O olho celeste

(António Guerreiro, in Público, 30/03/2018)

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António Guerreiro

Em 2004, o filósofo italiano Giorgio Agamben recusou-se a entrar nos Estados Unidos e anulou um curso que devia dar na Universidade de Nova Iorque porque não se quis submeter à identificação biométrica através das novas tecnologias digitais que inscrevem e isolam a “vida nua”, de acordo com uma nova era biopolítica. E, convertendo essa recusa num gesto público e político, escreveu um texto que foi publicado no jornal francês Le Monde (e depois nos mais importantes jornais europeus), com um título de manifesto: “Não à tatuagem biopolítica”.

Aí, escrevia que “uma sociedade se prepara para aplicar a todos os cidadãos dispositivos que até aqui eram destinados só aos delinquentes”. E deste procedimento que consiste em tratar os cidadão como “criminosos virtuais”, Agamben deduzia mais uma lei da despolitização: o corpo político que se transforma em corpo criminal. De 2004 até hoje, o controle biométrico generalizou-se e já é muito difícil que um cidadão possa passear incógnito nas ruas das cidades: as câmaras de vigilância que estão por todo o lado passaram a ser assistidas pelas tecnologias de reconhecimento facial.

Há hoje uma série de empresas do digital que classificam e revendem os nossos dados e os nossos rostos. Os principais clientes são os serviços policiais e as empresas de marketing(agora que a publicidade é, cada vez mais, dirigida a alvos individuais). Há poucos dias, o Le Monde publicou um extenso artigo, assinado pelo jornalista e ensaísta Frédéric Joignet, sobre o modo como os nossos rostos são perseguidos, nomeados e classificados em enormíssimos arquivos que os sistemas de memória e inteligência artificial tratam como uma mercadoria que tem cada vez mais clientes.

A Google e a Amazon, para nomear apenas dois gigantes, têm o seu serviço de reconhecimento facial. Frédéric Joignet nomeia uma empresas americana que criou um software de “descodificação das emoções”, uma empresa fundada por investigadores em “affective computing” que diz possuir “a maior base de dados de emoções faciais do mundo”. Um computador capaz de apreender os nossos afectos e construir uma grelha ou uma gramática de emoções faz lembrar, diz Frédéric Joignet, a pseudo-ciência da fisiognomonia do século XIX, ta como ela foi praticada pelo criminólogo italiano Cesare Lombroso, que quis identificar o carácter criminoso de uma pessoa através de parâmetros morfológicos.

Nos sistemas de reconhecimento facial, que constituem uma intrusão brutal na nossa vida, há uma junção de biometria e informática com um saber que deve muito à antiga morfopsicologia. Esse reconhecimento, associado à videovigilância “inteligente” e à detecção de todas as marcas digitais dos nossos gestos quotidianos, faz lembrar um olho celeste que está muito para além do panóptico, esse dispositivo que Foucault, no seu curso sobre o nascimento da biopolítica, disse ser “justamente a fórmula de um governo liberal”.

O panóptico é uma arquitectura carceral imaginada pelo filósofo Jeremy Bentham, no século XVIII, que permitia a um só indivíduo, instalado num determinado ponto da estrutura, ter um ângulo de visão total sobre o conjunto das celas dos prisioneiros, sem que estes pudessem perceber que estavam a ser observados. Aos dispositivos de controle e vigilância dos panópticos, sucede hoje esse olho celeste muito mais potente e dotado de muitas funcionalidades: reconhece, classifica, arquiva e memoriza, para utilizações de vária ordem: políticas, policiais e comerciais. Chegou o reino do big data global, com a digitalização daquilo que julgávamos possuir de mais analógico: a expressão facial.

 

O triunfo dos ecrãs

(António Guerreiro, in Público, 23/03/2018)

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António Guerreiro

CENA 1. Um amigo meu e ex-colega enviou-me um e-mail para me dar um recado e acrescentava que se tinha esquecido do telemóvel na sua casa de fim-de-semana, numa zona rural. Não parecia impaciente e até dizia com descontracção: “Eu e os telemóveis!”, insinuando a existência de uma velha inimizade. A sua exclamação atingiu-me,e obrigou-me imediatamente a elaborar esta interrogação envergonhada: “E eu e os telemóveis?”. Respondo: regressaria ao lugar onde o deixei, tornaria a fazer todo o percurso de ida e volta, mais de duzentos quilómetros. Pensei: sem telemóvel, iria tornar-me um pária durante toda a semana, angustiado, com a vida quotidiana e pragmática em suspenso. Entraria na condição da pós-história. Devo a esse amigo esta verificação dolorosa: atingi um grau de dependência em relação aos telemóveis e aos ecrãs que não tem recuo. Hoje, a maior parte das pessoas recusa mesmo fazer a pergunta que obriga a tomar consciência do que se passa consigo. De resto, a pergunta, tal como eu a fiz, só tem sentido para quem conheceu ainda o mundo sem telemóveis, sem computadores, sem Internet. Para os outros, tudo isso é uma segunda pele e, evidentemente, interrogá-la é uma prerrogativa reservada a espíritos filosóficos. É como formular o princípio da razão suficiente: “Porque é que há o ser em vez do nada?”.

CENA 2. Há dias, numa sala de cinema de um centro comercial, as luzes acenderam-se uns minutos antes de o filme acabar. Nada de excepcional: sabemos bem que nas salas comerciais, mal aparece o genérico, os espectadores são convidados a sair. Mas neste caso o filme prolongava-se para além do genérico e detinha o espectador apressado. Mas aquilo que o filme fazia, os exibidores desfaziam. Fui queixar-me, quis deixar o meu protesto escrito num livro de reclamações. Recuei quando o gerente justificou a exibição amputada do filme com razões de segurança: na semana anterior, alguns espectadores, mal começava a passar o genérico, saíam da sala mesmo às escuras e alguns caíram nas escadas e magoaram-se. Adorno, que escreveu um célebre ensaio sobre a “regressão do ouvido”, e que foi um puritano até mais não em tudo o que diz respeito aos efeitos da “indústria cultural” sobre a própria produção artística, gostaria talvez de saber que a maior parte das pessoas, hoje, sofrem de uma “regressão da visão”, não se ajustam ao modo e ao tempo de exibição pública de uma filme numa sala escura. A impaciência manifesta-se muito antes do fim do filme: há sempre focos de luz na sala, vindos dos ecrãs dos telemóveis, gente que envia sms, que lê as mensagens, que vê as horas. Quem tem a experiência das salas de aula, reconhece perfeitamente a situação no cinema. Há hoje uma discussão sobre as vantagens e desvantagens da informatização e digitalização da escola que já levou a reclamar “uma escola sem ecrãs”. Em favor deste regresso ao passado, ergue-se até um poderoso argumento: muitos dirigentes de Silicon Valey põem os filhos a estudar em escolas de onde os ecrãs foram banidos.

CENA 3. Há dias, vi um professor com mais de cinquenta anos exibir com algum snobismo a sua ignorância em questões técnicas: como ligar um projector, como inserir um DVD no computador, como iniciar a sessão. A inabilidade que ele ostentava sem pudor e até com alguma presunção era claramente percebida pelos alunos (alguns dos quais lhe resolveram imediatamente todos os problemas técnicos) como uma prova de incompetência que nenhum outro saber conseguiria resgatar.

A escola, hoje, com um corpo docente muito envelhecido, é o lugar de uma luta sem tréguas entre duas culturas: a dos alunos e a dos professores.

A mais ociosa das ocupações

(António Guerreiro, in Público, 16/03/2018)

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António Guerreiro

Durante os dias em que decorreu um congresso partidário, o comentário político jorrou em catadupa dos jornais, da rádio, da televisão. Mesmo em tempos normais, ele é abundante; mas nestes momentos de festa é pletórico e dilata de maneira demagógica os seus atributos. A situação espiritual do nosso tempo — como se dizia outrora — deve muito a este exército de soldados da eloquência, mobilizados para uma marcha fútil e exuberante de frases e frases que, de certo modo, nada dizem. “De certo modo, nada”: esta expressão podia ser um tique de linguagem usado por estas milícias de jornalistas, intelectuais, professores e políticos em reciclagem. Experimentemos em inglês: somehow nothing. Soa melhor ou, pelo menos, disfarça o vazio. Porquê o modalizador somehow? Para deixar a indicação clara de que o juízo que classifica uma frase como não substancial ou não significativa é subjectivo, é uma questão de perspectiva. A minha perspectiva foi a do leitor, a do ouvinte e a do espectador que quanto mais escutava e olhava de perto as análises e comentários em catadupa, mais eles pareciam olhar-me de longe. Mobilizei-me, compareci e aguentei até soçobrar. Não por dever cívico, mas por uma circunstância especial e irrepetível que me pôs colado aos ecrãs, às colunas de rádio, às páginas dos jornais. Julgava que sabia tudo ou quase tudo sobre o comentário político tal como ele é praticado pelos seus oficiantes. Mas fiquei a saber ainda mais: que o puro vazio, contemplado de olhos abertos, provoca um estado de letargia e encantamento.

O exército de comentadores e analistas é ecléctico: há os histéricos, os teatrais, os circunspectos, os cómicos, os enfáticos e os académicos. Estes últimos não provêm necessariamente da Universidade e podem não pertencer à categoria dos politólogos. De igual modo, professores universitários em missão comentarista podem ser tão cómicos como os profissionais da comédia.

Adiciono um elemento de autocrítica: por mais que me queira vigiar e não cair na caricatura, é difícil resistir. Certamente que muita desta gente faz outras coisas respeitáveis e valiosas, merece consideração quando se dedica a outras actividades. Mas como é que tantos, ao mesmo tempo, aceitam transfigurar-se em representantes da tagarelice, em veículos de comunicação onde tudo é somehow nothing? Presumo que deve haver uma suspensão do pudor e da crítica, tal como eu experimentei a suspensão da credulidade.

Quero dizer: habituámo-nos de tal modo a este discurso que nos é oferecido como análise e comentário políticos que só quando nos colocamos numa atitude de vigilância e de interrogação das regras do jogo é que ele nos parece somehow nothing. “Chatter”, uma palavra inglesa, encontra aqui a sua significação. Como traduzi-la? Conversa vazia ou tagarelice, em português; bavardage, em francês; garrulitas, em espanhol; Geschwätz, em alemão; mataiologos, em grego: aprendo estas e outras traduções possíveis na introdução de um livro de um americano sobre “linguagem e história em Kierkegaard”.

Como é que tanta gente consegue fazer desta tarefa que consiste em produzir um discurso vazio (não tinha necessariamente de ser assim, mas é-o efectivamente) uma actividade prestigiada e considerada de interesse público? Como evitam que chegue o momento em que deveriam sentir aversão pelo papel que desempenham, pelo somehow nothing a que se entregam, às vezes com tanto ênfase que parecem investir naquele vazio a plenitude dos grandes momentos da vida? Como é que gente com reputações a defender e ciência a transmitir aceita fazer o jogo do ócio intelectual? Haverá certamente uma explicação, mas não é bonita de se ver.