O fantasma das elites

(António Guerreiro, in Público, 18/11/2016)

Autor

António Guerreiro

 

Com a vitória de Trump, regressou o discurso de crítica das elites. Quem o defende, ignora tudo de uma sociologia das elites, porque para eles as elites são apenas a estranheza, o não homogéneo.


Na sequência das eleições americanas, assistimos a um curioso discurso de denúncia das “elites”, integrado numa vulgata analítica que cumpre bem uma tarefa de cretinização de inaudita envergadura. Que elites são essas tão vagamente nomeadas? Não é possível saber, nem há nada a saber, porque este discurso tem o objectivo de uma palavra de ordem, um refrão, que nada diz de substancial, mas chama a atenção sobre quem o profere. E quem o profere, neste caso, são os porta-vozes de um filisteísmo bem conhecido que constitui também uma elite: a elite consensual dos indivíduos que se vão adaptando à temperatura ambiente (já alguém lhes chamou “indivíduos-termostato”) e captando as formas de homogeneidade. Eles mimam a estupidez do homem genérico e marginalizam uma razão crítica, essa coisa elitista. Estão bem representados nos painéis da Opinião e nos debates e comentários televisivos e radiofónicos, dos quais são animadores de eleição (a palavra “elite”, de origem francesa, incorpora a originária raiz do verbo latino eligere, escolher).

Em França são conhecidos como os panélistes, os indivíduos que circulam pelos inúmeros painéis, onde fazem de intelectuais politólogos, sociólogos e psicólogos e outros “logos”. Estes comunicadores são a elite do “agir comunicacional” contemporâneo, mas, em ocasiões como a das eleições americanas, sentem-se no dever de restituir ao Homem Médio a palavra que lhe foi confiscada. Falam muito de populismo e fizeram dele uma palavra-maná, um significante flutuante, uma “coisa”; apontam-no como um fenómeno temível do nosso tempo, mas participam convictamente e sem má consciência na lógica e nas manifestações do populismo cultural.

As elites que eles agora vieram denunciar, sabemos muito bem, sucedem-se segundo os ciclos das “vacas magras” e das “vacas gordas”. Como já alguém disse, a História é um cemitério de aristocratas. Mas eles são a elite que não quer ficar reduzida a despojos, a fósseis. Por isso, têm aquela psicologia racional muito respeitosa dos Grandes Equilíbrios.

Mas quem são afinal as elites cujo “erro” e “arrogância” eles denunciam? É difícil saber, não passa de uma classe fantasmática. Mas sabemos, isso sim, que a elite consensual que nomeia e denuncia as elites acredita nas ficções estatísticas e no equilíbrio social. É esta elite que fabricou o Homem Médio e a cultura mediana, a semi-cultura que não é elitista; e conseguiu o autêntico milagre de uma colonização pacífica que teve o resultado que podemos verificar: o gosto cultural das elites passou a confundir-se com o gosto cultural das massas.

Nas artes, esta elite consensual reclama o regresso dos neo-classicismos contra os desvarios da arte contemporânea. E, na literatura e nos livros, deleita-se com a “ficção” e a “não-ficção” de circulação universal. As elites consensuais que nomeiam e denunciam as elites que não sabemos quem são (são, no fundo, uma fantasmagoria) conseguiram expulsar do espaço público e reduzir a uma condição cada vez mais minoritária tudo o que não entra no espaço da aclamação pelo grande número.

Em boa verdade, estes detentores de um discurso de crítica das elites ignoram tudo de uma sociologia das elites, nem sabem sequer a que categoria se referem. Mas, dotados de um termostato, mantêm-se à temperatura ambiente e tentam controlar as leis da termodinâmica política e cultural. São consensuais e hegemónicos, servem com gáudio os mecanismos de expulsão de tudo o que lhes é estranho. Para eles, as elites são isso: a estranheza ou apenas o não homogéneo.

 

A jornalização em curso

(António Guerreiro, in Público, 24/06/2016 e 08/07/2016)

NB. Este texto merece toda a atenção. Ele desmonta aquilo que é o “mal estar” que muitos dos leitores sentem relativamente à comunicação social em Portugal. Ficam a nu os expediente e táticas de formatação da opinião pública que são usados de forma ínvia e nada transparente. (Estátua de Sal)


 

Parte I

Autor

António Guerreiro

A  enorme polémica e contestação em que este jornal se viu envolvido por causa das reportagens que publicou sobre as manifestações a favor da escola pública e das escolas privadas com contratos de associação merece um olhar crítico e mais distanciado, para além da guerra em curso. Esta guerra tem um pressuposto implícito de ambos os lados do campo de batalha, do lado dos leitores e do lado dos jornalistas: a crença de que os media detêm a força de uma instância toda-poderosa. Esta crença produz certamente efeitos bem reais, como se pode ver facilmente no comportamento dos políticos. Mas, como está mais que estudado, há actualmente um enorme desfasamento entre as representações e o peso real dos media. Não se deve, no entanto, desvalorizar de uma maneira simples o “quarto poder” porque o seu segredo é esta condição paradoxal que já foi formulada como regra: o poder dos media é tanto maior quanto mais se pensa que ele é fraco, e é tanto mais restrito quanto mais vasto se considera. Karl Kraus, o grande escritor e satirista vienense que empreendeu de 1899 a 1936 uma cruzada contra a fraseologia e a corrupção da linguagem jornalística, contra a “jornalização” do pensamento e da vida, ao ponto de chamar à imprensa “a grande prostituta de Viena”, falhou a sua missão, mas pode ainda hoje ser lido com muito proveito. Dos seus aforismos satíricos (que seguiam o método, muito eficaz, segundo o qual a realidade só pode ser compreendida a partir dos seus extremos) há a resposta eloquente e venenosa a quem o criticava, dizendo que ele não devia generalizar a partir dos erros e vícios de alguns. Não, respondia ele, o que não se deve fazer é desculpar e absolver a imprensa em geral a partir da honestidade e coragem de alguns. Seja como for, a actualidade de Karl Kraus pode ser apreendida em vários aspectos: em primeiro lugar, na questão da “fraseologia” e da “corrupção da linguagem” (aquilo a que se chama  “deontologia” jornalística tem de começar por uma concepção ética da responsabilidade do jornalista perante a linguagem); em segundo lugar, na pretensão dos media em serem uma grande fábrica que produz a opinião pública; em terceiro lugar, na verificação de uma regra que não mudou nem um milímetro e ganhou até, em tempos de crise, uma enorme rigidez: os media transformam-se para se adaptarem a novos tempos e a novos contextos, mas jamais se reformam por um impulso crítico e, muito menos, autocrítico; em quarto lugar, na tendência endogâmica, tautológica, que faz com que os media se refiram uns aos outros – ainda que implicitamente e por mimetismo – num ciclo sem fim (trata-se daquilo a que alguém já chamou “comunicação tautística”). A crítica aos media só pode ser feita de fora, como já se percebeu há muito tempo. Mas essa crítica não pode limitar-se a denunciar a falta de objectividade, as mentiras e os “truques da imprensa”. A temática da manipulação foi sempre muito importante e necessária, na crítica dos media, porque sempre se entendeu que eles mascaram as suas verdadeiras intenções. Mas a mentira, que Karl Kraus denunciou com mais veemência do que ninguém, está longe de ser hoje o aspecto mais grave, até porque a sua “decifração” se tornou muito mais fácil: o mais grave está no facto de os media se limitarem a produzir objectos já consumidos, a mostrar acontecimentos já vistos, a submeter-nos a factos já interpretados, a anunciar situações já classificadas e a fabricar documentos já arquivados. Sem jamais se interrogarem o que é feito da linguagem e do poder crítico das palavras nas sociedades contemporâneas mediatizadas.

Parte II

Sem grande rigor terminológico, chamemos jornalismo editorial a um género de discurso e a uma forma de configuração do espaço público mediático que se caracterizam pelo triunfo de um modo de entretenimento, quase exclusivamente assegurado pela classe político-mediática dos intelectuais politólogos e dos políticos anfíbios. É uma classe que compreende tanto os politólogos que ocupam as cátedras instituídas pelos media, como alguns politólogos de vocação e ciência que, uma vez cooptados, já não se distinguem dos seus pares elevados às cátedras profanas por competência na escrita subalterna, no crochet televisivo, no chatting radiofónico, ou nos três ao mesmo tempo. A estes servidores da inflação editorialista de carácter político que ocupou o lugar vazio dos géneros jornalísticos tradicionais – derrotados pelas novas condições da paisagem cultural, económica e tecnológica – damos o nome de editocratas, retomando uma designação que foi consagrada em França por um livro colectivo de 2009 que se chamava precisamente Les éditocrates. Os editocratas caracterizam-se pela omnipresença e omnisciência. São por isso inevitáveis e prescritores de opinião. Tão certo como o sol se levantar todas as manhãs é eles ocuparem as várias “plataformas”. São uma elite que encarna com entusiasmo aquilo a que alguns, equivocados, chamam “opinião pública”, e outros, com excesso de ambição e alguma ingenuidade, chamam “dinamismo da sociedade civil”. Esta classe procura uma autolegitimação para as suas cátedras reconstruindo a função-autor. Na linguagem publicitária de um canal de televisão, eles são a “opinião com assinatura”. É de assinalar que a função-autor, que a literatura moderna tentou fazer desaparecer, foi reconstituída neste jornalismo editorial. De tal modo que – observou uma vez Gilles Deleuze a propósito dos “nouveux philosophes” – os próprios escritores que querem ainda ser autores precisam de passar também por jornalistas, tornando-se jornalistas de si mesmos. A construção e relação de autoria podem então ser feitas através de um estilo – o estilo enquanto cristalização do  direito consuetudinário da mediocridade, da inocuidade, da idiotia, ou até do burlesco. O jornalismo editorial, curto e conformista, é maioritariamente auto-referencial, o que significa que o seu eco-sistema é o espaço autónomo que ele próprio vai criando. É um sistema de vozes em conversa permanente umas com as outras. É assim que se cria aquilo a que podemos chamar “medialecto”, um idioma que asfixia a linguagem e o pensamento. E a política deste medialecto é sempre uma política Potemkine. Veja-se, por exemplo, como foi introduzida e repetida a palavra “geringonça”: dotada, à nascença, de um traço cómico-satírico, o seu uso mantém-se nas várias fileiras dos editocratas porque falam sempre uns com os outros e na mesma linguagem. Assim caracterizados, não parece haver nenhuma diferença entre os editocratas de Esquerda e os de Direita. Na verdade, eles pretendem distinguir-se no conteúdo. Mas, colocando a questão dessa maneira, não fazendo nada para superar a oposição entre forma e conteúdo, estamos a funcionar da maneira errónea que é a deles e que eles gostariam de impor, na medida em que esquecemos que todos alimentam o mesmo aparelho de produção – o da editocracia – sem o transformar, sem operar o mínimo desvio em relação aos seus ditames. Isto é uma linguagem um pouco marxista? Pois é. Mas ela ainda serve para percebermos a lógica do jornalismo editorial, as suas argúcias que virtualizam todo os acontecimentos e esvaziam a linguagem de todos os possíveis.

Os campos novamente

(António Guerreiro, in Publico, 28/08/2015)

António Guerreiro

     António Guerreiro

Os campos, sob a forma de centros e lugares de retenção, voltaram à Europa e disseminaram-se por toda a fronteira do Sul da União Europeia. São espaços geridos pela polícia, subtraídos à ordem jurídica normal, que funcionam como diques para reter o enorme caudal dos “fluxos migratórios”. A situação está fora de controlo e assemelha-se àquela “explosão” que se deu no coração do continente europeu entre as duas guerras mundiais, assim descrita por Hannah Arendt em O Imperialismo, num capítulo em que a filósofa analisa o declínio do Estado-nação e o fim dos direitos do homem: “[As guerras civis] desencadearam a emigração de grupos que, menos felizes do que os seus predecessores das guerras de religião, não foram acolhidos em nenhum sítio. Tendo fugido da sua pátria, viram-se sem pátria; tendo abandonado o seu Estado, tornaram-se apátridas; tendo sido privados dos direitos que a sua humanidade lhes conferia, ficaram desprovidos de direitos”. E num artigo de 1943, We Refugees, escrito para um jornal judeu de língua inglesa, Arendt terminava em tom de exaltação, como se tivesse acabado de identificar um novo sujeito da história: “Os refugiados representam a vanguarda dos seus povos”. Mas o refugiado que Arendt definiu a partir do modelo do apátrida — produto de uma dissociação entre as fronteiras administrativas do Estado e a realidade política dos homens — implicava, como o nome indica, a ideia de refúgio, tanto geográfico como jurídico: os refugiados judeus que, no início da Segunda Guerra Mundial, conseguiram embarcar para a América tinham um destino que os orientava à partida e contavam com a vontade política de uma protecção.

Os actuais “migrantes” que se lançam ao mar para alcançarem o território europeu são, pura e simplesmente, “deslocados”, fogem da guerra e da miséria, na esperança de conseguirem encontrar um lugar, uma direcção, um sentido.

Verdadeiros refugiados na Europa, no sentido jurídico da Convenção de Genebra de 1951, são uma ínfima parte deste fluxo de forçados migrantes que, mal entram em território europeu, são ainda menos do que párias: são uma massa incontrolada de indesejáveis estrangeiros, assaltantes contra os quais a fortaleza europeia não consegue erguer muros eficazes nem fazer valer as suas armas de dissuasão. À nossa frente, está a passar-se algo que não queremos olhar: o regresso a formas de brutalização e barbárie, a instauração de espaços anómicos onde, novamente, “tudo é possível”. Sem conseguirmos vislumbrar soluções para o problema, desistimos também de uma vigilância capaz de nos lançar este alerta: os campos que regressaram à Europa, em grande número e por todo o lado, muito embora não sejam regidos pelo regime de excepção que presidiu à tanatopolítica — à política da morte — dos regimes totalitários, não nos dão garantias de que nenhum descarrilamento terá lugar e nenhuma inclinação criminosa latente poderá seguir o seu curso. Não podemos hoje ignorar que há uma lógica terrível imanente ao campo como figura: ele acaba por desenvolver uma zona cinzenta onde todas as situações-limite, à margem de todos os direitos, se tornam possíveis. A imensa bibliografia sobre o que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial, tanto os testemunhos dos sobreviventes como as descrições e análises historiográficas, mostram que uma biopolítica humanitária, como aquela que se tenta difundir na projecção pública dos campos actuais, também esteve presente nos campos de retenção nazis, antes da instauração dos campos de extermínio. A fé na história e na razão, como sabemos, é a última religião de doutos muito imprudentes.