Os azeiteiros excelentíssimos

(António Guerreiro, in Público, 20/10/2017)

Guerreiro

António Guerreiro

Como é que a gente das cidades, neste tempo em que o planeta se urbanizou, se tornou tão analfabeta nas questões da meteorologia que só percebe que o “bom tempo” prolongado é um inferno quando tudo arde e as chamas e o fumo chegam à porta da cidade? A natureza gosta de se esconder, tanto quanto a ignorância gosta de se mostrar.

Mudemos de assunto. Quem passa pela região de Ferreira do Alentejo, vindo de Lisboa em direcção a Beja, pousa os olhos numa mancha verde-escura, compacta, de oliveiras. São milhares e milhares de hectares, cobertos por oliveiras que têm a forma de arbustos e foram dispostas de modo a formarem linhas de sebes paralelas, completamente fechadas. Entre as sebes, em sentido longitudinal, há um espaço livre cuja medida exacta é a largura de um tractor. Assim, as máquinas podem avançar sem obstáculos e ocupando o mínimo espaço possível. No meio de um desses olivais, quase à beira da estrada, foi construído um lagar que parece um edifício de Silicon Valley. Este lagar da empresa que produz o azeite da marca Oliveira da Serra, desenhado pelo arquitecto Ricardo Back Gordon, é de uma exuberância arquitectónica e tecnológica que reduz à insignificância os empreendimentos da civilização mediterrânica do azeite e do vinho. No site do Lagar do Marmeleiro (assim se chama a herdade onde ele está implantado), podemos ler que ele “homenageia o Olival português e representa o expoente máximo da tecnologia ao serviço da qualidade do azeite e da sustentabilidade ambiental”. Trata-se, portanto, de um monumento, de um” memorial” como aqueles que celebram as vítimas da guerra ou os heróis mortos em combate. E, para além de evocar a epopeia do azeite, o monumento foi construído em nome da “sustentabilidade ambiental”. Este discurso da sustentabilidade ambiental, acrescentado como um apêndice, é a manifestação de um sintoma: o sintoma da má-consciência. Parece o assassino que, sem que ninguém lhe peça contas, vai ao posto da polícia gritar: “Não fui eu que matei a minha mulher”. Só um idiota urbano, daqueles que precisam de ser submetidos a 35 graus centígrados em meados de Outubro, depois de seis meses sem chover, para chegar à conclusão de que aquilo a que insistentemente chamaram “bom tempo” é uma catástrofe, é que não percebe que aquele mar verde de oliveiras a perder de vista, alimentadas para crescerem mais num ano do que os antigos olivais cresciam numa década, e ocupando o terreno com a mesma densidade que uma plantação de couves, consomem água e fertilizantes em porções criminosas. Em pouco tempo, a terra fica exaurida e o deserto cresce. Noutros lugares do Alentejo, os olivais com mil anos não precisam que lhes seja erguido um “memorial” porque são eles que transportam a memória do mundo. Aquele lagar imponente no meio da planície não homenageia o olival português: insulta-o. Apetece gritar, trazendo para este contexto duas palavras que deram expressão a um poderoso manifesto: ornamento e crime. Mas parece que as catástrofes lentas e serenas, como aquelas que advêm de olivais que parecem oásis no meio do deserto, não põem os bombeiros e as populações em estado de alerta.

Mudemos de assunto: as campanhas a favor de medidas que desacelerem o aquecimento da Antártida não estão a ser muito bem sucedidas. Entretanto, na Europa e muito especialmente no seu extremo ocidental, as reacções químicas do fogo e as reacções políticas misturaram-se e estão a provocar um perigo global. E de repente, confrontados com problemas tão arcaicos como os da água e do fogo, começamos a descobrir que talvez nunca tenhamos sido modernos.

6 pensamentos sobre “Os azeiteiros excelentíssimos

  1. Excelente e actualíssima reflexão sobre o crime agroambiental que a ganância absoluta de empresários espanhóis e portugueses está a cometer no Alentejo!

  2. Não sei porquê,ou talvez saiba,este comentário que respeito de tão incisivo.faz-me lembrar o “Blade ou o Razor”..
    È necessário ser viável nos dias de hoje e produzir para uma sociedade de consumo..Qualidade mínima,é relativa e nem todos os “Tugas”,têm acesso a qualidade extra séria e não apenas rotulada…Diversidade é o mote….Cabe ao “Tuga” a escolha…Consciencialização e planeamento a curto ,médio e longo prazos, pertencem a outro departamento..”Os erros dos nossos avós,fazem-nos eles,pagamos nós…”

  3. Daqui a nada o necrófago boçal tuga irá a começar a comer sardinhas de viveiro… Cheias de antibióticos, hormonas e outras coisas boas e alimentadas com farinhas, quem sabe dos restos de outras sardinhas, pelo menos enquanto não conseguirmos exterminá-las de uma vez por todas, que serão regadas com o azeite do ciberolivais!

    E nada fará parar a degeneração…

  4. Meu caro,
    O olival pode estar a “trabalhar” de forma intensiva e a consumir água e pedir adubação química. Mas produz o azeite, dá alguma sombra à paisagem, impede a erosão do solo. Dou de barato que tem alguns custos ambientais, é certo. Mas Já agora pergunto: quantos km cúbicos de água gasta um campo de golfe por mês e quantas toneladas de adubo, entre outras necessidades? E que extensão ocupam, por exemplo, 2 campos de golfe de 18 buracos? Estes, que se andam a propagar que nem cogumelos em zonas onde a água é um bem cada vez mais precioso, devem, em minha modesta opinião, ser bem mais perniciosos que um olival plantado e gerido por técnicas modernas.

    • ….mas um olival que respeite a terra e árvore que desde a mais remota antiguidade múltiplos benefícios trouxe aos povos que as souberam plantar e acarinhar. Olivais que se confundem com vinhas e que degradam e desgastam a terra e as águas subterrâneas são bem mais perniciosos….e no Alentejo não abundam campos de golfe.
      Olivais superintensivos são crime!

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