A civilização contra a cultura

(António Guerreiro, in Público, 16/11/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

E, de repente, ao entrar em funções, confrontada com a questão das touradas, a ministra da Cultura pronunciou a palavra “civilização”, explicitando assim, espontaneamente, o campo e o horizonte de ideias em que esta discussão tem lugar. O aparecimento e a evolução semântica e ideológica da palavra “civilização” e das problemáticas que ela trouxe consigo é um assunto importante na história das ideias, que no nosso tempo mobilizou estudos de figuras tão importantes como Jean Starobinski e Émile Benveniste.

A civilização como categoria é um elemento central do projecto iluminista, para o qual ela designa o processo fundamental da História e o resultado desse processo: a superação de um estado primordial em direcção a um estado considerado superior do ponto de vista moral, cultural, científico, tecnológico, etc. A ideia de civilização tornou-se o critério pelo qual a barbárie — ou não-civilização — é julgada e condenada. Ela só pode ser compreendida em função da ideia de progresso, da concepção de que há um progresso da humanidade.

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A história da ideia de civilização não pode ser feita sem a referência à ideia de cultura, com a qual ela forma um par. E esse par ganhou uma importante configuração dicotómica — a civilização em oposição à cultura — que nos chegou da tradição romântica alemã. A reivindicação da Kultur contra a Zivilisation (vista com desconfiança como ideia muito francesa), a defesa da “cultura espiritual” e enraizada contra o cosmopolitismo e universalismo da ideia de civilização, democrática na sua essência, encontra em Thomas Mann, na sua fase inicial, um representante que manifestou todo o seu desprezo pela classe que ele denominou como intelectuais da civilização, Zivilisationsliterat, a que pertencia, aliás, o seu irmão Heinrich Mann.

O par dicotómico civilização/cultura é de uma grande complexidade, ao ponto de ser muito difícil responder a esta questão: quando Freud escreveu Unbehagen in der Kultur, publicado em 1930, é sobre o mal-estar da cultura ou sobre o mal-estar da civilização que ele escreveu? Sobre isso, os tradutores nunca se entenderam e nas principais línguas europeias encontramos o título traduzido das duas maneiras.

Fácil é então perceber porque é que os defensores das touradas reivindicam a ideia de cultura e os que querem que elas sejam proibidas tomam a civilização como critério. Mais difícil — mas necessário — é perceber que as duas partes não estão envolvidas num litígio em que é possível uma verdadeira discussão, isto é, um encadeamento das frases de um lado e de outro que formam uma argumentação e uma contra-argumentação, tendo como condição necessária o pressuposto de que é possível as duas partes litigarem.

Ora, neste caso não se trata nunca de um litígio, mas de um diferendo. O que é um diferendo? Há um diferendo, explicou o filósofo francês Jean-François Lyotard, quando o discurso de uma parte não tem nenhum sentido para a outra parte porque as duas falam uma linguagem diferente e nem partilham um terreno mínimo, uma razão comum, que possa tornar possível o esforço que consistiria em cada uma das partes se colocar no lugar da outra.

É que, neste caso em que há um diferendo, as palavras de uns não podem ser encadeadas nas palavras dos outros. Há uma absoluta heterogeneidade de linguagens, uma incomensurabilidade dos discursos, ao ponto de aquilo a que uns chamam cultura os outros chamarem barbárie. E cada vez que uma das partes explica e defende as suas razões, só confirma as razões da outra parte. E, assim, o conflito nunca pode ser equitativamente resolvido, não é possível recorrer a uma regra de julgamento aplicável ao discurso de ambos os lados. O diferendo não é uma mera oposição de opiniões nem se resolve accionando os mecanismos da democracia.

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2 pensamentos sobre “A civilização contra a cultura

  1. “O que é que desta escrita devemos deduzir quanto à elaboração de um pensamento, quando é preciso ir além da ordem gestionária da política pragmática”

    Nota-se logo que AG é pensador e escreve somente sem ter necessidade alguma de importar-se ou gerir qualquer ordem pragmática de gestão de pessoal ou governação de um povo.
    Contudo eu posso pensar, e a mui intuitiva actuação política de AC ajuda-me a pensar assim, que o seu pragmatismo político neste caso é, precisamente, mantendo uma neutralidade de liberdades de parte a parte promover uma discussão pública sobre a questão, o que está acontecendo fortemente.
    E inclinando-se à partida para um dos lados da opinião pública, aquele que está em crescendo na sociedade portuguesa, dá o sinal certo para que pela discussão e em total liberdade das partes, subtilmente o caso tenda para uma solução, “pragmática” contestada por poucos sem força de oposição para interditar a morte da tourada.
    Ser pragmático é saber relativizar dialéctica e adequadamente as prioridades e em liberdade para solucionar questões de uma grande complexidade entre “civilização e cultura” como diz o autor.
    Parece que, no entender de AG, o governante “devia ir além da ordem gestionária da política pragmática” impondo uma solução de poder.
    Pois é, mas AC escreveu o que escreveu, penso eu, porque além de escrever tais coisas depois tem de gerir politicamente as consequências do que escreve e AG só tem de expor o seu pensamento como uma ideia mais ou menos complexa ou simples.

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