O Dia da Vitória relembra uma vergonha que o Ocidente quer esquecer

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 06/05/2025, Revisão da Estátua)


O Dia da Vitória para a Rússia, equivale ao dia da vergonha para o ocidente!


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Não é apenas ingratidão… Antes fosse! São muito mais profundas as causas efectivas do desprezo, incompreensão, rejeição e repugnância, manifestadas pelas elites políticas de EUA e EU, em relação às comemorações do dia da Vitória, o dia em que a URSS colocou um fim a um dos mais hediondos regimes saídos das entranhas da história humana e, seguramente, um testemunho do expoente máximo a que pode chegar a brutalidade ocidental, alimentada pelas raízes económico-sociais fundadoras do capitalismo e do imperialismo.

Daí que o Dia da Vitória também se devesse designar de “Dia da Vergonha”, o dia em que um estado anti-imperialista, anticolonialista, atacado na sua essência mais profunda com a mais agressiva das armas que o capitalismo ocidental é capaz de produzir – o terror nazifascista -, perdeu 27 milhões dos seus melhores filhos e filhas, para nos salvar a todos de um problema para o qual não contribuiu minimamente. A vergonha ocidental não acaba nos crimes que cometeu contra a Humanidade; a Rússia obriga o Ocidente a viver e reviver anualmente o reconhecimento de que também ele foi salvo, de si próprio, pela vítima das suas agressões.

Na primavera de 1944, o Exército Vermelho começou a libertar a Europa dos nazistas. A missão durou um ano. https://rodina-history.ru/2025/04/29/vse-svobodny.html

Na primavera de 1944, o Exército Vermelho começou a libertar a Europa dos nazis. missão durou um ano. https://rodina-history.ru/2025/04/29/vse-svobodny.html

Esta dualidade explicará muito do ressentimento publicamente demonstrado, da vergonha escondida de uns e da angústia de outros, em relação à história da Segunda Guerra Mundial. Como é que o regime mais odiado, diabolizado e vilipendiado pela mais avançada forma de capitalismo, o capitalismo ocidental – o que se percebe – foi também o que mais contribuiu para o combate, contra uma força opressora produzida no seio dos regimes – ocidentais – que se apresentavam como “moderados, democráticos, civilizados”?

Não deixará de constituir uma ironia histórica que a Humanidade se tenha sentido tão ameaçada por um dos produtos mais emblemáticos do fanatismo ocidental e que, ao mesmo tempo, essa Humanidade tenha sido salva por um regime que, esse mesmo Ocidente, dizia querer destruí-la. É a história do diabólico criminoso que, afinal, se torna no mais abnegado e altruísta dos salvadores. É a epítome perfeita do ditado que diz “a verdade é como o azeite, vem sempre ao de cima”. Como é que o maior criminoso de todos – o mais vilipendiado dos regimes – foi capaz de tão enorme altruísmo, não se limitando a expulsar o agressor da sua casa, mas indo ao limite das suas forças para definitivamente o derrotar? E como é que o mais bondoso e humano dos regimes, foi capaz de produzir, apoiar e alimentar tão hediondo ser, mostrando-se não apenas incapaz de o destruir sozinho, como tendo de assistir à sua destruição por aqueles de quem dizia nada de bom ser possível?

Como pode conviver a Alemanha actual, governada pelos descendentes daqueles que compunham as garras do monstro nazi, com traumas como os que somos forçados a assistir, quando nos deparamos com imagens dantescas de ossadas humanas empilhadas, dessecadas e despidas de toda e qualquer dignidade? Imagens que hoje nos vêm parar às nossas TV’s, passadas em Gaza, e as quais o ocidente, todo o ocidente, varre para debaixo do tapete que esconde os seus inúmeros e históricos crimes?

Como gostariam – os que apoiam a segunda iteração do 3.º Reich, revivida a partir dos despojos históricos da 14ª Divisão da Galícia e preservados em algumas das mais privilegiadas e “civilizadas” metrópoles da grande civilização liberal -, de apagar da história os retratos vívidos que deveriam suscitar outra coisa que não fosse a sua imensa vergonha e constrição, tal como fazem em relação aos mortos do Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria ou à reprodução ao vivo e a cores, do terror nazi no século XXI, desta feita perpetrado por quem se sabe ser a vítima do primeiro!

Pessoas depositam coroas de flores sobre os restos mortais dos torturados no campo de extermínio de Majdanek. Ano de 1945. Temin Viktor Antonovich. https://russiainphoto.ru/exhibitions/1042/#5

Pessoas depositam coroas de flores sobre os restos mortais dos torturados no campo de extermínio de Majdanek. Ano de 1945. Temin Viktor Antonovich. https://russiainphoto.ru/exhibitions/1042/#5

Habituados a escolher os seus heróis e a esconder, quando não sob a luz da recuperação providenciada pelo infame revisionismo histórico, os seus próprios demónios, a Europa ocidental, ventre fértil do fascismo da primeira metade do século XX, criado e crescido sob os auspícios da elite anglo-saxónica mais proeminente e alimentado pela mais orgulhosa prole estado-unidense, é obrigada a conviver com quem não lhe deixa esconder os seus crimes, a sua imensa culpa.

Afinal, quando considerado apenas o peso demográfico das mortes soviéticas na Segunda Guerra Mundial, estima-se que este país tenha perdido cerca de 26,6 a 27 milhões de pessoas durante a guerra, o que representava aproximadamente 13,7% da sua população em 1940. Tais perdas englobaram tanto militares quanto civis, sendo que cerca de 8,7 milhões eram soldados mortos em combate, enquanto o restante se deveu a massacres, fome, doenças, trabalho forçado e outras consequências diretas do conflito, ou seja, na sua maioria civis inocentes, como os que hoje morrem em Gaza, às mãos dos que são acerrimamente defendidos pelos netos dos que praticaram tão vil terror contra a URSS.

Sobre os cadáveres de parentes. Frente Ocidental. Setembro - novembro de 1941. Troshkin Pavel Artemyevich. https://russiainphoto.ru/exhibitions/1042/#9

Sobre os cadáveres de parentes. Frente Ocidental. Setembro – novembro de 1941. Troshkin Pavel Artemyevich. https://russiainphoto.ru/exhibitions/1042/#9

Talvez a forma seja mesmo essa. Com 13,7% da população perdida, não deve ser difícil a alguém imaginar que não existia um único cidadão soviético, um único cidadão ex-soviético e, mais certamente ainda, nenhum russo ou bielorrusso, que não tenha gravado na sua estrutura mental, familiar, social, carnal, o peso do drama que viu o seu ponto final no dia 9 de Maio de 1945. Nenhum. E se alguém tiver dificuldade em visualizar o que foi tamanha destruição e mortandade, não precisará de ir muito longe no tempo. Uma vez mais, qualquer um de nós voltou a ter hoje o negro privilégio de vivenciar e assistir, desta feita ao vivo e a cores, em uma pequena amostra territorial, do que há-de ter sido o dano infringido pelo terror nazi à então URSS. Com as suas quase 100.000 mortes e outros tantos desaparecidos, cerca de 10% a 15% da população de Gaza já terá sido dizimada pelo exército sionista. Alguém pode pedir a um cidadão de Gaza que não sinta tão grande tragédia? Para quem tiver dificuldade em perceber o que custou o terror nazi ao povo russo e soviético, que ligue a TV!

Cadáveres de prisioneiros de guerra soviéticos. Local e data desconhecidos. https://encyclopedia.ushmm.org/content/ru/gallery/mosaic-of-victims-an-overview-photographs

Cadáveres de prisioneiros de guerra soviéticos. Local e data desconhecidos. https://encyclopedia.ushmm.org/content/ru/gallery/mosaic-of-victims-an-overview-photographs

O problema é que o terror nazi, filho predilecto do fascismo, irmão do sionismo, como muito bem provaram Cinthya Chung e Mathew Heret nos seus profundíssimos trabalhos sobre o tema, versões de uma opressão engendrada nos clubes selectos de Londres e nas caves obscuras dos Sirs ingleses,  foi apenas um capítulo – o mais horrendo – do sofrimento com que o bloco imperialista ocidental quis punir um povo que teve a veleidade de produzir algo tão grandioso como a Revolução Russa e não se contentar com ela, mas levar avante as mais profundas transformações sociais que o mundo viu, em tão pequeno espaço temporal.

Por terem tido a veleidade de desafiar o imperialismo ocidental que amordaçava e manietava a Rússia pré-revolucionária, os povos russo e soviético foram obrigados a conviver com invasões sucessivas do seu território perpetradas por 14 potências imperialistas (1917-1922). Tendo sobrevivido a essa ameaça mortal e a todas as que se lhe seguiram, mascaradas sob muitas formas, a ameaça nazifascista foi a que lhe foi preparada com mais afinco.

O ódio, a raiva, a arbitrariedade, discricionariedade e a violenta voluptuosidade com que o exército nazi “premiou” a população soviética só pode ser entendida à luz da frustração e humilhação com que o Ocidente foi obrigado a alimentar o monstro nazi, para então o atirar à jovem pátria soviética.  A ameaça de perda de um prémio apetecido, foi transformada num ódio tão profundo como o que hoje tenta isolar a Federação Russa e classificar o seu líder – Vladimir Putin – como o mais sanguinário tirano da História humana. O Nazismo, como o Banderismo, são ambos filhos dessa ganância, são ambos filhos desse ódio.

Os corpos de guerrilheiros soviéticos enforcados e uma placa dizendo "Não tire fotos!" (“Fotografieren proibido!”). Outra placa contém um texto em alemão e uma tradução em russo: “Somos bandidos, matamos e roubamos não apenas soldados alemães, mas também cidadãos russos”. https://xn--80aabgieomn8afgsnjq.xn--p1ai/fotografii-poveshennyh-kak-trofei-naczistskie-kazni-sovetskih-zhitelej/

Os corpos de guerrilheiros soviéticos enforcados e uma placa dizendo “Não tire fotos!” (“Fotografieren proibido!”). Outra placa contém um texto em alemão e uma tradução em russo: “Somos bandidos, matamos e roubamos não apenas soldados alemães, mas também cidadãos russos”. https://xn--80aabgieomn8afgsnjq.xn--p1ai/fotografii-poveshennyh-kak-trofei-naczistskie-kazni-sovetskih-zhitelej/

Daí que seja tão injuriosa como justificada a sanha raivosa com que o Ocidente, através dos olhos de figuras acéfalas, olha para as solenes comemorações do Dia da Vitória. A Federação Russa, ano após ano, impede o Ocidente de esquecer o mal que lhe fez, o mal que fez ao mundo e à Humanidade. Com essa lembrança, a Federação Russa, âncora actual desse combate ancestral contra a tirania imperialista, por mais que também a classifiquem como tal, lembra também ao Ocidente o seu caracter eminentemente criminoso.

Quando a repetição histórica é uma característica dos crimes ocidentais (pilhagem, escravatura, guerras mundiais, sanções, embargos, guerras por procuração, revoluções coloridas, destruição de países), tal significa que o crime não é um acidente na História do Ocidente dominado pela cultura anglo-saxónica. É uma característica que lhe é inerente e que deve ser relembrada.

Ao observamos as ameaças de Zelensky a quem participa nas comemorações do Dia da Vitória, as ameaças de punição de Kaja Kallas para os líderes de países candidatos à adesão à UE que participem nas comemorações de Moscovo, verificamos que esta Europa quer esquecer-se dos seus crimes, quer apagar os factos, a História, que tão grande embaraço lhe causa. É interessante sentir que Ursula Von Der Leyen e companhia, quando confrontados com tão significativa data, se comportam como alguém que, lembrado das suas vergonhosas raízes, ao invés de se mostrar humilde e merecedor de perdão, tenta libertar-se delas, da pior das formas possíveis: através do esquecimento alheio e do ataque às vítimas!

Mas como fazê-lo quando quem lho lembra é, de todos os países europeus, não apenas o maior, mais rico e poderoso, como o que mais sofreu com a ofensa? Como resistir – e combater – um oponente que reiteradamente faz questão, não apenas dignificar os seus mártires e respectivos descendentes, como de mostrar a todos, aos sete ventos e aos cinco continentes, a conduta vergonhosa a que o Ocidente oligárquico, capitalista, neoliberal, é capaz de chegar quando se trata de defender os seus ilegítimos interesses?

E como poderia a Rússia esquecer-se de tal ofensa? Apenas e só a União Soviética foi responsável por mais da metade de todas as mortes ocorridas na Segunda Guerra Mundial, que totalizaram cerca de 50 milhões globalmente. A Rússia, só por si, terá ficado com mais de 1/3 à sua conta. Como poderia a Bielorússia não participar no Dia da Vitória quando perdeu cerca de 25,3% de sua população?

Exemplo do infame esquecimento que a EU e EUA querem imprimir sobre o passado é o da Ucrânia. Tendo perdido cerca de 16,3% da sua população, este país que não existiria sem a URSS, é hoje usado num duplo sentido. Por um lado, alvo de traição pelas suas elites oligárquicas, volta a ser armado e fanatizado, tal como o havia sido a Alemanha nazi, para ser atirado à Federação Russa. Pegando nos resquícios históricos do colaboracionismo nazi, o mesmo que alimenta a loucura nazifascista que reemerge na Polónia, Estónia, Lituânia, Finlândia, Letónia e na própria Alemanha, os EUA, auxiliados pela sempre solícita UE, não apenas recriaram o ambiente bandeirista da Segunda Guerra Mundial, como transmitiram o vírus a uma parte importante da população ucraniana e, mais grave ainda, a toda a UE.

Na Ucrânia actual assistimos a tudo o que a UE gostaria de fazer à Rússia, quando lhe jogasse a mão: proibir-lhe os partidos patrióticos, como fez o Banderismo na Ucrânia, encerrar-lhe os órgãos de comunicação social e perseguir-lhe a língua, religião e cultura, como fizeram a Ucrânia bandeirista e a UE de Von Der Leyen.

A Ucrânia é hoje também o laboratório vivo do processo de revisionismo e reescrita histórica. As vítimas passaram a agressores e os agressores a heróis. Estátuas de criminosos de guerra e genocidas, inclusive de ucranianos e judeus, passaram a erguer-se no país. Símbolos nazis foram gravados a letras de ouro à vista de todos, perante o total acriticismo ocidental. A Alemanha que pune criminalmente a utilização de símbolos nazis, esquece-se do seu vergonhoso passado quando vai a Kiev. Em Kiev, ao invés de responsabilizada e relembrada dos crimes cometidos, para que nunca mais se cometam, ao invés, é idolatrada e a sua história recuperada.

Tomada de Berlim. https://rodina-history.ru/photo/2024/05/05/3ce5c63c4d13b0a.html

Tomada de Berlim. https://rodina-history.ru/photo/2024/05/05/3ce5c63c4d13b0a.html

O mecanismo é simples e foi usado de forma muito repetida. Primeira compara-se o nazi-fascismo ao comunismo e, diabolizando o segundo, normaliza-se o primeiro; depois, compara-se a URSS à Alemanha nazi e, diabolizando a primeira, recupera-se a segunda. A partir de então fica a via aberta para a reescrita da História e para o esquecimento colectivo do passado.

O sistema está tão aperfeiçoado que já não é apenas na Ucrânia que se esquecem os crimes que a própria sofreu às mãos do imperialismo ocidental.  É no próprio Japão, país vítima de duas bombas atómicas ali lançadas pelos EUA, de duas tecnologias diferentes, para que não restassem dúvidas sobre a que melhor cumpriria os desígnios belicistas a partir de então prosseguidos. Neste Japão esquecido do seu passado, da sua história, do seu sofrimento, o Primeiro-ministro é capaz de falar uma hora sobre Hiroshima e Nagasaki, sem nunca falar de quem lançou tais bombas e, no final, falar apenas de quem as não lançou: a Rússia.

Se dúvidas houvessem sobre a eficácia de tal método, vejamos como a UE apaga hoje Gaza da sua memória, quando Von Der Leyen se oferece para ajudar Israel a apagar fogos que, segundo consta, os próprios colonos que ocupam à força território palestino, fizeram propagar. Veja-se como uma alemã de gema, que apoia a mais vil renascença histórica do nazismo na Ucrânia, se mostra tão solícita a “ajudar” um povo que foi uma das principais vítimas da ideologia que ela hoje apoia e tenta esconder dos olhos mais atentos.

Atrocidades nazistas na Ucrânia durante a Grande Guerra Patriótica. https://rodina-history.ru/photo/2025/01/21/c7a0c4b76fabb47.html

Atrocidades nazistas na Ucrânia durante a Grande Guerra Patriótica. https://rodina-history.ru/photo/2025/01/21/c7a0c4b76fabb47.html

E o que dizer de um Ocidente que apoiou o apartheid na África do Sul, aparecer depois a idolatrar Mandela, para depois novamente poder apoiar outro apartheid em Israel? Que bom é poder praticar crimes e depois, ao invés de ser punido, punir e culpar as vítimas e auto anunciar-se como herói salvador. Que bom é poder, uma e outra vez, poder destruir nações inteiras, sancionar, embargar, e acusar outros de o fazer, aparecendo como salvador. Que fantástico é poder ingerir em processos eleitorais alheios, à vista de tudo e todos (como na Geórgia em que altos responsáveis da UE desfilaram em manifestações da oposição) e acusar outros de fazer aquilo que se diz não ter feito. Como é bom ter o poder de anular eleições e impedir candidatos de concorrerem e, ao mesmo tempo, sem um pingo de vergonha, chamar ditador a quem é eleito pelo seu povo e libertador a quem se perpetua no poder, tendo caducado o seu mandato.

Este Ocidente que se julga dono da História, que de uma assentada faz a sua auto-penitência, não para que aprenda alguma coisa com ela, mas apenas para que se sinta livre para praticar, uma e outra vez, os actos que o deveriam envergonhar, quer fugir do convívio com a lembrança repetida dos seus crimes. É isso que procuram EUA e UE de cada vez que se mostram incomodados com a comemoração do 9 de Maio como o Dia da Vitória. Afinal, a cada comemoração, a Rússia lembra a todo o Ocidente, a todo o mundo, que não apenas sabe quem cometeu os crimes, como demonstra toda a sua força e resolução para que tais crimes não voltem a ser perpetrados.

A cada Dia da Vitória é como se o povo russo dissesse aos seus algozes: eu sei quem vocês são, sei o que pensam de mim, sei o que querem e aviso-vos de que, se cá vierem, vão ter a punição que merecem. Vejam esta parada, vejam este exército vitoriosos, vejam este orgulho…. Vejam o que vos espera, se voltarem outra vez a tentar fazer de nós os vossos escravos.

Esta é a razão pela qual a UE está tão impregnada de ódio e tão afundada no Titanic ucraniano. O instrumento que criou para calar este “malcomportado” aluno russo, este insubmisso escravo, este aprendiz indisciplinado da gloriosa civilização liberal, está a fracassar de forma contundente. Se os EUA de Trump tentam escapar através da própria emulação na qualidade de “mediadores” 2.0 (o 1.0 é na Palestina), à UE nada mais resta do que a vitória, ou a derrota. Tal como o original havia levado a Rússia quase à derrota, também o Ieltsin ucraniano está quase a consegui-lo.

E é aqui que esta gente se torna perigosa. Gente mimada, habituada a ter tudo à sua maneira, “educada” nas melhores escolas e universidades que o dinheiro pode comprar, desfilando nos órgãos de comunicação social que a oligarquia pode dominar e beneficiando da manipulação que as melhores agências de comunicação podem vender, viu serem desmontadas todas as suas estratégias de desestabilização do seu prémio mais apetecido: a Rússia. Mas a Rússia não apenas desmontou a armadilha que lhe estava dirigida; a Rússia remontou a armadilha ao contrário! E de que forma! Não a conseguindo desmontar, é a sua própria existência que fica em risco. Interessante é assistir ao feitiço que se vira contra o feiticeiro. A UE poder destruir-se pela armadilha que havia criado para partir a Rússia aos bocados.

Mas não se fica por aqui a afronta. Quando constatamos que Ibrahim Traoré – qual herói de uma jovem África – se desloca a Moscovo para participar nas comemorações do Dia da Vitória, não podemos senão pensar que, uma vez mais a Pátria russa enterra uma espinha na garganta daqueles que todos os males pensaram poder fazer e nenhuma penitência ter de praticar. Ao receber o jovem e promissor chefe de estado do Burkina Faso, que fez mais pelo seu povo num ano – como nacionalizar o ouro e pagar a dívida soberana – do que os fantoches financiados pela França, Vladimir Putin volta a afrontar as mesmas elites que foram responsáveis pelo terror nazi-fascista. Neste caso, do “herói” nacional francês, Napoleão.

E não reescrevam a História. Foi a bandeira da URSS – e não outra -, que foi hasteada no alto do Reichtag com a tomada de Berlim aos nazis em 1945.

Não sendo o mesmo país que era a URSS, esta afronta, acompanhada por outros resistentes do imperialismo e da mais impune e desumana repressão de que é capaz, Cuba, Venezuela, Coreia do Norte (que sofreu às mãos dos EUA níveis de terror similares aos que sofreu a URSS ás mãos do nazifascismo), Irão e muitos outros, a Rússia volta uma vez mais a afirmar-se como bastião e refúgio de povos oprimidos pela ganância neocolonial. A Rússia volta a dizer ao Ocidente: enquanto eu existir, serão obrigados a viver e a lembrar a vossa vergonha!

E é com esta vergonha que os EUA e a EU não querem conviver. O Dia da vitória para a Rússia, equivale ao dia da vergonha para o Ocidente!

Fonte aqui

O paradoxo ocidental da ineficiência: quanto mais crises pagamos, mais crises enfrentamos

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 15/04/2025, Revisão da Estátua)


A nossa “crise” é só uma: fazermos crescer o monstro da ineficiência sistémica que nos asfixia.


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A imposição de políticas proteccionistas pelos EUA e, em parte, pela UE, aparentemente motivadas por objectivos geoeconómicos apresentados como legítimos (reindustrialização), é responsável por um paradoxo da ineficiência do investimento, que deixa antever, uma vez mais, o real caracter que se esconde por detrás das agendas ocidentais: despejar dinheiro sobre a economia, afunilando os recursos económicos disponíveis para uma acumulação de riqueza sem paralelo na história humana, promovendo um sistema cada vez mais ineficiente e que, de tão viciado em rendimentos, tende a optar sempre pelas estratégias mais dispendiosas e, consequentemente, mais desastrosas para os nossos destinos colectivos. Quem o diz não sou eu, é a Golden Sachs, no seu relatório “Carbonomics – Tariffs, deglobalization and the cost of decarbonization”.

Este comportamento, visível, especialmente desde o início do século XXI, acelerou com a crise económica do subprime, ao abrigo da qual, ao invés de se punirem e responsabilizarem os verdadeiros culpados pela especulação desenfreada, os poderes instalados em Washington e os seus servidores na EU, FMI, BCE e Banco Mundial, optaram antes por transferir a culpa para os povos do Sul, nomeadamente do sul da Europa, plantando nas suas cabeças o preconceito de que teriam andado a “viver acima das suas possibilidades”, ao passo que, através de uma política de choque austeritário, não só pilharam os recursos nacionais disponíveis (empresas públicas e recursos fiscais) para fazer face à urgência dos “credores”, como ainda despejaram sobre as economias ocidentais triliões de euros, alimentando o monstro voraz que se esconde por detrás da economia de casino na sua fase gangsterizada.

Como seria de esperar, nada disto resolveu problema algum. Bem pelo contrário! Alimentou-se o monstro da ineficiência e da insensatez, com o único objectivo de promover a circulação, cada vez maior e mais rápida, de capital com destino à acumulação. Como vieram a demonstrar crises posteriores, o caso da Covid 19, da guerra da Ucrânia ou, mais recentemente, da “crise da segurança”, este monstro sugador de recursos produzidos pelo trabalho, tornou-se especialista em inventar “crises”, cuja urgência, gravidade e caracter, precedem sempre a anterior, obrigando, sem excepção e de forma tão repetida quanto previsível, a desviar recursos que outrora eram destinados à educação, habitação, saúde ou segurança social.

Como referiu no canal Substack, Another Angry Voice, num dos seus artigos, chegámos à fase final do capitalismo. Nos últimos 35 anos (pós-URSS) assistimos a uma aceleração tal do sistema capitalista ocidental (o núcleo central do domínio deste modo de produção), que passámos da social democracia – a qual, apesar da sua degeneração já nos anos 90, ainda conseguia reter uma parte importante dos recursos produzidos para serviços públicos -, para o neoliberalismo e, mais recentemente, para uma versão ainda mais brutal deste, à qual Varoufakis chamou de “Tecnofeudalismo”, mas que não passa de capitalismo monopolista – Sam Altman da Open AI dizia que fazia parte daqueles que trabalham para o monopólio, pois a concorrência é para os fracos -, para agora entrarmos na fase “gangsterista”. O resultado é simples: não existe uma única pessoa no Ocidente que me consiga demonstrar que a vida dos trabalhadores desta região (a esmagadora maioria da população) no essencial melhorou, em qualquer que seja o aspecto considerado. Não só não melhorou, como piorou em todos!

A explicação é fácil, de quantitative easing em quantitative easing, tornou-se demasiado fácil à oligarquia exigir dinheiro aos estados e vê-lo jorrar para os seus bolsos em quantidades absolutamente loucas, agravando o nível de endividamento dos países ocidentais, que por sua vez leva ao déficit e, por sua vez ainda, leva a mais austeridade, num processo rotativo de constante esmagamento e sucção dos recursos destinados aos serviços públicos, aos serviços para todos. Atente-se no caso alemão. Um governo constituído pela CDU aprova uma revisão constitucional irregular, para aprovar uma derrogação da regra do deficit das contas públicas, para que se possa gastar mais dinheiro na guerra. Esta CDU, ao tempo de Merkel e Shoebel, era o mesmo partido que, em plena crise do subprime obrigou os PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia, Espanha) a aplicarem uma austeridade brutal, provocando miséria, fome, mortes nas urgências dos hospitais, porque não podiam haver excepções às “contas certas”. Há quem chame a isto “democracia”.

Mas ainda não tínhamos recuperado a respiração de tanto esticão orçamental e já os estados-membros, e a EU, se preparam para fazer jorrar mais uns triliões para as “empresas” poderem enfrentar os efeitos das tarifas de Trump. O governo português, que se prepara para gerir um déficit orçamental (governo da direita liberal (PSD) com a direita reaccionária (CDS) e com apoio da direita ultraliberal (IL)), o que já não sucedia há mais de 8 anos, vem também destinar mais 10 mil milhões de euros para enfrentar o problema. Ou seja, são os trabalhadores quem irá pagar tudo mais caro, mas é o patronato quem leva os subsídios. Enquanto isto, cada vez mais trabalhadores portugueses, incluindo licenciados, vivem e dormem na rua.

O que esta realidade demonstra é que, toda a dificuldade, qualquer ténue turbulência, é amplificada a níveis inauditos por um exército de “órgãos de comunicação social”, comentadores, analistas, politólogos, consultores, com a cartilha tão bem estudada que mais parecem um exército de drones saído de A Guerra das Estrelas, com a função de gerar o alarmismo, o drama, o medo e a consternação, de forma a justificar mais uma excepção, mais um fundo público, num interminável ciclo de apropriação e concentração.

Os dados não deixam mentir, só a EU destinou 1,17 triliões de dólares para “salvar” a banca, sem que fosse feita qualquer exigência ou contrapartida social. Foi só encaixar e distribuir sob a forma de dividendos aos accionistas. Já durante a crise Covid-19, assistimos a políticas monetárias expansionistas, que beneficiaram, uma vez mais a banca, que se financiava a juro 0% junto do BCE e emprestava a juros comerciais de 10, 20 ou 30%, entregando-se triliões de euros a grandes corporações (só o Plano de Resiliência e Recuperação foram 700 mil milhões de euros sem contar com o que os estados-membros haviam dado durante a crise pandémica).

Com a “guerra da Ucrânia”, para além das “ajudas” ao desgraçado país apanhado nas garras do Tio Sam, a EU destinou fundos avultados para a crise energética do gás, para o aumento dos custos com a energia, nomeadamente para os sectores com “uso energético intensivo”, aprovou incentivos fiscais, subsídios para o restabelecimento de cadeias de fornecimentos e incentivos à transição energética, da “dependência da Rússia” para a “dependência dos EUA”. Tudo isto acompanhado de desregulação do mercado de trabalho, ataques aos sindicatos e silenciamento das vozes dissonantes. Quando Rui Tavares, do Partido Livre (uma espécie de Baerbock à portuguesa, mas com barbas) acusa Victor Orban de atacar o estado de direito, engrossa o movimento daqueles que aprovaram a maior vergonha democrática na europa ocidental desde os tempos do fascismo: a anulação das eleições romenas, o impedimento de candidatos de concorrerem por delito de opinião e a escolha administrativa, pela NATO, de candidatos possíveis, apenas do quadrante pró-Aliança Atlântica, logo na Roménia que nem águas tem no Oceano Atlântico!

O facto é que, já desde os anos 20 do século XX – o período dos barões da máfia – que os EUA já não assistiam a um nível tão elevado de concentração da riqueza ( EUA têm maior concentração de riqueza desde os anos 20 – Instituto Humanitas Unisinos – IHU ). De referir que tal período foi também um período em que se desenvolveu a primeira Red Scare (purga vermelha). Os 0,1% mais ricos têm hoje 14% da riqueza nacional, naquele que é um recorde absoluto. Segundo o próprio FED, a metade mais pobre (trabalhadores mais mal remunerados, desempregados, idosos, crianças…), fica apenas com 2,5% da riqueza nacional, enquanto a metade mais rica (a que vota e sustenta o sistema oligárquico), fica com 97,5% da riqueza (Ricos cada vez mais ricos: nos EUA, o 0,1% no topo agora detém 14% da riqueza nacional, um recorde ). Talvez contentes com o nível de democraticidade da coisa, os candidatos dos principais partidos (PS, PSD, IL e Chega), apenas dirigem o seu discurso à “classe média”, nomeadamente quando referem a necessidade de “construir casas para a classe média” (ver em debate entre Pedro Nuno Santos e Mariana Mortágua ontem dia 09/04/2025 e Montenegro e Paulo Raimundo no dia 08/04/2025). Há quem lhe chame “liberdade”.

A adicionar a isto tudo, ainda podemos dizer com grande dose de objectividade que, consideradas as políticas de transição verde e descarbonização no Ocidente, e tomando a “crise” como verdadeira, não apenas os trabalhadores ocidentais pagarão muito do seu bolso, como pagarão para condenar o planeta à morte. É isto mesmo que nos prova o relatório da Golden Sachs que acima referi.

Provam os dados e as conclusões retiradas que as tarifas e incentivos à produção local de tecnologias verdes elevam os custos globais de descarbonização em pelo menos até 30%, contradizendo directamente as metas do Acordo de Paris. Adianta também o relatório Carbonomics 2025 da Goldman Sachs que a tensão criada entre “soberania industrial” e “sustentabilidade ambiental” pode comprometer seriamente a transição energética global.

Ou seja, não apenas despejámos fundos brutais numa transição verde que está agora ameaçada de morte, a não ser que despejemos ainda mais fundos, como teremos de pagar para recuperar industrias que perdemos, apenas e tão só, por causa do neoliberalismo globalista e da financeirização da economia ocidental. Reindustrialização que agravará a transição ambiental que financiámos. O contribuinte europeu financia a doença, a cura, o tratamento e a eutanásia do doente!

Estas conclusões estão amplamente suportadas no relatório em causa, do qual é possível extrair que o “proteccionismo verde” da EU/EUA, que resultou em tarifas aos veículos eléctricos, baterias, painéis fotovoltaicos e turbinas eólicas, tem um custo oculto brutal e que raramente é quantificado pelos governos.  A produção local de painéis solares e baterias, na Europa e EUA, custa 58% a 115% mais que as importações chinesas. Para mitigar essa diferença, seriam necessárias tarifas médias de 115% sobre painéis solares e 55% sobre baterias de veículos eléctricos – medidas que inflacionariam o custo total de descarbonização global em 30%. Ou seja, tanto dinheiro gasto para sermos colocados perante um dilema impossível: ou descarbonizamos, ou ficamos sem trabalho! Eis a eficiência das políticas ocidentais em todo o seu esplendor! Como sempre, pagaremos para as duas, para nada se conseguir.

Por outro lado, tendo deixado transitar para o Oriente, em função de uma visão espartilhada, horizontal, deslocalizada, da economia, daquilo que se considera por “Tecnologias maduras (solar, baterias)”, o facto é que hoje, segundo a GS, as inovações chinesas em 2024 representaram uma redução de custos em pelo menos 30%. Ou seja, os povos europeus pagaram triliões para financiar o seu sistema económico e o resultado é que criaram um monstro da ineficiência e do desperdício, viciado em dinheiro fácil sem metas e contrapartidas. Acresce que, agora, dizem-nos que vamos ter de o refinanciar, desta feita, para, ao abrigo de um suposto “reshoring” (trazer para a nossa costa) dessas tecnologias, passarmos nós a produzir o que os outros, também por nossa culpa e pela melhor governação deles, produzem mais, melhor e mais barato que nós.

Há um exemplo concreto desta situação que é paradigmático: uma pequena Câmara municipal em Portugal, gerida pelo PSD (partido liberal ou neoliberal), no norte do país, numa pequena cidade chamada Monção, faz um alarido enorme por ter comprado 5 autocarros eléctricos por 2,1 milhões de euros. Ou seja, mais de 400 mil euros cada um. Ora, estes autocarros podem ser comprados na China a menos de 60 mil euros cada. Assim sendo, resta perguntar: então vamos pagar mais para quê? Porque são feitos na EU? Ora, este argumento só valeria se o fizéssemos com tudo, mas como no que interessa aos interesses oligárquicos continuamos a comprar na China e em todo o lado, só resta uma conclusão óbvia: é que isto é mesmo para ser assim e trata-se de um imenso jackpot aos gangsters do greenwashig (lavagem verde) que operam no Ocidente.

Mas o relatório da GS ainda aponta outra contradição que corrobora precisamente isto que disse, ou seja, o desenvolvimento de tecnologias brutalmente dispendiosas, mas que justificam os enormes subsídios atribuídos e a rotação de enormes quantidades de capital, que engordarão ainda mais as contas offshore, detidas por uma nova categoria de sanguessugas capazes de sugar continentes inteiros, designadas de super-ricos. Trata-se do desenvolvimento de “Tecnologias emergentes (hidrogénio verde, SAF)” que provocam a estagnação ou alta de custos por falta de escala global associada. A incapacidade para respeitar e negociar com a India, China, Rússia e todos os BRICS, esquemas à escala global, a birra em querer dominar toda a indústria de ponta e em querer controlar as cadeias de valor e suprimentos, faz com que o Ocidente esteja a investir em quimeras que têm como função extorquir mais e mais dinheiro aos seus contribuintes, sabendo que não são competitivas nem escalonáveis. Afinal, as designadas políticas de “friend-shoring” (trazer para os amigos) concentram investimentos em tecnologias menos competitivas, enquanto penalizam sectores onde a cooperação internacional poderia acelerar ganhos de eficiência. E não sou eu que o digo, é a Golden Sachs.

Por fim, para agravar este paradoxo geopolítico-climático, a UE e os EUA destinam US$ 1.7 triliões/ano em subsídios verdes, mas cada dólar investido em produção local de energia solar tem eficiência climática 58% menor versus as importações asiáticas. Ou seja, esta teoria de que temos de ser nós a fazer o que outros já fazem, só porque pensávamos, em primeira mão, que iriamos ganhar a corrida às tecnologias verdes e ficar com o jackpot inteiro, está a fazer-nos embarcar num paradoxo da insustentabilidade: quanto mais dinheiro colocamos nas tecnologias verdes em concorrência à Ásia (para não dizer China), menos eficiência carbónica e ambiental temos! Fantásticos governantes! É o milagre da subtracção!

O facto é que a transição verde exige um reequilíbrio entre segurança económica e eficiência climática. Como mostra o Carbonomics 2025, a fragmentação das cadeias de suprimentos verdes não só encarece a descarbonização como retarda o ponto de inflexão tecnológico necessário para sectores difíceis de abater, como o caso dos sectores ligados às energias fósseis. Não apenas gastamos mais dinheiro, como tornamos tudo mais difícil e tardio. Como diz a própria GS, a solução não reside no isolamento, mas na arquitectura de novos pactos industriais-globais que harmonizem interesses nacionais com imperativos climáticos, económicos e sociais, acrescento eu. Ou seja, ao invés de guerras frias e quentes, devemos proteger-nos, sim, mas também cooperando. Algo que o Ocidente deixou de saber fazer com quem não lhe agrada. Se é que algum dia soube.

O relatório da GS evidencia que as políticas proteccionistas ocidentais, de tão bem desenhadas que foram (talvez tenham sido desenhadas pelos mesmos que desenharam as deslocalizações, privatizações,etc) criam um ciclo vicioso de custos elevados e dependência de subsídios estatais através de três mecanismos principais:

  1. Subsídios industriais como compensação artificial, pois as políticas de “reshoring” (relocalização industrial) exigem investimentos massivos para tornar viáveis sectores estratégicos em território nacional. Por exemplo: a UE destinou US$ 1.7 triliões/ano em subsídios para tecnologias verdes, porém com eficiência climática 58% inferior às importações asiáticas, e os EUA aplicam tarifas de até 54% sobre produtos chineses, mas precisam compensar empresas locais com créditos fiscais equivalentes a 30% do custo de produção. Estes mecanismos geram um efeito de “custos duplos”, pois protegem indústrias menos competitivas e transferem o ónus financeiro para os contribuintes. Fantástico negócio.
  2. Fragmentação de cadeias de suprimentos, pois o proteccionismo força a duplicação de infra-estruturas críticas, por exemplo: os painéis solares custam mais 115% que as importações, aumentando o seu preço em 40% para os sistemas residenciais; as baterias para VE custam mais 55% do que os fornecedores globais, aumentando o custo médio dos veículos em 8.000$. Esta fragmentação exige financiamentos estatais contínuos para manter a viabilidade de sectores estratégicos, criando dependência crónica de fundos públicos. Mas depois, ouvem-se os Trumpistas, o André Ventura do partido mais reaccionário em Portugal, os Orbans, Melonis e muitos outros a dizer, que são os imigrantes quem leva o dinheiro e são os ciganos quem recebe mais subsídios.
  3. Efeito dominó geopolítico, pois as tarifas ocidentais desencadeiam retaliações que amplificam custos sistémicos, amplificados, por exemplo, com a resposta chinesa, da EU, BRICS e outros. Cada medida proteccionista gera novas distorções de mercado, obrigando os estados a injectar recursos adicionais para neutralizar impactos negativos não previstos.

Não que eu seja contra todas as formas de proteccionismo, muito pelo contrário. Contudo, este proteccionismo, uma vez mais e tal como quando se deu a abertura das economias ocidentais à globalização, não visa proteger os trabalhadores e as suas condições de vida. Visa, isso sim, proteger as condições de acumulação de uma elite cada vez mais rica, que se sente incapaz de competir com aqueles que antes via como inferiores.

A própria paranóia da inteligência artificial generativa é também outro logro que qualquer dia será responsável por nos colocar novamente à luz da vela, para que meia dúzia de iluminados possam usá-la para virtualmente enriquecerem. Como refere também a Golden Sachs no seu briefing semanal, a Inteligência artificial aumentará a procura de electricidade em 165% até 2030. O problema é que é mesmo para ser assim, muito dinheiro público a jorrar para uma área de negócio profundamente ineficiente, como veio provar o DeepSeek, sobre o qual escrevi também no passado.

Em conclusão, se dúvidas havia que este sistema está condenado ao fracasso, vejamos como as várias fases do seu desenvolvimento apenas nos trouxeram à dependência, ineficiência e ao atraso em relação aos competidores que tanto parecem assustar a nossa oligarquia.

Quanto mais medo têm da China e da Rússia, mais nos conduzem ao paradoxo da ineficiência ocidental: quanto mais se investe o dinheiro dos contribuintes, mais atrasados ficamos e mais medo temos! Uma espiral destrutiva imparável e sem fundo à vista.

E como se não estivessem contentes, como se não tivessem falhado todas as estratégias trazidas até aqui, como se o neoliberalismo não tivesse deslocalizado a nossa capacidade industrial instalada e know-how, como se o monopolismo tecnológico não tivesse empobrecido milhões e milhões de trabalhadores e como se o gangsterismo capitalista não tivesse usado todos os fundos públicos, a ele destinados desde o início do século, apenas para enriquecer uma minúscula fracção populacional, agora, querem obrigar-nos a pagar mais 800 mil milhões de euros porque identificaram mais uma “crise”. O resultado será simples: quanto mais medo tivermos da Rússia, da China, do Irão, da Coreia do Norte, mais dinheiro gastaremos, tudo para descobrir, no final, que eles continuam sempre a ser mais poderosos.

O facto é que a nossa “crise” é só uma: fazermos crescer o monstro da ineficiência sistémica que nos asfixia. Eis o paradoxo da ineficiência ocidental: quanto mais crises financiamos, mais crises enfrentamos. Até perecermos de vez!

Fonte aqui

Zelensky e a «cortina de guerra»

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 03/04/2025)


Desculpar Zelensky pelo funcionamento degradante do estado ucraniano, consiste em obscurecer o sofrimento daqueles que ele todos os dias condena à guerra.


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Os dados recentemente divulgados pelo Centro de Sondagens Razumkov, para o período de fevereiro-março de 2025, revelam um fenómeno político intrigante: os ucranianos, aparente e tendencialmente, continuam a confiar no Presidente Volodymyr Zelensky, contudo, tendem a desconfiar profundamente do governo, do parlamento, da polícia e até do próprio Estado – na maioria dos casos de forma massiva. Esta dicotomia sugere uma estratégia eficaz de “vitimização selectiva” — em que o Presidente é retratado (e caracterizado) como um líder que luta contra um sistema disfuncional, intrinsecamente corrupto, escapando assim ao escrutínio que recai sobre outras instituições.

São vários os métodos utilizados para o conseguir, mas nenhum deles oculto ou imperceptível. Tudo é feito às claras, quer dentro da própria Ucrânia, através da comunicação emanada da própria presidência e dos órgãos de comunicação social mainstream, muitos financiados pela USAID e outras organizações ocidentais, mas também através da comunicação que entra para dentro do país através dos órgãos de comunicação ocidentais, reportando peças informativas e comunicações provenientes das instituições governativas patrocinadoras do regime de Kiev. Trata-se de uma estratégia comunicacional interdependente, a qual visa legitimar o regime de Kiev aos olhos de ucranianos e povos europeus, encerrando ambos numa bolha narrativa fechada e sem crítica ou contradição externa relevantes.

O facto é que esta estratégia é tremendamente eficaz e visa provocar uma dissociação entre o “líder” e as restantes Instituições, mostrando os dados da referida sondagem que Zelensky mantém uma elevada aprovação, em torno dos 57,5% (entre os que confiam totalmente (17,3%) e os que tendem a confiar (40,2%)), ao passo que o Parlamento (com um total de 17,8%) e o governo (com um total de 22,5%) raramente ultrapassam 20 a 30% de confiança, tomando em consideração as sondagens de períodos anteriores.

Como que a deixar antever que tipo de regime está instituído na Ucrânia dos nossos dias, quem também é poupado à desgraça, deixando denotar a eficácia da propaganda de guerra e a necessidade de manter uma economia belicista, são as Forças Armadas e os voluntários (leiam-se “mercenários estrangeiros ou nacionais”), obtendo um nível de confiança acima dos 80%, em contraste directo com as instituições civis e supostamente “democráticas”.  Para um estado que se afirma como a última barreira da democracia face à autocracia, a desconfiança avassaladora para com as instituições democráticas, não é lá grande cartão de visita. Para mais, quando o Presidente tem o seu mandato caducado e quando questionados os inquiridos sobre a necessidade de eleições, apenas 22% tendem a referir as mesmas como necessárias. Ou seja, um sistema “democrático” cujo “povo” valoriza um presidente com mandato caducado, não pretende eleições e desvaloriza as instituições civis do país.

Mesmo as instituições do poder local, os tribunais, a polícia, o ministério público, não passam no crivo da confiança. Com excepção do Presidente, as instituições militares ou militarizadas (antes grupos nazis como Azov e outros), a Igreja e os serviços de segurança (SBU), todos os outros raramente escapam a uma imagem tremendamente negativa e nenhum deles atinge níveis elevados de confiança, muito superiores a uns meros 50%. A própria “mass media” ucraniana não escapa à avaliação negativa, com 41,2% de inquiridos que dizem tender a acreditar ou acreditar totalmente neste serviço. É como se o povo ucraniano fosse levado a culpar-se a si próprio (professores, políticos, polícias, funcionários públicos, jornalistas…), como forma de fazer sobressair a santidade daqueles que, de facto, o governam. Toda a base e camadas intermédias da população são levadas ao auto-sacrifício como forma de preservar a vida da cúpula.

Este trade-off, ao abrigo do qual o povo ucraniano se responsabiliza por tudo o que falha, desculpando a cúpula pela desgraça em que vive, inclusive premiando acções que o condenam à morte, deixa-nos desconcertados perante as explicações que pode suscitar: ou o estado ucraniano não é uma democracia, na medida em que mantém uma cúpula irresponsável, incapaz de responder às necessidades populares, fazendo-lhe acreditar que, ainda por cima, a culpa é sua; ou a sondagem do Centro Razumkov não é para ser levada a sério, na medida em que, numa sociedade verdadeiramente democrática, nunca o povo se culparia a si próprio, nomeadamente pelas incapacidades e insuficiências do poder representativo que elege, precisamente, para as ultrapassar. Nessa medida, seja num caso ou no outro, teremos de questionar o verdadeiro papel desempenhado pelo Centro Razumkov.

Independentemente da resposta, estamos, portanto, perante um caso claro de militarismo, autoritarismo e plutocracia, resultante de uma aliança entre as várias facções que compõem a cúpula de poder, composta pela presidência, a qual protege a oligarquia e os seus patrocinadores nacionais e estrangeiros, adicionando-lhe a Igreja, usada para doutrinar, e os serviços de “segurança” para espiar, perseguir e assediar a população.

Aliás, pouco me admirava que os inquiridos tivessem medo de responder a certas questões, com receio de represálias, uma vez que naquele país se vive um clima de intimidação, terror, ameaça e vigilância em massa. O simples falar russo poder originar processos crime, questionar a continuidade da guerra ou criticar o exército e serviços de segurança, a prisão imediata.

São conhecidos os instrumentos utilizados para criar uma narrativa condescendente para com aquele que, afinal, se assume como responsável pelo país. A narrativa de guerra em que Zelensky se posiciona como o “comandante-em-chefe” da resistência, assumindo um vestuário reminiscente do revolucionário guerrilheiro do século XX (o que não deixa de constituir uma contradição filosófica profunda, quando adoptado por um sionista, neoliberal, nazi-banderista), enquanto o governo e o parlamento são associados à burocracia e corrupção pré-guerra, é uma das estratégias de comunicação mais comuns. O Presidente que defende o país, minado pelos poderes corruptos de uma Ucrânia que persiste em não mudar, apesar da vontade do seu Presidente. Quantas vezes ouvimos Ursula von der Leyen dizer que “a Ucrânia tem de mudar”?

Tal vitimização só é possível porque assistimos a uma centralização do poder político sem paralelo na curta história da Ucrânia, chegando ao ponto de Zelensky ter produzido uma lei que impediu qualquer responsável por encetar negociações com o lado russo, convencendo tudo e todos, inclusive socorrendo-se de Think Thank europeus e norte-americanos (como o caso do CIDOB de Barcelona/Espanha), a prosseguir a estratégia de “fazer a paz através da guerra”. Esta centralização foi conseguida através da imposição de uma lei marcial e da suspensão de eleições, criando-se desta forma um escudo de emergência, ou um “escudo de guerra”, em que qualquer falha na política pública passou a ser atribuída às limitações da guerra ou à ineficiência de terceiros. Um pouco como se passou nos países da EU aquando do lockdown do Covid-19, desculpando os governos da sua incompetência e dos danos provocados pelas suas políticas.

De uma forma geral, a estratégia de vitimização que assegura a sobrevivência política de Zelensky assenta em três pilares retóricos:  1.”Estou a lutar contra um sistema podre”, em que mesmo sendo o chefe de Estado, ele distancia-se das instituições, culpando-as por problemas como corrupção, lentidão ou derrota, como sucede tantas vezes quando responsabiliza alguém pelos avanços russos ou pelo colapso de forças militares; 2.”A guerra justifica tudo”, permitindo a constante abertura de excepções e mudanças de narrativa adiando reformas ou eleições e transferindo frustrações para “inimigos internos”, como no caso de Poroshenko; 3.”O Ocidente é lento, mas eu sou o rosto da resistência”, o “embaixador da liberdade”, em que Zelensky capitaliza a simpatia internacional, enquanto a falha na entrega de armas ou ajuda é atribuída a outros (EUA, UE).

Os dados permitem concluir que existe de facto uma transferência de culpas. Temos o caso da desconfiança selectiva traduzida no facto de 75% dos ucranianos (dados de 2023-24) aprovarem a liderança presidencial na guerra e apenas 23% confiam no Parlamento (Razumkov Centre). Mesmo após o desgaste actual, os dados mais recentes demonstram o mesmo tipo de atitude no público. Existe uma crise de representação, mas afecta sobretudo os partidos políticos, ao invés do Presidente, não poupando sequer o partido “servo do povo” que o levou ao poder. Por fim, temos a crise da confiança na ordem e na justiça, com a polícia, os tribunais, o ministério público e as unidades anticorrupção a ficarem pelas ruas da amargura, enquanto o todo poderoso Zelensky é poupado à avaliação negativa.

Este paradoxo, de um Presidente todo poderoso que luta contra as forças malignas internas e externas, contra tudo e contra todos, tão grande que não chega a lugar nenhum e tão poderoso que nada logra conseguir, é típico de regimes, como relatado no livro “The Politics of Dictatorship”. Retirando do mesmo as categorias que constituem o conceito em causa ( culto da personalidade, justificativas históricas aliadas à vitimização, alinhamento religioso, responsabilidade selectiva, manipulação dos quadros legais (estados de excepção), campanhas de relações públicas, militarismo, vigilância e inteligência, etc) rapidamente percebemos que também elas estão presentes no regime de Kiev, um em que os problemas se eternizam, mas se gastam rios de dinheiro em propaganda em torno da santificação das figuras do regime: o Presidente; a Igreja ucraniana; os serviços de “segurança”.

Uma espécie do que Salazar fazia em Portugal com a trilogia Pide, Igreja e Império. Não podemos de falar de um “Deus, Pátria, Família”, porque seria caricato que uma figura que vende o país à Blackrock, sucumbe ao neocolonialismo de Biden e Trump e aposta no wokismo como estratégia de propaganda para as juventudes urbanas europeias, se usasse do patriotismo e da família como símbolos da sua propaganda. Zelensky está mais para a farsa, do que para a tragédia, relembrando a máxima atribuída a Engels.

Mas não se pense que o poder e imagem de Zelensky são legitimados apenas a partir de dentro. A União Europeia, NATO e EUA são talvez os maiores responsáveis pela construção do culto da personalidade de Zelensky e a promoção, a partir de fora, de uma imagem santificada do líder do regime de Kiev.

Não apenas o apresentam como líder-símbolo da resistência europeia como lhe dão constante visibilidade em instâncias ocidentais (apresentadas como “internacionais”), consolidando a sua posição como “a voz da Ucrânia”, não apenas para o exterior, mas também para o público ucraniano, tentando estabelecer uma relação fortíssima entre um orgulho nacional recuperado e a figura do seu presidente, que o recupera no estrangeiro, no civilizado ocidente das ilusões, que tanto o valoriza e tão bem o acolhe. Este acolhimento é constantemente acompanhado por uma linguagem emocional, através da qual “líderes” como Ursula von der Leyen ou Charles Michel frequentemente o premeiam com termos como “coragem”, “sacrifício” e “luta pela Europa”, associando Zelensky a valores transcendentais, acima da política tradicional, os tais “valores europeus”.

Em simultâneo, fazem-no apresentando de forma exaustiva a Ucrânia como vítima e o seu presidente como alguém martirizado, mas tremendamente batalhador. A imagem simbólica de “David contra Golias” vem constantemente à fala, minimizando ou omitindo, de forma agressiva, quaisquer reportagens sobre corrupção ou disfunções governamentais na Ucrânia.  Ao invés, optam constantemente por colocar uma tónica no suposto “sofrimento”, privilegiando imagens de Zelensky em cenários bélicos (frentes de batalha, funerais), reforçando a ideia de que ele “partilha os sacrifícios do povo”, ao contrário de políticos tradicionais. Como ouvimos inúmeras vezes da boca de responsáveis políticos ocidentais, estes dizem admirar Zelensky por não ter fugido de Kiev, por ter ficado no país e por nunca se esconder. Contudo, fazem-no sem quaisquer provas de que de facto o fez. O objectivo é claro, visa construir uma imagem infalível, heróica e sobre-humana de um líder que, afinal, está cheio de falhas, desde logo a sua presença nos Pandora Papers.

A EU também opta pelo esquecimento selectivo quando esconde, de forma muito ostensiva, os actos profundamente negativos de Kiev, quer com consequências directas sobre estados membros da EU, quer sobre os seus povos, como nos casos em que Zelensky sabotou os fornecimentos de gás à Europa via gasoduto de Druzhba, ou, mais recentemente, quando mandou estoirar com a estação de bombeamento de Sudzha, garantindo que a Eu não pode receber de gás por essa via, pelo menos nos próximos dois anos e meio. A quem caberia essa escolha? A Zelensky? Ás agências de segurança que obscuramente intervêm junto de Kiev, ou aos povos europeus? O mesmo fazem os “líderes” europeus quando o regime de Kiev ataca centrais nucleares como a de Zaporízia ou pratica atentados terroristas na Rússia ou em África. Nestes casos, a EU remete-se ao silêncio, mesmo quando profundamente descredibilizada perante os seus próprios povos e os do Sul global.

Nos casos muito pontuais em que os poderes ocidentais fazem ténues críticas sobre a corrupção ou a necessidade de maior escrutínio orçamental, tais críticas são em regra dirigidas ao governo, parlamento ou oligarcas e não ao caducado presidente ucraniano. Este privilégio que assiste Zelensky, em ficar nas sombras, aquando a desgraça – mesmo em termos militares a NATO/EU tende a culpar-se a si própria e aos seus – e passar à ribalta quando a estratégia logra algum sucesso, estende-se apenas a ele e, através de si, às forças militares. Todas as outras instituições Ucranianas tendem a ter o tratamento contrário, tendo a ribalta nos insucessos e a obscuridade nos sucessos.

Esta estratégia comunicacional é depois replicada pelos órgãos de comunicação social internos, muito dependentes do financiamento externo, inclusive da EU, actuando de forma que quando a EU elogia Zelensky, a imprensa ucraniana (como a Ukrainska Pravda, Kyiv Independent ou canais estatais) usa esses discursos como prova de que a liderança dele é reconhecida internacionalmente, desencorajando críticas domésticas.

Outra forma, utilizada para imunizar ou santificar a imagem de Zelensky, está presente quando a comunicação europeia usa frequentemente o contraste entre a “Ucrânia heroica” com a “Rússia agressora”, mas também, subliminarmente, opondo Zelensky (o líder democrata) às elites políticas ucranianas (as “velhas estruturas”). Toda esta comunicação pré-reflexiva, emocional, ecoa na população, justificando a desconfiança no governo e no Parlamento, mas paradoxalmente, em menor extensão, no líder máximo. É como se Zelensky fosse o mais querido dos líderes, como tantas vezes o ocidente gosta de ridicularizar a propósito de outros, bem mais indefesos, desapoiados ou vítimas.

Esta atitude conduz o povo ucraniano a uma armadilha da consciência, uma prisão psicológica, que funciona como uma chantagem. Se a UE trata Zelensky como o único interlocutor válido, os cidadãos ucranianos internalizam a ideia de que questioná-lo pode significar enfraquecer o país perante os aliados—uma narrativa útil em tempos de guerra – fortalecendo os inimigos.

Esta estratégia, como se vê, não dura para sempre. A verdade é que mesmo Zelensky já não conta com os mesmos níveis de aprovação de outrora. Se até há um ano atrás, o caducado presidente ucraniano ainda contava com níveis de aprovação na casa dos 70% (tendo chegado aos 91%), hoje sucede que Zelensky conta apenas com 57,5%, embora 40,2% sejam inquiridos que responderam “tendo a acreditar”. E não podemos deixar de aqui adicionar, nestes dias de amargura para os centros de sondagens, que o Razumkov Centre é financiado pela EU, através do programa Horizon, o que não deixará de ter a sua importância. Todos sabemos como e onde fazer sondagens que tenham um ou outro resultado. Tal técnica não foi inventada nem terá fim na Ucrânia.

A fadiga de guerra, causada pela deterioração da situação militar, a conscrição obrigatória e o desespero de mães e esposas pela perda dos seus; a falta de Alternativas, ligadas à ausência de eleições impede a renovação política, mas também cristaliza o descontentamento—que pode explodir numa situação pós-guerra -, o que não deixará de estar nas contas de Kiev e seus promotores.

Como demonstram os casos da Geórgia, Moldávia, Eslováquia, Bulgária, Arménia ou Hungria, os protestos e alterações recentes mostraram que a “cortina de guerra” não dura para sempre e tem os seus efeitos limitados, principalmente quando os problemas se eternizam e as populações vêem, dia a após dia, o degradar das suas condições de vida. Não é segredo para ninguém que as guerras do Império Russo muito contribuíram para a Revolução Bolchevique de 1917. Mais de 100 anos depois, o ocidente começa claramente a avançar para outro período pré-revolucionário, do qual só se salvarão os que souberem colocar as suas populações em primeiro lugar. Caso contrário, não venham depois atirar com a culpa aos revolucionários e ás revoluções, ou à violência latente provocada por décadas de sofrimento constante.

A oligarquia é especialista em diaboliza-las, mas o acto revolucionário não é mais do que a canalização do desespero para a luta, usando essa energia para mudar um mundo que ameaça avançar cada vez, de forma mais acelerada, para o abismo. Nesse dia, escusam de vir atirar com as culpas às vítimas, quando andam hoje constantemente a desculpa os culpados. Para isto já chega a própria Ucrânia.

Este paradoxo da confiança que a Ucrânia vive, não é mais do que o resultado do que o que disse anteriormente.

Desculpar Zelensky pelo funcionamento degradante do estado ucraniano, mais do que desconsiderar a sua culpa e a própria democracia, consiste em obscurecer o sofrimento daqueles que ele todos os dias condena à guerra, seja a guerra das armas, seja a árdua luta pela sobrevivência num país por ele condenado.

Fonte aqui


O acesso ao site Strategic Culture Foundation, fonte deste artigo e de muitos outros que aqui temos publicado, vai ser bloqueado nos países da União Europeia, Uma vergonha. É preciso acordar. Estamos a ser conduzidos para uma sociedade totalitária, sem liberdade de expressão e com uma censura adocicada, mas tão ou mais eficaz que a censura dos tempos da PIDE de má memória.

Eis o que diz o próprio site para dar a volta aos censores:

“Numa tentativa de restringir a liberdade de expressão e a democracia, a União Europeia decidiu bloquear o acesso de seus cidadãos à página da web da Strategic Culture. A decisão entrará em vigor a partir de 8 de abril.

Para contornar a censura da Internet da União Europeia e obter uma visão precisa e objetiva dos últimos eventos ao redor do mundo, use serviços de VPN onde você pode escolher qualquer país, exceto os membros da União Europeia.”

Estátua de Sal, 04/04/2025