O púlpito dos charlatões

(António Guerreiro, in Público, 23/11/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

Na passada segunda-feira vi o programa Prós e Contras, na RTP 1, e a conclusão a que cheguei, no final, é que há assuntos sobre os quais a televisão, seja pelas características e exigências actuais deste medium, seja pela profunda ignorância e filistinismo dos autores e apresentadores dos programas, presta um serviço fraudulento de desinformação, presta-se a ser o veículo de ideias que não deveriam poder ser difundidas e amplificadas num estação pública, em programas que se reclamam do estatuto de serviço público.

O nível da abjecção e da total ausência de pudor é diariamente atingido naqueles programas da manhã e da tarde que supõem a existência de um público lobotomizado. Mas aqui, nos Prós e Contras, apesar da deriva demagógica do título, indiciando que há muita probabilidade de as coisas não correrem bem, supõe-se que é um programa para uma classe de espectadores bem informados, que esperam muito mais do que um serão de entretenimento.

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O último Prós e Contras era sobre as touradas, sobre as razões que levam uns a defender que elas devem ser mantidas e sobre as razões que levam outros a defender que elas deviam ser abolidas. Como sabemos, este debate está instalado entre nós com bastante virulência e já se percebeu que ele é extremamente incómodo para alguns partidos políticos e para o Governo, que quer fugir dele como o diabo da cruz.

É preciso dizer que ele não deve ser desvalorizado, com aquele argumento de que há coisas muito mais importantes e esta não passa de algo inócuo. O que está aqui em jogo, a discussão de fundo, é algo fundamental que se inscreve no cerne da biopolítica contemporânea. A ideia de que está em curso ou já se consumou um animal turn, uma viragem animal, convoca-nos hoje seriamente através de uma bibliografia imensa que se tem produzido nos últimos anos sobre o assunto, vinda sobretudo dos lados da filosofia.

O que descobrimos quando frequentamos esta vasta bibliografia é que a questão animal, nas suas mais variadas dimensões (morais, antropológicas, legais, etc.), incluindo a questão maior de saber se eles podem e devem ser sujeitos de direito, está presente nos grandes obras de filosofia, desde Aristóteles a Heidegger, de Derrida e Martha Nussbaum. Está longe, portanto, de ser uma questão exclusiva do nosso tempo. Daí que seja chocante ouvir pessoas que são chamadas a falar sobre o assunto porque lhes é conferida, por qualquer razão, autoridade para tal, mas discorrem sobre ele com a maior das ignorâncias.

Neste último Pros e Contras destacou-se neste exercício de desinformação e de ignorância um aficionado chamado Luís Capucha, imbuído de filosofia das Lezírias que nem dá para comentar neste espaço. Mas vale a pena revisitar um dos seus argumentos, o de que regime nazi foi muito amigo dos animais e fez legislação que o comprova, para dizer que esse mito com origem na propaganda ( “O nosso Führer ama os animais”) já foi longamente desmentido, em primeiro lugar por Victor Klemperer, o autor de LQI. A Linguagem do III Reich. E, no início dos anos 90, em França, Luc Ferry publicou um livro onde transmitia essa mensagem (e onde traduzia documentos da legislação nazi) que foi muito contestado e deu origem a uma enorme polémica.

Ora, o que se passa entre nós é que alguém (na circunstância, um professor universitário de Sociologia) pode dar-se ao luxo de fazer afirmações na televisão como se fossem verdades irrefutáveis, desconhecendo ou fazendo que desconhece a contestação e a polémica que elas suscitaram.

Este dispositivo retórico, propagandístico e inimigo do saber e da ciência porque é usado com fins exclusivamente ideológicos é o do discurso político, em relação ao qual já criámos muitas defesas, mas não pode ser a regra numa discussão na televisão pública, sobre um assunto sério, para o qual se convida, para o debate, “especialistas”, gente a quem se confere uma qualquer autoridade. O sociólogo, o aficionado, o propagandista e o inimigo do saber, tudo na mesma pessoa, só na televisão é que é possível. 

 

A civilização contra a cultura

(António Guerreiro, in Público, 16/11/2018)

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António Guerreiro

E, de repente, ao entrar em funções, confrontada com a questão das touradas, a ministra da Cultura pronunciou a palavra “civilização”, explicitando assim, espontaneamente, o campo e o horizonte de ideias em que esta discussão tem lugar. O aparecimento e a evolução semântica e ideológica da palavra “civilização” e das problemáticas que ela trouxe consigo é um assunto importante na história das ideias, que no nosso tempo mobilizou estudos de figuras tão importantes como Jean Starobinski e Émile Benveniste.

A civilização como categoria é um elemento central do projecto iluminista, para o qual ela designa o processo fundamental da História e o resultado desse processo: a superação de um estado primordial em direcção a um estado considerado superior do ponto de vista moral, cultural, científico, tecnológico, etc. A ideia de civilização tornou-se o critério pelo qual a barbárie — ou não-civilização — é julgada e condenada. Ela só pode ser compreendida em função da ideia de progresso, da concepção de que há um progresso da humanidade.

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A história da ideia de civilização não pode ser feita sem a referência à ideia de cultura, com a qual ela forma um par. E esse par ganhou uma importante configuração dicotómica — a civilização em oposição à cultura — que nos chegou da tradição romântica alemã. A reivindicação da Kultur contra a Zivilisation (vista com desconfiança como ideia muito francesa), a defesa da “cultura espiritual” e enraizada contra o cosmopolitismo e universalismo da ideia de civilização, democrática na sua essência, encontra em Thomas Mann, na sua fase inicial, um representante que manifestou todo o seu desprezo pela classe que ele denominou como intelectuais da civilização, Zivilisationsliterat, a que pertencia, aliás, o seu irmão Heinrich Mann.

O par dicotómico civilização/cultura é de uma grande complexidade, ao ponto de ser muito difícil responder a esta questão: quando Freud escreveu Unbehagen in der Kultur, publicado em 1930, é sobre o mal-estar da cultura ou sobre o mal-estar da civilização que ele escreveu? Sobre isso, os tradutores nunca se entenderam e nas principais línguas europeias encontramos o título traduzido das duas maneiras.

Fácil é então perceber porque é que os defensores das touradas reivindicam a ideia de cultura e os que querem que elas sejam proibidas tomam a civilização como critério. Mais difícil — mas necessário — é perceber que as duas partes não estão envolvidas num litígio em que é possível uma verdadeira discussão, isto é, um encadeamento das frases de um lado e de outro que formam uma argumentação e uma contra-argumentação, tendo como condição necessária o pressuposto de que é possível as duas partes litigarem.

Ora, neste caso não se trata nunca de um litígio, mas de um diferendo. O que é um diferendo? Há um diferendo, explicou o filósofo francês Jean-François Lyotard, quando o discurso de uma parte não tem nenhum sentido para a outra parte porque as duas falam uma linguagem diferente e nem partilham um terreno mínimo, uma razão comum, que possa tornar possível o esforço que consistiria em cada uma das partes se colocar no lugar da outra.

É que, neste caso em que há um diferendo, as palavras de uns não podem ser encadeadas nas palavras dos outros. Há uma absoluta heterogeneidade de linguagens, uma incomensurabilidade dos discursos, ao ponto de aquilo a que uns chamam cultura os outros chamarem barbárie. E cada vez que uma das partes explica e defende as suas razões, só confirma as razões da outra parte. E, assim, o conflito nunca pode ser equitativamente resolvido, não é possível recorrer a uma regra de julgamento aplicável ao discurso de ambos os lados. O diferendo não é uma mera oposição de opiniões nem se resolve accionando os mecanismos da democracia.

Imaginar o fim do capitalismo

(António Guerreiro, in Público, 09/11/2018)

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É bem conhecido o paradoxo que o norte-americano Fredric Jameson, nome importante da teoria e crítica da cultura, enunciou há alguns anos: actualmente, é mais fácil para nós imaginarmos o fim do mundo do que o fim do capitalismo. É significativo que ele tenha utilizado a palavra “imaginar”, já que o colapso do capitalismo foi muitas vezes anunciado como previsão de ciência certa — e outras tantas vezes desmentido — desde Marx até ao pensamento ecologista actual que denuncia a impossibilidade (a “insustentabilidade”, como se diz hoje) do modelo “extractivista”, segundo o qual ele se constrói (e Marx parece não ter pensado nos limites dos recursos naturais quando escreveu: “De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades”).

Uma teoria ecológica mais elaborada e de mais vasto alcance diz que o capitalismo é insustentável do ponto de vista das três ecologias de que falava Félix Guattari: a ecologia natural dos recursos físico-biológicos, a ecologia política das relações sociais (que, como sabemos continua a degradar-se com a exacerbação das desigualdades), a ecologia mental das nossas capacidades “atencionais” (se me é permitido este neologismo um pouco bárbaro), esgotadas quer pelo crescimento dos processos competitivos, quer por uma estimulação incessante por meio das novas tecnologias digitais da informação e da comunicação.

Quem hoje entra nas grandes livrarias ou, por outras vias, está atento ao que se vai publicando no campo da teoria política, da sociologia e da filosofia, é convidado com alguma persuasão a “imaginar” o fim do capitalismo. Na verdade, esse ramo de produção teórica e especulativa é vasto e cada vez mais próspero. Uma das experiências mais inconsequentes e mais fúteis que o mundo capitalista nos oferece é precisamente esta: nas prateleiras e bancadas das livrarias vemos alinhar-se um exército de livros de crítica e combate, onde se constroem cenários do fim do capitalismo, das suas transformações, dos seus apocalipses alegres ou negros. mas mal saímos à rua tudo se reconfigura de modo a nem conseguirmos “imaginar” o fim do capitalismo.

Bem podemos ter folheado na livraria um livro seriíssimo, estimulante e de grande alcance teórico sobre a cidade pós-capitalista, um livro recente que, com uma enorme habilidade, até actualiza e desvia do seu território ideológico original (o de uma cultura de direita que já nem existe e que  está na base da “revolução conservadora” entre as duas guerras mundiais) a noção jüngeriana de “mobilização total”; assim que voltamos à rua, a mobilização é de facto total, mas completamente outra: a cidade segue o seu curso neoliberal, indiferente a imaginações e profecias. Ou, pelo menos, é o que parece.

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Veja-se, por exemplo, o que se passa em Lisboa e no Porto: os centros destas cidades são um verdadeiro parque de diversões, cada nova loja ou novo restaurante (e há-os, recém-inaugurados: “la forme d’une ville/ Change plus vite, hélas, que le coeur d’um mortel”, como escreveu Baudelaire) é um novo “conceito” que, não produzindo nada, visa criar um valor especulativo em tudo o que existe. A cidade está toda ela sujeita a ser governada pela lógica da injecção de valor abstracto que pode ser aniquilado tão rapidamente como foi construído (os sociólogos Luc Boltanski e Arnaud Esquerre analisaram este fenómeno do “enriquecimento”, no sentido em que se fala de urânio enriquecido, num livro recente intitulado Enrichissement. Critique de la marchandise)

Se não conseguimos imaginar o fim do capitalismo é talvez porque tendemos a pensar — assim fomos treinados — que esse fim se dará sob a forma de um cataclismo, de passagem violenta para outra coisa completamente diferente. Mas talvez seja mais avisado pensar um pós-capitalismo (e há já quem o esteja a pensar, limito-me a fazer eco de algumas leituras recentes) que está a desenvolver-se a partir do interior do próprio capitalismo, numa altura em que tudo nele obedece à regra da hipertelia, do que se anula porque vai para além dos seus próprios fins.

Tendo falhado todos os ditados do fim do capitalismo por acção dos seus limites exteriores, a maneira possível de imaginar o seu fim é começar a perceber para onde ele está a ser conduzido pelos seus limites interiores. Então, talvez comecemos a perceber que o hiato entre a rua e algumas secções das livrarias actuais não é tão grande como parece.