O fim de um mundo

(António Guerreiro, in Público, 02/03/2018)

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António Guerreiro

Há pouco mais de um ano, Emily Bell, directora do Tow Center for Digital Journalism, depois de ter chefiado o sector digital do diário britânico The Guardian, publicou um artigo numa revista dos Estados Unidos que teve um grande impacto, onde anunciava um dos muitos “fins” que configuram o nosso tempo. Título do artigo: “O fim do mundo tal como o conhecemos: como o Facebook devorou o jornalismo”.

Não se pode dizer que seja uma daquelas catástrofes espectaculares, de grandiosos efeitos. Nada disso, é uma catástrofe serena cujo alcance e consequências ainda não foram experimentadas até ao fim e estão em grande parte por avaliar. Há quem diga que o pior ainda está para vir. Como os jornais não gostam de se apresentar a nu perante os seus leitores (acreditam que falar dos seus males é potenciá-los), pouca gente percebe o que se passa e os que percebem  acham que apenas há a registar uma morte natural e portanto inelutável.

Na mesma ocasião, Emily Bell lançou este dado impressionante: “Em cinco anos, o ecossistema da informação sofreu uma mudança mais vasta do que a que se deu ao longo dos 500 anos precedentes.” Já este ano, a revista Wired publicou uma longuíssima investigação que tinha como título “Inside the Two Years that Shook Facebook – and the World”. Fazia-se aí o retrato de uma rede social que acabou por dominar o mundo dos media, ainda que não queira ser uma empresa desse ramo. Em 2015 superou o Google enquanto veículo para a circulação de conteúdos jornalísticos na Internet, tornando-se a força dominante na indústria das notícias, tanto as falsas como as verdadeiras.

E isto, como sabemos, teve profundas implicações éticas e políticas. E levou a uma discussão sobre o impacto desta rede social nas democracias. Em Janeiro, Mark Zuckerberg mudou o algoritmo do Facebook e prometeu um maior controle sobre as notícias falsas, depois de se ter tornado muito evidente que a rede era muito vulnerável tanto à mentira como à propaganda e que, sob determinadas condições, se tinha tornado um instrumento com vocação totalitária. A ingerência russa nas eleições americanas contribui para uma nova percepção pública do Facebook, uma imagem que Zuckerberg quis corrigir.

Antes da mudança do algoritmo, já ele tinha decidido realizar uma experiência em seis países (Sri Lanka, Guatemala, Bolívia, Cambodja, Sérvia e Eslováquia) que consistiu em eliminar os media profissionais, de modo a privilegiar os conteúdos privados. Foi uma decisão muito contestada, considerada “de cariz orwelliano”.

O que se passa é que os jornais se tornaram tão vulneráveis às decisões desta rede social que até uma pequena variação do algoritmo pode ditar-lhes a sorte. Conter e filtrar as fake news causa danos a quem produz notícias verdadeiras. O Facebook tornou-se mais poderoso que os media e ganhou o estatuto de plataforma que é também editora, algo que não fazia parte da sua vocação original. Mas não é apenas por se ter tornado o principal veículo das notícias que está a destruir a indústria mediática: é também porque concentra o mercado publicitário, do qual apenas umas migalhas sobram para os jornais.

Poderiam os jornais deixar de servir de alimento a essa rede social tão voraz? Certamente que podiam, mas estão enredados num terrível paradoxo, para o qual não encontram saída: ao mesmo tempo que são devorados pelo Facebook, não conseguem sobreviver sem ele. E, num plano mais vasto, todos nós fomos apanhados nesta estratégia fatal: quer queiramos quer não, tornámo-nos todos produtores de conteúdos para o Facebook e não há maneira de conseguirmos resistir.

Se eu fosse…

(António Guerreiro, in Público, 16/02/2018)

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António Guerreiro

Se eu fosse paneleiro — na verdade, ninguém pode garantir que eu não seja, não tenha sido ou não venha a ser — e ocupasse um cargo político nunca aceitaria o protocolo da confissão, dizer o que se é àqueles que o não são. Não para manter o “segredo”, mas para não me submeter à regra da autentificação pelo discurso da verdade, tão aplaudido pelos que acham que a sua verdade é diariamente autentificada pelas evidências.

Se eu fosse paneleiro — para usar uma forma especulativa que pode referir-se ou não a um estado de facto — também amaldiçoaria o dia em que, por palavras ou actos, me deixasse sujeitar pelo discurso odioso dos que descobriram que o seu alto teor de aceitação da homossexualidade é uma marca de distinção — de modernidade, de progressismo, de “estilo” — e um capital cultural para ser exibido publicamente, sobretudo quando lhes é oferecido o exemplo do homossexual bonzinho e ao serviço da homonormatividade, o amigo gay que todos temos. Se eu fosse paneleiro — e, dizendo isto, não estarei já a inscrever-me numa “homossexualidade molecular”? — o que eu não riria da homofilia editorial doExpresso, que anunciava a “confissão” do dirigente do CDS como uma notícia que não devia ser notícia mas que ainda tem de ser notícia. O que se pode ler nesta fórmula retorcida é que obter de alguém a afirmação “eu sou gay” merece sempre uma nota editorial, que é a notícia da notícia, ou a notícia que reflecte sobre si própria para dizer que aquilo só é notícia para alguns atrasados, ignorantes e preconceituosos que a vão tratar como tal, apesar de ela ser feita por quem acha que não devia ali haver notícia alguma. É notícia porque “o mundo é o que é, o país é o que é, a sociedade em que estamos inseridos é o que é”, reafirma um jornalista noutra página do mesmo jornal, também a propósito de Adolfo Mesquita Nunes. Se eu fosse paneleiro e pleno de perfídia — hoje, contraí um apego aos atributos que começam por “p” — diria gentilmente ao simpático autor desta proposição lógica que aquilo a que os franceses chamam “bêtise” (e que eu não vou traduzir por “estupidez” porque seria uma tradução pouco correcta e indelicada para o visado), pode ser exemplificado — dizem os tratados sobre tal matéria — pelo uso abusivo e hiperbólico do princípio da identidade, exibindo-o de maneira peremptória, como na frase “O mundo é o que é, o país é o que é”. E o que é um gay hoje, daqueles que fazem os jornais, as revistas e as televisões olharem para si próprios com orgulho por estarem tão à frente do país que “é o que é”? É uma marca, uma sexualidade branca ou um turista do sexo, conforme a um modelo unissexual. Se eu fosse paneleiro e político — malditos “pês”, que afluem como em hora de ponta, salvo seja — ficaria sempre calado para não ser transformado num estereótipo do homossexual de Estado, a não ser que aspirasse precisamente a essa condição. O que o Expresso revelava este fim de semana como uma verdade de primeira página é afinal uma mentira: Adolfo Mesquita Nunes não assumiu nada porque também não há nada a dissimular, não mostrou nada porque já não há nada a mostrar. O único objectivo que alcançou foi ter deixado que fizessem dele um cromo do ideal do Kitsch. Se eu fosse paneleiro — estribilho infame a que vou pôr fim — teria exultado com o que vi este fim-de-semana: o “orgulho gay” instalado em jeito de parada no Expresso, reivindicado no editorial, e gritado como palavra de ordem pela presidente do CDS.


NOTA: No título, a palavra “paneleiro” é substituída por três pontos. Não por motivos de censura ou auto-censura, mas porque seria um foco de atracção dos clicks. Antes paneleiro que populista. 

 

A escola e a norma do mercado

(Por António Guerreiro, in Público, 09/02/2018)

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António Guerreiro

Bem podem os críticos do ranking das escolas erguer publicamente os seus argumentos contra uma hierarquização obtusa que poderia figurar como um exemplo de idiotia da nossa época. Estarão sempre em desvantagem porque o exercício é excitante, funciona como um jogo e satisfaz uma pulsão escatológica infantil. E quando se passa para o plano da legitimação racional, o modelo do ranking aplicado às escolas está protegido pelo princípio supremo do mercado: a concorrência. No nosso tempo, ela é uma norma global, imposta a todas as actividades como solução universal para melhorar todos os serviços e para promover um aperfeiçoamento progressivo do indivíduo. A concorrência e a competição exaltam a ideia de mérito e, através de uma operação fraudulenta, fazem dele uma figura do poder chamada “meritocracia”.

Mérito e meritocracia não são a mesma coisa. O desenvolvimento de qualidades e competências individuais (inatas ou alcançadas através do estudo, da disciplina e do esforço) que levam ao sucesso é, e sempre foi, digno de apreço. Chamamos-lhe mérito. A meritocracia é uma coisa diferente: é um instrumento político e de engenharia social, ao serviço de um projecto de selecção de poucos através da exclusão de muitos.

Atribui-se geralmente a um sociólogo e político inglês, Michael Young (1915-2002), a paternidade da palavra “meritocracia”, que surge como um significante-mestre num romance satírico que ele publicou em 1958, com este título: The Rise of Meritocracy. Nesse romance, um sociólogo narrador situado no ano de 2033 conta e comenta o extraordinário progresso conseguido no seu país ao longo dos últimos cinquenta anos, graças à superação das velhas ideologias igualitárias e graças ao triunfo da meritocracia.

A intervenção no campo da educação e das instituições escolares tinha desempenhado um papel crucial na grande transformação: primeiro, as escolas tinham simplesmente seguido a economia na luta pelos mercados, mas a certo ponto uma nova política tinha feito da escola o lugar de experimentação de estratégias mais eficazes e sistemáticas de separação dos inteligentes face aos estúpidos, um processo que depois se impôs com sucesso a outros sectores.

E, na fase mais avançada deste processo, as indústrias começaram a aplicar medidas selectivas com base no modelo da escola. No fim, até o exército tinha aprendido a lição escolar. O romance de M. Young é uma utopia negativa. E o seu autor cunhou a palavra “meritocracia” com uma evidente intenção crítica. Mas ela foi reciclada e passou a ter um significado plenamente positivo. E o processo descrito no romance para construir uma escola apta a transformar uma aristocracia de nascimento numa aristocracia de engenho parece ter inspirado a campanha dos rankings, que chega sempre à meia-noite, como o Pai Natal. Tal como no romance de M. Young, a escola “democrática” é assaltada pela lógica do clube selectivo que funciona por cooptação.

A concorrência e a competição promovidas pelo ranking à imagem da norma do mercado tornam-se um factor importante da reprodução social. A estrutura social das escolas é cada vez mais afectada pelas estratégias de distinção das famílias. O ranking, no fundo, simula um mercado escolar que verdadeiramente não existe.

E se existe como um quase-mercado, ele não é fruto de uma lógica espontânea, não se faz naturalmente por obra das “leis imanentes” do capitalismo (como pretendem os partidários da lógica do mercado aplicada ao campo escolar), mas de uma construção política. E essa construção tem no ranking das escolas uma poderosa ferramenta.