Da importância da música para pastores e domadores 

(Por Carlos Matos Gomes, in Jornal Tornado, 29/10/2018)

A questão do uso da razão impõe aos intelectuais eficazes um problema muito sério. Para serem eficazes, como actualmente são Trump, Bolsonaro, ou o bispo Macedo têm de se castrarem de um elemento que os intelectuais clássicos costumam prezar: a moral. O intelectual clássico apresenta-se às massas como alguém que utiliza os seus dons de inteligência para o bem delas, foi o caso de Aristóteles, de santo Agostinho, de Hobbes, de Kant. Esses são os derrotados, como Francisco de Assis, que acabou a falar aos peixes. Os intelectuais vitoriosos são os que se despojaram da moral. Os casos mais próximos e à mão são os que ganharam eleições na América, no Brasil, na Itália, são os que inventaram igrejas e deuses-mealheiro. Na realidade esses são os intelectuais eficazes, de grande sucesso, os que sabem tocar a flauta de Hamelin e levar os ratos atrás de si.

Aquilo que hoje define um intelectual não é que reflicta sobre o conflito e o compromisso, mas que saiba tocar a música de levar os ratos a atirarem-se aos abismo a cantar, ou a sambar.


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A separação das águas

(Carlos Matos Gomes, 29/09/2018)

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Este camafeu que foi primeiro ministro num governo da direita portuguesa, recusa, de Marcelo Rebelo de Sousa, o Presidente da República, uma condecoração daquelas dadas e recebidas por dever de oficio. (Ver aqui).

Cavaco Silva, antigo primeiro ministro de vários governos da direita portuguesa e anterior presidente da República, tem a atitude malcriada e grosseira de ir a uma cerimónia presidida pelo Presidente da República e sai antes de este falar, com o pacóvio pretexto que um netinho fazia anos e um outro ia ser batizado!!!

Estas atitudes do Cavaco e do Coelho separam as águas da direita. Há uma direita trauliteira, arruaceira, e incapaz do convívio civilizado com a diferença – a que estes exemplares representam, onde militam carroceiros como o Amorim, por exemplo, a Cristas, o Melo, o Ventura… e uma direita democrática, que Marcelo, ou Rio representam.

Uma direita que teve Miguel Veiga por exemplo nas suas hostes. Parece que Santana Lopes pretende ser o federador da direita trauliteira e afadistada. Separam-se as águas. Há um campo de convivência democrática e um campo integrista.

Os triunviratos que governam Portugal – de Salazar a Marcelo 

(Carlos Matos Gomes, 15/09/2018)

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A nomeação do/a PGR está constitucionalmente estabelecida: proposta do governo e nomeação pelo Presidente da República, órgãos de soberania, mas a notícia do Expresso, porta-voz oficioso de Marcelo Rebelo de Sousa, de que Joana Marques Vidal vai cumprir um mandato extra como PGR, a pedido de várias famílias, trouxe-me à lembrança uma história não muito conhecida sobre as dificuldades de entendimento sobre quem efectivamente exercia o poder em Portugal.

No início de 1961, o então subsecretário de Estado norte-americano George Ball veio a Lisboa transmitir a Salazar a posição da administração Kennedy quanto à necessidade de Portugal admitir o principio da independência das colónias. Salazar terá ouvido e respondido o que bem entendeu, que os americanos não lhe mereciam grande consideração.

George Ball saiu confuso de S. Bento e terá ido pedir conselho ao velho embaixador britânico em Lisboa (um diplomata experiente em fim da carreira), relatando-lhe a lenga-lenga de Salazar, que terá terminado com a afirmação de nada poder fazer quanto às colónias. Foi esta impossibilidade de um ditador exercer o poder que mais perturbou o diplomata americano. Afinal quem mandava? O embaixador de Sua Majestade terá sorrido e explicado pacientemente: Assim era, de facto. Portugal não era governado por Salazar, mas por um triunvirato constituído pelo Infante Dom Henrique, pelo desaparecido rei Sebastião e pela aparecida Senhora de Fátima, de que Salazar era apenas um mero executante de ordens, um oficiante.

A renomeação de Joana Marques Vidal confirma a sabedoria do diplomata inglês. Na realidade ela não é proposta pelo governo e nomeada pelo presidente da República, mas sim imposta por um triunvirato constituído pelo comentador e vidente Marques Mendes, pelo Correio da Manhã, chanceler do segredo de justiça, e pelo presidente do sindicato dos procuradores, por inerência. Costa e Marcelo limitam-se a cumprir as suas orientações por dever de ofício.