufruir em exclusivo das delícias do Mar Vermelho até ao Mediterrâneo. A nova «Palestina» resultaria então de uma transferência da população de Gaza e da Cisjordânia para um território desde o Sinai até à megalómana Neom.

Não digam que Trump, na sua heterodoxia político-empresarial, chamemos-lhe assim, não é um visionário. De Gaza a Sharm-el-Sheik e Neom, do Mediterrâneo ao Mar Vermelho, está na sua mente o maior e mais paradisíaco complexo turístico do planeta, acessível a meia dúzia de mafiosos que cada vez mais controlam o mundo. Não será esta uma gloriosa antecipação do espírito do globalismo, esse brilhante futuro para o qual o Ocidente tanto trabalha, mesmo que isso custe a vida e a expulsão dos locais de nascimento e residência a milhões e milhões de seres humanos?

O rei vai nu

Aqui d’El Rei, grita-se com a mesma convicção com que as chamadas democracias liberais dizem defender a «solução de dois Estados» na Palestina. Mas o rei vai nu. Todo o aranzel em torno de mais esta extravagância (para levar a sério) de Trump não passa de um fruto natural da imensa estratégia de enganos e mentiras cultivada pela política dominante para cometer as maiores atrocidades.

De alguns governos até à ONU interpretaram-se as palavras de Trump, com uma razão que não lhes pode ser negada, como a intenção de praticar uma limpeza étnica.

Sejamos sérios. Há muito que a limpeza étnica está em curso na Palestina. A «marcha da morte» de Lydda em 1948, o massacre da população das aldeias de Deir Yassin, ou o de Ramle, no mesmo ano – como exemplo das centenas de localidades palestinianas «despovoadas» na mesma altura – são episódios equivalentes ao da mortandade em curso em Gaza ou à expulsão em massa concretizada há dias em Jenin, no Norte da Cisjordânia. É o mesmo sistema, é o mesmo processo: limpeza étnica.

No fundo, estas ocorrências criminosas são uma inevitabilidade da existência da doutrina nazi, supremacista e racista do sionismo. «Uma terra sem povo para um povo sem terra» foi o primeiro princípio fundador do sionismo, há mais de 130 anos. Isto é, a Palestina estaria desabitada e à espera do povo judeu, a quem fora prometida por Deus há três mil anos, através da pena de Moisés.

A Palestina, porém, estava e está povoada por um povo multifacetado e milenar no seio do qual existia uma comunidade perfeitamente integrada de judeus palestinianos que, segundo as teses do sionismo, também faziam parte, simultaneamente, do «povo sem terra». É em mistificações como esta que se baseia a existência do Estado de Israel, que não se considera deste mundo, está acima de todos os outros e não se rege por leis terrenas mas sim pelos dogmas do Antigo Testamento, com o seu inegável cunho de crueldade. Nada disso é impeditivo de que o Estado sionista seja venerado por praticamente todos os outros do planeta, como se tivessem má consciência pelo Holocausto praticado por Hitler, horror que o sionismo sequestrou e invoca abusivamente e no qual nem só judeus foram chacinados, como reza a História que não é conhecida em Israel e nos seus principais aliados.

Uma nota imprescindível e que nunca é demais repetir. O sionismo não representa «os judeus», sejam religiosos, sejam étnicos. Os dois conjuntos, sionistas e judeus, estão longe de se sobrepor sendo que, por exemplo, não são poucos os cristãos – como os energúmenos Biden e Trump – que se proclamam sionistas.

O sionismo não tem procuração para invocar o Holocausto nem para se considerar representante de todos os judeus, muitos dos quais – quem nos diz que não é a maioria? – não se identificam com a limpeza étnica e os episódios de genocídio cometidos em seu nome e considerados indispensáveis para que se cumpra a meta do sionismo: a criação do Grande Israel, do Nilo ao Eufrates, pelo menos. Essa foi a terra prometida pelo deus dos sionistas, essa é a terra que o sionismo quer anexar, sejam quais forem os meios que tenha de utilizar. O judaísmo não se rege por esses objectivos e ambições. O sionismo é uma corrupção do judaísmo, é uma doutrina colonial, desumana e supremacista que considera os outros povos como «estrangeiros» e sem os mesmos direitos. Nada disso tem a ver com os judeus, o judaísmo e a sua imensa cultura milenar, de que sobram os grandes exemplos técnicos, científicos, económicos e artísticos – da literatura à música, da pintura, escultura e arquitectura ao cinema.

A realidade demonstrou, naturalmente, que a Palestina era habitada. Para ali se instalarem «os judeus» era necessário, portanto, expulsar os palestinianos. Uma acção que deveria fazer-se, escreveram os teóricos sionistas, para criar um Estado «com um regime de tipo europeu». A tal «única democracia do Médio Oriente», cujos resultados estão à vista.

Mas se a Palestina estava habitada, encontrou-se maneira de dar a volta à realidade e encaixá-la, à força, na doutrina sionista.

Por isso é natural ouvir os ministros israelitas de hoje e de ontem, militantes da extrema-direita, fanáticos religiosos ou colonos sem quaisquer raízes na Palestina – alguns nem são judeus, na verdadeira acepção da palavra –  afirmar que os palestinianos «não são humanos»; ou são «bárbaros», ou «animais», ou «selvagens», ou «sub-humanos»; ou «os palestinianos e os outros “goyim” (estrangeiros e não-judeus) têm a alma mais próxima da alma dos animais do que da alma de um judeu», leia-se, neste caso, de um sionista. Em suma, seres inferiores que devem ser escorraçados para que se cumpra «a vontade de Deus» e, finalmente, aquela terra prometida seja santificada.

Donald Trump enunciou, afinal, com palavras cruas, brutas e inconvenientes para as más consciências, principalmente as ocidentais, um conceito que é inerente ao sionismo, que não ao judaísmo.

Escândalo com o resort de Trump em Gaza? Afinal é mais um episódio de uma limpeza étnica a que o mundo assiste, às vezes palavroso, mas sempre impávido e sereno, há quase 80 anos. Uns governos e coisas do tipo da União Europeia insistem, como um mantra, na «solução de dois Estados» sem mexer um dedo para isso; outros manifestam solidariedade com a Palestina e os palestinianos e ou não têm influência ou acham que assim cumprem o seu dever; a ONU arrisca algumas palavras mais acrimoniosas mas tem a faca e o queijo na mão para fazer cumprir leis que aprovou e não respeita; para aplicar resoluções que ignora e armazena umas atrás das outras, transformadas em arqueologia diplomática e do direito internacional. Tem as suas «forças de paz», que prefere utilizar como tropas coloniais; representa todos os países do planeta mas tem medo de Israel, além de ser incapaz de denunciar o conceito nocivo e tóxico de sionismo. Teve coragem e autoridade suficientes para impor sanções contra o regime de apartheid na África do Sul, mas não consegue ou não quer fazer o mesmo contra o apartheid em Israel

Escândalo com a franqueza de Trump? Talvez motive alguns dirigentes influentes a chocar-se com a ligeireza com que o presidente norte-americano aborda o destino pretendido para os palestinianos e a pensar a sério naqueles seres humanos que lutam para sobreviver no inferno de Gaza em degradantes campos de refugiados e cidades e aldeias arrasadas; e que não podem sequer, por causa do «direito à existência» do Estado sionista, pisar a areia das praias, pescar artesanalmente ou banhar-se nas tépidas águas mediterrânicas.

Há pelo menos alguma agitação nos meios políticos e mediáticos, sem dúvida, também porque Trump, pelo seu fascismo indisfarçado, é o bombo da festa das castas políticas hipócritas e bem falantes, apesar de a sua doutrina económica e política, na prática, ser a mesma que guia os nossos dirigentes neoliberais. E se Biden tivesse pronunciado as mesmas palavras que Trump? Seria um presidente criativo ao propor uma solução eficaz para o problema de Gaza? Ou apenas mais um cristão sionista cúmplice de genocídio e limpeza étnica? Fica a dúvida.

Mais vale tarde do que nunca, dir-se-á a propósito do alarido. Neste caso é difícil que o aforismo seja verdadeiro. Trump e o seu confidente Benjamin Netanyahu – que, sejamos sinceros, ganhou uma nova vida porque os seus chacras não alinhavam muito bem com os de Biden – prosseguirão a saga iniciada no primeiro mandato do mega pato-bravo e potenciarão sinergias genocidas contra o povo palestiniano; o mundo em redor, principalmente a Ocidente, regressará à passividade do costume, incapaz ou sem querer ir além das palavras. Os palestinianos continuarão sozinhos e desprotegidos, mesmo com a sua inesgotável capacidade de luta e resistência, tendo apenas ao seu lado a solidariedade planetária de cidadãos e organizações cívicas capazes de lhes dar algum alento e cuja eficácia dos esforços em desenvolvimento é cada vez mais notável.

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Esclarecimento preventivo

Este texto não é antissemita, apenas desobedece ao decreto sionista que pretende fazer equivaler, mais uma vez abusivamente, o conceito de antissemitismo ao exercício saudável e democrático da crítica à doutrina sionista e aos comportamentos do Estado de Israel. O sionismo é, na teoria e na prática, o conceito mais antissemita aplicado à face do planeta pois define como antissemitas os outros povos semitas, designadamente os palestinianos e até comunidades judaicas da Palestina contrárias à existência do Estado de Israel. Quanto aos governos ocidentais que aceitam a definição sionista de antissemitismo, pretendendo até criminalizar os desobedientes e impô-la no quadro da opinião única, não passam, eles próprios, de antissemitas.

Fonte aqui.

 A clique europeia esgotou os ansiolíticos

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 20/01/2025)


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Numa espécie de espelho que reflete o seu próprio estado de espírito, a comunicação social do regime neoliberal e respetiva corporação do comentariado diz e repete, autodiagnosticando-se, que a União Europeia sofre «de ansiedade» perante a entrada em funções do novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Não parece haver razões para duvidar. Os profissionais de farmácia poderão confirmá-lo, avaliando o desgaste nos seus stocks de ansiolíticos e confirmando simultaneamente estarmos perante mais um favor, este involuntário, ao monopólio das grandes empresas de medicamentos.

A situação inspira uma primeira nota. A decadente casta política da União Europeia, tão arrogante em relação aos seus povos, é, afinal, um concentrado de medos perante os respectivos patrões, neste caso suscitados pela mudança de ocupante do trono do mais representativo e visível de todos eles.

Em boa verdade, a melhor explicação para o estado de ansiedade dos governos formalmente eleitos e da máfia de burocratas não-eleitos da União Europeia parece ser, analisando o trabalho do tentacular aparelho de propaganda, um sentimento de orfandade pela partida do demente, corrupto e belicista Joseph Biden, o chefe a quem os nossos submissos governantes faziam a devida genuflexão quando o visitavam ou quando este, em missão de presidência aberta para emanar ordens de comando, tinha a deferência de ir ao seu encontro.

Quer isto dizer que, em vez do conforto que, no caso de ser a escolhida, a mãezinha Kamala Harris lhes assegurava, temem que Donald Trump seja o padrasto malvado, capaz até, quem sabe, de os deixar desamparados perante a selva cada vez mais disposta a atormentar a vida aos que, com tanto zelo, cuidam deste encantador jardinzinho.

Será que os governos europeus, para os quais a palavra «aliados» é um sinónimo de «servidores» e «criados», receiam ser ainda mais despromovidos, talvez até à condição de párias e indigentes obrigados a tomar conta da própria vida esgravatando no lixo pestilento que fazem, indefesos perante os «bárbaros»?

Se assim fosse, haveria mais do que justificadas razões para a desenfreada corrida aos ansiolíticos. De facto, a casta serviçal que sempre teve as costas quentes para desenvolver tropelias através do mundo tentando convencer-nos de que receberia o devido dízimo do quinhão da rapina, foi agora assaltada pelo medo de ter de cuidar da sua própria defesa, ou pagá-la bem mais cara.

Trump será mesmo o padrasto?

Os autoritários (para os seus povos) governantes europeus, cada vez mais desleixados no uso dos filtros da mentira, comportando-se segundo éticas rasteiras e governando dentro de um universo paralelo, são capazes, porém, de estar a sofrer antes do tempo.

Embora sejam nulidades em História real, isso não os impede de revisitarem os cinco anos em que Trump viveu na Casa Branca e encontrarem aí razões para não estarem tão inquietos.

Por exemplo, e como devem estar lembrados, Trump inventou um presidente fascista na Venezuela e organizou tentativas de golpes de Estado neste país; para sossego dos dirigentes europeus, sempre tão incomodados com processos eleitorais e governamentais que não cumpram as normas políticas que dogmatizaram como únicas, é natural que o novo/antigo presidente norte-americano retome o caminho, insistindo no golpismo em Caracas e «elegendo» como presidente o mentor e operacional de esquadrões da morte sul-americanos que perdeu as últimas eleições. Bruxelas e os 27 não precisam de inquietar-se.

Nada indica também que Trump tencione amenizar o bloqueio contra Cuba, ressuscitar a ideia de referendo sobre os direitos nacionais do Saara Ocidental, contrariar a ideia de «transição verde» à moda de Bruxelas, neutralizar grupos terroristas como a al-Qaida ou o Isis, tão úteis aos «interesses» dos 27, onde quer que sejam chamados a desempenhar criminosas missões de procuração, como ainda bem recentemente aconteceu na Síria.

O patrocínio por Trump dos arremedos de aproximação entre o Sul e o Norte da Coreia ficou-se por aí; a normalidade regressou e até refinou, desta feita com um recente golpe de Estado «pró-americano» no pró-americano regime de Seul. Não existem, portanto, razões para sobressaltos na União Europeia.

Uma palavra especial para a chamada «questão israelo-palestiniana», eufemismo muito conveniente para usar em vez de genocídio e limpeza étnica por aquelas almas tão sensíveis e motivadas pelos direitos humanos, mas que viram a cara aos rios de sangue e às chacinas enquanto o racismo sionista defende «os nossos interesses», a «nossa civilização» e, claro está, a «tradição humanista» no Médio Oriente. Também nesta matéria nada justifica as ansiedades dos europeus: Netanyahu e os seus homens de mão do «sionismo revisionista» continuarão de pedra e cal, provavelmente com posições e impunidade reforçadas e, por isso, não deixarão de alimentar, agora em condições de maior atrevimento, porque têm as costas ainda mais quentes, a eterna esperança da guerra contra o Irão.

O anunciado cessar-fogo em Gaza poderá provocar algumas convulsões no interior do gang terrorista da cúpula sionista mas, mais dia, menos dia, levará o caminho dos muitos estabelecidos anteriormente porque o essencial, a estratégia de anexação dos territórios ocupados, sobrepor-se-á ao acessório. Pode a União Europeia continuar sossegada, emitindo episodicamente os canónicos protestos verbais, certa de que não perturbarão Israel na sua tarefa de defender «a nossa civilização» em tão atribulada região. Afinal, como garante o embaixador sionista em Lisboa, sossegando tantas e tão boas consciências, não existe fome «e até há gordos» em Gaza. Será que o verdadeiro problema das operações de extermínio é o de criarem obesidade?

Nestes e outros assuntos, que merecem ser escalpelizados com tempo e espaço que não existem em horas de solenidade, de posse e juramentos – coisas que os poderes ocidentais muito estimam e cumprem com especial fidelidade – as ansiedades da União Europeia têm raízes bem mais prosaicas, que nada ou pouco terão a ver com Trump, a não ser mais um ou outro buraco no casco do navio em rota de naufrágio por única e exclusiva responsabilidade do carácter artificial, oportunista e, no limite, totalitário da mítica «integração europeia».

Trump, como é natural em quem assume a chefia operacional do império, cuidará com zelo da aplicação da «ordem internacional baseada em regras», cuidará das estratégias coloniais que estejam afinadas pelos interesses imperiais e não deixará de desenvolver as suas próprias guerras, mesmo que estas sejam olhadas com reservas algures neste ou naquele Estado europeu. Mas não foi sempre assim desde Nixon até hoje, no Vietname, na Operação Condor e suas congéneres acções fascistas na América Latina, no Afeganistão, no fabrico do terrorismo dito «islâmico», na Jugoslávia, na Somália, na África Central e Austral, no Iraque, na Líbia, no Iémen, na Síria, até na pobre, inofensiva e indefesa Grenada? E de que serviram as vozes discordantes, tímidas e envergonhadas, as dos governos, mais fortes e poderosas, mas inaudíveis, as dos povos? Se o império considera imprescindível uma guerra, então faz-se e pronto, com Trump ou uma qualquer Kamala ou Obama, manifestem ou não opiniões transitoriamente dissonantes este ou aquele mais atrevido membro da quase sempre afinada, por inerência, claque europeia.

Todos estes assuntos superficialmente inventariados fazem de Trump muito mais um exigente paizinho dos nossos governantes do que um maléfico padrasto.

Os imperadores têm, desde tempos imemoriais, os seus naturais caprichos e idiossincrasias; e este que agora ocupa o trono não é excepção, cultivando peculiaridades muito próprias de quem acumula o cargo de presidente com o de mega-imperador do imobiliário. O que se percebe pela intenção de preferir comprar bocados do mundo em vez de os conquistar, o que aliás nada traz de novo, pelo que não se compreende o espanto que por aí vai.

O império, mesmo em tempos de mais limitadas capacidades de afirmação e menor submissão de amigos e aliados não deixou de arrendar o Alasca aos czares, esquecendo-se até de pagar a renda e anexando-o como Estado sem que os actuais e tão ameaçadores senhores de Moscovo reclamem; comprou a Louisiana a França, a Florida a Espanha, o Nevada, Utah, Arizona e o Vale de Mesilla (compra de Gadsden) ao México; o Oregon ao Reino Unido; as Filipinas a Espanha, declaradas independentes, mas pouco, em 1946; e as Ilhas Virgens à Dinamarca, um precedente encorajador para a pretendida aquisição da Gronelândia. A Zona do Canal do Panamá foi arrendada por 10 milhões de dólares mais uma prestação/gorjeta anual de 250 mil dólares; a cedência do território e das instalações ao Panamá, formalizada em 1999, parece ter, afinal, direito de recompra levando em conta as recentes intenções proclamadas por Trump. Nesses outros tempos de grandes aquisições territoriais registaram-se também episódios da estratégia depois tornada mais habitual, a anexação – formal ou não – de territórios, nações e Estados como o Texas, Hawai e Porto Rico. Falhou Cuba, fracasso que sucessivos imperadores raivosos ainda não conseguiram digerir.

Nacionalismo e globalismo

Donald Trump é um nacionalista na sua perspectiva de que o controlo imperial deve ser exercido com base numa «América outra vez grande», reforçada e reorganizada internamente (segundo os seus pontos de vista descaradamente fascizantes) para poder dominar o planeta sem dar satisfações aos «aliados», obrigando-os até a assumir as suas tarefas de autodefesa.

Trump é também um globalista, mas não nos termos de uma «fraternidade» mundial idílica (para a ortodoxia neoliberal) num planeta privatizado e sem fronteiras onde «nada teremos e seremos felizes», governado por uma reduzida cúpula sem rosto da máfia dona de tudo.

Para o novo imperador, o planeta global terá fronteiras, as dos Estados Unidos da América, país que tudo decidirá em termos de governo. Embora não seja um apparatchik republicano como os Bush’s, por exemplo, Trump está rodeado por eles – Mark Rubio, Elliott Abrams e outros do núcleo dos mais indisfarçados fascistas – e revê-se objectivamente na «doutrina Wolfowitz», segundo a qual Washington não poderá permitir, em caso algum, o crescimento de uma potência capaz de fazer sombra ao império norte-americano, como aconteceu com a União Soviética. Tal não pode suceder nem mesmo com a União Europeia; e todos os presidentes norte-americanos têm tratado zelosamente disso nos últimos 35 anos, rebaixando gradualmente a meros serviçais os membros da ninhada dos 27. Donald Trump será intratável nesse aspecto, mas a clique europeísta não deveria sequer estar ansiosa porque já provou desse veneno no primeiro consulado do regressado presidente.

Matéria mais delicada, como sempre desde que se abordam as posturas de Trump, é da NATO, organização pela qual o novo presidente, diz-se, não terá grandes simpatias.

Isso não é verdade. Para começo de conversa registemos que a Aliança Atlântica sobreviveu ao anterior mandato de Trump e alcançou até umas finanças mais estáveis porque apreciável número de Estados membros responderam afirmativamente ao «apelo» do comandante em chefe para contribuírem com os famosos dois por cento do PIB. Aliás, quem chegou a liquidar a NATO, declarando-a em «morte cerebral», foi o ainda presidente Macron, cada vez mais perdido nas derivas do hexágono francês, outrora «motor» da União Europeia; e como a Alemanha está igualmente com a sua «força motriz» reduzida à mais ínfima potência, pouco mais é preciso para se entender o estado comatoso da «integração europeia». A locomotiva gripou.

A NATO é o instrumento militar fundamental do expansionismo e do militarismo imperial, pelo que não faria sentido Trump desvalorizar uma organização que lhe permite fazer as guerras que desejar poupando soldados e despesas dos Estados Unidos e fazendo recair esses esforços sobre os outros Estados membros, desde que assegure os postos de comando determinantes. Não nos recomenda o secretário geral da Aliança, o fascistóide Mark Rutte, que todos devemos ter «uma mentalidade de guerra»?

Como nacionalista prático, porém, Trump está muito menos disposto do que os seus antecessores a supostamente sacrificar e onerar a saúde económica e financeira dos Estados Unidos com os custos da responsabilidade de «defender a Europa».

Para grande desespero e visível ansiedade das medíocres e náufragas chefias dos 27, Trump não parece minimamente incomodado com as patéticas efabulações sobre a sempre iminente cavalgada militar russa até à costa ocidental de Sagres a Viana do Castelo, com eventual instalação de uma base estratégica avançada nas Berlengas.

Em primeiro lugar , porque o novo presidente norte-americano, como grande parte dos que o antecederam, nem sabe onde ficam estes lugares; e depois porque não está interessado em dar crédito a tais patranhas para manter e sustentar além-mar dispendiosos e volumosos dispositivos militares com a missão de guardar as costas a quem, na sua pragmática opinião, tem obrigação de fazê-lo por conta própria, se quer ser alguém no mundo.

Chegámos ao busílis da questão, agravado com a situação na Ucrânia, como pode perceber-se pela especulação que aí vai.

Trump, obviamente, pretende que a NATO cerque e asfixie a Rússia – e a esfrangalhe em múltiplos Estados fantoches, se possível – mas exige que os esforços para concretizar esse objectivo comum sejam ainda mais partilhados dentro da aliança.

Se a Europa insiste em defender o falido nazi-banderismo de Zelenski «até que a Ucrânia vença» – o que, no estado atual das coisas, só acontecerá depois do dia de São Nunca – isso é lá com ela, pensará Trump. Ele terá outra estratégia para lidar com o assunto; qual será? Realisticamente, pouco se pode adiantar, além de vagas especulações sobre os ténues indícios suscitados pela sua insistente mendicância de uma reunião com Vladimir Putin. Amanhã também não será a véspera desse dia porque, apesar das sempre valiosas e muito úteis elucubrações do comentariado, o assunto parece não ter passado ainda de meros «contactos técnicos»

Há uma coisa, porém, que a União Europeia e, pelo menos, os membros europeus da NATO devem ter em consideração: com os arsenais vazios depois de terem enviado não só os monos como os engenhos militares mais modernos e de tecnologia mais apurada para serem transformados em sucata através de todo o imenso território da Ucrânia, esses países serão obrigados a rearmar-se e a comprar aquilo de que necessitam, e também de que não necessitam, como estabelece o ritual atlantista. O esforço terá de ser ainda mais empenhado, sobretudo se as novas responsabilidades de «autodefesa» forem combinadas com a sangrenta teimosia em apoiar o regime de Kiev até ao último ucraniano.

Nessa perspetiva, é natural que a entrada de Trump em funções venha abalar a adquirida convicção das tão encrespadas nulidades europeias de que o paizinho americano estará sempre disponível para vir socorrê-las dos maus humores dos russos que povoam os seus pesadelos.

Se soubessem um pouco de História real e não vivessem voluntariamente embalados pelas historietas que novos, velhos e manhosos «historiadores» cozinharam sobre a Segunda Guerra Mundial, os nossos «europeístas» de turno saberiam que os seus antecessores «democratas liberais», depois de terem confraternizado com Hitler contra a União Soviética e serem arrastados para um conflito que os arrasou, só puderam contar com a ajuda dos benfeitores de Washington quando estes se asseguraram de que o Exército Vermelho e os povos soviéticos tinham ferido de morte o aparelho imperial nazi. E então chegou a vitoriosa cavalaria, como tão bem nos conta Hollywood.

O saber de experiência feito, como cantava o Poeta, e a cumplicidade dos nossos incompetentes e desumanos dirigentes com as velhas e novas formas de fascismo e nazismo, de Kiev a Telavive, garantem-nos que da História apenas usam as versões falsificadas e deturpadas, tornadas oficiais, como instrumentos da sua governação de mentira e manipulação.

Isso significa, repete-se, que depois de se desarmarem para armarem o nazismo de Kiev e assim sacrificarem inutilmente milhões de ucranianos – porque as propostas realistas de paz estiveram nas mãos dos contendores antes de a tragédia atingir as dimensões calamitosas de hoje – os dirigentes europeus vão ter de repor os arsenais. Como? Bem, nesta matéria o mercado não é assim tão independente e soberano; e a «mãozinha invisível» cuidará de proceder a manobras pouco ortodoxas para corrigir a livre concorrência. As compras serão feitas obrigatoriamente aos grandes gigantes da indústria da morte, sobretudo norte-americanos, desde os monos há muito condenados à reciclagem até às maravilhas tecnológicas de extermínio em massa, mesmo assim inúteis em caso de apocalipse nuclear.

Os submissos dirigentes da União Europeia podem ter uma certeza: com Trump não haverá saldos, atenções ou descontos em compras por atacado; também não haverá alternativas: os fornecedores terão de ser os da NATO e aos preços por eles estabelecidos sem quaisquer restrições ao livre arbítrio.

MAGA, Make America Great Again, tornar a América grande de novo, lembram-se? É a receita mágica de Trump, o neoliberalismo puro e duro como o de qualquer outro presidente, mas com o seu toque de nacionalismo num país onde, para a esmagadora maioria da população e a quase totalidade dos seus eleitores, não existe mundo para lá das suas fronteiras. Não se reconhecem aliados, apenas clientes; não pode haver restrições à obtenção de lucros máximos; é cada um por si numa competição selvagem e selvática que terá de ser ganha pelo mais forte por definição, a única nação indispensável, excepcional, e que nunca poderá deixar de existir, os Estados Unidos da América. Esta afirmação de unipolaridade sem sofismas será elevada à máxima potência, em primeiro lugar à custa dos aliados nos campos económico, financeiro, militar e político

Recorrendo ao histórico da primeira administração, Trump também não dará descanso aos dirigentes dos países «relapsos» que não cumprem o mínimo de dois por cento do PIB para financiar a NATO. Há que sugar ainda mais os contribuintes, com a vantagem de ficarem ainda mais cientes da obrigatória «mentalidade de guerra».

Nada disto poderá ser surpresa para a União Europeia e os países europeus da NATO. Não se justifica qualquer ansiedade, já sabiam com o que deveriam contar depois de tanto se rebaixarem perante Washington, a pontos de o chanceler Scholz da outrora determinante Alemanha ter acolhido e homenageado o presidente norte-americano, no caso Joseph Biden, depois de este lhe ter prometido, e cumprido, destruir o gasoduto Nord Stream II; obrigando-o assim a comprar gás natural poluidor norte-americano a um preço cinco vezes mais elevado do que o anteriormente consumido, de origem russa. Com este comportamento, não há dignidade nem economia que resistam; e a realidade está à vista, dispersando por toda a Europa uma crise de intensidade crescente e sem limites previsíveis

Ao fim e ao cabo, os dirigentes da União Europeia têm razões para se encharcarem em ansiolíticos. Mas não culpem Trump por isso: por um lado, já o conheciam e, apesar da imprevisibilidade e da irresponsabilidade que o caracterizam, a situação que aí vem não é mais do que um desenvolvimento da contínua degradação decorrente da sua submissão repelente – dramática para os povos do continente – aos presidentes norte-americanos, sejam eles quem forem.

As verdadeiras causas da vaga de ansiedade que atravessa a clique governante europeia são o seu comportamento, o seu desrespeito pelas pessoas, a viciação escandalosa do funcionamento da democracia, a sua incapacidade inata para ser séria, transparente e falar verdade.

O resultado só poderia ser a tragédia anunciada que já percorre todo o continente europeu – isolado, incapaz, improdutivo, desindustrializado, sem qualquer influência nas grandes mudanças que estão a acontecer no mundo e o irão atropelar. Nestes tempos, a inércia, o conformismo ou mesmo alienação de sectores populares tendencialmente progressistas e democráticos é um grave perigo que urge sanar para travar a ameaça de uma hecatombe social e humana.

Fonte aqui.

Um milhão de mortos reclamam justiça

(José Goulão, in Strategic Culture Foundation, 06/01/2025)

O golpe de Maidan está na origem da perda de cerca de um milhão de vidas humanas e terá de ser a base, o ponto de partida para um julgamento necessário e justo de todos os que a ele estão associados.


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Não posso garantir que a guerra na Ucrânia resultante do golpe ocidental antidemocrático executado há dez anos “em nome da democracia”, já tenha provocado um milhão de mortos até agora, entre ucranianos e também russos –, os quais, ao contrário da verdade única imposta pela “nossa civilização”, também são pessoas.

O número, porém, anda lá próximo, pode até excedê-lo porque as matanças diárias nos campos de batalha e os “danos colaterais” por elas gerado nas sociedades dos dois países, com muito maiores repercussões na infeliz Ucrânia, sustentam cálculo tão trágico. Por exemplo, a dimensão de alguns cemitérios ucranianos foi multiplicada por quatro desde o início da operação militar especial russa, consumada através de uma ilegítima invasão militar. Os responsáveis por essa catástrofe humanitária, para travar desde já os habituais delírios propagandísticos do euro-“comentariado” e dos nacionais-comentaristas, são os patrocinadores do golpe da Praça Maidan, em Kiev, desencadeado com êxito em 2014 pelas principais potências ocidentais, com os Estados Unidos – nação “excepcional” e “indispensável” e os seus principais países satélites integrados (ou dissolvidos?) na NATO e na União Europeia à cabeça.

Explicou-nos na altura, sem qualquer pudor ou réstia de secretismo, a senhora Victoria Nuland, com a autoridade própria de quem ocupava um posto elevado no Departamento de Estado norte-americano, que os Estados Unidos investiram cinco mil milhões de dólares para derrubarem o governo de Kiev, por sinal resultante de eleições democráticas, livres e justas que ninguém contestou, e colocarem no seu lugar uma junta ditatorial com tutela nazi-banderista.

Segundo a cifra oficial revelada por Nuland, e dando como provável o extermínio de um milhão de pessoas, o preço da vida humana na bolsa de sevícias praticadas pela democracia liberal na sempre alegada defesa dos direitos humanos é de cinco mil dólares (mais ou menos a mesma coisa em euros) por cabeça.

Olhando para a derrocada económica ocidental poderá deduzir-se que o investimento parece excessivo mas, em boa verdade, a possibilidade de a NATO cercar e mesmo desmantelar a Rússia e de assim poder abrir as portas a um saque astronómico, dando um passo de gigante para impôr o tão desejado globalismo, parece valer bem esse preço.

A realidade, porém, foi mal orçamentada e as liquidações ao preço unitário de cinco mil dólares representam um inconsequente desperdício ocidental de mão-de-obra e de dinheiro porque continuam diariamente a morrer pessoas aos milhares nos campos de batalha de uma guerra perdida por Kiev, Washington e Bruxelas. As classes políticas ocidentais e os seus amestrados pés de microfone e zombies marteladores de teclados garantem que não, que a vitória de Zelensky e os seus simpatizantes de Hitler chegará, talvez num dia de nevoeiro, em troca de um módico dispêndio diário da ordem dos 50 milhões de dólares em vidas humanas (cerca de 10 mil mortos por dia), que estará perfeitamente em linha com as previsões de perdas e danos – pelo menos segundo o espírito tecnocrático e a “mão invisível” do Mercado. Há que notar que os cinco mil milhões investidos no golpe propriamente dito mais os gastos ocidentais com a guerra até ao dia de hoje, em armas e financiamento directo e indirecto ao regime banderista, devem andar próximos de um total de mil milhões de milhões, aquilo que os anglo-saxónicos designam como trilião de dólares – ou de euros, tanto faz quando entramos no domínio destas verbas astronómicas, ainda assim a 30ª parte da dívida soberana dos Estados Unidos.

O princípio do fim

A história oficial e única admitida sobre o drama ucraniano, que temos de aceitar sob pena de sermos qualificados como incorrigíveis putinistas, diz-nos que tudo começou em 24 de Fevereiro de 2022, quando “a Rússia invadiu a Ucrânia”. E se alguém alega que devemos recuar até Fevereiro de 2014, logo a versão oficial é adaptada informando-nos que o problema nessa época foi despoletado pela “invasão russa da Crimeia”.

O que as elites ocidentais nunca admitem é que tudo começou com o golpe da Praça Maidan, em Kiev, em 22 de Fevereiro de 2014, quando foi derrubado o presidente legítimo ucraniano, Viktor Yanukovich, eleito democraticamente com 49% dos votos em 25 de Fevereiro de 2010.

Ninguém contestou essas eleições nem os resultados, e todos os países ocidentais as consideraram dentro da normalidade democrática da Ucrânia. Um dos “desvios” das eleições, como tardia e oportunisticamente veio a ser invocado quando já as multidões da “revolução da dignidade” se moviam nas ruas de Kiev sob a batuta de Nuland e do embaixador norte-americano Geoffrey Pyatt, foi o facto de Yanukovich ter sido mais votado no Leste do que no Oeste do país, uma inclinação geográfica que, afinal, parece ser um pecadilho para as sensibilidades democráticas. Mas, para melhor sustentarem o golpe através dos fiéis ecos mediáticos, os donos da verdade e da democracia no Ocidente logo acusaram Yanukovych de corrupto, num país onde a corrupção é congénita, e de “entregar o país à Rússia”, quando se limitara a rejeitar um acordo de parceria com a União Europeia; o qual, como é da praxe, submetia Kiev aos autocratas de Bruxelas. Ou seja, o presidente legítimo foi vítima da sua governação em defesa da soberania nacional – uma prática de que o Ocidente nem quer ouvir falar não por ser “retrógrada”, como diz, mas porque é incómoda para a estratégia do globalismo neoliberal, condição em que seremos felizes sem nada ter e meia dúzia de recônditos megaladrões terão tudo.

Mesmo assim, a 21 de Fevereiro de 2014 deslocaram-se a Kiev os ministros dos Negócios Estrangeiros da Polónia, França e Alemanha, respectivamente Radoslaw Sikorski (também cidadão britânico, hoje de novo no cargo), Laurent Fabius e Frank-Walter Steinmeyer, que mediaram e alcançaram um acordo entre o governo e a oposição para resolver a crise através da realização de eleições gerais e a reentrada em vigor da Constituição de 2004. Por essa altura já Nuland e Pyatt distribuíam biscoitos aos manifestantes na Praça Maidan – parece que a sempre diligente política portuguesa Ana Gomes provou e gostou – enquanto membros de grupos nazi-banderistas, distribuídos pelos telhados de edifícios circundantes, envergando fardas da polícia ucraniana, disparavam sobre a multidão provocando dezenas de mortos. O facto está devidamente comprovado, por isso ficou soterrado no silêncio das elites ocidentais, incluindo as mediáticas.

O acordo não passou de um papel inútil e Yanukovych foi derrubado. Victoria Nuland formou então uma junta de governo em Kiev incluindo dez membros de grupos nazi-fascistas-banderistas e, quando brandamente criticada por não ter partilhado a tarefa com dirigentes europeus, respondeu com a elegância e a consideração de sempre dos Estados Unidos para com os satélites: “Fuck the EU” (tradução dispensável).

O Ocidente apressou-se a reconhecer a junta golpista, a França, a Alemanha e a Polónia nem chegaram a invocar o acordo que mediaram e logo se iniciou a guerra de Kiev contra as populações de origem russa do Leste do país e da Península da Crimeia, território originalmente da Rússia mas que o dirigente soviético Nikita Krustschov, para quem a Revolução de Outubro era um acontecimento morto e enterrado e durante uma noite de libações, nos anos cinquenta, decidira agregar à Ucrânia.

Moscovo reapropriou-se então da Crimeia, logo a seguir ao golpe em Kiev, mas o facto foi consumado apenas depois de uma consulta democrática à população; e, como acontece sempre que os resultados eleitorais não são os por elas desejados, as elites ocidentais consideraram-nos uma falsificação – apesar de mais de 90% da população se ter pronunciado pela reintegração na Rússia.

Porém, no Leste da Ucrânia, genericamente conhecido como a região do Donbass, a população teve de esperar oito anos pelo apoio directo de Moscovo e foi obrigada a organizar-se em estruturas de autodefesa, conseguindo assim travar a ofensiva de Kiev ao cabo de muitos meses, o que amainou a intensidade do conflito.

Negociaram-se então os acordos de Minsk, que estabeleciam uma espécie de solução federativa para a Ucrânia e foram assinados pelas partes ucranianas em conflito sob garantias outorgadas pela Rússia e, novamente, a França e a Alemanha.

Viríamos depois a aprender que o desprezo da Polónia, da França e da Alemanha pelo acordo entre o governo e a oposição estabelecido em 2014 não fora um caso esporádico de mistificação e má-fé. François Hollande e Angela Merkel, presidente francês e chanceler alemã, revelaram alguns anos depois, sem pudor, que as suas assinaturas nos acordos de Minsk se deveram somente à necessidade de o regime banderista de Kiev ganhar tempo e poder armar-se para concretizar no Leste o que começara em Maidan – a expansão a todo o território do regime de apartheid e xenófobo sob controlo do nazi-banderismo. Necessidade que Paris, agora de Macron, e Berlim de Scholz, juntamente com os países da União Europeia e da NATO, sob a tutela de Washington, supriram sem reticências ao longo de uma década, pagando até o preço de mergulharem o Ocidente numa crise profunda, eventualmente explosiva.

Um parêntesis para assinalar que Viktor Yanukovych, desde então no exílio, foi condenado a 13 anos de prisão pela justiça do regime de Kiev, que entretanto suprimiu os partidos capazes de fazer oposição autêntica à junta ditatorial; essa sentença incitou a União Europeia, fiel aos seus hábitos, a impor sanções ao presidente deposto e respectiva família. Enquanto a família Biden, vice-presidente da administração de Obama – o verdadeiro mestre de Maidan -, aumentou o seu incontável pecúlio saqueando riquezas naturais da Ucrânia, em proveito próprio, principalmente no sector do gás natural. Entretanto, o Tribunal Geral Europeu decidiu em 23 de Dezembro de 2023 ilibar Yanukovych e a família das acusações de Kiev, invalidando a sentença e determinando que a União Europeia deve levantar as consequentes sanções, porque foram impostas com base “num erro de avaliação” uma vez que as autoridades do regime ucraniano não conseguiram demonstrar que o julgamento efectuado foi justo.

Como pode concluir-se, as elites políticas ocidentais estiveram sempre do lado da mentira, da violação da democracia e dos próprios acordos internacionais que assinaram a propósito da situação gerada pelo regime de Kiev, onde pontificam saudosistas de Hitler. Como se não bastasse, quando poderiam ter garantido a suspensão do conflito através do acordo de Istambul, ainda em 2022, essas mesmas elites enviaram a Kiev o trampolineiro primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, para o sabotar. Nessa ocasião, a guerra de Kiev contra o Leste já provocara 13 mil mortos desde 2014. Um primeiro e modesto investimento de 65 milhões de dólares do regime nazi-banderista no extermínio do seu povo.

A casta política que gere o chamado Ocidente colectivo, ao serviço das máfias económico-financeiras globalistas e da guerra expansionista, deixou assim o planeta sob a maior ameaça de sempre à sua existência. Por isso, não é digna de respeito, de credibilidade, de qualquer consideração dos povos dos seus países. A democracia liberal não passa de uma falsificação grosseira da democracia.

O TPI tem árdua tarefa pela frente

Façamos de conta que somos todos muito ingénuos e acreditamos que um dia a recente decisão do Tribunal Penal Internacional (TPI) em relação a Benjamin Netanyahu terá algum efeito prático.

Há semanas o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), organismo da ONU, assumira a mesma posição, porém sem resultados práticos até agora. Netanyahu está imune e impune e assim continuará. E se aceitou um cessar-fogo, certamente temporário, no Líbano, é porque mais uma vez as suas tropas e as suas hordas de assassinos não conseguem vergar o povo libanês e o Hezbollah como seu bastião, que mais uma vez fez frente ao aparelho de guerra sionista e não cedeu, apesar das sucessivas decapitações dos seus principais dirigentes.

Infelizmente dentro da ONU há sempre quem consiga minorar e desautorizar o trabalho do TIJ, como é, neste caso, o secretário-geral, António Guterres. Ao comparecer numa conferência em Lisboa juntamente com a criminosa de guerra sionista Tzipi Livni, directamente envolvida no permanente genocídio em Gaza, Guterres ignorou ostensivamente a posição do tribunal: ele sabe muito bem que a decisão do TIJ não está personalizada em Netanyahu, que sozinho não conseguiria praticar a carnificina em curso, obra que é da responsabilidade da ideologia nazi-sionista transnacional.

Os dois tribunais internacionais reservaram, deste modo, lugares para Netanyahu em dois bancos de réus. O alcance da medida, porém, terá de ser mais amplo e abrangente. A abertura destes precedentes – o que já acontecera em relação a Vladimir Putin – pode e deve significar que os responsáveis pela guerra na Ucrânia terão de enfrentar o seu Nuremberga num dia que o mundo tenha condições para isso, caso os muitos candidatos a esses bancos de réus não o tenham destruído antes.

Com o rigor histórico em que esses necessários tribunais terão de basear-se, os indivíduos a levar a julgamento serão todos os responsáveis directos pelo golpe na Praça Maidan em Kiev, não apenas os operacionais – Obama, Biden, Nuland e Pyatt – mas também os que apoiaram a sua execução e os que vieram a sustentar e a envolver-se na guerra consequente. Que já matou cerca de um milhão de seres humanos, crimes esses que não poderão passar impunes.

É difícil, e nem cabe aqui, enumerar todos os dirigentes, civis e militares, que um dia terão de sentar-se no banco dos réus para que sejam minimamente respeitadas as memórias das vítimas mortais, o drama das suas famílias e reparados os danos provocados a milhões de feridos e estropiados, ucranianos e russos.

Todos os chefes de governo, ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros e altos comandos militares dos Estados Unidos da América e dos países da NATO e da União Europeia terão de ser indiciados. A excepção talvez seja o primeiro-ministro Fico da Eslováquia, que já ia pagando com a vida o preço da sua ousadia de estar contra a corrente. Muitos pensarão que o húngaro Viktor Orban poderia ser poupado devido às suas reticências conjunturais ao envolvimento na Ucrânia; porém, está incondicionalmente de alma e coração com o assassino Netanyahu, o que faz dele um réu igual aos outros.

Sem o golpe de Maidan não haveria guerra na Ucrânia, a Península da Crimeia ainda estaria integrada no território ucraniano, provavelmente não teria havido sequer o massacre da Casa dos Sindicatos em Odessa, em 2 de Maio de 2014; e o nazismo ucraniano continuaria residual como acontecia antes de os responsáveis pelo golpe que derrubou o presidente eleito Yanukovych lhe terem dado gás como agente mais qualificado para garantir a repressão, a tortura, o terror, a militarização da sociedade e a implantação do apartheid como política de Estado. E sem Maidan a Ucrânia continuaria a ser um Estado com plena integridade territorial e vivendo dentro da normalidade – embora sempre à mercê das revoluções coloridas organizadas pelo National Endowment for Democracy (NED), um poderoso ramo golpista da CIA chefiado actualmente pela própria Victoria Nuland, como reconhecimento das suas aptidões terroristas.

O golpe de Maidan está na origem da perda de cerca de um milhão de vidas humanas e terá de ser a base, o ponto de partida para um julgamento necessário e justo de todos os que a ele estão associados. Poderemos citar Obama, Biden e Trump, vários secretários de Estado norte-americanos como Blinken, Pompeo, Tillerson e Kerry, chefes do Pentágono, autocratas da União Europeia e da NATO como Van der Leyen, Stoltenberg, Rutte, Charles Michel, Mogherini, Borrel e Kallas e os principais dirigentes dos governos dos países da NATO e da União Europeia, sem esquecer Costa e Montenegro, Santos Silva e Rangel, tanto pelo apoio à guerra na Ucrânia como pela colaboração activa com o genocídio sionista e a tolerância deliberada e ostensiva em relação aos crimes de Israel.

António Costa, nunca será demais recordá-lo, apropriou-se de 200 milhões de dólares do nosso dinheiro para o entregar ao transtornado criminoso de guerra Zelensky. Os 200 milhões, de acordo com o valor original da vida humana nesta guerra, contribuíram para o assassínio de 40 mil pessoas, uma fracção da chacina a que ninguém pode ficar indiferente, muito menos a justiça.

Em nome do humanismo, dos direitos humanos, dos cânones da “civilização ocidental”, tantas vezes invocados para outras tantas serem violados, o milhão de mortos na guerra imposta no território da Ucrânia a partir do golpe Maidan, em 22 de Fevereiro de 2014, e os milhões de mortos, feridos, desapossados e desterrados desde 1948 às mãos do sionismo reclamam justiça.

Como cidadãos, é inevitável dever e obrigação lutar activamente contra os nossos governos, a União Europeia, a NATO e o imperialismo para que ela seja feita. A força bruta joga a favor dos criminosos, mas a coragem, a determinação, a unidade, até o tempo estão a nosso favor porque a razão humana é difícil, mesmo impossível de vergar e quebrar. É das leis da História.

Fonte aqui.