A União Europeia é o reino da incoerência

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 18/03/2025)


Haverá algum momento em que a Europa comece a pensar em si própria? Ou será incapaz do o fazer?


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Macron veio avisar Vladimir Putin de que ESTE “tem de aceitar o cessar fogo”. Já von der Leyen diz estar agradada com a receptividade ucraniana ao cessar-fogo (), enquanto Scholz também não tem dúvidas ao classificar a proposta como uma parte do processo para um acordo mais sólido. Todos eles secundaram, apropriaram, copiaram e reenviaram a declaração de Marco Rubio, quando disse que “a bola está no campo da Rússia”.

Tudo estaria muito bem, não fossem os próprios a dizer o contrário do que agora repetem. Não faltam declarações dos mesmos “líderes” dizendo, há uns meros meses atrás, que não era ainda tempo para negociações de paz, nomeadamente afirmando que não havia qualquer propósito em negociar com Vladimir Putin, ou que apenas Zelensky poderia negociar pela Ucrânia.

A conclusão fundamental é que não podemos confiar minimamente no que esta gente diz. Se até à vitória de Trump a palavra de ordem era a “paz através da força” e até ao último ucraniano, logo a seguir à vitória de Trump, a ordem era a de que teria de ser Zelensky para negociar com os russos. Agora, é Macron o primeiro a dizer que o cessar-fogo negociado, não por Zelensky, mas pelos EUA, é efectivamente para implementar. O coro de crianças adultas que ocupam lugares no topo da política europeia logo se fez ouvir, repetindo a deixa até à exaustão. Se antes disseram o contrário, não o deveriam ter levado a sério.

Não é de admirar, portanto, que estes efusivos defensores do euro-atlantismo e da União Europeia, tenham sido os próprios, através das curvas e contracurvas no seu comportamento, a fazerem perigar o que tanto diziam amar, a NATO e a UE. Os responsáveis políticos pela UE e pela maioria dos seus estados membros, muito pouco fizeram para defender a natureza “euro-atlântica” do projecto ucraniano, não exigindo aos EUA a assunção das suas responsabilidades no assunto.

Desta forma, não foi apenas como meros assistentes – quase como todos nós – que presenciaram toda uma estratégia, por parte da administração Trump, no sentido de afastar os EUA, ou apenas a sua pessoa, em relação ao projecto ucraniano, como se comportaram como bons alunos, quando Trump anunciou que os EUA não continuariam a enterrar dinheiro na Ucrânia e que teriam de ser os europeus a assumir, de ora em diante, as responsabilidades. Nem por uma vez se lembraram de quem arrastou a Europa toda para esta confrontação, nem tão pouco da alegada importância que tem, para a NATO e a sua existência, a situação de dependência militar da União Europeia. Como nos venderam de forma repetida que sem os EUA a Europa não se poderia defender, daí as bases da NATO no continente europeu.

Assim, tomando como verdadeiras as afirmações segundo as quais a União Europeia necessitava do “amigo” norte-americano para se defender, todos pudemos constatar que os europeus se mostraram muito pouco preocupados com a nossa defesa colectiva.  Contraditório? Nem um pouco. Após o anúncio da desistência dos EUA face ao projecto ucraniano e da reunião em Bruxelas participada por Peter Hegseth, exigindo este que a Europa gastasse mais em defesa e se assumisse como capaz de se defender, de forma tão maquinal como disciplinada, logo von der Leyen anunciou um “massive boost” nos gastos da defesa.

Na aparência, este aumento “massivo” pode cumprir muitos objectivos presentes e futuros, mas não liberta a UE e o Reino Unido da contradição discursiva em que caíram: se a ameaça russa é actual, imediata e certa, então as acções de von der Leyen, António Costa, Kaja Kallas, Macron ou Starmer não resolvem minimamente esse problema. Nada do que foi anunciado resolve o que quer que seja quanto à alegadamente “iminente” ameaça russa. Nem sequer atirar com 150 mil milhões de euros para cima da fogueira de corrupção ucraniana, pois já todos vimos que o dobro desse dinheiro não impediu a derrota de Kiev. Nem tão pouco os restantes mais de 600 mil milhões de euros a acumular ao mais de 400 mil milhões que se gastarão em 2025 e aos mais de 600 milhões de 2026.

Portanto, ou a ameaça russa não é tão “iminente” ou evidente como nos quiseram vender, ou então, sendo verdade o que nos venderam, de que a Europa não se podia defender sozinha contra a Federação Russa, e que, por essa razão, a NATO era mais importante que nunca, o afastamento dos EUA em relação ao projecto ucraniano e a transferência para os países europeus do esforço necessário para o compensar, deveria ter provocado, por parte dos “líderes” europeus, uma atitude contrastante com a atitude de aceitação, imediata, do desafio de Peter Hegseth, Trump, Marco Rubio ou JD Vance.

Esperar-se-ia, por parte dos líderes europeus, uma atitude profundamente divergente com as que foram tomadas, pois deveriam ter exigido a Trump a assunção das suas responsabilidades enquanto presidente dos EUA, obrigando-o a honrar os compromissos estabelecidos com as administrações anteriores. E deveriam tê-lo feito, não apenas por razões de coerência discursiva, mas por razões relacionadas com a protecção dos próprios povos europeus, pelo menos, tendo em conta tudo o que nos têm dito, repetida e extenuadamente, ao longo do tempo. E o facto é que os dirigentes europeus tinham ao seu dispor os instrumentos para exigir a Trump tal comportamento.

Se a ameaça russa é realmente verdadeira, acima de tudo o resto, assistimos a um nível de irresponsabilidade brutal, uma vez que a UE deixa os povos europeus desprotegidos perante tal ameaça. Afinal, embora a UE tenha vindo a aumentar os gastos com a defesa a um ritmo muito elevado, a intenção de construir todo um complexo militar-industrial europeu e produzir as armas necessárias à estratégia de defesa conjunta, esbarra em obstáculos fundamentais e inexoráveis: desde logo, o tempo que demora a montar tudo isso não joga com o discurso de urgência e imediatismo que é vendido, quer em relação à necessidade de organização de todo o aparelho necessário, quer em relação à urgência que os EUA mostram em querer abandonar o projecto ucraniano;  para além do tempo que normalmente seria necessário para construir um complexo desta natureza, forte o suficiente para fazer face a um dos dois melhores exércitos do mundo, a UE necessita de trabalhadores, algo que tem cada vez menos, e também de energia e matérias primas em quantidade e a baixo custo. Algo que também não possui.

Tempo, escassez de recursos, associados ao seu custo elevado, conduziriam, a materializar-se toda a estratégia, a um insuficiente output, alicerçado em armas caríssimas e em baixo número. O que não deixaria, contudo, de constituir um enorme jackpot militar. Mas tudo feito sob uma imensa pressão social, que se sentiria caso a Federação Russa começasse a anexar países da UE como se derrubam peças de um dominó. Algo que, para se acreditar, obriga a ser muito crente. Mas cuja pressão jogaria com a narrativa que nos tem tomado as notícias mainstream.

Para além da irresponsabilidade de não protegerem os interesses de segurança da União Europeia, exigindo a Trump outro comportamento, não pouparam o modelo social europeu, o modo as condições de vida dos povos da Europa comunitária. Bem sei que a burocracia de Bruxelas não é eleita, mas a exigência da assunção das responsabilidades assumidas, por parte dos EUA, seria a atitude que mais coerência mostraria em relação a todo o discurso repetido.

Como disse atrás e, ao contrário do que se pensa, a UE teria todos os instrumentos ao seu dispor. Primeiro, deveria ter sugerido que os EUA retirassem ou reduzissem as suas bases militares do continente europeu, uma vez que a sua manutenção já não é considerada necessária, dado que a intenção da administração Trump é a de transferir para a Europa as responsabilidades com a sua própria defesa; segundo, se a existência da própria NATO se baseia no pressuposto de que a Europa não se consegue defender sozinha, uma vez que o objectivo passa por ultrapassar essa lacuna, então, devemos questionar para que serve a NATO; terceiro, a UE deveria ter feito pressão, esgrimindo a intenção de não comprar armas aos EUA, impedir os EUA de Trump de lucrarem com o rearmamento da UE, o que seria uma facada enorme na suposta estratégia de recuperação da industria norte-americana.

Mas, para além destas exigências, as quais, só por si, já não seriam coisa pouca e fariam Trump e comparsas repensar toda a estratégia, a UE, face à contingência de ter de enfrentar um período, durante o qual a população europeia, supostamente e tendo como verdadeiro o discurso dos “líderes” europeus – que nunca mentiriam, certo? -, teria de ficar desprotegida em relação à ameaça russa, o que é que se exigiria, ainda, aos representantes da União Europeia, se tivessem o bem-estar dos povos europeus na mente e estivessem na posse da sua espinha dorsal? O suposto seria que ameaçassem com uma aproximação – mesmo que táctica e temporária – à Federação Russa, como forma de mitigar tal perigo e, a considerarem-no verdadeiro, assumiriam a iniciativa nas negociações de um acordo de paz na Europa e um novo regime de segurança neste continente.

Com uma atitude deste tipo, não apenas os “líderes” europeus exigiriam a Trump que viesse a jogo e mostrasse as suas cartas – assumindo aqui uma terminologia trumpista – como o obrigariam a desvendar em que medida era, de facto, a favor da paz na Europa, ou se, ao invés, será apenas a favor da normalização possível das relações EUA/Federação Russa, mas mantendo a UE longe dessa solução. Ou seja, os EUA seriam obrigados a desvendar que o que pretendem é uma espécie de dois em um: relações normalizadas com a Federação Russa e relações desavindas entre a UE e o Kremlin, garantindo que as compras de gás, petróleo, armamento, se continuam a fazer a ritmos ainda superiores.

Se isto tudo não chegasse e os EUA se mostrassem, ainda, irredutíveis, a UE jogaria a cartada final: ameaçaria com a entrada na Belt and Road Initiative (Novas Rotas da Seda) da República Popular da China, prometendo aprofundar as relações entre os dois blocos, atingindo assim todos os desideratos pretendidos: reindustrialização; mitigação da ameaça russa face à ligação entre a Federação Russa e a China; recuperação económica; criação de condições efectivas para uma politica de defesa conjunta mais sustentável, eficaz e eficiente. E faria tudo isto protegendo o que deveria ser considerado mais importante numa suposta democracia: as condições de vida das populações. Tal cartada deixaria Washington e a administração Trump absolutamente desconcertados.

Mas porque razão não defenderam, os “dirigentes” europeus, o modelo de segurança que garantiu paz na maioria dos países durante 80 anos e o status quo do modelo social europeu?

A ser verdade o discurso dos “líderes” europeus e as intenções de Trump, nunca a União Europeia poderia permitir tal afastamento dos EUA e a criação de um vácuo temporal de segurança, durante o qual os estados membros da UE estariam, alegadamente, vulneráveis perante a sua principal ameaça. Aliás, a ser verdade que as intenções de Vladimir Putin passam por invadir a UE, então, nesta fase em que o exército russo cilindra a Ucrânia e se afirma como uma poderosa máquina de guerra, o que o impediria agora de continuar o caminho até, pelo menos, ao Danúbio?

Se os EUA se afastam da defesa da Europa fazem-no por uma razão óbvia: a necessidade de enfrentarem uma China cada vez mais poderosa e proeminente em todas as áreas. Perante a imensidão da tarefa, Trump tomou uma decisão táctica de entregar à União Europeia a defesa face à Federação Russa, não se importando, para tal, de provocar disrupções operacionais na defesa ucraniana. Para poder direccionar os EUA para o Pacífico e “defender” Taiwan, Trump está disposto a deixar cair a Ucrânia, entregando o encargo aos europeus.

Esta situação é tremendamente difícil para os europeus, pois se Trump está em condições de abandonar a Ucrânia sem dano de maior para os EUA, o mesmo não se passa com a União Europeia. Depois de três anos de russofobia, censura de imprensa russa, perseguições a cidadãos russos, eleições banidas e muitas sanções, como recuar de repente? Afinal, ao contrário da UE, Trump sempre disse que, com ele, não haveria guerra na Ucrânia. Uma decisão táctica excepcional, que agora permite aos EUA deixar mais um rasto de destruição para trás, sem serem minimamente responsabilizados e ainda engordando os cofres com o saque proporcionado à Blackrock, Monsanto e outras.

A verdade é que esta posição da UE, aparentemente, é extremamente vantajosa para os EUA: 1. Permite aos EUA uma saída airosa do buraco em que entraram, deixando a União Europeia no seu lugar de assediador da Federação Russa; 2. Garante a aceleração do aumento dos gastos militares, tal como Trump havia exigido; 3. Mantém a UE de costas voltadas para a Federação Russa, chegando ao ponto de a própria Alemanha querer impedir o retorno do gás via Nord Stream; 4. Para já, nenhum “líder” europeu colocou em causa a NATO, permitindo aos EUA manterem a sua supremacia estratégica no continente europeu.

Para além disso, uma vez que a estratégia UE/EUA passa, agora, por libertar as forças militares norte-americanas para o empreendimento do Pacífico, esta realidade acaba por colocar a União Europeia numa situação muito periclitante. Ao mesmo tempo que necessita de investimento, componentes e produtos finais baratos, pelo menos para poder manter um certo nível de proficiência económica, tal investimento e materiais só podem vir da China, país que já está a sentir maior pressão por parte dos EUA, estratégia na qual a UE é parte também. É como se a União Europeia estivesse a colher frutos de uma árvore e, ao mesmo tempo, lhe cortasse a raiz, garantindo que, num futuro próximo morrerá de fome. O que tem feito, aliás, com a Federação Russa.

Não estamos, portanto, só a assistir às mudanças constantes no discurso europeu, consoante o interlocutor na Casa Branca, como assistimos a uma incapacidade total dos supostos políticos que elegemos, em defender o que se designa como “modo de vida europeu”.

Se prescindem assim tão facilmente das suas crenças e objectivos, prescindindo das armas políticas à sua disposição, como poderemos dormir descansados sabendo que somos governados por gente sem princípios alguns? Haverá algum momento em que a Europa comece a pensar em si própria? Ou será incapaz do o fazer?

Fonte aqui

Os trunfos com que Trump pensa contar na questão ucraniana

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 15/03/2025)


Como jogador que é, Trump quer ficar com todas as cartas na mesa. A EU, apesar do bluff, garante a Trump o acesso ao prémio final.


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Numa semana em que se continuam a degradar as expectativas que muitos atlanticistas tinham relativamente à aventura de Kursk, continuamos a assistir a sucessivos episódios de circo mediático à volta do conflito na Ucrânia. Entre um Trump aparentemente preocupado com uma paz “duradoura” na Ucrânia, uma “Europa” que insiste em classificar a Federação Russa como “ameaça”, um Zelensky alinhado com os poderes da UE mas aparentemente mais aberto ao início de negociações, um Macron que diz falar por toda a Europa e refere “não se poder confiar em Putin”, uma Von Der Leyen que insiste no aumento massivo das despesas militares e uma delegação ucraniana em Riade que, após o espectáculo degradante na Casa Branca, afinal, uns dias mais tarde, e após uma derrota decisiva na aventura de Kursk, vem aceitar uma proposta de cessar-fogo imediato, todos estes episódios, superficialmente contrastantes, acabam por se encaixar de forma perfeita, complementando-se como um baralho de cartas ao serviço de Trump.

Para percebermos bem como se encaixam, a melhor forma de os tratar, é começando pelo último desses episódios: a farsa das negociações na Arábia Saudita. Não é segredo para ninguém, estejam de acordo ou não com a posição e pretensões da Federação Russa, o que é pretendido com o que se designou como “Operação Militar Especial”: desmilitarizar, desnazificar, neutralizar a Ucrânia em matéria militar, impedindo a sua integração na NATO, e proteger as populações russas das perseguições xenófobas registadas após o golpe de estado de Euromaidan.

Não obstante, os russos nunca se furtaram a deixar linhas abertas ao diálogo, de que deram prova quando se deslocaram à Arábia Saudita para conferenciar com a delegação dos EUA. Como é seu apanágio, e bem, não estiveram com meias palavras, jogos e sinais de fumo. Foram bem claros de que não estão preparados para negociar soluções frágeis e temporárias, mas apenas entendimentos sólidos, duradouros, que tenham em conta as preocupações de segurança da Federação Russa. Esta situação não terá mudado, uma vez que a imprensa mainstream vem agora dizer que a Rússia terá feito uma lista de exigências para que possa aceitar o cessar-fogo.

Não obstante, Marc Rúbio, após negociar com a delegação ucraniana um acordo para as famosas “terras raras”, assegurando a sua suposta exploração pelos EUA, disse a quem quis ouvir que os progressos seriam agora objecto de uma proposta concreta à Federação Russa. O tom era claro e visava fazer acreditar que os norte-americanos estão esperançados no resultado de todo este processo de intermediação. Estarão?

Voltemos à Federação Russa e coloquemos a seguinte questão: em que medida a proposta de cessar- fogo imediato, realizada num momento em que as forças de Moscovo obtiveram uma retumbante e humilhante vitória na região de Kursk, será do agrado da delegação russa? Será que algum dos objectivos tantas vezes sublinhados pelo Kremlin está garantido? Será que, do cessar-fogo imediato se pode depreender que a Ucrânia aceita todas as exigências do lado russo? E será de crer que, estando a Federação Russa numa posição de primazia no conflito, deite tudo a perder com um cessar-fogo? Ainda para mais quando, ao contrário do que foi anunciado, os EUA nunca pararam de facto os fornecimentos de armas e inteligência à Ucrânia?

Aliás, como todos ouvimos na imprensa mainstream, Marc Rúbio informou os jornalistas de que os fornecimentos de armas à Ucrânia foram retomados. O que quer dizer que nunca foram de facto suspensos. O tempo entre um e outro acto, dois dias apenas, tendo em conta os prazos burocráticos necessários, tornaria impossível a materialização da suspensão. Logo, se os EUA não suspenderam o fornecimento de armas às forças de Kiev, e, pelo contrário, supostamente até o retomam, que sinal dão à Federação Russa? Um sinal de que querem negociar? De que estão de boa fé? De que estão genuinamente interessados em fazer um forcing junto de Kiev para que aceite negociar?

Não me parece e, pelo contrário, a mensagem que pode passar até será a inversa, nomeadamente que o cessar-fogo servirá ao regime de Kiev para reagrupar, consolidar forças e rearmar-se. Se assim não fosse, qual o propósito, numa fase de discussão de uma proposta de cessar-fogo, do reatamento de um fornecimento que nunca foi, de facto, suspendido? Que mensagem passará para a Rússia? De que os EUA querem parar a guerra, mas não querem parar o fornecimento de armas? No mínimo é contraditório e aparentemente despropositado.

Portanto, se perante esta realidade não é de todo crível que a Federação Russa aceite a proposta de cessar-fogo imediato – vejamos que Lavrov já referiu por diversas vezes que o Kremlin já não se deixará ir em “ingenuidades” -, devemos questionar-nos, tendo em conta todos estes factores, se é aceitável partirmos do princípio de que a proposta norte-americana é genuína e de que são genuínas as intenções da Casa Branca. Como poderão eles, que têm acesso a toda a informação, acreditar que a Federação Russa aceitará, sem mais nem menos, uma proposta deste tipo, sem que sejam prestadas qualquer tipo de garantias e, para mais, continuando o fornecimento de armas a Kiev? Como disse um Ushakov, assessor de Putin, o Kremlin está interessado numa paz duradoura e não num “intervalo”.

A não aceitação russa será muito plausível, nomeadamente na sequência da apresentação de exigências que Kiev não estará preparada, à partida, para aceitar. Mesmo que, por razões diplomáticas, a rejeição de Moscovo seja manifestada com todos os cuidados, para não justificar ou dar razões que justifiquem o afastamento definitivo das outras partes. Tal não significa que os representantes russos não saibam o que está em cima da mesa, as reais intenções da Casa Branca e a possibilidade de, para consumo interno dos EUA, a não aceitação da proposta de cessar-fogo ser utilizada para diabolizar, ainda mais, o próprio Kremlin. Algo que, nos tempos que correm, pouco preocupará os russos e os seus representantes.

Com efeito, não é nada de inédito se Trump e seus comparsas se dirigirem ao povo norte-americano e disserem que a Federação Russa não quer prescindir de nada, não quer ceder em nada e, logo, não está interessada em “parar imediatamente o conflito”. Se, para consumo interno dos EUA, esse discurso funciona, numa perspectiva material, olhando à relação de forças no terreno, porque razão Moscovo cederia nos seus intentos, uma vez que se encontra numa situação de primazia militar? Ainda para mais quando Moscovo sempre afirmou que não pretende apenas “um fim” do conflito, mas que este fim seja acompanhado da resolução dos problemas de fundo?

Esta posição russa só pode parecer revoltante aos ocidentais e norte-americanos que estejam intoxicados pela propaganda que dizia no início que “a Ucrânia estava a ganhar a guerra” e “a Rússia ia ser derrotada no campo de batalha”, mais tarde que “o conflito está empatado” ou, já sob Trump, que “estão os dois lados a perder e a Rússia já perdeu um milhão de homens”. Para os que sabem, desde o primeiro dia, que este seria um conflito perdido para o Ocidente, a não ser que acabasse numa situação em que perderiam todos, ou seja no armageddon nuclear, não é surpresa que o Kremlin não abdique dos seus objectivos, uma vez que, face ao estado de coisas, se não os atingir nas negociações, atinge-os no campo de batalha.

Voltemos então ao consumo interno e ao circo para confundir e convencer os povos ocidentais. Numa situação em que a Federação Russa se mantenha irredutível nas suas pretensões, o que se prevê, julgo que Trump necessitará do “acordo” dos seus minerais de terras “brutas”, como um trunfo a jogar perante o seu público. Afinal, por que outra razão se daria tanta importância a um acordo, o qual, tendo em conta o conhecimento sobre reservas minerais registadas, tem uma eficácia material muito limitada? Tendo em conta que o território dominado pelo regime de Kiev não integra reservas minerais de grande importância, uma vez que as existentes naquela região estão já em posse dos russos ou em território considerado “ocupado”, aos olhos da Federação Russa, porque razão Washington daria tanta ênfase a uma mão cheia de nada?

A importância atribuída ao acordo dos minerais pela Casa Branca encontra explicação no facto de este entendimento constituir um trunfo, para jogar internamente, à disposição da nova administração presidida por Donald Trump. Como business man, para poder continuar o empreendimento ucraniano, após a previsível rejeição ou apresentação, pelos russos, de exigências que os EUA terão dificuldade em garantir, Trump necessita, pelo menos, de dois argumentos:

1. De convencer o povo norte-americano de que são os russos ou os próprios ucranianos – ou até os europeus – que não querem fazer cedências com vista a um entendimento, pois não aceitaram a “razoável, sincera e generosa” proposta do “Presidente Trump”;

2. A manutenção dos gastos com a Ucrânia está salvaguardada porque o “Presidente Trump” fez um acordo de minerais com Kiev, que garante o pagamento aos EUA, com juros, das quantias avançadas, passadas ou futuras.

Ou seja, se os russos não quiserem a paz, os ucranianos não a aceitarem, ou os europeus a boicotarem, Trump terá sempre as cartas necessárias para convencer o povo MAGA de que tudo fez para acabar a guerra, mas não conseguiu. Mas não o conseguindo, mesmo assim garante que os EUA não saem prejudicados com a situação. E assim, Trump sai do problema ucraniano, ficando nele, mas podendo dizer-se desresponsabilizado e como tendo garantido, em qualquer caso, o acesso a reservas minerais “valiosas” que compensam largamente os custos. A guerra continuará? Sim! Mas Trump poderá dizer que não é culpa sua e que, ao contrário de Biden, encontrou uma forma de compensar os contribuintes pelas despesas feitas. Claro que é uma falácia, pois todos sabemos do quanto as multinacionais dos EUA se apropriaram de activos sob posse do regime de Kiev.

Se for este o caso, acredito que possa ir-se por aqui, na medida em que, pelo menos Trump quererá contar com um vasto leque de opções que lhe permitam fugir, airosamente, para um ou outro lado. Continuará, em qualquer caso, não só a vender armas à Ucrânia, como à União Europeia e a outros “aliados”, algo de que não quererá prescindir. Se o conflito parar nas condições por ele pretendidas, Trump contará com as tais reservas minerais da Ucrânia, que compensarão largamente o fim do negócio das armas à Ucrânia e todo o dinheiro que os EUA lhes emprestaram.

Este é, portanto, o papel dual da problemática do acordo mineral com Zelensky. Possibilita o reforço argumentativo, qualquer que seja a situação. O acordo mineral garante o pagamento das quantias passadas, se a guerra acabar ou os EUA dela saírem, e das quantias futuras, se a guerra continuar. Perante o povo norte-americano, Trump sairá sempre a ganhar.

Portanto, para Trump tudo parece resumir-se a garantir ter à sua disposição um vasto leque de opções, igualmente vantajosas e proporcionadoras de justificações perante o povo norte-americano. Existe, contudo, algo que pode não encaixar bem nesta estratégia. E tal dúvida reside no facto de não serem conhecidas as reservas de “terras raras” na Ucrânia e, mesmo considerando outras reservas minerais, é no território que a Rússia considera seu – o Donbass – que se encontram as maiores e mais valiosas reservas. Daí que se deva questionar em que medida a intenção do cessar-fogo, associada à manutenção dos fluxos de armamento para a Ucrânia e, em conjugação com o distanciamento russo relativamente à proposta de cessar-fogo, não tenham na manga ainda outra opção ao dispor de Trump.

Para quem tanto gosta de falar de cartas, esta parece mesmo de jogador. Caso a Federação Russa não aceite o cessar-fogo ou uma qualquer proposta de divisão das terras em disputa, garantindo aos EUA o acesso, pelo menos a parte das mais volumosas e valiosas reservas minerais da região, os EUA conseguem não apenas diabolizar ainda mais o Kremlin perante os eleitores norte-americanos, como conseguirão justificar a continuação da guerra, a venda das armas e tentar almejar – o que sabemos ser uma ilusão – a reconquista, pelo menos parcial, do Donbass, dando assim um efeito prático ao acordo de minerais que fizeram com o gangue de Zelensky.

Ou seja, o efeito prático material do acordo de minerais, a confirmarem-se as suspeitas relativamente às parcas reservas na posse de Kiev, só se verifica se a Federação Russa aceitar negociar – através de cedências negociais exigidas por Kiev – a divisão de terras na sua posse ou em vias de o serem, ou, não acontecendo – como se prevê que a Rússia não aceite – através de uma reconquista pelas forças leais a Kiev, de parte dessas terras. Sem a verificação de uma destas situações, à partida, o acordo mineral não passa de um trunfo para consumo interno. Seja como for, os EUA ganham sempre. Ganham dos russos, se estes cederem (comprando a paz através das cedências territoriais) e dos europeus, porque estes compram mais armas; ganham dos ucranianos, se os russos não cederem e dos europeus, que continuam, em qualquer das situações, no caminho da militarização.

Daí que, na prática, eu tenda a acreditar que Zelensky tenha comprado, dessa forma, através da promessa de proventos futuros, o apoio de que necessita para a continuação da guerra, tentando conseguir dos russos uma pausa de 30 dias no conflito, o que, não alterando grande coisa, pelo menos pararia temporariamente a máquina de guerra que o Ocidente indirectamente levou a Federação Russa a construir. Também podem utilizar a rejeição do cessar-fogo para tentar afastar alguns aliados da Rússia, através da propagação de informação segundo a qual seria, desta feita, a Rússia, e não a Ucrânia, a rejeitar o fim dos combates e a contenção do conflito. O que será outro trunfo ao dispor de Trump, para tentar trazer a Rússia para a mesa das negociações.

Trump espera, através destes estratagemas, poder chantagear a Federação Russa com mais sanções, isolamento internacional e armamento à Ucrânia – onde encaixa maravilhosamente a suposta retoma dos fornecimentos – para dela obter cedências territoriais, onde se encontram as reservas minerais. A Rússia deixará arrastar-se para tal situação? Não me parece, mas na mente de Trump, isto fará muito sentido. Mas em algum lado encaixa a teoria manifestada por Marc Rúbio de que “também a Rússia está a perder” e também à Rússia interessa parar o conflito, tentando transmitir que o desespero não é só de Kiev, mas também de Moscovo.

Ao mesmo tempo que isto sucede e que Trump abre todas estas opções, devemos também ouvir com atenção as palavras de Peter Hegseth em Bruxelas. Se a tónica de Rubio e Trump oscila para a necessidade de parar imediatamente o conflito ucraniano, só agora se sabendo que o pretendem fazer de forma superficial e sem apresentar as garantias pelas quais os russos tanto se têm batido – embora tenham assumido por diversas vezes rejeitarem uma Ucrânia na NATO -, a tónica de Hegseth, por outro lado, tem sido mais direccionada para a necessidade de a Europa assumir a sua própria defesa, assumir as responsabilidades no conflito e fazer face, ela própria, às ameaças que pairam sobre si. Não vale a pena referir que ameaças são essas.

Conjugando estes dois discursos, temos o painel completo, percebendo-se também que, o que parece constituir uma contradição entre o comportamento europeu e as pretensões de Trump, afinal, não é contradição alguma, muito pelo contrário. Tomando Trump como uma espécie de demónio que trouxe consigo o colapso militar da Ucrânia, a União Europeia, depois de andar três anos a esconder dos europeus a real situação no terreno, aproveita agora a diabolização da administração Trump como contraponto da santificação que faz do regime de Kiev. Regime esse que agora se acertou com… Trump. Fechando um círculo aparentemente “inconciliável”.

O facto é que as resistências e rejeição manifestadas pelos “líderes” da EU à estratégia seguida pela administração Trump, no que toca às negociações com a Federação Russa e à intenção – pelo menos enunciada e agora corporizada num simples “cessar-fogo” – de colocar um fim na guerra na Ucrânia, são tremendamente contraditórias com as decisões práticas tomadas pela própria UE, estando tais decisões mais alinhadas com as pretensões destes “novos” EUA, do que possa levar a acreditar o aparentemente conflituante discurso. Uma vez mais, Peter Hegseth disse, em Bruxelas, para todos ouvirem, que era tempo de a Europa retirar o fardo (“unburden”) ucraniano das costas dos seus aliados atlânticos, para que estes possam enfrentar desafios ainda mais tremendos e os quais só os EUA podem e têm interesse em enfrentar.

Daí que, este circo de aparências durante o qual assistimos a uma espécie de complot contra Trump, por parte dos “dirigentes” da União Europeia, quando analisado em profundidade e para lá das aparências, permite constatar que, de alguma forma, a UE permanece alinhada com a estratégia hegemónica dos EUA – a qual não acabou sob o trumpismo. A União Europeia, perante a “deserção” dos EUA, ao invés de exigir destes as responsabilidades que lhe cabiam, logo alinhou no discurso veiculado por Peter Hegseth e, contra as pretensões dos povos europeus, voluntariamente aceitou a proposta de deserção de Washington e iniciou o cumprimento da ordem enunciada pela Casa Branca, apostando tudo numa militarização da União Europeia. Inclusive, garantindo a Trump um prémio pela “deserção”: o aumento exponencial dos gastos europeus no quadro de uma, cada vez mais obsoleta, NATO.

Claramente, e ao contrário das aparências, a União Europeia da veemente Von Der Leyen, não apenas não choca com as pretensões de Trump, como lhe facilita, de facto, a tarefa em relação ao desastre ucraniano. Como se o seu papel fosse o de lhe facilitar a tarefa, ajudando a desviar as atenções em relação ao essencial.

A UE desvia as atenções de Trump, assume o peso do fardo dos EUA, libertando-os para o seu empreendimento do Pacífico. Tudo isto enquanto parece muito zangada com a nova administração, mas tudo fazendo de forma a que as suas acções convirjam com as necessidades estratégicas hegemónicas dos EUA.

A UE, assumindo o financiamento do projecto e o aumento das despesas europeias com armamento, permite a Trump a manutenção do leque de opções de que atrás falei. Se continuar dentro do conflito, Trump tem a justificação da intransigência russa, ucraniana ou europeia, se pretender sair, Trump vende armas à UE e à Ucrânia e, mesmo que o conflito acabe, Trump garante sempre, no aumento de verbas europeias para a defesa, os ganhos que poderia ir buscar ao conflito, e com juros. Garante também, caso o conflito acabe nos seus termos, uma parte dos minerais que hoje estão em posse da Federação Russa. Os EUA nunca perderão, seja qual for a alternativa. Pelo menos acredito ser esta a pretensão de Trump, pretensão essa que choca com o facto de muito dificilmente a Rússia se deixar chantagear ou arrastar para uma situação em que os ganhadores sejam os EUA, às custas da própria Rússia. Não vejo Moscovo em tal situação de desespero. Ao contrário, o desespero está do lado de Kiev e da União Europeia e será a estes que Trump retirará o escalpe.

Daí que devamos de distinguir bem entre o que a entourage de Trump diz quando refere que “o Presidente quer acabar com este problema”. Tudo tem a ver com a óptica, sendo que, o “acabar” significa não poder ser responsabilizado pelo que suceder. Daí que, atirando as culpas à Rússia, à Ucrânia, à UE ou a Biden, Trump tem à sua disposição um amplo leque de cartas, que, pelo menos na sua mente maquiavélica, lhe permite sair deste conflito, de forma airosa. Trump sai do conflito, o que não quer dizer que o conflito não continue e que os EUA não continuem a enviar para lá as suas armas. Trump, ao invés, suceda o que suceder, sairá sempre limpo do mesmo e com ganhos – mesmo que virtuais ou futuros – a apresentar aos seus apoiantes, que “justifiquem” o falhanço das negociações.

Como jogador que é, Trump quer ficar com todas as cartas na mesa. A UE, apesar do bluff, garante a Trump o acesso ao prémio final.

Fonte aqui.


800 biliões de euros de delirantes promessas

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 08/03/2025)


A União Europeia deixou de ser um exemplo para o mundo. É apenas um território onde o delírio se cruza directamente com o fanatismo.


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Von der Leyen habituou-nos à sua enorme bravata, niilismo e desconexão com a realidade. Quem a ouve falar fica, às vezes, com a impressão que se sente como um qualquer deus criador, o qual, com a simples força do verbo, tudo transforma em matéria. Mas não é verdade, claro! Nem a economia russa ficou em cacos, mostrando, aliás, uma força invejável por qualquer uma das nações ocidentais, com os salários a crescerem em máximos de 16 anos (21,6% de crescimento face a março do ano passado e acima da inflação, com 11,3% de crescimento real – que sonho para um português), com o salário médio a atingir os 1,113 dólares em 2025, mas a pagarem tudo mais barato do que em qualquer país da UE.

Também não é verdade que os Russos tenham retirado semicondutores de máquinas de lavar, nem é verdade que o G7 tenha bloqueado as exportações de petróleo russo, com os seus oil caps. Com efeito, a Rússia nunca exportou tanto petróleo como hoje. A broker Úrsula também não acertou quando disse que os EUA tinham o GNL mais barato – porque raio haveria Trump de o querer baixar agora? – impelindo os países europeus a comprarem mais gás de xisto, violando, aliás, a diretiva europeia sobre sustentabilidade corporativa, que aponta para a necessidade do cumprimento de regras de sustentabilidade ambiental por parte dos fornecedores. Como se sabe, o gás de xisto é extraído através do método de fracking, altamente danoso para o meio ambiente e proibido na UE. Parece que, para a presidente não eleita da Comissão Europeia, as diretivas também se aplicam conforme a sua vontade.

Mas o último delírio da presidente da Comissão Europeia, consiste no anúncio de um “massive boost” (aumento massivo) – como ela gosta destes slogans propagandísticos americanizados com pretenso poder criador – das despesas europeias com armamento, as quais já têm vindo em crescendo ao longo do tempo, mas pretendendo aumentar estes gastos em mais 840 mil milhões de euros.

Propondo um plano de rearmamento da Europa (Rearm Europe Plan – já estou a ver os outdoors na rua a dizer “mais uma bomba para defender a democracia”; “mais um míssil para a igualdade”), ignorando a desgraça que foram os tempos em que a europa estava armada e quanto sofrimento nos custou, Von der Leyen, numa atitude tão desesperada como fanática e extremada, opta por deixar para segundo plano o desenvolvimento dos estados membros da UE e colocar todas as fichas na indústria da guerra e da morte. Não tivesse sido ela a responsável – enquanto Ministra da Defesa da Alemanha, no tempo do escândalo da venda dos submarinos Trident a Portugal -, pelo negócio que levou vários dos seus intermediários à prisão. Von Der Leyen havia perdido o telemóvel, o que a ajudou a safar-se das grades. Tal como sucedeu, uma vez mais, já na Comissão Europeia, a propósito da negociata das vacinas. Existem traços de caracter que nunca desaparecem e só é pena que sejam esses traços que determinem a escolha desta gente para estes cargos. Para nossa perdição.

Claro que a presidente da Comissão Europeia poderia propor, ao invés, uma imensa atividade diplomática, um efusivo e mobilizador movimento pela paz mundial, uma coleção de propostas de desarmamento e redução dos stocks militares. Não daria certo? Talvez não, mas como governante de uma imensa população e guardiã das chaves que abrem as portas da morte, era seu dever, em primeiro lugar, fazer todos os esforços por tentar negociar, não apenas a paz, mas uma relação de união e cooperação, de toda a Europa, que promovesse a prosperidade e a melhoria das condições de vida dos respectivos povos. Seria isto o exigível a qualquer governante que se diz democrata, humanista e amante das liberdades? O primeiro passo nunca poderia ser o aprofundamento da guerra.

Até poderia culpar Vladimir Putin, diaboliza-lo a níveis impensáveis, mas sempre mantendo os pés assentes no chão e assumindo a enorme responsabilidade de que diz ser depositária: a guardiã do mundo livre. Exige-se a uma “guardiã do mundo livre” que faça todos os esforços por manter intacta essa liberdade. Ao invés, Von der Leyen de tudo tem feito para a esboroar e a apagar do mapa. Ao invés de dar um exemplo de elevação e exaltação dos nossos valores civilizacionais, a Comissão Europeia e todos os figurantes que se passeiam pelo Conselho Europeu, optam por adotar uma conduta cristalizada, recuada, isolacionista e sectária. “Daqui não me movo”, “com aquela não falo”, “com aqueles nem pensar”! A UE é o único bloco, hoje em dia, que adota tal comportamento, à exceção de Israel com os palestinianos. O que nos deve dar muito que pensar.

Mas este nem é, sequer, o maior problema com a proposta de Von der Leyen. Já nem falo da arbitrariedade, por parte de uma Comissão composta por meros burocratas não eleitos, vir propor draconianos planos de rearmamento, que o Conselho aprova quase unanimemente, sem críticas, com exceção de Orban. É mais do que isso. É que Von der Leyen não tem competências para aprovar uma coisa dessas, nem tão pouco pode obrigar os estados membros a gastar esse dinheiro, ou obrigar os estados membros a aprovar eurobonds que permitam tal magnitude de endividamento.

Já referi noutros artigos que, em 2026, a UE e os seus estados-membros já estarão muito perto dos 5% do PIB em armamento, como pretende Trump – o tal com quem eles pretendem mostrar-nos que não alinham. Com este aumento, os 5% do PIB ficariam garantidos.

A verdade, contudo, é que quando olhamos para as propostas, verificamos que o que é posto em cima da mesa é uma linha de endividamento, a que os estados-membros podem recorrer, no valor de 150 mil milhões de euros, sendo que o restante montante virá, não da “União Europeia”, mas dos próprios estados-membros, para o que a UE discutirá propostas de exclusão, para efeitos das regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento, do aumento do investimento em armamento. Ou seja, se for para armas, os estados podem endividar-se à vontade.

A contradição com discursos passados é absolutamente desconcertante. Quando foi para atenuar os efeitos da “crise das dívidas soberanas”, impedindo que a agiotagem ocidental fizesse esboroar os direitos fundamentais dos cidadãos europeus, à saúde, à educação, à habitação, a Comissão Europeia não abriu exceções. Segundo Durão Barroso, andávamos todos a viver acima das possibilidades e tínhamos de pagar tudo, e muito rápido. Ou seja, de nada valeu a Portugal ter um português na presidência da Comissão Europeia. Quem mandava era o Ministro das Finanças alemão, que queria salvar, acima de tudo, o Deutsche Bank.

Quando se trata de comprar armas e permitir que esse investimento venha diminuir a qualidade dos serviços públicos essenciais, aí a UE já está disponível para criar exceções ao endividamento, de nada valendo aos portugueses ter António Costa no Conselho Europeu. De cada vez que um português esteve numa posição proeminente na UE, os portugueses – e os europeus – bem passaram a ter razões para se queixar. O problema é dos portugueses? Claro que não! O problema é do tipo de pessoas que a oligarquia escolhe para esses lugares, sempre gente desprovida de espinha dorsal ou, como Von der Leyen ou Kaja Kallas, fanáticas missionárias que atuam como uma fação.

Se por aqui a proposta de Von der Leyen já era uma loucura, mais loucura é quando percebemos que, afinal, nem ela pode obrigar os estados-membros a gastar esse dinheiro, nem tão pouco o pode gastar ela. Os dinheiros dos Fundos Comunitários plurianuais, não podem ser gastos em armas, com exceção da pequena parcela do Fundo Europeu de Defesa. Podem ser usados em tecnologias de duplo uso, investigação e desenvolvimento, mas é só. O que não é pouco, como se viu com aquela tecnologia de reconhecimento facial desenvolvida em Israel, com fundos europeus, que ajudou a matar crianças e mulheres em Gaza.

Acresce que, é dos estados-membros a decisão de gastar, ou não, o referido valor, em armas. Uma vez que esse valor virá dos orçamentos de estado, serão os próprios governos e respectivos parlamentos a decidir. Por aqui torna-se legítimo suspeitar sobre a quem António José Seguro (putativo candidato a Primeiro-ministro do Partido “Socialista”) queria engraxar quando disse pretender que os orçamentos de estado fossem aprovados “em Bruxelas”. Vejam o que nos espera com tal gente! Tão democratas que eles são!

Por fim, a presidente da Comissão Europeia também não pode obrigar os governos a retirar fundos das rúbricas sociais para os colocar na defesa, até porque, de acordo com o Tratado que institui a União Europeia, as competências desta em matéria social, são apenas subsidiárias e sempre em complementaridade, nunca podendo substituir ou sobrepor-se às políticas nacionais. Assim, este anúncio é mera propaganda desesperada e fanatismo extremista, de quem quer ainda mostrar ao mundo que tem alguma importância, quando já pouca tem.

Mas se a desconexão entre tal proposta e as regras europeias e nacionais é grave; se a traição dos reais valores da democracia, da liberdade, que radicam na paz e na estabilidade, mostram a real cara desta gente; mais grave ainda é a desconexão entre a proposta e a realidade produtiva da própria União Europeia.

A União Europeia está com um índice de crescimento industrial anual, pós-Covid 19, na casa dos 1-2%, e com índices de produção industrial em queda, principalmente após a crise financeira de 2008. Esta queda dos índices de produção industrial, que está associada também ao fraco crescimento da indústria, é  agravada por políticas europeias como a Transição Verde, a Descarbonização e, mais recentemente, a crise energética provocada pela aventura ucraniana.

Associando a isto o facto de a UE estar com graves carências de mão-de-obra qualificada para a indústria que ainda tem, com uma população ativa em rápido envelhecimento, vítima de um mercado de trabalho cada vez mais desregulado e uma cultura económica que trata as crianças como empecilhos do sucesso individual e da carreira de sucesso, a União Europeia só ultrapassa isto com mais emigração ainda. Mas a emigração em excesso, associada ao desinvestimento em serviços públicos, provoca contradições sociais enormes e muita contestação.

Das duas, uma: ou a EU está preparada – como penso estar – para reprimir cada vez mais as naturais lutas sociais contra a degradação das condições de vida e de trabalho, ou aposta numa economia mais sustentável do ponto de vista social, demográfico, etc. O que demoraria mais de duas gerações a ter resultados palpáveis. Tal demora não parece ser coincidente com a urgência demonstrada por estes “líderes” europeus. A sua ansiedade é de curto prazo, apenas.

O problema demográfico ainda traz consigo um outro: que militares irão pegar nas armas? Os filhos da Von der Leyen e do António Costa? Pois… Não me parece. É que, ou se alteram as regras do serviço militar, passando-as de voluntário para obrigatório, ou ter-se-ão de construir exércitos de mercenários, normalmente derrotados por quem luta por causas.

Se isto não chega para se ter em conta o delírio de Von der Leyen, é preciso explicar que, de qualquer modo, a UE não tem capacidade industrial, humana, económica e política instalada para poder fazer face a tal aumento das despesas militares, a não ser que o objetivo seja pagar ainda mais caro por armas que, como se vê na Ucrânia, são tão caras como fraca é a sua qualidade. Essa pode ser também uma solução aprazível, para quem espera, simplesmente, por mais um jackpot. Os mercados de capitais já mostram que as acções das empresas militares europeias estão a subir de valor, o que também deve ser o objetivo pretendido.

Em conclusão, a Comissão Europeia dá-nos, com este anúncio, mais uma prova da sua desconexão com a realidade, da sua nocividade para os povos europeus e de que está ao serviço de obscuros poderes que colidem, frontalmente, com os interesses das populações europeias e mundiais.

Temos pena, mas a União Europeia deixou de ser um exemplo para o mundo. É apenas um território onde o delírio se cruza diretamente com o fanatismo. É fácil gastar o dinheiro de quem trabalha e combater com os filhos dos outros.

Até que todos percebam isto, teremos sob os nossos pescoços a lâmina da terceira guerra mundial.

Fonte aqui.