Coragem

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 13/01/2017)

Autor

              Pacheco Pereira

Nos depoimentos, declarações, artigos e memórias sobre Mário Soares começa a esboçar-se uma espécie de censura ao Mário Soares do seu último combate político: contra a troika, contra o governo de Passos Coelho e contra as sucessivas violações da Constituição em que este era contumaz. Ou seja, a iniciativa da Aula Magna. Soares estava já muito enfraquecido, tinha lapsos de memória, mas sabia muito bem o que queria e era uma máquina de vontade sem hesitações, levando tudo à sua frente, como sempre fizera em toda a sua vida. Telefonava a este e àquele e pude assistir como comentava de forma pouco amável quem se escusava por razões de conveniência ou receio, e foram alguns. Soares detestava tudo aquilo que lhe parecia cobardia política, e essa era uma das distinções que fazia com frequência, entre os que os tinham e os que não tinham.

Soares tinha tido um papel na ascensão de Passos Coelho contra Manuela Ferreira Leite. Convidou-o e elogiou-o publicamente, coisa de que eu sempre lhe lembrava quando ele vociferava com o governo amigo da troika. Desculpava-se: “Parecia um rapaz tão bem-educado…” E depois a frase continuava como se previa, de forma irreproduzível numa publicação séria.

No combate da Aula Magna não contou, como muitas vezes aconteceu na sua vida política, com o PS. O PS esteve lá representado, alguns socialistas lá foram por si próprios, mas a iniciativa da Aula Magna parecia muito excessiva à prudência respeitosa dos socialistas da época. Mas Soares queria unir numa iniciativa comum todas as forças da esquerda à direita que se opunham à política da “austeridade”, e num certo sentido foi precursor da actual solução governativa.

Teve lá o PCP, o BE, muito da esquerda desirmanada e independente, a ala esquerda do PS com convicção e a ala direita por envergonhada obrigação, e algumas abencerragens vindas do mundo da social-democracia em extinção, como era o meu caso.

Há muita coisa que ainda não veio a público sobre a Aula Magna, mas a iniciativa de Soares permanece a mais consequente tentativa de unir forças contra a política do “ajustamento” numa altura em que se transpirava inevitabilidade. Cortar da biografia de Mário Soares este episódio é politicamente conveniente para muitos, mas não respeita a sua memória.

Intuição política moldada pela coragem
Há uns anos o Público estava a preparar um filme sobre Mário Soares e pediu-me um depoimento, que agora republicou. Nesse depoimento utilizei uma fotografia que eu, Mário Soares e Vítor Alves tirámos em Moscovo diante do sinistro edifício da Lubianka, a sede do antigo KGB. Depois perguntou-me que palavra usaria para descrever Soares e eu presumia que a palavra “coragem” seria aquela que mais gente entrevistada escolheria. Mas era difícil fugir à “coragem” e por isso utilizei uma fórmula que incluía a “coragem” como lubrificante da sua intuição política.

Soares errou muitas vezes, mas tinha uma característica incomum: aquilo que achava que devia fazer, fazia. Não tinha as baias da cobardia que aparece muitas vezes disfarçada de ponderação e de prudência. Ia por ali adiante para terrenos desconhecidos, que ele mudava com a força da sua vontade. Os seus maiores sucessos e as suas maiores asneiras vinham daí. Não é que ele não fosse “oportunista”, no preciso sentido que esta palavra tem em política. Mas era-o em coisas menores, quando via uma qualquer vantagem para as suas intenções não hesitava em fazer coisas de pura circunstância e muitas vezes pouco edificantes. Mas nos grandes combates, e Soares como Cunhal sabiam quais eram os grandes combates, ele varria tudo à frente, sem hesitar.

Vi-o algumas vezes muito exausto – na campanha das presidenciais de 1985 desmaiou no Porto, facto que foi sempre ocultado -, mas nunca o vi hesitante quando estava em combate e ele estava quase sempre em combate.

3 pensamentos sobre “Coragem

    • Gostei da forma como se identifica : “Teve lá. …algumas abencerragens vindas do mundo da social democracia em extinção como era o meu caso.”
      É que o facto de o Pacheco Pereira ser uma “abencerragem” vem finalmente acalmar a minha estranheza do posicionamento político do jovem pensador filósofo, que conheci nos seus sweet sixteen!

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.