Sobre o jornalismo e seus derivados

(António Guerreiro, in Público, 13/01/2017)

Autor

   António Guerreiro

Começo este texto, ainda motivado pela identificação de uma “nova ignorância”, feita por José Pacheco Pereira, no ponto em que terminei o da semana passada: pela afirmação de que estou consciente da contradição a que me exponho semanalmente. Em que consiste essa contradição? Acho que os jornais precisam de ser pensados, transformados e criticados do interior para tentar interromper a “estratégia fatal” que lhes dita o caminho. E, no entanto, até esta afirmação, enquadrada num espaço de “opinião”, onde há de tudo para representar a pluralidade do mundo, é uma crítica vã, mais não faz do que tornar-me rotineiro e alimentar a rotina do jornal. Nas dezenas de reformas e liftings a que os jornais, nas últimas duas décadas, foram submetidos pelas suas administrações e direcções (se ainda é possível distinguir uma coisa da outra), alguém conseguiu vislumbrar alguma que não fosse para acentuar o sentido da anterior, de cujo sucesso não houve notícia? Alguém assistiu porventura a outras experiências, a autênticas e bem pensadas inflexões? E tudo isso foi feito sem que, de uma maneira geral, os jornalistas proletarizados nas redacções tivessem a possibilidade de ter uma intervenção crítica na vida do jornal onde trabalham. E essa impotência aumentou à medida que cresceu a oligarquia dos colunistas e comentadores, esse exército numeroso que confiscou todos os media e instaurou lá dentro uma nova luta de classes. Um colunista exterior à vida do jornal preocupa-se com o espaço que nele ocupa, com a “visibilidade” (palavra essencial no jargon do meio) que lhe é oferecida e de onde ele retira o capital simbólico, eventualmente convertível em capital real; um jornalista da redacção faz parte de um corpo que é o do jornal na sua totalidade e de um modo geral está excluído desta economia simbólica. O primeiro está ao serviço de uma indústria de conteúdos que não precisa de se pensar enquanto forma. O mesmo é dizer: pensa-se como plataforma que distribui conteúdos e às vezes brindes.

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3 pensamentos sobre “Sobre o jornalismo e seus derivados

  1. A opinião de António Guerreiro faz-me recordar a luta travada pela medicina contra as alterações do corpo conhecidas por «doenças». Uma luta tão pertinaz quanto o nosso instinto de sobrevivência primeiro exige, depois para servir um poder, depois para acumular riqueza e, finalmente, o negócio perfeito das «doenças» dadas como crónicas em que a cada nascimento corresponde uma fonte de rendimento vitalício! São estas ambições e objetivos desenvolvidos e exponenciados ao arrepio da natureza ou, pelo contrário, são exatamente por ela impulsionados? A disposição natural estipula progredir até à maior idade para de seguida regredir à extinção. Logo, não seria mais consentâneo com ela desfrutar a vida sem exponenciações?

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