O funeral que enterrou a ilusão da ordem americana

(BPartisans, In Fórum da Escolha, in Facebook, 05/07/2026, Revisão da Estátua)


Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

Enquanto os meios de comunicação ocidentais examinavam febrilmente cada mensagem de Donald Trump, outro acontecimento contava uma história muito mais perturbadora: o funeral de Ali Khamenei em Teerão.

Nem Washington, nem Bruxelas, nem os habituais oradores do G7 estiveram reunidos em redor do caixão do Líder Supremo do Irão. Em vez disso, estiveram representados a Rússia, a China, a Índia, a Turquia, o Iraque, o Bangladesh e a Hungria, juntamente com representantes do Hezbollah e de inúmeros outros Estados da Ásia, do Cáucaso e do Médio Oriente. Um retrato diplomático que vale mais do que mil palavras: enquanto o Ocidente fala em isolar o Irão, grande parte da Eurásia continua a estender-lhe a mão.

A maior ironia é que esta cerimónia provavelmente nunca teria acontecido sem o acordo de desescalada alcançado entre Washington e Teerão. Trump queria virar a página, evitar outro conflito regional e retomar as negociações. Ele procurava uma saída. Benjamin Netanyahu, por outro lado, parece procurar exatamente o contrário.

Porque os dois homens já não estão a jogar o mesmo jogo.

Trump pensa como um promotor imobiliário: um negócio rápido, um aperto de mão, uma conferência de imprensa e depois passa para o assunto seguinte. Netanyahu, por outro lado, sabe que, no momento em que as bombas deixarem de cair, as intimações de juízes, as comissões de investigação e os prazos eleitorais voltarão a fazer muito barulho.

A paz é, por vezes, muito mais perigosa do que a guerra… especialmente para aqueles que construíram a sua sobrevivência política num estado de emergência permanente.

O resultado: Trump encontra-se no papel mais humilhante que um presidente norte-americano poderia imaginar. Anuncia um cessar-fogo, pede moderação e emite uma declaração de paz após outra… enquanto o seu principal aliado prossegue a sua própria agenda militar como se as diretivas de Washington fossem meramente consultivas.

A superpotência está a descobrir que já não é ela quem realmente dá cartas.

Enquanto Trump tenta apagar o fogo, Netanyahu continua a deitar-lhe gasolina. Pois ele sabe que uma guerra prolongada adia os prazos políticos que o esperam internamente. Vários analistas salientam, além disso, que os seus problemas jurídicos e a proximidade das eleições pesam sobre os seus cálculos políticos, para além dos seus declarados objectivos de segurança.

Por fim, resta o argumento mágico, aquele que justificou cada escalada nos últimos vinte anos: “a ameaça nuclear iraniana”. Contudo, os relatórios da Agência Internacional de Energia Atómica levantam preocupações e questões não resolvidas sobre o programa nuclear do Irão, mas não concluem que o Irão possua uma arma nuclear operacional. Existe uma enorme diferença entre capacidade potencial e uma bomba pronta a usar, um facto que a propaganda geralmente prefere omitir.

O funeral de Khamenei acabou por pintar um quadro que ninguém em Washington queria ver circular: o de um mundo onde uma coligação de potências regionais e euro-asiáticas se reúne em Teerão enquanto o presidente dos EUA implora ao seu próprio aliado que não inicie uma nova guerra.

O império continua a pagar a conta. Mas parece ter perdido o privilégio de escolher o menu.

Marcelo convidou Cavaco para um funeral nos EUA

(Carlos Esperança, 05/12/2018)

cavacoxy

“O antigo Presidente da República, Prof. Doutor Aníbal Cavaco Silva, representa amanhã [quarta-feira] Portugal em Washington, nas cerimónias fúnebres do antigo Presidente Estados Unidos da América, George H. W. Bush, a convite do Presidente da República e com o acordo do governo”, referiu ontem uma nota no site da PR portuguesa.

Todos sabemos que, sem concordância do Governo, que tem a exclusiva competência da política externa, não era possível o convite. Aliás, não vai representar Portugal, mas o Governo, e ninguém, melhor do que a múmia para fazer de gato-pingado num funeral.

Penso que é mais um ato de humor de Marcelo para compensar o constrangimento de se ter deixado babar, em público, na presença do presidente chinês.

O azougado PR que, no dia em que o substituiu, lhe atribuiu o mais alto grau da Ordem da Liberdade, um ato de humor que só tem paralelo na Universidade de Goa, quando o elevou a ‘Doctor Honoris Causa’… em Literatura, acertou no convidado.

O doutorado levou tão a sério o doutoramento em Literatura que não mais parou de publicar ‘Roteiros’ e ensaios políticos sobre as quintas-feiras e outros dias.

É de crer que Cavaco esteja hoje nos EUA e decerto não fará mau lugar junto do morto. Depois regressa ao sarcófago onde redige memórias que ninguém pode comprovar, e a que alguém há de corrigir a ortografia e a sintaxe.

Ranking de enterros

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 13/01/2017)

quadros

Anda por aí uma febre de rankings. Tudo tem um top por mais fundo que seja. Vão de um extremo ao outro: do ranking de escolas ao ranking das juventudes partidárias. Mas, desta vez, decidiram ir mais longe. A SIC andou durante dias a contar se havia poucas pessoas nas ruas nas cerimónias fúnebres de Mário Soares e a comparar o número com outros funerais. Um ranking dos sete palmos debaixo da terra.

Comparar enterros é muito família Addams. Na SIC Notícias, foi feita (várias vezes) a comparação entre a quantidade de pessoas que foram prestar homenagem a Mário Soares e as que estiveram presentes nos enterros de Amália, Eusébio e Sá Carneiro. São comparações idiotas e injustas. Pegando nesta lógica ilógica, o funeral do Doutor Sá Carneiro teria de ser comparado com o da equipa do Chapecoense.

A preocupação em tentar demonstrar, através do números de pessoas que vão homenagear um morto, a popularidade que tinha em vida, é um exercício hipócrita a que felizmente o morto já não assiste. Na SIC, em termos de participação nas cerimónias fúnebres de Mário Soares, apenas faltou comparar o número do sindicato das funerárias com os números do Estado. Cheguei a ouvir uma comparação com a visita de João Paulo II e penso que consegui estabelecer um top de acontecimentos especiais que levaram mais portugueses à rua.

1 – Funeral da Amália
2 – Visita do Papa JP II
3 – Piquenicão Continente 2014
4 – Funeral de Sá Carneiro
5 – Selecção Euro 2016
6 – Funeral de Eusébio
7- Festa fim dos Delfins
8- Transladação dos restos mortais
de Lúcia (até chegar à auto-estrada)
9 – Funeral de Mário Soares
10 – Festa de anos dos Lesados do BES

O problema é que este tipo de top é redutor uma vez que, além de tentarem contar quantas pessoas iam velar o morto, os nossos jornalistas e comentadores, decidiram dividi-las em categorias. Havia os “curiosos”, o “povo”, “as elites”, “os populares”, os “íntimos”, etc. Por exemplo, o primeiro lugar do top de enterros com mais “curiosos” penso que vai para o do Carlos Castro. Sinto falta do clássico – o enterro que teve mais gajas boas. Aí, aposto no da Cesária Évora.

Helena Matos definiu as pessoas que iam homenagear Soares como as “elites”. Lamento, Doutora Matos, mas as elites não gritam “Soares é fixe!” – as elites não dizem “fixe”. As elites, à passagem da urna, gritam “Soares é uma figura incontornável!”

O triste espectáculo da comparação e do insistir no “estava pouca gente” (o PS devia ter contratado figurantes paquistaneses) foi apenas isso, triste. Eu tenho a teoria que, se estava pouca gente, foi porque não dava para o presidente Marcelo estar em todo o lado ao mesmo tempo. Onde está Marcelo, há povo. E vice-versa.

Durante todo o dia, estive à espera do momento em que uma entrevista a popular (curioso, povo, transeunte) viesse repor a verdade dos factos:

Jornalista – Veio prestar homenagem ao Doutor Mário Soares?

Popular – Não, que horror. Detesto enterros. Vim ver se tiro uma selfie com o Professor Marcelo.


TOP 5

Bateu as botas

1. Atirador no aeroporto dos EUA estava a receber apoio psiquiátrico – um clássico. Qual Daesh, Freud é que anda a dar cabo disto.

2. Dieselgate faz primeira vítima: Detido director da Volkswagen – mas vai receber pensão de 3.000 por dia.

3. Perdas que nem Estado nem compradores querem dificultam venda do Novo Banco – Estado do sistema financeiro português. Há mais interessados no André Balada que no Novo Banco.

4. A FIFA decidiu por unanimidade que serão 48 países a disputar o campeonato do Mundo de 2026 – como se em 2026 existissem 48 países. Se houver 2026, upa, upa!

5. Um medicamento destinado ao tratamento do Alzheimer faz renascer dentes em adultos – “O meu avô está na mesma só que agora pensa que é um tubarão.”