O monstro cibernético

(António Guerreiro, in Público, 24/11/2017)

Guerreiro

António Guerreiro

Não se deve ignorar que o motor de busca Google nasceu da aplicação à web do método usado, desde o final do século XIX, para “medir” o valor das publicações universitárias pelo número de citações que obtêm. O algoritmo PageRank da Google calcula o valor de cada link e decide sobre a importância e visibilidade de um dado documento com base no número e na qualidade dos links que enviam para ele. Por isso, este algoritmo já foi estudado no campo da economia política como um diagrama empírico da acumulação de valor no capitalismo cognitivo, como acumulador de informações que acrescentam valor. De modo semelhante ao algoritmo PageRank, nas chamadas “redes sociais”, como o Facebook e o Twitter, o prestígio pessoal calcula-se precisamente com base no número de likes e followers. Em maior ou menor grau, estamos hoje todos conectados e um processo cibernético total, do qual somos agentes e espectadores, já está consumado. E tornou-se bem claro que há hoje uma forma de governo através das redes. Podemos — e devemos — preocuparmo-nos com a facilidade com que se procede a julgamentos e se difundem hoje proclamações, veredictos, narrativas pessoais. Mas tornou-se difícil, quase impossível, mesmo a quem se quer manter à distância, não colaborar como agente. A oposição esclarecida (não a oposição obscurantista e retrógrada) ao processo de cibernetização fez parte do programa dos protagonistas da revista Tiqqun. Das suas posições teórico-políticas decorria logicamente o apelo à sabotagem. A figura do hacker surge aí com um potencial revolucionário, aquele que sabe introduzir-se pelos lados fracos da engrenagem, que só ele conhece. O hacker espalha o pânico, a imprevisibilidade que a cibernética não pode calcular, pratica o acto insurrecional irrecuperável. E desde há mais de dez anos que um grupo italiano de investigação independente e interdisciplinar chamado Ippolita faz uma análise dos efeitos da World Wide Web e da data economy que ela desenvolveu. A promessa inicial era bem bonita: uma sociedade e uma economia contributivas, em que a participação na produção de saber para todos seria possível. Ora, o que triunfou, afinal, foi um hipercontrolo imposto pela “governamentalidade algorítmica”. As novas tecnologias digitais abriram imensas possibilidades, criaram uma vertigem de inovações, mas também são a origem de perigos inauditos e imprevistos. Com as suas publicações, o grupo Ippolita teve um papel pioneiro na compreensão do que significava o desenvolvimento alucinante, à escala planetária, do social engineering e do chamado “efeito de rede” que ele explora.

Uma premissa fundamental deste grupo é o de que a tecnologia se transforma em ideologia. A adopção de um utensílio tecnológico modifica directamente a maneira como percebemos o meio envolvente, de um ponto de vista físico, social e psicológico. As tecnologias digitais ofereceram ao capitalismo um novo campo de experimentação e de desenvolvimento, caracterizado por uma quase ausência de regras.

E o Google ensina-nos que a democracia digital se baseia em filtros e algoritmos que permitem deduzir a opinião da maioria e empurrar para zonas invisíveis o que é minoritário. Os pioneiros da informática tinham já alguma consciência do significado das suas descobertas. Wiener escreveu mesmo um pequeno livro em que compara os primeiros computadores, que tinham uma potência ridícula face aos que conhecemos hoje, ao Golem da Cabala. “Golem Alpha” foi, aliás, o nome que Gershom Scholem, o grande estudioso da mística judaica, amigo de Walter Benjamin, deu ao primeiro computador israelita, fabricado em 1965.

A grande regressão

(António Guerreiro, in Público, 04/11/2017)

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António Guerreiro

Se alguém fizesse uma história semântica da ideia de progresso, encontraria a razão pela qual o qualificativo “progressista”, que teve outrora um uso político imoderado e de grande utilidade, já só emerge quando se fazem escavações lexicais. Parece que já ninguém acredita no progresso nem encontra nele uma razão capaz de fundar uma visão do mundo. Em contrapartida, a palavra “regressão” está em alta e revela-se mesmo capaz de dar sentido a um conjunto de sintomas patentes nos processos sociais e políticos que marcam o nosso tempo. Uma prova eloquente desta nova fortuna concedida à ideia de regressão é um livro colectivo que foi publicado na Alemanha, este ano, e logo traduzido nas principais línguas europeias. O título original é Die große Regression – Eine international Debatte über die geistige Situation der Zeit, um título que cita um outro, famoso, de Karl Polanyi, The Great Transformation (1944). Mas o subtítulo, que fala da “situação espiritual [geistige] da época”, só aparece no original por razões óbvias: ele dialoga de maneira explícita com a filosofia e a literatura alemãs (retoma, ipsis verbis, o título de um famoso ensaio de Karl Jaspers, de 1931). A regressão como categoria analítica da governamentalidade e das tendências de ordem política já tinha sido introduzida, há alguns anos, por um importante sociólogo e teórico da cultura, Stuart Hall (1932-2014), que configurou a política de Margaret Thatcher como uma “modernização regressiva”. O thatcherismo teria inaugurado o projecto de uma modernização reaccionária. Quais são então esses sintomas que justificam o uso da regressão como categoria psico-política? Antes de mais, a “fadiga da democracia”, fazendo emergir por todo o lado não apenas formas de autoritarismo, mas também um conjunto de práticas políticas e gestionárias que dão razão a um conceito que foi entrando no léxico da teoria política: pós-democracia. Num plano mais englobante, a regressão adquire a figura de uma “des-civilização”, como se pode ler no ensaio de Oliver Nachtwey, incluído neste livro. Remetendo para o “processo civilizacional” de Norbet Elias, enquanto resultado de uma mutação das estruturas sociais e da personalidade e manifestando-se no controle dos afectos e no alargamento do espaço mental (cujo resultado foi a constituição progressiva de um poder centralizado que detém o monopólio da violência), a des-civlização que Nachtwey vê como uma dinâmica fundamental das sociedades ocidentais a partir da última década do século passado seria um processo de erosão e declínio.

A ideia de que o progresso traz consigo uma regressão pode então ser deduzida destes sintomas: a sujeição ao mercado e a ausência de alternativa económica;  a interrupção do processo colectivo de mobilidade social ascendente; o triunfo da “modernidade regressiva” que se traduz por uma igualdade horizontal de grupos com traços característicos diferentes (a pertença sexual ou étnica, por exemplo), mas simultaneamente por novas desigualdades e discriminações verticais. Estes e outros factores instalaram um mal-estar que é simultaneamente social, político e cultural.

O processo da civilização de Norbert Elias já comportava esta ideia de uma des-civilização. Como muitos outros espíritos lúcidos, Elias não acreditou no progresso como uma caminhada irreversível nem viu a “civilização” como uma conquista definitiva. Essa foi a ilusão da utopia iluminista e, mais perto de nós, a dos arautos do “fim da história”. Como é que em tão pouco tempo se passou de uma feliz escatologia para uma grande regressão?

Os azeiteiros excelentíssimos

(António Guerreiro, in Público, 20/10/2017)

Guerreiro

António Guerreiro

Como é que a gente das cidades, neste tempo em que o planeta se urbanizou, se tornou tão analfabeta nas questões da meteorologia que só percebe que o “bom tempo” prolongado é um inferno quando tudo arde e as chamas e o fumo chegam à porta da cidade? A natureza gosta de se esconder, tanto quanto a ignorância gosta de se mostrar.

Mudemos de assunto. Quem passa pela região de Ferreira do Alentejo, vindo de Lisboa em direcção a Beja, pousa os olhos numa mancha verde-escura, compacta, de oliveiras. São milhares e milhares de hectares, cobertos por oliveiras que têm a forma de arbustos e foram dispostas de modo a formarem linhas de sebes paralelas, completamente fechadas. Entre as sebes, em sentido longitudinal, há um espaço livre cuja medida exacta é a largura de um tractor. Assim, as máquinas podem avançar sem obstáculos e ocupando o mínimo espaço possível. No meio de um desses olivais, quase à beira da estrada, foi construído um lagar que parece um edifício de Silicon Valley. Este lagar da empresa que produz o azeite da marca Oliveira da Serra, desenhado pelo arquitecto Ricardo Back Gordon, é de uma exuberância arquitectónica e tecnológica que reduz à insignificância os empreendimentos da civilização mediterrânica do azeite e do vinho. No site do Lagar do Marmeleiro (assim se chama a herdade onde ele está implantado), podemos ler que ele “homenageia o Olival português e representa o expoente máximo da tecnologia ao serviço da qualidade do azeite e da sustentabilidade ambiental”. Trata-se, portanto, de um monumento, de um” memorial” como aqueles que celebram as vítimas da guerra ou os heróis mortos em combate. E, para além de evocar a epopeia do azeite, o monumento foi construído em nome da “sustentabilidade ambiental”. Este discurso da sustentabilidade ambiental, acrescentado como um apêndice, é a manifestação de um sintoma: o sintoma da má-consciência. Parece o assassino que, sem que ninguém lhe peça contas, vai ao posto da polícia gritar: “Não fui eu que matei a minha mulher”. Só um idiota urbano, daqueles que precisam de ser submetidos a 35 graus centígrados em meados de Outubro, depois de seis meses sem chover, para chegar à conclusão de que aquilo a que insistentemente chamaram “bom tempo” é uma catástrofe, é que não percebe que aquele mar verde de oliveiras a perder de vista, alimentadas para crescerem mais num ano do que os antigos olivais cresciam numa década, e ocupando o terreno com a mesma densidade que uma plantação de couves, consomem água e fertilizantes em porções criminosas. Em pouco tempo, a terra fica exaurida e o deserto cresce. Noutros lugares do Alentejo, os olivais com mil anos não precisam que lhes seja erguido um “memorial” porque são eles que transportam a memória do mundo. Aquele lagar imponente no meio da planície não homenageia o olival português: insulta-o. Apetece gritar, trazendo para este contexto duas palavras que deram expressão a um poderoso manifesto: ornamento e crime. Mas parece que as catástrofes lentas e serenas, como aquelas que advêm de olivais que parecem oásis no meio do deserto, não põem os bombeiros e as populações em estado de alerta.

Mudemos de assunto: as campanhas a favor de medidas que desacelerem o aquecimento da Antártida não estão a ser muito bem sucedidas. Entretanto, na Europa e muito especialmente no seu extremo ocidental, as reacções químicas do fogo e as reacções políticas misturaram-se e estão a provocar um perigo global. E de repente, confrontados com problemas tão arcaicos como os da água e do fogo, começamos a descobrir que talvez nunca tenhamos sido modernos.