É a política? Não, a cultura

(António Guerreiro, in Público, 27/01/2017)

Autor

   António Guerreiro

Se eu quisesse prosseguir a análise dos media e da crítica do jornalismo — e acho que vou querer —, encontraria abundante matéria de reflexão num certo tumulto e rumor hostil provocados pelo facto de a direcção deste jornal ter dispensado os serviços de três colaboradores prestigiados. Pondo de lado a questão mais importante, a financeira (mas recusando aceitar que ela explica tudo), essa dispensa faz parte de um processo de reforma, renovação e racionalização que todos os jornais têm prosseguido desde há vinte anos. A receita não tem dado bons resultados, mas já alguém foi capaz de pensar de maneira diferente? Já alguém foi encorajado ou teve sequer a permissão para o fazer? E para não se dizer que sou um puro diletante, retiro as consequências do que acabei de afirmar: uma transformação interessante deste jornal seria aquela em que, a par de muitas outras coisas porque uma só não basta, esta coluna chegaria ao seu fim — porque bem medíocre seria se me quisesse reformar com ela — e eu poderia fazer outras coisas mais úteis para o jornal e em que me sinto menos em contradição com os ataques que aqui tenho feito à oligarquia editorialista (analistas, colunistas, comentadores), essa elite consensual que intoxica o espaço público com a sua doxa crítica composta de clichés e de ideias mortas.

Ao contrário do coro vindo do lado esquerdo do campo político, não acho que o problema da comunicação social seja o do monolitismo de direita da indústria da consciência e da informação. O problema é muito mais cultural do que político. Tanto à esquerda como à direita, a cultura é uma velha relíquia que foi lançada às urtigas. E a última coisa de que é capaz esta nova classe dominante, constituída pela tripla aliança — económica, política e mediática —, que passeia o seu filisteísmo e a sua vacuidade pelos jornais e pelos painéis televisivos, é o de criar a sua própria cultura. Ao contrário do que por vezes se pensa, esta gente não é da mesma estirpe daquela que, antes da Segunda Guerra, deu caução filosófica e cultural a uma “revolução conservadora”. Se descontarmos uns restos que nos vão entretendo, o pensamento, a literatura, a arte e a cultura em geral desertaram do espaço público. E a dimensão cultural do jornalismo foi completamente abandonada. Um filósofo francês fazia esta pergunta retórica, há algum tempo: “O pensamento é público, hoje, em França? Neste mundo do acesso generalizado, podemos ainda ter acesso ao que se pensa hoje em França e para além dela?”.

Grande parte do coro que se ergue hoje contra os media e o jornalismo herdou a cultura da esquerda dos anos 70, que reduziu o poder dos meios de comunicação de massa a um único conceito: o de manipulação. Trata-se da ideia de que os media dissimulam a sua motivação mais profunda, escondem os seus cálculos estratégicos e mascaram as suas verdadeiras intenções.

Que há muitas vezes truques e mentiras, sabemo-lo muito bem. Mas os que se presumem especialistas em desmistificação jornalística, com a missão de conduzir à verdade e à razão os leitores leigos e ignorantes, têm uma pretensão ridícula e uma consciência obsoleta dos media. Hoje, um jornal que julga que está a enganar os seus leitores está a enganar-se a si próprio de maneira patética.

Jornais que têm um projecto político e ideológico não querem nem conseguiriam dissimulá-lo. É por ter fetichizado o conceito de manipulação, persistindo nele como categoria interpretativa, que a esquerda é incapaz de lidar com a paisagem mediática e, demonizando o adversário pelo lado errado, só reforça o seu poder.

 

Sobre o jornalismo e seus derivados

(António Guerreiro, in Público, 13/01/2017)

Autor

   António Guerreiro

Começo este texto, ainda motivado pela identificação de uma “nova ignorância”, feita por José Pacheco Pereira, no ponto em que terminei o da semana passada: pela afirmação de que estou consciente da contradição a que me exponho semanalmente. Em que consiste essa contradição? Acho que os jornais precisam de ser pensados, transformados e criticados do interior para tentar interromper a “estratégia fatal” que lhes dita o caminho. E, no entanto, até esta afirmação, enquadrada num espaço de “opinião”, onde há de tudo para representar a pluralidade do mundo, é uma crítica vã, mais não faz do que tornar-me rotineiro e alimentar a rotina do jornal. Nas dezenas de reformas e liftings a que os jornais, nas últimas duas décadas, foram submetidos pelas suas administrações e direcções (se ainda é possível distinguir uma coisa da outra), alguém conseguiu vislumbrar alguma que não fosse para acentuar o sentido da anterior, de cujo sucesso não houve notícia? Alguém assistiu porventura a outras experiências, a autênticas e bem pensadas inflexões? E tudo isso foi feito sem que, de uma maneira geral, os jornalistas proletarizados nas redacções tivessem a possibilidade de ter uma intervenção crítica na vida do jornal onde trabalham. E essa impotência aumentou à medida que cresceu a oligarquia dos colunistas e comentadores, esse exército numeroso que confiscou todos os media e instaurou lá dentro uma nova luta de classes. Um colunista exterior à vida do jornal preocupa-se com o espaço que nele ocupa, com a “visibilidade” (palavra essencial no jargon do meio) que lhe é oferecida e de onde ele retira o capital simbólico, eventualmente convertível em capital real; um jornalista da redacção faz parte de um corpo que é o do jornal na sua totalidade e de um modo geral está excluído desta economia simbólica. O primeiro está ao serviço de uma indústria de conteúdos que não precisa de se pensar enquanto forma. O mesmo é dizer: pensa-se como plataforma que distribui conteúdos e às vezes brindes.

A melancolia de esquerda

(António Guerreiro, in Público, 02/12/2016)

Autor

António Guerreiro

 

Um equívoco muito difundido nos últimos dias consistiu em chamar “romantismo político” – seja tal designação indulgente ou traga o público opróbrio – às manifestações de empatia para com a figura de Fidel Castro (e uso aqui a palavra “empatia” com o sentido que ela tem enquanto atitude historiográfica).

A ideia de romantismo político designa outra coisa completamente diferente, implica uma outra história e outra genealogia. O romantismo político é uma ideologia estética, com os seus ideais de imaginação criativa, autonomia artística e totalidade poética. E, tal como a teoria romântica da literatura, é uma ideologia que incorpora uma reflexão sobre as suas próprias contradições, ou seja, é ao mesmo tempo ideologia e crítica, disposição emotiva e ironia, efusão sentimental e reflexão; embora, nas suas manifestações extremas, possa mesmo ser um irracionalismo político elevado à categoria de religião. Foi com uma crítica feroz do romantismo político, da sua visão estética do mundo e da sua tendência para a discussão perpétua e para a indecisão, que Carl Schmitt deu entrada na cena intelectual alemã, em 1919. O romantismo político, tal como o analisou Schmitt, é uma categoria trans-histórica e quase nunca prescinde de um outro conceito muito próprio da época romântica: o conceito de nação, essa “comunidade imaginada”, às vezes miticamente sublimada. Importa acrescentar que o romantismo político é muito mais propenso a uma relação com o passado (veja-se o que foi a Grécia para Hölderlin) do que às utopias.

Outra coisa diferente é o culto melancólico, como aquele que Fidel Castro suscita: uma melancolia de esquerda, muito mais barroca do que romântica. A ideia de uma melancolia de esquerda surge de passagem num texto de Walter Benjamin e teve alguns ecos pontuais em Itália e Inglaterra nos anos 90. Foi recentemente desenvolvida num livro do historiador italiano Enzo Traverso, acabado de publicar em França (Mélancolie de gauche, éditions La Découverte). Traverso entende a melancolia de esquerda como uma “tradição escondida”, tão antiga quanto a ideia de esquerda, mas dotada de uma vida discreta e quase subterrânea. Foi o colapso dos regimes socialistas da Europa de Leste que a trouxe à superfície, já que antes tinha sido recalcada ou censurada. A melancolia de esquerda é, como diz Traverso, uma melancolia dos vencidos, uma disposição interior que confere uma enorme força de sedução ao objecto de amor perdido, que por isso mesmo se presta à elegia. Não vou aqui resumir em meia dúzia de linhas o interessante livro de Enzo Traverso. Importa no entanto lembrar que Freud publicou um célebre estudo sobre “Luto e melancolia”, onde esses dois estados psíquicos são analisados: enquanto o luto é um sentimento causado por uma perda real que se supera com o tempo (uma vez feito o “trabalho do luto”), a melancolia é causada por uma perda fantasmática, pela relação com um objecto que nunca teve existência real. A presente circunstância faz-nos ver que a melancolia de esquerda é uma disposição que continua a manifestar-se através de sintomas. Esses sintomas não são necessariamente patológicos, a não ser quando se transformam em alucinação e tristeza permanentes. Na Idade Média, os monges eram atacados por uma forma particular de melancolia, a que chamavam acédia. Sucumbir à acédia era um pecado, decretou a doutrina da Igreja: Deus criou-nos para sermos felizes, não para carregarmos às costas o peso desse planeta lento e sinistro que se chama Saturno. A doutrina política de esquerda também quis afastar a melancolia. Em vão.