A UE fora do jogo!

(Carlos Matos Gomes, in Facebook, 22/07/2022)

O resultado da política dos “Simplícios” de Bruxelas.

Há dias escrevi sobre comentadores de televisão nacionais alcunhando-os de “simplícios”, ver aqui. Pobres diabos intelectualmente incapazes de distinguir uma opinião de uma análise, de terem um outro método de abordagem de fenómenos sociais que não seja o do agradar ao patrão e de seguirem a corrente das ideias feitas. Enfim, carregadores de trapos que querem vender como bandeiras.

Os “Simplícios” estão no poder nos estúdios. Era mau, mas o ridículo não os deixava sair das tristes figuras do “digámos”! Mas o grave é que os “simplicios”, outros “simplicios”, mais aguçados e perversos, estão no comando das operações da União Europeia. Podemos imaginar que somos, enquanto europeus, comandados pelo estúdio da SIC equipado com botões para sanções e fornecimento de lança roquetes! Os trios dos noticiários podiam estar em Bruxelas!

É nesse ponto que nos encontramos hoje. Em Bruxelas temos uma unidade de drones comandados do outro lado do Atlântico. Drones com casacos e tailleurs da casa Givanchy, ou Dior, mas drones! Seres programados e dirigidos.

Hoje é um dia negro para a União Europeia, consequência da sua política de guerra. Assisti através da Euronews à cerimónia em Istambul, na Turquia, de assinatura de um acordo de trânsito e exportação de cereais da Ucrânia a partir dos portos do Mar Negro.

O acordo entre a Rússia e a Ucrânia foi intermediado e patrocinado pela Turquia e pelas Nações Unidas, contrariando as políticas de guerra, de mais guerra e mais armas, e de bloqueio, dos EUA, seguida pela União Europeia. Este acordo é um pequeno passo para uma futura solução do conflito.

Na cerimónia não estavam nem os Estados Unidos, evidentemente, por serem os verdadeiros patrocinadores da guerra, nem a NATO, o seu braço armado (de cujo espaço o Mar Negro faz parte). O grave é que a União Europeia não estava! A União Europeia, em vez de contribuir para uma solução, tem financiado a guerra e levado a cabo uma agressiva campanha de sanções económicas à Rússia por conta dos EUA. É um negro dia histórico: A União Europeia, que serviu e serve de instrumento de guerra por conta dos americanos, esteve ausente de um passo (pequeno, mas significativo) para a paz! Curiosamente (tristemente) a mesma União Europeia que recusou a entrada da Turquia, por ser autocrática e não defender os valores da Paz e da resolução pacífica de conflitos, nem os direitos humanos e etc, etc, fica de fora de um passo conduzido pela Turquia para uma futura solução negociada para uma complexa situação política numa zona de importância estratégica vital para a União Europeia, de onde recebia mais de 50% da sua energia!

Neste mesmo dia de um pequeno sinal de acordo para o fim da guerra em Istambul, os dirigentes da União Europeia anunciaram em Bruxelas que vão fazer pagar aos cidadãos europeus a sua política de guerra, com cortes de energia, inflação, desemprego, e, com esta significativa ausência de Istambul, dizem-nos que estão de fora do futuro, de qualquer solução futura. Dizem ao mundo e aos europeus que os países “democráticos” da União Europeia estão de fora de uma solução! Dizem que a União Europeia serve para bases de mísseis e de transbordo de material de guerra na Polónia e nos países bálticos, por exemplo, mas não para falar com a Rússia! Dizem que a União Europeia é boa para congelar contas bancárias da Rússia, mas não serve para desbloquear cereais de portos e de mares que a Rússia domina.

A União Europeia é feroz nas contas bancárias, é uma organização de banqueiros e especuladores, mas não tem qualquer força para intervir na defesa dos seus interesses, sejam eles quais forem e não parece serem outros que o de servir de “cobrador do fraque” dos EUA!

A ausência de qualquer burocrata da União e de qualquer cabo da guarda da Nato (talvez lá estivessem disfarçados de motoristas) em Istambul deixa a União Europeia fora de futuras soluções. A União Europeia das senhoras Leyden e Lagarde, dos senhores Borrell e Mitchel não conta numa guerra que se trava nas suas fronteiras e que as suas máquinas de propaganda titulam como: “Guerra na Europa”!

É este o lugar que os europeus querem para si? As próximas eleições na Europa vão dar a resposta e ela não vai perdoar estas indigências.


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Os Simplícios

(Carlos Matos Gomes, in Facebook, 17/07/2022)

Os domingos deviam ser dedicados a São Simplício. Aos Simplícios, em geral. O domingo é o dia de glória dos simplícios na comunicação. É o dia sagrado dos resolvedores de problemas à la minute. O dia em que não é necessário chamar a empresa Desentop (passe a publicidade) para qualquer dificuldade em casa e no mundo. Está tudo resolvido.

Leio nos jornais, vários, e vejo nas televisões:

Fogos? Arrancam-se os eucaliptos, os pinheiros, limpam-se florestas, multam-se os velhotes que têm uma leira de terreno. Contratam-se mais meios. Aqui, como em Espanha, na França ou na Grécia.

Serviço Nacional de Saúde? Contratam-se mais médicos, enfermeiros, auxiliares (Portugal tem um dos melhores rácios de médicos por habitantes), contratam-se mais camas no privado (onde não faltam meios)!

Ucrânia? O Zelenski e os seus oligarcas são os nossos heróis e quem quer heróis paga-os (como dizia uma italiana que foi rainha em Portugal).

Inflação? Diminuem-se os impostos, aumentam-se os salários!

Energia cara? Compra-se o petróleo e o gás russo através de intermediários americanos, sauditas, indianos!

Professores? Contratam-se, mesmo que não haja alunos.

Caos nos aeroportos? Constroem-se mais aeroportos: Montijo, Beja, Alcochete, Alverca, Tancos.

Os simplícios resolvem! Os simplícios ao poder! Os simplícios, não opinam: acusam antes de perguntar o que aconteceu! Eles são mais rápidos que a sombra. Já sabem tudo! Eu entendo os simplícios como gente sem respeito pelos outros.


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Caos no centro do Mundo

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 10/07/2022)

A lógica binária no Ocidente leva à conclusão de que o caos é mau e é desordem e o bem é a ordem. Na antiguidade, na Babilónia, o deus mais importante era Marduk, o da Ordem que venceu o Caos.

A moderna Teoria do Caos surge com a ideia fundamental de que, em determinados sistemas, pequenas variações nas condições iniciais podem gerar grandes variações nos resultados finais. Trata-se do famoso “Efeito Borboleta”, que recebeu o nome técnico de “dependência sensível das condições iniciais”. Esta teoria é — continua a ser — uma heresia nos grandes meios de manipulação de opinião, que defendem para os rebanhos a simplicidade das crenças na bondade dos pastores, sejam eles dirigentes de grandes instituições financeiras, de oligarquias que gerem monopólios de produtos essenciais, sejam dirigentes políticos. O Caos ofende a Ordem. O Caos implica renovação. Mas para quem nos pastoreia existe um caos bom, o das crises financeiras e económicas e um caos mau, o das revoltas das massas e das sociedades.

A análise estratégica é, para surpresa de muitos e muitas especialistas de verbo gongórico e pensamento oco — em última estância, uma aplicação da Teoria do Caos.

Quase cinco meses de “análises estratégicas” como prato de substância nas TVs são suficientes para tirar algumas conclusões. A primeira é a da desfaçatez de grande número de “comentadores” que sem arte, nem saber, transmitem um discurso cujo único nexo é o desejo que as “coisas”, a realidade, se encaixe na embalagem que têm de vender. Assistimos, impotentes, a programas de televendas. Acredite e Compre. Não há garantia, nem devoluções. Foi assim com a Pandemia, é agora com a Ucrânia.

As leituras e o estudo são um estorvo ao “comentariado nacional”, devidamente certificado. Tudo para a maioria dos comentadores é simples e está-se mesmo a ver. Light, como as bebidas da moda. Calhou passar por uma revista que tratava da complexidade: Evidência de Estudos sobre Estratégia e a Teoria do Caos. Uma contribuição para a formação de estratégias. Revista Ibero Americana de Estratégia. (Ver aqui.)

Começa o artigo por, cuidadosamente, alertar que as definições do conceito de estratégia são quase tão numerosas quanto os autores que as referem. Embora exista convergência em alguns aspetos que estão na base do conceito, o conteúdo e os processos de formação da estratégia são objetos de abordagens muito diversas que assentam na forma como os autores concebem as organizações e entendem o seu funcionamento. A estratégia é um conceito multidimensional e situacional e isso dificulta uma definição de consenso, mas encontram-se áreas gerais de concordância da natureza da estratégia, entre prática e teoria: (a) a estratégia diz respeito tanto à organização quanto ao ambiente; (b) a essência da estratégia é complexa; © a estratégia afeta o bem-estar da organização; (d) a estratégia envolve questões tanto de conteúdo quanto de processo; (e) as estratégias existem em níveis diferentes; e (f) a estratégia envolve vários processos de pensamento, (entre eles o da complexidade e do caos).

Na formulação da análise estratégica o conteúdo, o processo e o contexto devem ser indissociáveis. Entre os vários elementos para análise estratégica devem ser considerados a posição e a perspetiva dos competidores ou atores, o sentido da sua ação, o foco (objetivo), os recursos e esta é a questão essencial: como pretendem os contendores obter (conseguir/impor) a ordem no caos que podem provocar com a sua ação? O que fazer no dia seguinte?

A influência do ambiente complexo e instável requer novas visões para a análise do processo estratégico. Esses pontos-limite, entre incerteza e certeza, escolhas e ações são possíveis e devem ser realizadas. E devem ser sujeitas a análise. Parafraseando o economista Brain J. Loasby, “se escolhas são possíveis, o futuro não pode ser certo; se o futuro é certo, então não há escolhas”. Ao grosso das tropas de comentadores oficiais nem lhes passa este pormenor da relação entre o futuro e a incerteza pela cabeça. O seu futuro não inclui escolhas. Têm dono e debitam uma lenga-lenga. No fim, o seu pensamento simplista e negador de escolhas é totalitário!

As “coisas”, a realidade é mais complexa do que nos é vendida. Mas ficamos a conhecer uma grande quantidade de caixeiros-viajantes, de promotores de vendas porta a porta, de estagiários a Meninos de Deus, que eu, pessoalmente, desejo que não cheguem à categoria de Inquisidores!


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