A escola e a norma do mercado

(Por António Guerreiro, in Público, 09/02/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

Bem podem os críticos do ranking das escolas erguer publicamente os seus argumentos contra uma hierarquização obtusa que poderia figurar como um exemplo de idiotia da nossa época. Estarão sempre em desvantagem porque o exercício é excitante, funciona como um jogo e satisfaz uma pulsão escatológica infantil. E quando se passa para o plano da legitimação racional, o modelo do ranking aplicado às escolas está protegido pelo princípio supremo do mercado: a concorrência. No nosso tempo, ela é uma norma global, imposta a todas as actividades como solução universal para melhorar todos os serviços e para promover um aperfeiçoamento progressivo do indivíduo. A concorrência e a competição exaltam a ideia de mérito e, através de uma operação fraudulenta, fazem dele uma figura do poder chamada “meritocracia”.

Mérito e meritocracia não são a mesma coisa. O desenvolvimento de qualidades e competências individuais (inatas ou alcançadas através do estudo, da disciplina e do esforço) que levam ao sucesso é, e sempre foi, digno de apreço. Chamamos-lhe mérito. A meritocracia é uma coisa diferente: é um instrumento político e de engenharia social, ao serviço de um projecto de selecção de poucos através da exclusão de muitos.

Atribui-se geralmente a um sociólogo e político inglês, Michael Young (1915-2002), a paternidade da palavra “meritocracia”, que surge como um significante-mestre num romance satírico que ele publicou em 1958, com este título: The Rise of Meritocracy. Nesse romance, um sociólogo narrador situado no ano de 2033 conta e comenta o extraordinário progresso conseguido no seu país ao longo dos últimos cinquenta anos, graças à superação das velhas ideologias igualitárias e graças ao triunfo da meritocracia.

A intervenção no campo da educação e das instituições escolares tinha desempenhado um papel crucial na grande transformação: primeiro, as escolas tinham simplesmente seguido a economia na luta pelos mercados, mas a certo ponto uma nova política tinha feito da escola o lugar de experimentação de estratégias mais eficazes e sistemáticas de separação dos inteligentes face aos estúpidos, um processo que depois se impôs com sucesso a outros sectores.

E, na fase mais avançada deste processo, as indústrias começaram a aplicar medidas selectivas com base no modelo da escola. No fim, até o exército tinha aprendido a lição escolar. O romance de M. Young é uma utopia negativa. E o seu autor cunhou a palavra “meritocracia” com uma evidente intenção crítica. Mas ela foi reciclada e passou a ter um significado plenamente positivo. E o processo descrito no romance para construir uma escola apta a transformar uma aristocracia de nascimento numa aristocracia de engenho parece ter inspirado a campanha dos rankings, que chega sempre à meia-noite, como o Pai Natal. Tal como no romance de M. Young, a escola “democrática” é assaltada pela lógica do clube selectivo que funciona por cooptação.

A concorrência e a competição promovidas pelo ranking à imagem da norma do mercado tornam-se um factor importante da reprodução social. A estrutura social das escolas é cada vez mais afectada pelas estratégias de distinção das famílias. O ranking, no fundo, simula um mercado escolar que verdadeiramente não existe.

E se existe como um quase-mercado, ele não é fruto de uma lógica espontânea, não se faz naturalmente por obra das “leis imanentes” do capitalismo (como pretendem os partidários da lógica do mercado aplicada ao campo escolar), mas de uma construção política. E essa construção tem no ranking das escolas uma poderosa ferramenta.

 

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Ranking de enterros

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 13/01/2017)

quadros

Anda por aí uma febre de rankings. Tudo tem um top por mais fundo que seja. Vão de um extremo ao outro: do ranking de escolas ao ranking das juventudes partidárias. Mas, desta vez, decidiram ir mais longe. A SIC andou durante dias a contar se havia poucas pessoas nas ruas nas cerimónias fúnebres de Mário Soares e a comparar o número com outros funerais. Um ranking dos sete palmos debaixo da terra.

Comparar enterros é muito família Addams. Na SIC Notícias, foi feita (várias vezes) a comparação entre a quantidade de pessoas que foram prestar homenagem a Mário Soares e as que estiveram presentes nos enterros de Amália, Eusébio e Sá Carneiro. São comparações idiotas e injustas. Pegando nesta lógica ilógica, o funeral do Doutor Sá Carneiro teria de ser comparado com o da equipa do Chapecoense.

A preocupação em tentar demonstrar, através do números de pessoas que vão homenagear um morto, a popularidade que tinha em vida, é um exercício hipócrita a que felizmente o morto já não assiste. Na SIC, em termos de participação nas cerimónias fúnebres de Mário Soares, apenas faltou comparar o número do sindicato das funerárias com os números do Estado. Cheguei a ouvir uma comparação com a visita de João Paulo II e penso que consegui estabelecer um top de acontecimentos especiais que levaram mais portugueses à rua.

1 – Funeral da Amália
2 – Visita do Papa JP II
3 – Piquenicão Continente 2014
4 – Funeral de Sá Carneiro
5 – Selecção Euro 2016
6 – Funeral de Eusébio
7- Festa fim dos Delfins
8- Transladação dos restos mortais
de Lúcia (até chegar à auto-estrada)
9 – Funeral de Mário Soares
10 – Festa de anos dos Lesados do BES

O problema é que este tipo de top é redutor uma vez que, além de tentarem contar quantas pessoas iam velar o morto, os nossos jornalistas e comentadores, decidiram dividi-las em categorias. Havia os “curiosos”, o “povo”, “as elites”, “os populares”, os “íntimos”, etc. Por exemplo, o primeiro lugar do top de enterros com mais “curiosos” penso que vai para o do Carlos Castro. Sinto falta do clássico – o enterro que teve mais gajas boas. Aí, aposto no da Cesária Évora.

Helena Matos definiu as pessoas que iam homenagear Soares como as “elites”. Lamento, Doutora Matos, mas as elites não gritam “Soares é fixe!” – as elites não dizem “fixe”. As elites, à passagem da urna, gritam “Soares é uma figura incontornável!”

O triste espectáculo da comparação e do insistir no “estava pouca gente” (o PS devia ter contratado figurantes paquistaneses) foi apenas isso, triste. Eu tenho a teoria que, se estava pouca gente, foi porque não dava para o presidente Marcelo estar em todo o lado ao mesmo tempo. Onde está Marcelo, há povo. E vice-versa.

Durante todo o dia, estive à espera do momento em que uma entrevista a popular (curioso, povo, transeunte) viesse repor a verdade dos factos:

Jornalista – Veio prestar homenagem ao Doutor Mário Soares?

Popular – Não, que horror. Detesto enterros. Vim ver se tiro uma selfie com o Professor Marcelo.


TOP 5

Bateu as botas

1. Atirador no aeroporto dos EUA estava a receber apoio psiquiátrico – um clássico. Qual Daesh, Freud é que anda a dar cabo disto.

2. Dieselgate faz primeira vítima: Detido director da Volkswagen – mas vai receber pensão de 3.000 por dia.

3. Perdas que nem Estado nem compradores querem dificultam venda do Novo Banco – Estado do sistema financeiro português. Há mais interessados no André Balada que no Novo Banco.

4. A FIFA decidiu por unanimidade que serão 48 países a disputar o campeonato do Mundo de 2026 – como se em 2026 existissem 48 países. Se houver 2026, upa, upa!

5. Um medicamento destinado ao tratamento do Alzheimer faz renascer dentes em adultos – “O meu avô está na mesma só que agora pensa que é um tubarão.”