O semestre europeu da defesa e policiamento dos 5% para a NATO

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 17/09/2025, Revisão da Estátua)


Talvez seja hora de “temos de” questionar o papel da UE e o nosso futuro sem ela.


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Muito poucos falaram do mais grave instrumento que Ursula von der Leyen anunciou no seu discurso sobre o estado da União. Bem sei que é difícil escolher por entre uma miríade de projectos e pretensões, grande parte delas discutidas apenas por quem tem acesso, nem que como espectador, à monolítica máquina burocrática sedeada em Bruxelas.

É enormíssima a quantidade de programas, projectos, relatórios, taxonomias, itinerários e tantos outros instrumentos, os quais, na sua maturidade, não deixam de assumir importantes reflexos nas nossas vidas, mas cuja complexidade tecnocrática e detalhada projecção apenas escondem uma intricada máquina de decisões top-down, na sua grande parte responsiva apenas a impulsos exteriores provindos de organizações como a NATO, Fórum Económico Mundial e dos Think Thank, que pululam como cogumelos sedentos na orla destas organizações neocoloniais.

Qualquer “moderado” cidadão europeu, que por ser “moderado” se afasta das coisas da participação política, se sentiria perdido, submergido, afogado, perante tal profusão de grupos, institutos, direcções, comissões, conselhos consultivos, consórcios técnicos e lobistas. O mergulho nesta realidade apenas lhe confirmaria o que no fundo sabe, mas gosta de esconder perante si próprio, que esta máquina burocrática tem vida própria e navega totalmente à margem das pretensões reais dos cidadãos. As suas vidas são tão longínquas, quanto abrangentes – à escala europeia e internacional – são as suas acções.

E é protegida por esta esta orquestra tão monumental como afinada por insondáveis afinadores, que emite milhares de páginas diárias de informação que muitíssimo poucos lêem, que a Presidente da Comissão Europeia anunciou que a EU vai instituir um Semestre Europeu da Defesa. Assim, sem mais. Sem qualquer discussão, reflexão, consulta pública, nada. Uma fiscalização dos principais instrumentos que corporizam a recente estratégia de “defesa” da UE, do Livro Branco para a defesa Europeia – Defesa 2030 ( Future of European defence – European Commission ), ao “Documento de Reflexão sobre o futuro da defesa europeia” ( Documento de reflexão sobre o futuro da defesa europeia – Comissão Europeia ), nenhum deles, em algum parágrafo refere o que quer que seja quanto à necessidade de um “Semestre Europeu da Defesa”.

O que me faz levantar a questão: o que é que está na base desta decisão; quem é que a tomou; quem é que a concebeu; de onde saiu a ideia? Será a máquina burocrática ao serviço de Von der Leyen, uma espécie de jogo “World of Warcraft”, mas no qual as nossas vidas são reais avatares?

Evocando paralelos com o já estabelecido Semestre Europeu para a economia e social, o qual visa coordenar e recomendar políticas económicas e orçamentais para o cumprimento das metas do Pacto de Estabilidade e Crescimento, a sua versão defensiva levanta questões cruciais sobre o futuro da soberania dos Estados-membros e a concentração de ainda mais poder em Bruxelas, sabendo-se que, Bruxelas está longe de ser o receptáculo da tal poder, estando o mesmo armazenado em partes mais incertas, mas não menos desconhecidas, de onde os duplicados seres que compõem a máquina burocrática europeia bebem a sua legitimidade.

Valha-nos a verdade de sabermos que a ideia de um mecanismo de coordenação em defesa no âmbito da União Europeia não é inteiramente nova. Muitas são as expressões no discurso de oficiais não eleitos de Bruxelas, sobre a necessidade de coordenação deste esforço “defensivo”. O que espanta não é propriamente a existência deste esforço de coordenação, uma vez que o 3.º pilar da construção europeia, o Pilar Europeu de Segurança Comum, consta dos documentos enformadores da União. Também sabemos que uma das razões para este 3.º pilar nunca ter avançado se prendia com a presença da NATO e os superiores interesses que os EUA tinham em priorizar a expansão deste bloco, o que nos trouxe, como tantos disseram e poucos quiseram ouvir ou acreditaram, à guerra na Europa e ao militarismo. Há dezenas de anos que se previa o que está a acontecer, mas a culpa é da Federação Russa! Terá sempre de haver um alvo para que se projecte, construa e atire a seta.

O que nos deve tornar apreensivos sobre a estratégia anunciada por Úrsula Von der Leyen, tem a ver com o tipo de instrumento escolhido, logo um dos mais intromissivos na soberania dos estados-membros, que determina – sob a capa de simples “recomendações específicas” de política macroeconómica – qual a política económica a prosseguir por cada um dos estados membros. Instrumentos como os fundos estruturais e de coesão, ajudam a transformar estas “recomendações” em obrigações de facto, que vão condicionar em que medida um estado-membro investe mais ou menos nos serviços públicos, desregula as leis laborais, privatiza ou promove as célebres “Parcerias Público Privadas”, as quais, disfarçadas de “partilha do risco com o privado” e de “reformas para a concorrência e a eficiência”, mais não são do que o contrário, ou seja, a partilha dos recursos, até pela forma como são reguladas, de modo a garantir rentabilidade eterna aos consórcios “investidores” ( A critical reading EPSU Final.pdf ).

Também não nos deve descansar o facto de o momento escolhido coincidir com o de uma total confusão e transposição dos papéis da NATO e da União Europeia. Aliás, veja-se no caso da Ucrânia e Moldávia, à falta de condições para impor, pela força, a adesão destas nações à NATO, mascara-se esta adesão, de adesão à União Europeia, estrutura que, a partir das políticas de “coordenação” de defesa, impõe o projecto NATO, mesmo aos que não aderiram a esse bloco político-militar.

Depois de Mark Rutte garantir o alinhamento de todos os países da NATO para com o aumento dos gastos da defesa até 5% do PIB, depois de a Presidente da Comissão Europeia, de forma tão efusiva como veemente, ter defendido esse entendimento e, logo no dia seguinte ao do seu anúncio por Donald Trump e seu “filho” economicamente mais lucrativo  – o secretário geral da NATO – vir brindar-nos com um “boost” ( como ela adora estes slogans americanóides) no financiamento europeu de defesa, eis que, não contente, esta acena agora com o instrumento que irá garantir que os países europeus serão obrigados a cumprir o desiderato.

Agora perguntemo-nos: quando é que alguém votou para eleger governantes que, honestamente, tenham prometido aos povos que iriam gastar o dinheiro das suas pensões, educação, saúde e habitação, em armas americanas, alemãs, francesas ou espanholas?

Só quem não souber o que é o Semestre Europeu, enquanto instrumento anual de coordenação das políticas económicas e sociais da UE ( Semestre Europeu ) – não se deixem enganar pelo “social” – é que pode ficar sossegado.

A pretensão de Von der Leyen é simples: usar um Semestre Europeu da Defesa como um quadro para alinhar os objetivos de defesa dos Estados-membros com as ambições imperiais da UE e, por extensão, com os compromissos da NATO, promovendo um aumento coordenado dos gastos em defesa e o desenvolvimento de capacidades conjuntas. E como garante a UE que os estados membros cumpririam? Da mesma forma que o faz no Semestre Europeu para as políticas económicas. Usando o Fundo Europeu de Defesa e todas as verbas disponíveis para o “Rearm Europe Plan / Readiness 2030” ou o SAFE. Quem aplica as recomendações recebe, quem não aplica, não recebe. Veja-se que isto está tão bem pensado, que no discurso do Estado da União 2025, a Presidente da Comissão chega mesmo a anunciar um prémio a pagar a todos os que comprarem armas para entregar à Ucrânia. Ou seja, continuar a guerra com a Federação Russa até dá bónus! O quer terá Trump dito à senhora para que ela se sinta impelida a fazer uma coisa destas?

Se para aumentar salários dos professores e médicos, fazer casas para os trabalhadores que vão parar à rua, impelidos pela acumulação de propriedade imobiliária em fundos especulativos, construir hospitais ou escolas, tudo tem de ser feito dentro das regras do Pacto de Estabilidade, já para a defesa, prevê-se uma activação das cláusulas de escape nacionais para gastos orçamentais. Dizer que tal aumentará de forma brutal o endividamento dos estados-membros, o que não deixará de se reflectir negativamente na garantia de serviços públicos aos cidadãos, seria despiciendo. Uma vez mais, assalta-me a questão: quando é que alguém votou para trocar o investimento em melhores condições de vida, por investimento em guerra?

A introdução de um Semestre Europeu da Defesa, caso se concretize, trará consigo uma complexa teia de interacções entre a NATO, a UE e os Estados-membros, o que, dada a natureza agressiva da aliança atlântica, apenas perpetuará a compra de armas, o seu aumento permanente, a garantia de que as guerras começam mas nunca acabam, por falta de vontade para sequer dialogar – veja-se agora a recusa polaca relativa aos drones -, a submissão dos estados membros aos ditames de um ávido complexo militar industrial, tudo sob uma reforçada teia de policiamento político-económico europeu. É assim que Úrsula garante a Trump a compra do armamento prometido. Talvez não seja de todo desacertado prever um “Semestre Europeu do GNL norte-americano”.  O facto é que, sabendo-se como funcionam os estados militaristas, nem vale a pena perguntar o que acontecerá à liberdade que já se esvai…

Não tenhamos qualquer dúvida assim do que, a introdução deste “Semestre Europeu de Defesa”, importará:

  • Uma crescente promoção da transposição e confusão das pretensões da NATO com as da UE: A linha entre as responsabilidades da NATO e da UE em matéria de defesa tem sido historicamente transposta. Um Semestre Europeu da Defesa poderia solidificar essa intersecção, potencialmente conduzindo a uma maior harmonização das exigências de capacidade e investimento, institucionalizando a relação umbilical NATO/EU, instrumentalizando toda a política europeia em função dos interesses militares de quem controla a aliança – os EUA.
  • Enfraquecimento da soberania dos Estados-Membros: Este é, talvez, o ponto mais sensível. Ao atribuir à Comissão Europeia um poder de recomendação e coordenação em matéria de defesa, os Estados-membros correm o risco de ceder uma parcela significativa da sua soberania. A política de defesa tem sido, tradicionalmente, um dos pilares da soberania nacional. Um Semestre Europeu da Defesa poderia impor critérios de investimento e prioridades de desenvolvimento de capacidades que os Estados-membros seriam pressionados a cumprir, limitando a sua capacidade de definir autonomamente a sua estratégia de defesa em função das suas percepções de ameaça e das suas prioridades nacionais.
  • A forma como as decisões ligadas à Defesa influiriam noutras áreas, sem que a decisão caiba aos estados membros, afastando decisões estratégicas do escrutínio democrático: O Semestre Europeu económico já impõe restrições ao investimento público, com base em critérios de défice, dívida pública e crescimento. A introdução de um Semestre Europeu da Defesa, que importaria a necessidade de cumprir metas de investimento militar definidas pela NATO e pela Comissão Europeia, poderia agravar este dilema. Os Estados-membros poderiam ver-se forçados a desviar recursos de áreas cruciais como infraestruturas, saúde, educação e transição energética para satisfazer as exigências de defesa. Esta priorização da despesa militar em detrimento do investimento social e económico poderia ter consequências profundas no bem-estar dos cidadãos e no desenvolvimento sustentável.
  • Centralização do Poder em Bruxelas e os Perigos para a Democracia e a Paz: Um Semestre Europeu da Defesa, ao concentrar o poder de decisão e coordenação em Bruxelas, corre o risco de reforçar aquele que já é um sistema “top-down“, onde os Estados-membros se tornam meros executores de políticas decididas por uma burocracia europeia. Esta centralização excessiva levanta sérias preocupações democráticas. As decisões sobre gastos militares e prioridades de defesa têm um impacto directo na vida dos povos e na segurança nacional. Se estas decisões são tomadas a uma distância considerável dos eleitores e sem um envolvimento significativo dos governos nacionais e dos parlamentos, corre-se o risco de minar a legitimidade democrática e a responsabilização. A ausência de um debate público robusto e inclusivo sobre estas políticas pode levar a que decisões cruciais sejam tomadas por uma elite, com pouca consideração pelas aspirações de paz da maioria da população.

A proposta de um Semestre Europeu da Defesa, embora apresentada como uma ferramenta para reforçar a segurança e a coordenação europeia, levanta sérias questões democráticas e de soberania, para além dos critérios de segurança, independência e autonomia que devem presidir às decisões que afectam a vida de centenas de milhões de europeus.

A sua concepção e implementação, a partir de uma cúpula distante, sem o envolvimento genuíno dos povos e até mesmo dos governos nacionais, reforça e institucionaliza um precedente extremamente perigoso. A história tem demonstrado que decisões importantes sobre guerra e paz, quando tomadas sem um amplo debate democrático, podem ter consequências desastrosas. É imperativo que qualquer iniciativa de coordenação em defesa na Europa seja precedida por um escrutínio público rigoroso e por um debate aberto e inclusivo, garantindo que as decisões reflectem não apenas as preocupações de segurança, mas também as aspirações de paz e prosperidade de todos os povos europeus. O risco de que estas políticas, concebidas apenas por uma minoria de poderosos e trabalhadas por uma minoria de burocratas não eleitos, nos encaminhem para um futuro de conflito, desconsiderando a vontade da maioria, é uma realidade que não pode ser ignorada.

Ao contrário do que tantas vezes se afirma, que quem quer a paz não tem de apostar no armamento, quem quer a paz tem, isso sim, de apostar no conhecimento, desenvolvimento social e económico, amizade, amor, compreensão, tolerância, cooperação e diplomacia. Essas são as armas da paz e da prosperidade e as únicas que nos podem conduzir a um futuro radioso.

Ao invés, o caminho que nos propõe Bruxelas, sob forte influência de grupos derrotados na segunda guerra mundial, é um caminho de submissão, aniquilação e destruição. Nada de bom poderá advir do ódio, do fanatismo e da intolerância, de quem não é capaz, sequer, de ouvir, encarar e dialogar com o seu adversário.

O termo mais utilizados por von der Leyen ao longo dos seus anos de Presidente da Comissão Europeia é o “temos de”. Talvez seja hora de “temos de” questionar o papel da EU e o nosso futuro sem ela.

Fonte aqui

Uma tempestade no Ocidente: O paradigma intelectual liberal está quebrado

(Alastair Crooke, in Strategic Culture Foundation, 27/05/2025, Trad. Estátua)

Heitor fica preso e morto sob os muros de Troia. Trump faria bem em se lembrar da moral da “Ilíada”.

(Este texto foi apresentado nas XXIII Palestras Científicas Internacionais Likhachev, Universidade de Humanidades e Ciências Sociais de São Petersburgo, 22 a 23 de maio de 2025 – Transformando o Mundo: Problemas e Perspetivas, XXIII Palestras Científicas Internacionais Likhachev, São Petersburgo.)


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No ano passado, em São Petersburgo, fiz a seguinte pergunta: o Ocidente emergirá da sua guerra cultural como um parceiro potencial mais conciliador? Ou o Ocidente desintegrar-se-á e recorrerá à beligerância na tentativa de manter a sua unidade?

Bem, isso foi naquela época. A “contrarrevolução” está agora em andamento sob a forma da “tempestade Trump”. E o Ocidente já se desmoronou: o projeto Trump está a destruir os Estados Unidos, enquanto na Europa há crise, desespero e fúria para derrubar Trump e “todas as suas obras”.

Então é isso? A esperada revolta contra a imposição cultural “progressista”? Não. Essa não é a extensão total das mudanças insidiosas e devastadoras que estão a ocorrer nos Estados Unidos. Elas causam convulsões políticas muito mais complexas. Não será uma simples oposição educada entre os vermelhos e os azuis. Porque ainda há outro “hit” por vir, além da revolução MAGA.

A verdadeira ação nos Estados Unidos não acontece nos seminários da Brookings ou nos editoriais do New York Times. Acontece nos bastidores, longe da vista, fora do alcance da sociedade sensata e, acima de tudo, fora do roteiro. Os Estados Unidos estão a passar por uma transformação mais parecida com aquela vivida por Roma na época de Augusto.

Por outras palavras, o evento principal é o colapso de uma ordem da elite paralisada e a subsequente implantação de novos projetos políticos.

O colapso do paradigma intelectual do liberalismo global — as suas ilusões e a estrutura tecnocrática de governação associada — transcende o cisma vermelho/azul no Ocidente. A flagrante disfunção associada às guerras culturais ocidentais destacou a necessidade de uma mudança completa na abordagem da governação económica.

Durante 30 anos, Wall Street vendeu uma fantasia, e essa ilusão acabou de ruir. A guerra comercial de 2025 revelou a verdade: a maioria das grandes empresas americanas foi mantida à tona por cadeias de fornecimento frágeis, energia barata e mão-de-obra estrangeira. E agora? Tudo está a desmoronar-se.

Francamente, as elites liberais simplesmente demonstraram que não são nem competentes nem profissionais quando se trata de governação. E elas não conseguem entender a gravidade da situação que enfrentam: a arquitetura financeira que antes oferecia soluções fáceis e prosperidade sem esforço já ultrapassou o seu prazo de validade.

O ensaísta e estratega militar Aurelien escreveu num artigo intitulado “A Curiosa Derrota” (original em francês), onde a “derrota” consiste na “curiosa” incapacidade da Europa entender os eventos mundiais:

“…isto é, a dissociação quase patológica do mundo real que [a Europa] demonstra nas suas palavras e ações. No entanto, mesmo com a deterioração da situação… não há indícios de que o Ocidente esteja a desenvolver uma compreensão mais realista da realidade, e é muito provável que continue a viver na sua construção alternativa da realidade até ser expulso dela pela força”.

Sim, alguns entendem que o paradigma económico ocidental, baseado em dívidas e consumismo hiper financeiro, já teve o seu tempo e que a mudança é inevitável; mas eles estão tão envolvidos no modelo económico anglo-saxónico que permanecem paralisados ​​na teia de aranha. Não há alternativa (TINA) é a palavra de ordem.

Assim, o Ocidente fica continuamente sobrecarregado e dececionado ao lidar com Estados que pelo menos se esforçam para olhar para o futuro de forma organizada.

O Ocidente está em crise, mas não da maneira que os progressistas ou os tecnocratas burocráticos pensam. O problema não é o populismo, polarização ou qualquer outro tópico “popular” em programas de entrevistas na mídia. O problema é mais profundo e estrutural: o poder é tão difuso e fragmentado que nenhuma reforma significativa é possível. Cada ator tem direito de veto e ninguém pode impor coerência. O cientista político Francis Fukuyama deu um nome a esse fenómeno: “vetocracia”, uma situação em que qualquer um pode bloquear, mas ninguém pode construir.

O comentador americano, Matt Taibb,i observa:

“Olhando para trás, num sentido mais amplo, estamos de facto vivenciando uma crise de qualificação profissional neste país. Ela teve um enorme impacto na política americana”..

De certa forma, a falta de conexão com a realidade – com a competência – está enraizada no atual neoliberalismo global. Isso pode ser atribuído em parte à famosa mensagem de Friedrich von Hayek em “O Caminho da Servidão“, de que a interferência do governo e o planeamento económico inevitavelmente levam à servidão. A sua mensagem é transmitida regularmente sempre que surge a necessidade de mudança.

A segunda vertente (enquanto Hayek lutava com os fantasmas do que ele chamava de “socialismo”) era a dos americanos a selarem uma “união” com a escola monetarista de Chicago, cujo filho, Milton Friedman, escreveria a “edição americana” de “O Caminho da Servidão“, que (ironicamente) viria a ser chamado de “Capitalismo e Liberdade“..

O economista Philip Pilkington escreve que a ilusão de Hayek de que mercados são sinónimos de “liberdade” se tornou tão difundida que todo discurso está completamente imbuído dela. Em companhia educada e em público, você pode ser de esquerda ou de direita, mas sempre será, de uma forma ou de outra, neoliberal; caso contrário, você simplesmente não poderá participar no debate.

“Cada país pode ter suas particularidades, mas, em linhas gerais, todos seguem um padrão semelhante: o neoliberalismo baseado na dívida é, antes de tudo, uma teoria que visa reorganizar o Estado para garantir o sucesso do mercado — e dos seus atores mais importantes: as corporações modernas”.

No entanto, todo o paradigma (neo)liberal assenta nesta noção de maximização da utilidade como seu pilar central (como se as motivações humanas fossem definidas de forma reducionista em termos puramente materiais). Ele postula que a motivação é utilitária – e somente utilitária – como uma ilusão fundamental. Como filósofos da ciência como Hans Albert apontaram, a teoria da maximização da utilidade exclui à priori qualquer mapeamento do mundo real, tornando a teoria não verificável.

A sua falácia reside no facto de que subordina o bem-estar humano e comunitário aos mercados e pressupõe que o “consumo” excessivo é compensação suficiente pela vassalagem inerente. Essa ideia foi levada ao extremo por Tony Blair, que declarou que, à época, a política não existia mais. Como primeiro-ministro presidiu a um gabinete composto por especialistas técnicos, oligarcas e banqueiros, cuja competência lhes permitiu administrar o Estado com precisão. A política acabou; Deixemos isso para os tecnocratas.

O governo conservador britânico, eleito em 1979, decidiu, portanto – em vez de imitar os concorrentes britânicos bem-sucedidos fazendo o oposto – confiar essencialmente na magia. Assim, tudo o que o governo precisava de fazer era criar o ambiente mágico adequado (impostos baixos, poucas regulamentações) e o “animal spirits” dos empreendedores faria o resto espontaneamente, graças à “magia” do “mercado” (interessante escolha de palavras). O mágico, no entanto, após invocar esses poderes, precisava ter o cuidado de se manter bem longe de seus mecanismos“, como escreveu Aurelian (Ver aqui).

Essas ideias foram tomadas de empréstimo da esquerda americana, mas o cosmopolitismo espalhou-as por toda a Europa.

A obsessão anglo-saxônica (agora mais amplamente ocidental) por empreendedores heroicos arquetípicos e desertores da faculdade obscureceu o facto histórico de que nenhuma indústria significativa, nem tecnologia essencial, jamais foi desenvolvida sem algum nível de planeamento e incentivo governamental”.

É claro que esses sistemas de ideias liberais globalistas são ideológicos (se não mágicos) e não científicos. E uma ideologia, quando não é mais eficaz, será substituída no futuro por outra.

A lição aqui é que quando um Estado se torna incompetente, eventualmente alguém surge para o governar. Não por consenso, mas por coerção. Um remédio histórico para essa esclerose política não é o diálogo ou o compromisso, mas o que os romanos chamavam proscrição, um expurgo oficializado. Sylla sabia disso. César aperfeiçoou isso. Augusto institucionalizou isso. Tome os interesses da elite, prive-a dos seus recursos, despoje-a dos seus bens e force-a a obedecer… ou então!

Como previu o crítico político e cultural americano Walter Kirn:

Então, no futuro, o que é que as pessoas vão querer? O que é que elas vão valorizar? O que é que elas vão prezar? As suas prioridades vão mudar? Acho que elas vão mudar radicalmente…”.

“[Os americanos] vão querer preocupar-se menos com questões filosóficas e/ou mesmo políticas de longo prazo, como justiça, etc., prevejo; e vão querer contentar-se com uma expectativa mínima de competência. Por outras palavras, estamos a viver um período de mudança de prioridades e acredito que uma grande mudança está a chegar: uma mudança muito grande, porque sentimos que temos lidado com problemas inéditos, e certamente tivemos que lidar com os problemas de outros países, como a Ucrânia ou outros, com financiamento massivo “.

O que é que Bruxelas pensa de tudo isto? Absolutamente nada. A tecnocracia europeia continua sob o feitiço dos Estados Unidos da era Obama, uma terra de poder brando, política de identidade e capitalismo neoliberal cosmopolita. Ela espera (e espera) que a influência de Trump seja varrida nas eleições de meio de mandato do ano que vem. As elites de Bruxelas continuam a confundir o poder cultural da esquerda americana com poder político.

O conservadorismo americano parece estar a ser reconstruído de uma forma mais dura, desagradável e muito menos sentimental. Também aspira emergir como algo mais centralizado, coercitivo e radical. Enquanto muitas famílias nos Estados Unidos e na Europa estão à beira da falência e possível expropriação devido à implosão da economia real, esse segmento da população — que agora inclui uma proporção crescente da classe média — despreza tanto os oligarcas quanto o establishment e está cada vez mais perto de uma resposta potencialmente violenta. A guerra cultural então passará da esfera pública para o “campo de batalha” da rua.

A atual administração americana está acima de tudo comprometida com a antiga noção de grandeza – grandeza individual e a contribuição dessa grandeza para toda a civilização.

O indivíduo transgressor, por exemplo, desempenha um papel importante nas teorias de Ayn Rand sobre o industrial e o génio (nos seus romances, há sempre um forte elemento do outsider, que é esse tipo de transgressor criminoso que traz uma nova energia que os insiders não podem fornecer), escreve o cientista político Corey Robin.

Em suma, existe hoje uma afinidade não tão secreta entre o conservadorismo populista e o radicalismo. Entretanto, como Emily Wilson explica no seu livro “A Ilíada“, a perda de “grandeza” raramente é fácil de recuperar.

Não há como escapar hoje da analogia com “A Ilíada“, na qual Trump busca recapturar a “grandeza” do seu país (e, ao fazê-lo, alcançar um kleos (reputação) pessoal eterno). Hoje, podemos falar de “legado“. Em “A Ilíada“, esse termo é definidor, concedendo aos líderes mortais a capacidade metafórica de transcender a morte por meio da honra e da glória.

No entanto, nem sempre termina bem: Heitor, o protagonista, que também está em busca do kleos, fica preso numa luta e é morto sob as muralhas de Troia. Trump faria bem em prestar atenção à moral da história de “A Ilíada“.

Fonte aqui.

Eleições em Portugal: O espelho de uma União Europeia em ruínas

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 22/05/2025, Revisão da Estátua)


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Em “Médiarquia”, Yves Citton desmonta a máquina de influência política que está a encerrar a discussão política naquele que podemos considerar o campo tradicional da direita. Segundo Citton, em termos muito simples, a média dominante cria os ambientes propícios à produção de um determinado estado mental, de ressentimento, desilusão ou impotência, e depois, através de um exército de comentadores e outras figuras com exposição pública, produz e transmite o discurso que vai responder, precisamente, ao ambiente de medo provocado, cujas constituintes estão dissociadas dos mais graves problemas que os trabalhadores têm.

Neste sentido, considera Citton que o regime em que vivemos – a democracia liberal – já não é uma democracia, mas uma mediarquia ou, até, uma “publicocracia”, uma vez que a média produz as figuras públicas – através da sua entrada em programas de entretenimento – em que mais tarde o público vai associar ao discurso que lhe foi plantado na cabeça como coincidente com o mesmo. Daí que estas pessoas se mobilizem mais pelo ódio aos migrantes asiáticos, à corrupção – endémica do capitalismo -, do que em relação aos problemas da habitação, trabalho, educação, saúde ou até à possibilidade de guerra. O que eles procuram é a coincidência do discurso, a confirmação do problema e não a solução em si.

Isto, bem vendo, nada tem de novo, uma vez que o fenómeno da exposição pública associado ao discurso amplificado pelas redes sociais, há muito que foi identificado como se tratando de um estratagema para influenciar o voto, do qual as sondagens, a escolha criteriosa das notícias, os comentários sobre as mesmas e muitos outros elementos comunicacionais, são as peças de uma máquina de ganhar eleições, à disposição da classe detentora do poder económico. Não é de admirar que este fenómeno, no tempo das televisões públicas apenas nas mãos dos governos e dos seus apoiantes, tenha transitado para centros de interesses privados, extremamente poderosos e, muitas vezes, em aparente dissociação com o poder instituído.

Citton reflecte muito também na necessidade de resposta a esta máquina infernal. Como é que as forças democráticas enfrentarão e encontrarão os instrumentos para responder a esta máquina de conquistar votos e influenciar o eleitorado, ao ponto de este tomar decisões aparentemente irracionais, emocionais, pré-reflexivas, contra os seus próprios interesses? Citoon aponta para a necessidade de maior escrutínio da comunicação social e dos seus funcionamento, mas esse caminho é pouco plausível na medida em que ela se trata de um instrumento de poder, usado para tal e como tal. A questão, a meu ver, que não sou especialista na matéria, passa mais por perceber, porque razão, este instrumento funciona como funciona, para depois o podermos atacar na base.

A resposta não é fácil e merece uma análise profunda às condicionantes históricas do nosso tempo, usando o melhor instrumento e referencial que temos à nossa disposição: a experiência histórica. Para chegarmos à resposta necessária, teremos de perceber por que razão estas convulsões sociais se produzem e, mais ainda, por que razão são elas, nos dias que correm, tão características da sociedade ocidental, dos EUA e da União Europeia, ou das sociedades que se regem pelos princípios “liberais”.

A produção de um ambiente propício à tomada de decisões irracionais e emocionais, de tipo comumente designado como “reaccionário” – na fase reactiva superficial – não se pode dissociar do ambiente económico em que as forças capitalistas dominantes se encontram e dos desafios, metas e objectivos que enfrentam. Afinal, a instabilidade nas nossas vidas, a sensação de perenidade, a efemeridade das condições, são resultados directos do tipo de economia em que vivemos, das suas necessidades e das políticas que promove junto do Estado que controla.

São estas forças que promovem o discurso dominante, que valorizam determinada ameaça em detrimento de outra, que massificam a informação, hoje através das redes sociais e da imprensa mainstream, como ontem tal era feito através da igreja e das instituições de poder, de forma directa. Voltando à experiência histórica, o que ela nos diz é que não é a primeira vez que a classe trabalhadora se sente perdida, acossada e isolada perante as ameaças cuja existência percepciona.

Na designada primeira revolução industrial, aquando da introdução do tear mecânico, na primeira metade do século XIX, os Luditas (ataque ao tear mecânico) ou os “Swing Rioters” (destruição das debulhadoras agrícolas) destruíam as máquinas, vendo nelas uma ameaça ao emprego da sua força de trabalho. Para agravar o sentimento de perda, as más condições de salubridade, segurança, salários e a outras condições de vida também contribuíram para este tipo de reacção. Contudo, não podemos, uma vez mais, dissociar esta atitude da pequena burguesia. Dos pequenos proprietários que viram os preços dos cereais baixar e não tinham condições económicas para mecanizar a sua exploração agrícola; dos pequenos artesãos que não conseguiam investir nas novas tecnologias e dependiam da tecelagem manual; do papel da igreja que via a sociedade a transformar-se de forma muito rápida e propagava um discurso reaccionário sobre o assunto.

A pequena burguesia, os sectores da burguesia mais tradicional que se viram ultrapassados pela burguesia tecnológica da altura, forças conservadoras e reaccionárias avessas à mudança operada, manuseando uma classe trabalhadora que se sentia acossada, sentindo em perigo aquela que constituía a sua única forma de sustento, face à agressividade do capitalismo industrial emergente, mais dinâmico e empreendedor e com maior poder sobre a decisão política, financiado por um capital financeiro também emergente, criou o caldo social que levou à reacção emocional violenta, à raiva e ao ódio à inovação tecnológica.

Julgo que este momento talvez seja o mais parecido e com as constituintes materiais mais análogas e similares ao que vivemos hoje. Um processo de transição tecnológica baseado na digitalização, inteligência artificial e automação avançada que é vendido como que ameaçando o emprego, podendo provocar desemprego em massa; um capitalismo financeirizado e globalizado que ameaça a qualidade do emprego, os salários, a estabilidade e a previsibilidade da vida, acentuando a sensação de descontrolo; um processo de atomização das relações de trabalho que individualizam, resultado da terciarização da economia e da sua terceirização por recurso ao “Outsorcing”, produzindo postos de trabalho cada vez mais isolados, em que o fenómeno organizacional é mais difuso e desconexo; a emergência de empresas ligadas ao “cloud capital” que operam além-fronteiras, sem conexão física, acentuando a sensação de alienação, não apenas em relação ao produto do trabalho, mas também em relação ao próprio trabalho em si. Tudo isto a uma velocidade estonteante e apresentado como tendo um potencial disruptivo incrível.

Em virtude do avanço deste capitalismo muito agressivo e financeiramente poderoso, sobre o Estado, intervindo na decisão política e apropriando-se de monopólios naturais, influenciando processos de crescente privatização de serviços públicos essenciais, negando ao sistema democrático o poder de regular as reais alavancas económicas, exigindo impostos mais baixos ou mesmo nulos, que se traduzem em perdas sucessivas de capacidade de investimento público, os trabalhadores deste novo enquadramento económico vêem adicionar ao trabalho precário, aos turnos e longas jornadas, aos baixos salários (porque fazem apenas o que as máquinas não conseguem), à insegurança perante a vida, a crise dos sistemas de saúde, da educação, da habitação. E, para agravar e somar à perda de empregos por via do “ajuste tecnológico”, assistem à abertura das fronteiras pelos mesmos que lhes capturaram os votos através da sua máquina de propaganda. A sensação de alienação existe também em relação à sua noção de cultura, etnia e Nação.

O ser humano valoriza a estabilidade, a previsibilidade, pela sensação de controlo da situação que essas condições possibilitam. Os que dizem valorizar a “flexibilidade” e a “mudança” dizem-no porque se sentem no controlo. É só tirar-lhes o tapete e lá vão eles de volta para o refúgio seguro.

Um jovem diz que não quer estabilidade até se juntar com alguém, constituir família e ter despesas fixas para pagar. Enquanto sabemos que isto é assim, temos um capital globalista que vende o contrário, vende a “flexibilidade” que mascara a desregulação da vida, vende a ideia de “liberdade” contratual, que ilude a precariedade da fonte de rendimento.

Para este trabalhador do século XXI, a sensação de que pode perder as constantes da sua vida, sejam elas a sua única moeda de troca – o trabalho – ou o seu único porto seguro, a casa, a Nação, etnia ou religião, não será muito diferente do que terão sentido os seus homólogos da primeira metade do século XIX. Com as constantes da sua vida em causa, um mundo de inovação em versão acelerada e difícil de entender e a percepção criada de que as organizações existentes, as instituições colectivas de classe, não correspondem às suas necessidades, colocam estes trabalhadores numa situação de fragilidade total, que nem no Estado se podem refugiar, uma vez que vêem a falência dos serviços públicos, das próprias finanças estatais, por todo o lado.

Podemos estar horas a discutir se actualmente as organizações de classe existentes representam, ou não – eu penso que existem -, esses trabalhadores, mas, o que mais importa, é a percepção desses trabalhadores e não a nossa. Para eles tudo parece estar em causa, ao ponto de votarem em quem não defende os seus interesses, apenas porque têm a esperança de que esse alguém crie uma ruptura e destrua uma realidade que consideram opressiva. Então, tal como os seus homólogos do passado tiveram uma reacção emocional de ataque à tecnologia, não percebendo que poderiam, de forma organizada, usá-la em seu favor para obter melhores condições de trabalho, também os de hoje têm uma atitude desenfreada de tudo querer partir, ainda cegos perante a possibilidade de usarem essa força de forma organizada para, efectivamente criarem uma ruptura, mas dessa feita, com um plano viável de reconstrução de um mundo que responda às suas necessidades. Porque, convenhamos, o modelo que anula eleições na Roménia ou isola a Hungria, não responde também a essas necessidades, pelo contrário, trouxe-nos a este ponto.

Nesta fase de reacção emocional, provocada por um fenómeno psicopolítico conhecido e abordado por gente como Byung Chul Han, este trabalhador acossado, vendo ruir tudo à sua volta torna-se, nesse sentido, alvo fácil da demagogia “mediarquica”. Um bloco imperialista ocidental em que a classe capitalista tradicional, ligada aos sectores tradicionais e até aqui no controlo, se sente ameaçada pela transição do centro económico para a Ásia, tal como os capitalistas e classes detentoras do início do século XX se viram acossados pela perspectiva da perda das colónias. Desta feita, a transição do centro de poder para a Ásia, não apenas muda o paradigma económico, em que o poder transita do opressor para o oprimido. Ao mesmo tempo, estas classes dominantes vêem ruir o projecto neo-colonial, criado após a Segunda Guerra Mundial, como contingência da perda das colónias e das concessões sociais decorrentes da existência de uma coisa chamada URSS, cuja existência, associada à decadência do Império britânico, do mundo anglo-saxónico europeu e à emergência dos EUA, tinha, a par de outras coisas, desencadeado o recurso às doutrinas fascistas e sionistas.

Nesta mescla social também entram os taxistas, ameaçados pela Uber e atacando os condutores asiáticos, ao invés de atacarem os que deixaram esta lógica empresarial parasita destruir as suas empresas e postos de trabalho. Deveria mesmo ser estudado o efeito que a entrada da Uber na UE, a forma ilegal como entrou, a conivência dos poderes estatais com a sua entrada e o recurso a mão-de- -obra migrante de origem asiática, teve na propagação deste tipo de racismo. Ainda por cima, a classe dos taxistas não era conhecida, na UE, por ser a mais esclarecida e a vanguarda da classe trabalhadora. Nem por sombras. Por outro lado, foram eles quem desabafou nos seus táxis todas as suas frustrações a milhões de clientes que usavam os seus serviços, muitos deles humildes, uma vez que os mais ricos usavam, por ser sinónimo de sofisticação, a Uber.

Já os lojistas ameaçadas pela Amazon, Aliexpress ou Temu, os restaurantes ameaçados pelos franchisings de fast-food, os pequenos empresários ameaçados pela capacidade de investimento dos grandes conglomerados industriais internacionais, os operadores logísticos ameaçados pelas UPS, DHL e Express Mail, também terão tido a sua quota parte. Estes são a correia de transmissão para os seus trabalhadores. Estes terão cumprido o mesmo papel que cumpriu o tecelão, o pequeno agricultor, o artesão pré-industrial. Uma vez mais, vivemos uma era de luta entre facções do capital, na qual os trabalhadores são instrumentalizados.

Prova de que estas percepções são plantadas é que os problemas que os trabalhadores desiludidos elegem como fundamentais, não são os seus problemas reais, mas os daqueles que se viram ameaçados com a chegada de emigrantes em massa para trabalhar para a Uber, como o caso dos taxistas, que perderam as suas pequenas empresas para a Uber e para as sociedades unipessoais que trabalham para a Uber (e não só). Estes migrantes desenvolvem actividades que os indígenas não querem desenvolver ou as consideram menores, caso da agricultura.

Aliás, a profusão de explorações agrícolas de culturas de exportação, facilmente perecíveis, associadas a necessidades massivas de mão-de-obra barata a transportar e instalar em locais do interior, desertificados, muito subdesenvolvidos e pouco populosos, também terá tido a sua quota parte. Imaginem o que é chegarem cem trabalhadores asiáticos a uma aldeia com 50 pessoas, e tentem perceber o ambiente de invasão e insegurança que sentirão. Agora, imaginemos que os que prometeram combater a desertificação tinham desenvolvido o interior de Portugal e, ao invés destes 100 migrantes entrarem numa aldeia com 50 residentes, a aldeia teria 500. Tudo seria diferente, certo? E mais diferente seria se, ao invés de culturas de exportação, produzíssemos culturas autóctones, mais rentáveis e destinadas à nossa alimentação. Tudo isto foi obra de governos submissos às políticas antipatrióticas da UE, que andaram, nos últimos 20 anos, a vender consecutivamente uma ilusão de desenvolvimento que nunca chegou. E fizeram-no enquanto ganhavam eleições à custa da máquina mediocrática, prometendo resultados para os quais nunca trabalharam.

Daí que não nos possamos admirar que tudo se comece a precipitar para o abismo. Se, no passado, a amplificação do discurso dominante era feita pela Igreja e pelas suas organizações sociais, na actualidade, a amplificação do discurso dominante é provocada pela Imprensa mainstream e pelas redes sociais e os seus bots, comprados com todo o dinheiro que esta gente pode comprar. Já não é na organização de classe, na associação de bairro, na colectividade ou, sequer, na taberna, que o trabalhador, o pequeno proprietário, bebem a sua informação. Ao invés de o fazerem em grupo, fazem-no no isolamento do seu smartphone. Sem contradição, questionamento ou reflexão profunda. Do entricheiramento provém o fanatismo, do fanatismo a reacção. Das certezas absolutas e inequívocas só advêm maus resultados. Da depressão mental, só podem advir reacções emocionais imponderadas. Um animal acossado e isolado num canto morde em qualquer direcção e foge para qualquer lado, apenas querendo sair da situação de aperto.

Uma vez mais, portanto, temos trabalhadores e camadas proprietárias de pequena dimensão aliados a facções do capital que se sente em perigo. Mas todas as reacções têm um fim e conduzem à necessária acção. À resposta emocional, imponderada, à sua ineficácia, surgirá necessariamente, por razões que a própria necessidade e natureza das coisas exigem, uma acção pensada, ponderada, um plano viável, compreensivo e adaptado à realidade superveniente. E hoje, podemos dizer que, nesse aspecto, a classe trabalhadora e os pequenos empresários já estão mais avançados que antes. Como disse Umberto Eco, o mundo avança entre movimentos de acção e reacção. Marx falava em dialéctica materialista entre relações de forças construídas por movimentos sociais opostos, que se resolviam em avanços civilizacionais quando a favor dos trabalhadores; Elias Jabour fala de saltos de um ponto de equilíbrio para outro. Todas elas surgem na sequência da tese-antítese-síntese de Hegel, tal como surgiram de Heraclito e do seu “ninguém se pode banhar na mesma água do rio duas vezes”. Ou seja, tudo é movimento constante, de salto em salto, de acção em reacção para acção outra vez. É assim que o conhecimento se constrói, é assim que a natureza evolui, é assim que as sociedades se desenvolvem.

Da primeira revolução industrial, da reacção emocional inicial, saíram conquistas organizacionais extremamente importantes, fundamentais para as conquistas do século XX e para a derrota do nazi-fascismo dos anos trinta e quarenta. Tais conquistas permitiram um estado de bem-estar social nunca antes visto na civilização humana. À entrada do século XIX, como disse antes, os trabalhadores não possuíam ainda as suas próprias organizações, organizações que falassem por eles, que respondessem aos seus problemas concretos, que agregassem a sua força. Dessa reacção e da acção que lhe sucedeu surgiram as respostas à contradição estabelecida entre um movimento opressor organizado e profundamente poderoso, face à fraqueza, isolamento e incapacidade de resposta congruente e consequente dos trabalhadores. A resolução da contradição dá-se com a criação dos sindicatos, primeiro e dos partidos e movimentos de classe (anarquistas, socialistas, comunistas), depois. Depois da conduta reactiva, manipulada e emocional, sucedeu-se a conduta racional, planificada. Típica da serenidade de quem já descarregou a sua raiva e procura, após o escape, a solução efectiva para os problemas identificados.

Destas formas organizacionais nasce a capacidade de resposta ao movimento reaccionário e a agregação da força individual em força colectiva. Daí surgiram revoluções como a Russa, Cubana, Portuguesa, Chinesa, catalisadores de mudança que associados à capacidade destas organizações, obrigaram, mesmo no Ocidente capitalista, à concessão do estado social europeu. Aquele que hoje todos sentimos em causa e ameaçado. Aquele que o capital ameaçado cobiça, por poder proporcionar-lhe, aquando nas suas mãos, incontáveis lucros, também compensatórios da perda de poder à escala mundial.

É por isso que digo que, mesmo que a narrativa dominante tenha transmitido aos trabalhadores que as organizações existentes não falam por si, aos poucos, o isolamento, a necessidade de compreensão e a procura de acções mais eficazes na mudança do estado de coisas, fará reconectar toda esta força com as suas organizações. Estas, como é óbvio, também terão de a atrair e representar, exigindo tal resposta uma coragem verdadeiramente revolucionária, capaz de imprimir um movimento dialéctico de adaptação, primeiro, e resposta e transformação ás condições materiais existentes, hoje tão travestidas de novas roupagens. Chamemos-lhes uma “batata”, vestidos de azul ou vermelho, será em organizações de classe, de pendor revolucionário que a classe trabalhadora encontrará, uma vez mais, a libertação.

Não será um caminho fácil, a prosseguir num Ocidente decadente e em colapso. Não podemos desligar da sensação de perda que as populações desiludidas sentem, o sentimento de ameaça às suas raízes, à sua cultura, aquele que foi um movimento constante e ainda muito presente, de transferências sucessivas de dimensões da nossa soberania nacional. Se as fronteiras da migração se abriram, foi porque a UE assim o decidiu, uma vez que, nos termos do Tratado de Lisboa, esta matéria é da sua competência; se o trabalho se degradou, foi porque a UE nos destinou uma economia de baixo perfil, voltada para o turismo e os serviços; se a moeda compra menos e tudo parece mais caro, tal sucede porque perdemos a soberania monetária; se sentimos que os serviços públicos se degradam, tal sucedeu porque transferimos a soberania orçamental e financeira, limitando a liberdade de investir nos serviços públicos e de construir um sector público capaz de impulsionar a economia; se sentimos a energia cara, os combustíveis dispendiosos, tal sucede porque transferimos a soberania económica, sujeitando-nos à agenda privatizadora e deslocalizadora da UE; se sentimos o país a ficar para trás, os jovens a abandonar-nos, tal se deve à agenda de mobilidade que visa fornecer de mão-de-obra qualificada os países mais ricos.

A prova de que este movimento é meramente reactivo, reaccionário, por mais explicável e compreensível que pareça ser, reside no facto de nenhuma das dimensões que causam esta reacção, ter resposta no programa dos partidos “populistas” ou “demagógicos” que agregam estes votos, demonstrando que apenas beneficiam da máquina mediocrática, tal como os seus irmãos do centrão e da esquerda fofinha. Se se tratasse, efectivamente, de um processo de mudança, todos estes problemas contariam com uma resposta e, à excepção dos migrantes asiáticos, que se pretendem expulsar, nenhum dos reais problemas sociais que causam esta sensação de insegurança encontra resposta nos programas das AfD, de Trump, da AD, de Simeon ou Le Pen. Tal como se vê agora com Meloni.

A resposta a este estado de coisas exige muito mais do que falar mal de tudo e todos, exige a coragem e capacidade de romper, efectivamente, com os poderes instituídos. Sejam eles o da UE, direita neoliberal reaccionária, mas globalista, sejam os da “nova direita” Trumpista, reaccionária, mas tradicionalista, que opta por atrair os trabalhadores, atacando outros trabalhadores mas nunca quem os explora ou quem os escraviza.

Sem esta resposta, no caso português, uma procura das suas origens, da sua história e raízes e uma viragem para o mundo, sem intermediários ou paizinhos – a este respeito o Chega nem a fractura faz com a NATO e é isso que o torna “tolerável” face à AfD ou a Le Pen –, beneficiando das pontes construídas outrora, das relações com os países de língua portuguesa, com as regiões como Goa ou Macau que nos conectam às superpotências da actualidade e do futuro, Portugal continuará a ser carne para canhão de países decadentes que procuram segurar-se tratando-nos como o seu “pátio das traseiras”.

Procurar essa resposta implica a coragem necessária para dizer que esta UE falhou, que se trata de um resquício da guerra fria e nenhuma função mais lhe sobra do que a instrumentalização das nações mais pequenas, a extensão artificial das fronteiras da NATO e o esgotamento dos nossos parcos recursos, para seu benefício, para benefício dos directórios de poder que a alimentam e controlam. É bem visível a instrumentalização que França e Alemanha estão a fazer da União Europeia, num momento de corrida às armas, usando-a como extensão das suas estratégias belicistas.

Símbolo desta UE perdida no mundo e em si própria é, uma vez mais, o advento de um poderoso movimento reaccionário, russófobo e neocolonial no seu seio. Seja ele alimentado pela ganância globalista imposta pelas agendas destrutivas de Von Der Leyen ou pelo Trumpismo isolacionista da “nova direita”.

Quanto mais depressa o clarificarmos, mais depressa construiremos o novo mundo que surgirá destas ruínas.

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