“O que está a acontecer no mundo não é só profundamente imoral, mas também suicida”

(Entrevista a Noam Chomsky, in Diário de Notícias, 09/10/2021 )

Teórico da linguagem, pensador polémico, Noam Chomsky acaba de publicar Um guia essencial sobre capitalismo, política e o funcionamento do mundo. Na entrevista à TSF e DN fala de vacinação, clivagens políticas, Afeganistão e alterações climáticas.


Acredita que os países ricos estão dispostos a assumir as suas responsabilidades e ajudar a fornecer o que o mundo em desenvolvimento ainda precisa em termos de vacinação?
É um escândalo e também é suicida. Os países ricos praticamente monopolizaram a vacina. Tem havido alguns esforços para distribuí-la aos países que precisam dela desesperadamente. Na África, Ásia, América Latina. Não só monopolizaram as vacinas, mas insistem em que as taxas de lucro exorbitantes das empresas farmacêuticas sejam protegidas pelos chamados acordos de livre comércio altamente protecionistas. O que está a acontecer não é apenas profundamente imoral, mas também suicida. Todos entendem que quanto mais tempo levar para o resto do mundo ser vacinado, mais tempo há para o vírus se transformar em variantes que serão incontroláveis, que irão, claro, voltar aos próprios países ricos, como foi com a variante Delta. É um exemplo de como a ganância e a estupidez superam não apenas os valores morais elementares, mas mesmo um sentido de auto-preservação. Agora, há um forte movimento anti-vacinação que, nos EUA, é localizado. De forma esmagadora, nos estados republicanos, praticamente na velha confederação e em alguns estados do noroeste, há uma oposição muito forte à vacinação. E os hospitais estão lotados com quase 100% de pacientes não vacinados. Estão a morrer e dizem “não quero uma vacina, não vou deixar o governo fazer isso comigo”. Sabe, é maníaco, doentio, até alguns segmentos da esquerda são apanhados nisso. Mas a maioria dos republicanos dizem que, simplesmente, não serão vacinados.

Isso relaciona-se com as clivagens e a polarização na política americana atual. Vê-as como uma ameaça importante para a democracia dos EUA?
Bem, a democracia dos EUA está moribunda, está de partida. Podemos ver isso no Congresso agora que está a debater a legislação que levaria os Estados Unidos, em alguma medida, na direção de social-democracia que é normal na Europa. Cuidados de saúde universais dificilmente radicais, ensino superior gratuito, creches, isto é, as coisas normais na maior parte do mundo mas que nos Estados Unidos são consideradas radicais. Os republicanos são totalmente contra.

“A democracia dos EUA está moribunda, está de partida. Podemos ver isso no Congresso agora que está a debater a legislação que levaria os Estados Unidos, em alguma medida, na direção de social-democracia que é normal na Europa.”

Pensa que um Partido Republicano orientado e controlado pelo ex-presidente Trump pode ganhar as eleições intercalares do próximo ano e voltar ao poder na Casa Branca em 2024?
É muito provável. E se o fizerem, o mundo estará em grande perigo. Eles sabem que são um partido minoritário e que não podem ganhar eleições livres. Portanto, têm uma estratégia que passa por reduzir os direitos de voto. Em praticamente todos os estados republicanos estão a impor novas leis que tornam mais difícil o voto de eleitores que tendem a ser democratas, tornam mais difícil para que votem as minorias, os pobres, os trabalhadores, as populações urbanas e assim por diante. Dessa forma, aumentam o poder da base republicana, da direita, da supremacia branca, do nacionalista cristão, do tradicional. A outra tática é desviar a atenção das questões económicas e de classe, onde os republicanos estão muito à direita e a esfaquear os seus próprios eleitores pelas costas, desviando a atenção para as chamadas questões culturais. Concentram-se nisso, ou no aborto, ou em garantir que todos tenham um arsenal de fuzis na garagem, qualquer coisa menos a classe e as questões económicas. Isso faz sentido para um partido totalmente leal aos super-ricos e ao setor corporativo. Pode ver isso dramaticamente com Trump, um homem com uma autoconfiança brilhante, ele poderia levantar-se, com uma mão dizer, “eu amo-te e trabalho para ti”; e, com a outra mão, apunhalar-te pelas costas. Uma terceira parte da estratégia, que é muito aberta e explícita, é fazer com que o país sofra o máximo possível. Se ler os projetos agora no Congresso: seguro-desemprego, creche, uma ajudinha de saúde para o escandaloso sistema de saúde dos Estados Unidos, tudo isso seria muito benéfico para a população. São medidas muito populares, mesmo entre os eleitores republicanos. Mas Trump precisa ter a certeza de que não serão aprovadas. Porque se o país sofrer o suficiente e for ingovernável, eles podem culpar os democratas e voltar ao poder. Algumas das coisas com as quais os republicanos se safam são quase cómicas, como a retirada do Afeganistão, planeada por Trump. Fez um acordo com os talibãs, sem sequer notificar o governo afegão, que era “vocês podem fazer o que quiserem, assumir aquilo. Sem condições. Nós retiramos as tropas. A única condição é não dispararem contra as tropas americanas que vão embora. Fora isso, façam o que quiserem”. Foi uma traição total.

Na Economist, há algumas semanas , o senhor escreveu que os EUA permanecem sem rival em força militar e económica, mas com terríveis consequências para o mundo. Porquê?
Há uma luta em curso, que é muito mal compreendida pela imprensa. É, sobretudo, uma questão de liberdade de navegação. São questões relacionadas com o direito do mar. Há uma disposição que estipula que os países têm uma zona económica exclusiva de 200 milhas, a partir da costa. Agora, a questão da liberdade de navegação com a China está nesse ponto. Os EUA não assinaram a Lei do Mar, nem a ratificaram, mas insistem que a liberdade do direito do mar permite ações militares e de inteligência dentro da zona económica exclusiva. A China aceita a liberdade de navegação, mas sem nenhuma ação militar e de inteligência. É aí que está o conflito que, certamente, pode ser resolvido por diplomacia e negociações, mas os EUA querem resolvê-lo enviando uma armada de navios de guerra para as zonas contestadas da China. Ao mesmo tempo, enviam uma frota de submarinos nucleares avançados para a Austrália, que a Austrália vai pagar, mas que estarão sob o comando americano. Ao fazer isso, deram um pontapé na cara à França. E a Austrália é que teve que lidar com a França, que ficou certamente muito chateada e chamou os seus embaixadores na Austrália e nos EUA. Não se preocuparam com a Inglaterra, porque reconhecem que a Inglaterra é apenas um estado vassalo dos EUA, não um país independente. O principal correspondente militar australiano fez uma análise detalhada do caráter grotesco do negócio e como põe a Austrália em perigo. Mas isso não chega à imprensa ocidental, aqui é um acordo maravilhoso.

“Pode ver isso dramaticamente com Trump, um homem com uma autoconfiança brilhante, ele poderia levantar-se, com uma mão dizer, “eu amo-te e trabalho para ti”; e, com a outra mão, apunhalar-te pelas costas.”

No caso do Afeganistão, o senhor é dos que pensa que invadir foi uma opção má, e que a retirada foi provavelmente ainda pior. E agora? Acha que este novo governo talibã, pode ser melhor para o povo afegão do que o que houve entre 1996 e 2001?
Bem, a traição de Trump ao povo afegão e ao governo afegão foi severa. O acordo que ele fez com os talibãs, de lhes entregar o país, foi uma decisão para maio de 2021, o início da temporada de combates. Foi o pior momento possível, não havia oportunidade para acomodações ou qualquer outro arranjo. Bem, Biden tentou torná-lo um pouco melhor, acrescentou algumas condições que Trump não havia adicionado. Era óbvio que o governo afegão estava afundando, não era apenas um atoleiro de corrupção, mas sim um colapso completo. Era bastante óbvio que o exército afegão entraria em colapso. Eles não têm nada para lutar, os soldados estão lá, mas não são pagos. Por que deveriam lutar pelo poder estrangeiro? O colapso era óbvio. As únicas pessoas que não entenderam isso foram as agências de serviços secretos. Eles sabem exatamente o que está a acontecer e fornecem relatórios precisos. Mas, à medida que esses filtros sobem na cadeia de comando, são modificados de acordo com o que as pessoas no topo desejam ouvir. Quando chega ao poder executivo, eles não têm nenhuma relação com o que está a acontecer. Há um longo historial disso. Os serviços secretos no terreno são muito eficientes. Mas o sistema leva a uma grande confusão no topo. Era bastante óbvio que o exército afegão não resistiria; que o chamado governo afegão, com uma corrupção massiva no seu interior, entraria em colapso imediatamente. E foi o que aconteceu.

“China, Rússia, os estados da Ásia Central querem tentar trabalhar com os talibãs para tentar melhorar a situação e ver se os podem mover numa direção mais moderada. Isso teve a oposição de dois países, os EUA e a Índia.”

O que podemos esperar destes talibãs 2.0?
Bem, há uma divisão entre os poderes que podem lidar com isso. China, Rússia, os Estados da Ásia Central querem tentar trabalhar com os talibãs para tentar melhorar a situação e ver se os podem mover numa direção mais moderada. Isso teve a oposição de dois países, os EUA e a Índia. Nas reuniões da Organização do Conselho de Cooperação de Xangai, a Índia esteve sozinha e opôs-se aos esforços dos demais países para caminhar nessa direção. O Tesouro dos EUA detém os recursos financeiros do governo afegão. Os EUA congelam esses recursos e pressionam o FMI e o Banco Mundial para reter os financiamentos. O povo afegão está a sofrer muito: enfrentam fome massiva e destruição do país. E é aí que estamos. A China liderou os esforços das potências regionais, são os que estão a seguir a política certa. Os talibãs estão no comando, é um facto, são o governo em funções. Há muitas coisas que são muito más neles mas também há coisas muito más vindas de outros governos. O povo afegão deve ser a nossa preocupação. E a forma de ajudar é exatamente trabalhar com os talibãs, tentar induzi-los a tornarem-se mais inclusivos, menos repressivos, fazer com que mudem a economia baseada na produção de ópio, para o desenvolvimento dos seus próprios ricos recursos minerais, tentar estabelecer projetos de desenvolvimento, para ver se gradualmente podem ser incorporados no sistema regional, o que provavelmente significará incorporarem-se na Organização de Cooperação de Xangai. Bem, os EUA estão ocupados a tentar intimidar todos e a mostrar a sua força. A China está a mover-se discretamente para integrar a Ásia Central, partes da África, até mesmo a orientar-se para a América Latina e integrá-los numa espécie de sistema económico com base na China. Não são pessoas simpáticas que o estejam a fazer por motivos de caridade. Estão a fazer isso por razões de poder.

Estamos a menos de um mês da Conferência do Clima COP 26 em Glasgow, e o secretário-geral da ONU disse recentemente que o mundo deve acordar, estamos à beira do abismo e a mover-nos na direção errada. O senhor escreveu um livro com Robert Poland, em que afirma que devemos ter um Novo Acordo Verde Global, Global Green New Deal. Como é que deve ser esse acordo?
Temos ideias detalhadas explícitas nesse livro. São propostas viáveis para reduzir o uso de combustíveis fósseis de petróleo todos os anos, até atingirmos as emissões zero por volta de meados do século, empregando meios para produzir energia melhor, sustentável e mais barata e uma economia melhor; no fundo, uma vida e economia muito melhores para as pessoas. Agora, voltemos ao mundo real. Os líderes do mundo querem levar-nos ao limite o mais rápido possível, para conseguirem os seus objetivos. Se ler os jornais do setor do petróleo, andam eufóricos a discutir todas as novas perspetivas para novos campos de petróleo enquanto descobrem como podem aumentar a produção de combustíveis fósseis, um futuro maravilhoso pela frente. Se houvesse um observador do espaço sideral a observar-nos, pensaria que somos clinicamente insanos. As grandes empresas de petróleo precisam mudar a sua propaganda de relações públicas. É interessante como fazem isso, continuando a produção de combustíveis fósseis e investindo nalguma tecnologia futurística, – que não existe, já agora -, que será capaz de remover os venenos da atmosfera, depois de despejá-los numa lavagem verde. Essa é a política deles. Veja o Partido Republicano nos Estados Unidos. São todos negacionistas; para eles, não está a acontecer. Ou os chamados democratas moderados, como Joe Mancini, aquele que impede os esforços de fazer algo pelo meio ambiente no orçamento. A sua posição é clara e explícita. Ele diz: só inovação; sem eliminação, continuem a produzir combustíveis fósseis sem limites, mas encontrem uma maneira de superar as críticas. É a pessoa que mais recebe financiamento das empresas de combustíveis fósseis no Congresso, o que é muito significativo porque essas empresas financiam e compram abundantemente membros do Congresso. É o campeão nisso. Os seus próprios constituintes, os mineiros de carvão na Virgínia Ocidental, estão a mover-se no sentido da energia sustentável, mas o seu representante no Congresso está comprado pelas petrolíferas, que querem continuar a correr para o precipício.

“[Greta Thunberg] terminou a dizer: vocês traíram-nos. Essas palavras devem ser gravadas na consciência de todos. Na minha geração e na sua. Traímos a juventude do mundo. Estamos a trai-los agora. Estamos a trair os nossos filhos e netos.”

Há motivos para esperar que os jovens ainda possam fazer uma mudança e salvar o mundo para as gerações futuras?
Eles estão a liderar. Na sexta-feira da semana passada, houve uma greve climática global de jovens, centenas de milhares deles nas ruas da Europa, exigindo que as nossas gerações, a sua e a minha, façam algo para acabar com a crise que está a destruir as vidas deles, mas isso quase não foi relatado nos EUA. Não sei como foi em Portugal. Mas são os jovens que nos imploram. Agora, voltemo-nos para a cimeira de Davos no ano passado, dos ricos e poderosos. Greta Thunberg, uma adolescente, foi lá e teve um discurso sóbrio e cuidadoso sobre a situação atual. O secretário-geral da ONU teria concordado com cada palavra. Terminou a dizer: vocês traíram-nos. Essas palavras devem ser gravadas na consciência de todos. Na minha geração e na sua. Traímos a juventude do mundo. Estamos a trai-los agora. Estamos a trair os nossos filhos e netos.


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Raízes

(Carlos Coutinho, 22/09/2021)

“NÃO há machado que corte /a raiz ao pensamento. / Não há morte para o vento, / não há morte.” Isto é o que Carlos de Oliveira pensava e Fernando Lopes Graça musicou. Manuel Freire e muitos milhares de portugueses ainda não desistiram de o cantar.

Todos tinham razão e eu – às vezes, reticente – dei esta manhã o braço a torcer quando saí de casa para ir comprar o jornal.

O vento, de facto, consegue derrubar uma árvore, como fez esta noite a 200 metros da minha porta, mas, por mais que o tenha tentado, foi-lhe impossível cortar a raiz a um aloendro – se é que é mesmo um aloendro – que não conseguiu resistir à fúria salazarista do mítico Bóreas.

Também é verdade que não há pensamento sem raízes e que só por isso é que não morre, como se viu numa certa madrugada de 1974. Só que as raízes podem morrer, se não as nutrirmos com os fertilizantes de que o pensamento dispõe.

Acontece que bastaram algumas horas para que o Equinócio de Inverno desse esta noite um primeiro sinal do que traz no alforge, ao deitar por terra um ser vegetal que também é mais de quebrar que de torcer e, assim, não logrou manter-se inseparável da sua raiz, como alguns humanos que eu conheci.

A verdade que em 1943, um mês depois do meu nascimento, era institucionalizada a República Social Italiana, os seja, o fascismo, tal como Salazar o apreciava, a pontos de ter uma fotografia autografada de Mussolini na sua mesa de trabalho. Uma imagem arrogante a preto e branco que todos os dias contemplava e reverenciava.

Mas nem tudo é feio neste dia, porque hoje o genial saxofonista e compositor Jonh Coltrane, se não tivesse morrido em 1967, faria 94 anos e um seu grande amigo – que nos deixou em 2004 e era também músico de excelência, o cantor e pianista Ray Charles, apesar de invisual – também não deixaria de celebrar, comigo e com o resto do mundo, o seu 91.º aniversário. E talvez até cantasse qualquer coisa que confirmasse a fortíssima ideia de que “não há machado que corte a raiz ao pensamento.”


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Marxistas somos todos nós

(Atílio Bóron, in Resistir, 01/08/2019)

Karl Marx

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Os trogloditas da direita argentina quiseram desqualificarAxel Kicillof acusando-o de “marxista”. Este ataque revela o nível cultural primário dos seus críticos, ignaros quanto à história das ideias e teorias científicas elaboradas ao longo dos séculos. É óbvio que na sua inépcia desconhecem que Karl Marx produziu uma revolução teórica de enorme alcance na história e nas ciências sociais, equivalente, segundo muitos especialistas, ao que no seu tempo produziu Copérnico no campo da Astronomia. Por isso hoje, quer o saibamos ou não (e muitos não o sabem) somos todos copernicianos e marxistas, e quem quer que negue essa verdade revela-se como um grosseiro sobrevivente de séculos passados alheado das categorias intelectuais que lhe permitem entender o mundo de hoje. 

Copérnico argumentou na sua grande obra, A Revolução das Esferas Celestes, que era o Sol e não a Terra quem ocupava o centro do universo. E, além disso, ao contrário do que sustentava a Astronomia de Ptolomeu, ele descobriu que nosso planeta não era um centro imóvel em torno do qual giravam todos os outros, mas ela mesma se movia e girava. Lembre-se das palavras de Galileu quando os médicos da Inquisição o obrigaram a retratar-se da sua adesão à teoria de Copérnico: “E no entanto ela move-se”, sussurrou para os seus censores que ainda estavam enfurecidos com Copérnico mais de um século depois da formulação da sua teoria. 

Descoberta revolucionária, mas não apenas no campo da Astronomia, pois punha em questão crenças políticas cruciais de sua época. Como recorda Bertolt Brecht na sua magnifica peça Galileu, a dignidade e a sacralidade dos tronos e poderes foram irremediavelmente prejudicados pela teorização do astrónomo polaco. Se, na teoria geocêntrica de Ptolomeu, o papa, reis e imperadores eram excelsas figuras que estavam no topo de uma hierarquia social num planeta que não era nada menos que o centro do universo, com a revolução coperniciana eles foram reduzidos à condição de frágeis reizinhos de um pequeno planeta, que como tantos outros, girava em torno do sol. 

Quatro séculos depois de Copérnico, Marx produziu una revolução teórica de envergadura semelhante ao deitar por terra as concepções dominantes sobre a sociedade e os processos históricos. A sua genial descoberta pode resumir-se assim: a forma como as sociedades resolvem as suas necessidades fundamentais – alimentar-se, vestir-se, abrigar-se, proteger-se, promover o bem-estar, possibilitar o crescimento espiritual da população e garantir a reprodução da espécie – constituem a indispensável sustentação de toda a vida social. 

Sobre este conjunto de condições materiais cada sociedade constrói um imenso entrelaçado de agentes e estruturas sociais, instituições políticas, crenças morais e religiosas e tradições culturais que vão variando à medida em que o substrato material que as sustem se vai modificando. 

Da sua análise, Marx extraiu duas grandes conclusões: primeiro, que o significado profundo do processo histórico assenta na sucessão das maneiras pelas quais homens e mulheres enfrentaram esses desafios ao longo de milhares de anos. Segundo, que essas formações sociais são inerentemente históricas e transitórias: elas surgem sob certas condições, expandem-se, consolidam-se, atingem o seu pico e então começam um declínio irreversível. Portanto, nenhuma formação social pode aspirar à eternidade e muito menos o capitalismo, dada a densidade e a velocidade com que as contradições que lhe são próprias se desenvolvem. Más notícias para Francis Fukuyama e seus discípulos que no final do século passado anunciaram ao mundo o fim da história, o triunfo dos mercados livres, da globalização neoliberal e da vitória final da democracia liberal. 

Tal como acontecera com Copérnico na Astronomia, a revolução teórica de Marx deitou por terra o conhecimento convencional que prevalecera durante séculos. Este conhecimento concebia a história como um desfile caleidoscópico de personalidades notáveis (reis, príncipes, papas, presidentes, chefes de Estado, líderes políticos, etc) pontuado por grandes eventos (batalhas, guerras, inovações científicas, descobertas geográficas). 

Marx pôs de parte todas essas aparências e descobriu que o fio condutor que permitia decifrar o hieróglifo do processo histórico foram as mudanças que ocorreram no modo como homens e mulheres se alimentavam, vestiam, abrigavam e davam continuidade à sua espécie, tudo o que sintetizou sob o conceito de “modo de produção”. Essas mudanças, nas condições materiais da vida social, deram origem a novas estruturas sociais, instituições políticas, valores, crenças, tradições culturais, enquanto decretavam a obsolescência das precedentes, embora não houvesse nada de mecânico ou linear nesse condicionamento “em última instância” do substrato material da vida social. 

Com isto Marx desencadeou na história e nas ciências sociais uma revolução teórica tão retumbante e transcendente quanto a de Copérnico e, quase simultaneamente, como a que fluiu das revelações sensacionais de Charles Darwin. E assim como hoje se tornaria objecto de riso mundial quem reivindicasse a concepção geocêntrica de Ptolomeu, não teriam melhor sorte aqueles que acusassem alguém de “marxista”. Porque isso nega o papel fundamental que a vida económica desempenha na sociedade e também os processos históricos (dos quais Marx foi o primeiro a colocar no centro da cena). 

Quem profere tal “insulto” confessa, para sua vergonha, a sua ignorância dos últimos dois séculos no desenvolvimento do pensamento social. Personagens grotescos como esses não apenas se tornam pré-copernicianos, mas também pré-darwinianos, pré-newtonianos e pré-freudianos. Eles representam, em suma, uma fuga para a parte mais obscura do pensamento medieval. 

Bem, mas acima foi dito é que “somos todos marxistas”? Acho que sim, e pelas seguintes razões: se algo caracteriza o pensamento e a ideologia da sociedade capitalista, é a tendência para a comercialização total da vida social. Tudo em que o capital toca se torna mercadoria ou um facto económico: das crenças religiosas a antigos direitos, consagrados em tradições multisseculares; da saúde à educação; da segurança social às prisões, ao entretenimento e informação. 

Sob o domínio do capitalismo, as nações degradam-se à categoria de mercados e o bem estar ou mal social são medidos exclusivamente pelos números da economia, pelo PIB, pelo défice das contas públicas ou pela capacidade exportadora. 

Se alguma impressão deixou o capitalismo na sua passagem pela história – transitória, porque como sistema está destinado a desaparecer, como aconteceu sem excepção com todas as formas económicas que o precederam – tem sido tornar a economia o parâmetro supremo para distinguir a boa e a má sociedade. 

A ordem do capital erigiu o mercado como seu deus e as únicas ofertas que este moderno Moloch admite são as mercadorias e os lucros que a sua troca produz. A ênfase subtil e cautelosa que Marx deu às condições materiais – sempre mediada por componentes não económicos, como cultura, política, ideologia – atinge no pensamento burguês extremos de vulgaridade que confinam o obsceno. 

Escutemos aquilo com que Bill Clinton confrontou George Bush na campanha presidencial de 1992: “É a economia, idiota!”. E é suficiente ler os relatórios de governos, académicos e organizações internacionais para verificar se o que distingue o bem do mal de uma sociedade capitalista é o progresso da economia. Quer saber como é um país? Veja como os seus títulos do Tesouro são negociados na Wall Street ou qual é o índice de “risco” do seu país. Ou ouçam o que os governantes da direita lhe dizem mil vezes para justificar o holocausto social a que submetem o povo através dos ajustes no orçamento, afirmando que “os números governam o mundo”. 

Personagens como esses compõem uma classe especial e aberrante de “marxistas” porque reduziram a descoberta radical de seu fundador e toda a complexidade do seu aparelho teórico a um economicismo grosseiro. O “materialismo economicista” é uma versão abortada, incompleta e distorcida do marxismo, mas é muito conveniente para as necessidades da burguesia e de uma sociedade que só conhece preços e nada de valores. Um marxismo deformado e abortado porque a burguesia e seus representantes só se apropriaram de parte do argumento marxista: o que destacava a importância decisiva dos factores económicos na estruturação da vida social. 

Por instinto certeiro puseram de lado a outra metade: a que estabelecia a dialéctica das contradições sociais – o incessante conflito entre as forças produtivas e as relações de produção e a resultante luta de classes – que conduziriam inexoravelmente à abolição do capitalismo e à construção de um tipo histórico de sociedade pós-capitalista. Que isso não esteja iminente não significa que não vá acontecer. Por outras palavras: o “marxismo” de que as classes dominantes no capitalismo se apropriaram através dos seus intelectuais orgânicos foi reduzido a um materialismo economicista grosseiro. 

Por isso hoje somos todos marxistas. Os marxistas mais aberrantes, de “cozedura incompleta”, exaltam até ao paroxismo a importância dos acontecimentos económicos e ocultam conscientemente que as dinâmicas sociais levarão, mais cedo ou mais tarde, a uma transformação revolucionária da sociedade actual. Esse economicismo é o grau zero do marxismo, seu ponto de partida, mas não o ponto de chegada. É um marxismo truncado no seu desenvolvimento teórico; Ele contém os germes do materialismo histórico, mas estagna nas suas primeiras hipóteses e ignora – ou esconde conscientemente – o resultado revolucionário e a proposta de construir uma sociedade mais justa, livre e democrática. 

Mas temos outros marxistas para quem a revolução teórica de Marx não só corrobora a transitoriedade da sociedade actual como também sugere os caminhos prováveis da sua superação histórica, seja por diferentes meios revolucionários ou pela dinâmica imparável de um processo de reforma radicalizado. 

Contra os marxistas inacabados, da “cozedura incompleta”, apologistas da sociedade burguesa, defendemos a tese de que o modo de produção capitalista será substituído, por meio de intensos conflitos sociais (porque nenhuma classe dominante abdica do seu poder económico e político sem lutar até ao fim) para finalmente dar à luz uma sociedade pós-capitalista e, como disse Marx, pôr fim à pré-história da humanidade. Porém, para além dessas diferenças, somos todos filhos do marxismo no mundo de hoje. Não poderíamos deixar de ser marxistas, assim como não poderíamos deixar de ser copernicianos. 

O capitalismo contemporâneo é muito mais “marxista” do que quando, há quase dois séculos, Marx e Engels escreveram o Manifesto do Partido Comunista. A diatribe contra Axel Kicillof é um desabafo que pinta o brutal anacronismo de vastos sectores da direita argentina e latino-americana e dos seus representantes políticos e intelectuais, que no seu escandaloso atraso receiam os avanços produzidos pelos grandes revolucionários do pensamento contemporâneo. Eles desconfiam de Darwin e Freud e acreditam que o marxismo é o delírio de um judeu alemão. 

Mas, como Marx disse com astúcia, alguns são marxistas como Monsieur Jourdain, aquela curiosa personagem de O Burguês Gentil-Homem de Molière que falava em prosa sem o saber. Eles balbuciam um marxismo desenfreado, transformado num economicismo grosseiro e sem a menor consciência da origem dessas ideias na obra de um dos maiores cientistas do século XIX. Outros, por seu lado, sabem que o marxismo é a teoria que nos ensina como o capitalismo funciona e que, portanto, fornece os instrumentos que nos permitirão deixar para trás este sistema desumano, predatório e destrutivo da natureza e das sociedades, que se alimenta de inúmeras e intermináveis guerras que ameaçam acabar com toda a vida deste planeta. 

Portanto, longe de ser um insulto, ser um marxista no mundo de hoje, no capitalismo de nosso tempo, é um timbre de honra, constituindo uma nódoa indelével naqueles que o expressam como um insulto. 


Fonte aqui