O semestre europeu da defesa e policiamento dos 5% para a NATO

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 17/09/2025, Revisão da Estátua)


Talvez seja hora de “temos de” questionar o papel da UE e o nosso futuro sem ela.


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Muito poucos falaram do mais grave instrumento que Ursula von der Leyen anunciou no seu discurso sobre o estado da União. Bem sei que é difícil escolher por entre uma miríade de projectos e pretensões, grande parte delas discutidas apenas por quem tem acesso, nem que como espectador, à monolítica máquina burocrática sedeada em Bruxelas.

É enormíssima a quantidade de programas, projectos, relatórios, taxonomias, itinerários e tantos outros instrumentos, os quais, na sua maturidade, não deixam de assumir importantes reflexos nas nossas vidas, mas cuja complexidade tecnocrática e detalhada projecção apenas escondem uma intricada máquina de decisões top-down, na sua grande parte responsiva apenas a impulsos exteriores provindos de organizações como a NATO, Fórum Económico Mundial e dos Think Thank, que pululam como cogumelos sedentos na orla destas organizações neocoloniais.

Qualquer “moderado” cidadão europeu, que por ser “moderado” se afasta das coisas da participação política, se sentiria perdido, submergido, afogado, perante tal profusão de grupos, institutos, direcções, comissões, conselhos consultivos, consórcios técnicos e lobistas. O mergulho nesta realidade apenas lhe confirmaria o que no fundo sabe, mas gosta de esconder perante si próprio, que esta máquina burocrática tem vida própria e navega totalmente à margem das pretensões reais dos cidadãos. As suas vidas são tão longínquas, quanto abrangentes – à escala europeia e internacional – são as suas acções.

E é protegida por esta esta orquestra tão monumental como afinada por insondáveis afinadores, que emite milhares de páginas diárias de informação que muitíssimo poucos lêem, que a Presidente da Comissão Europeia anunciou que a EU vai instituir um Semestre Europeu da Defesa. Assim, sem mais. Sem qualquer discussão, reflexão, consulta pública, nada. Uma fiscalização dos principais instrumentos que corporizam a recente estratégia de “defesa” da UE, do Livro Branco para a defesa Europeia – Defesa 2030 ( Future of European defence – European Commission ), ao “Documento de Reflexão sobre o futuro da defesa europeia” ( Documento de reflexão sobre o futuro da defesa europeia – Comissão Europeia ), nenhum deles, em algum parágrafo refere o que quer que seja quanto à necessidade de um “Semestre Europeu da Defesa”.

O que me faz levantar a questão: o que é que está na base desta decisão; quem é que a tomou; quem é que a concebeu; de onde saiu a ideia? Será a máquina burocrática ao serviço de Von der Leyen, uma espécie de jogo “World of Warcraft”, mas no qual as nossas vidas são reais avatares?

Evocando paralelos com o já estabelecido Semestre Europeu para a economia e social, o qual visa coordenar e recomendar políticas económicas e orçamentais para o cumprimento das metas do Pacto de Estabilidade e Crescimento, a sua versão defensiva levanta questões cruciais sobre o futuro da soberania dos Estados-membros e a concentração de ainda mais poder em Bruxelas, sabendo-se que, Bruxelas está longe de ser o receptáculo da tal poder, estando o mesmo armazenado em partes mais incertas, mas não menos desconhecidas, de onde os duplicados seres que compõem a máquina burocrática europeia bebem a sua legitimidade.

Valha-nos a verdade de sabermos que a ideia de um mecanismo de coordenação em defesa no âmbito da União Europeia não é inteiramente nova. Muitas são as expressões no discurso de oficiais não eleitos de Bruxelas, sobre a necessidade de coordenação deste esforço “defensivo”. O que espanta não é propriamente a existência deste esforço de coordenação, uma vez que o 3.º pilar da construção europeia, o Pilar Europeu de Segurança Comum, consta dos documentos enformadores da União. Também sabemos que uma das razões para este 3.º pilar nunca ter avançado se prendia com a presença da NATO e os superiores interesses que os EUA tinham em priorizar a expansão deste bloco, o que nos trouxe, como tantos disseram e poucos quiseram ouvir ou acreditaram, à guerra na Europa e ao militarismo. Há dezenas de anos que se previa o que está a acontecer, mas a culpa é da Federação Russa! Terá sempre de haver um alvo para que se projecte, construa e atire a seta.

O que nos deve tornar apreensivos sobre a estratégia anunciada por Úrsula Von der Leyen, tem a ver com o tipo de instrumento escolhido, logo um dos mais intromissivos na soberania dos estados-membros, que determina – sob a capa de simples “recomendações específicas” de política macroeconómica – qual a política económica a prosseguir por cada um dos estados membros. Instrumentos como os fundos estruturais e de coesão, ajudam a transformar estas “recomendações” em obrigações de facto, que vão condicionar em que medida um estado-membro investe mais ou menos nos serviços públicos, desregula as leis laborais, privatiza ou promove as célebres “Parcerias Público Privadas”, as quais, disfarçadas de “partilha do risco com o privado” e de “reformas para a concorrência e a eficiência”, mais não são do que o contrário, ou seja, a partilha dos recursos, até pela forma como são reguladas, de modo a garantir rentabilidade eterna aos consórcios “investidores” ( A critical reading EPSU Final.pdf ).

Também não nos deve descansar o facto de o momento escolhido coincidir com o de uma total confusão e transposição dos papéis da NATO e da União Europeia. Aliás, veja-se no caso da Ucrânia e Moldávia, à falta de condições para impor, pela força, a adesão destas nações à NATO, mascara-se esta adesão, de adesão à União Europeia, estrutura que, a partir das políticas de “coordenação” de defesa, impõe o projecto NATO, mesmo aos que não aderiram a esse bloco político-militar.

Depois de Mark Rutte garantir o alinhamento de todos os países da NATO para com o aumento dos gastos da defesa até 5% do PIB, depois de a Presidente da Comissão Europeia, de forma tão efusiva como veemente, ter defendido esse entendimento e, logo no dia seguinte ao do seu anúncio por Donald Trump e seu “filho” economicamente mais lucrativo  – o secretário geral da NATO – vir brindar-nos com um “boost” ( como ela adora estes slogans americanóides) no financiamento europeu de defesa, eis que, não contente, esta acena agora com o instrumento que irá garantir que os países europeus serão obrigados a cumprir o desiderato.

Agora perguntemo-nos: quando é que alguém votou para eleger governantes que, honestamente, tenham prometido aos povos que iriam gastar o dinheiro das suas pensões, educação, saúde e habitação, em armas americanas, alemãs, francesas ou espanholas?

Só quem não souber o que é o Semestre Europeu, enquanto instrumento anual de coordenação das políticas económicas e sociais da UE ( Semestre Europeu ) – não se deixem enganar pelo “social” – é que pode ficar sossegado.

A pretensão de Von der Leyen é simples: usar um Semestre Europeu da Defesa como um quadro para alinhar os objetivos de defesa dos Estados-membros com as ambições imperiais da UE e, por extensão, com os compromissos da NATO, promovendo um aumento coordenado dos gastos em defesa e o desenvolvimento de capacidades conjuntas. E como garante a UE que os estados membros cumpririam? Da mesma forma que o faz no Semestre Europeu para as políticas económicas. Usando o Fundo Europeu de Defesa e todas as verbas disponíveis para o “Rearm Europe Plan / Readiness 2030” ou o SAFE. Quem aplica as recomendações recebe, quem não aplica, não recebe. Veja-se que isto está tão bem pensado, que no discurso do Estado da União 2025, a Presidente da Comissão chega mesmo a anunciar um prémio a pagar a todos os que comprarem armas para entregar à Ucrânia. Ou seja, continuar a guerra com a Federação Russa até dá bónus! O quer terá Trump dito à senhora para que ela se sinta impelida a fazer uma coisa destas?

Se para aumentar salários dos professores e médicos, fazer casas para os trabalhadores que vão parar à rua, impelidos pela acumulação de propriedade imobiliária em fundos especulativos, construir hospitais ou escolas, tudo tem de ser feito dentro das regras do Pacto de Estabilidade, já para a defesa, prevê-se uma activação das cláusulas de escape nacionais para gastos orçamentais. Dizer que tal aumentará de forma brutal o endividamento dos estados-membros, o que não deixará de se reflectir negativamente na garantia de serviços públicos aos cidadãos, seria despiciendo. Uma vez mais, assalta-me a questão: quando é que alguém votou para trocar o investimento em melhores condições de vida, por investimento em guerra?

A introdução de um Semestre Europeu da Defesa, caso se concretize, trará consigo uma complexa teia de interacções entre a NATO, a UE e os Estados-membros, o que, dada a natureza agressiva da aliança atlântica, apenas perpetuará a compra de armas, o seu aumento permanente, a garantia de que as guerras começam mas nunca acabam, por falta de vontade para sequer dialogar – veja-se agora a recusa polaca relativa aos drones -, a submissão dos estados membros aos ditames de um ávido complexo militar industrial, tudo sob uma reforçada teia de policiamento político-económico europeu. É assim que Úrsula garante a Trump a compra do armamento prometido. Talvez não seja de todo desacertado prever um “Semestre Europeu do GNL norte-americano”.  O facto é que, sabendo-se como funcionam os estados militaristas, nem vale a pena perguntar o que acontecerá à liberdade que já se esvai…

Não tenhamos qualquer dúvida assim do que, a introdução deste “Semestre Europeu de Defesa”, importará:

  • Uma crescente promoção da transposição e confusão das pretensões da NATO com as da UE: A linha entre as responsabilidades da NATO e da UE em matéria de defesa tem sido historicamente transposta. Um Semestre Europeu da Defesa poderia solidificar essa intersecção, potencialmente conduzindo a uma maior harmonização das exigências de capacidade e investimento, institucionalizando a relação umbilical NATO/EU, instrumentalizando toda a política europeia em função dos interesses militares de quem controla a aliança – os EUA.
  • Enfraquecimento da soberania dos Estados-Membros: Este é, talvez, o ponto mais sensível. Ao atribuir à Comissão Europeia um poder de recomendação e coordenação em matéria de defesa, os Estados-membros correm o risco de ceder uma parcela significativa da sua soberania. A política de defesa tem sido, tradicionalmente, um dos pilares da soberania nacional. Um Semestre Europeu da Defesa poderia impor critérios de investimento e prioridades de desenvolvimento de capacidades que os Estados-membros seriam pressionados a cumprir, limitando a sua capacidade de definir autonomamente a sua estratégia de defesa em função das suas percepções de ameaça e das suas prioridades nacionais.
  • A forma como as decisões ligadas à Defesa influiriam noutras áreas, sem que a decisão caiba aos estados membros, afastando decisões estratégicas do escrutínio democrático: O Semestre Europeu económico já impõe restrições ao investimento público, com base em critérios de défice, dívida pública e crescimento. A introdução de um Semestre Europeu da Defesa, que importaria a necessidade de cumprir metas de investimento militar definidas pela NATO e pela Comissão Europeia, poderia agravar este dilema. Os Estados-membros poderiam ver-se forçados a desviar recursos de áreas cruciais como infraestruturas, saúde, educação e transição energética para satisfazer as exigências de defesa. Esta priorização da despesa militar em detrimento do investimento social e económico poderia ter consequências profundas no bem-estar dos cidadãos e no desenvolvimento sustentável.
  • Centralização do Poder em Bruxelas e os Perigos para a Democracia e a Paz: Um Semestre Europeu da Defesa, ao concentrar o poder de decisão e coordenação em Bruxelas, corre o risco de reforçar aquele que já é um sistema “top-down“, onde os Estados-membros se tornam meros executores de políticas decididas por uma burocracia europeia. Esta centralização excessiva levanta sérias preocupações democráticas. As decisões sobre gastos militares e prioridades de defesa têm um impacto directo na vida dos povos e na segurança nacional. Se estas decisões são tomadas a uma distância considerável dos eleitores e sem um envolvimento significativo dos governos nacionais e dos parlamentos, corre-se o risco de minar a legitimidade democrática e a responsabilização. A ausência de um debate público robusto e inclusivo sobre estas políticas pode levar a que decisões cruciais sejam tomadas por uma elite, com pouca consideração pelas aspirações de paz da maioria da população.

A proposta de um Semestre Europeu da Defesa, embora apresentada como uma ferramenta para reforçar a segurança e a coordenação europeia, levanta sérias questões democráticas e de soberania, para além dos critérios de segurança, independência e autonomia que devem presidir às decisões que afectam a vida de centenas de milhões de europeus.

A sua concepção e implementação, a partir de uma cúpula distante, sem o envolvimento genuíno dos povos e até mesmo dos governos nacionais, reforça e institucionaliza um precedente extremamente perigoso. A história tem demonstrado que decisões importantes sobre guerra e paz, quando tomadas sem um amplo debate democrático, podem ter consequências desastrosas. É imperativo que qualquer iniciativa de coordenação em defesa na Europa seja precedida por um escrutínio público rigoroso e por um debate aberto e inclusivo, garantindo que as decisões reflectem não apenas as preocupações de segurança, mas também as aspirações de paz e prosperidade de todos os povos europeus. O risco de que estas políticas, concebidas apenas por uma minoria de poderosos e trabalhadas por uma minoria de burocratas não eleitos, nos encaminhem para um futuro de conflito, desconsiderando a vontade da maioria, é uma realidade que não pode ser ignorada.

Ao contrário do que tantas vezes se afirma, que quem quer a paz não tem de apostar no armamento, quem quer a paz tem, isso sim, de apostar no conhecimento, desenvolvimento social e económico, amizade, amor, compreensão, tolerância, cooperação e diplomacia. Essas são as armas da paz e da prosperidade e as únicas que nos podem conduzir a um futuro radioso.

Ao invés, o caminho que nos propõe Bruxelas, sob forte influência de grupos derrotados na segunda guerra mundial, é um caminho de submissão, aniquilação e destruição. Nada de bom poderá advir do ódio, do fanatismo e da intolerância, de quem não é capaz, sequer, de ouvir, encarar e dialogar com o seu adversário.

O termo mais utilizados por von der Leyen ao longo dos seus anos de Presidente da Comissão Europeia é o “temos de”. Talvez seja hora de “temos de” questionar o papel da EU e o nosso futuro sem ela.

Fonte aqui

Endoideceram

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 18/09/2025)

O problema é que nem a Europa nem a NATO querem o fim de qualquer das guerras, estão alinhadas de corpo e alma com o lobby israelita e com o lobby das armas.


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Andamos todos entretidos nas nossas vidas, tratando do que temos de tratar e discutindo outras coisas, umas importantes, outras não tanto, e não queremos entender ou rendermo-nos à evidência de que, num mundo à parte, um escol de dirigentes políticos endoidecidos se prepara para nos servir uma guerra mundial ao virar da esquina. Uma guerra cujas razões ou inevitabilidade não enxergamos e cujas consequências nem sequer conseguimos imaginar em todo o seu horror.

Não, em vida da minha geração o mundo nunca esteve tão perto da guerra. Não o mundo cuja forma habitual de vida é a guerra — em África, no Médio Oriente ou em disputas religiosas ou tribais por esses tristes trópicos. Mas sim o mundo inteiro, a Humanidade como a conhecemos. Em 1979, a União Soviética, de Brejnev, e o seu sinistro séquito de personagens resolveram instalar mísseis de longo alcance nos limites dos países da Cortina de Ferro, os SS-20, apontados às principais capitais europeias. A NATO convocou uma cimeira de urgência para o seu quartel-general em Bruxelas e eu estive lá a cobrir a reunião para a televisão portuguesa. Foi a célebre reunião em que milhares de manifestantes, vindos de vários pontos da Europa, gritavam “better red than death”, instando os dirigentes da ­Aliança a não responderem à ameaça soviética. Eu, porém, torcia intimamente para que respondessem, e foi o que fizeram: a instalação recíproca dos Cruises e Pershings II americanos apontados ao Leste não só fez re­cuar a ameaça iminente como, a prazo e em consequência, conduziria à implosão da URSS. Gosto de recordar este episódio porque há quem se esforce para nos convencer de que agora estamos exactamente na mesma situação. Mas é falso: primeiro, já não existe a União Soviética, mas sim a Rússia — que, mesmo que alimente veleidades imperiais, não se move por ideologia, mas por interesse nacional, o que é mais racional. Em segundo lugar, a NATO tem hoje 32 e não 12 membros e deixou há muito de ser uma organização militar estritamente defensiva para passar a ser o longo braço armado do cerco à Rússia. E, finalmente, em 1979 os russos tinham-nos na mira de novos mísseis nucleares de longo alcance, enquanto hoje o que leva o primeiro-ministro polaco a declarar que estamos à beira da Terceira Guerra Mundial foram 19 drones, de um total de 450, que, num ataque à zona ocidental da Ucrânia, ultrapassaram a fronteira e caíram no lado polaco, danificando um telhado de uma casa e um tejadilho de um carro. Um “teste”, uma “provocação” ou, melhor ainda, um “ataque”, como logo o classificaram todos os dirigentes nacionais da NATO, o seu secretário-geral e a imprensa que desde a invasão da Ucrânia os segue acriticamente, e que é quase toda. Obviamente, a explicação de um mero erro de cálculo não podia convencer quem se esforça para nos convencer todos os dias de que estamos à beira da guerra e que, se não nos endividarmos perante as empresas de armamento americanas, Putin passará o próximo Verão, não na Crimeia, como Tchékhov e tantos outros russos célebres, mas na Côte d’Azur ou na Comporta.

Assim lançados na sua velada de armas, os nossos dirigentes ocidentais mergulharam numa histeria de declarações, sanções, exclusões do espaço aéreo, convocação urgente do Conselho de Segurança da ONU e dos embaixadores russos nas suas capitais para “explicações”— que jamais seriam aceites. O nosso Paulo Rangel saltou logo na dianteira, convocando o embaixador russo em Lisboa para se ir explicar às Necessidades, no que eu imagino que tenha sido uma eloquente conversa: “Sr. embaixador, vocês quiseram atacar a Polónia para quê?”; “Bem, sr. ministro, nós não quisemos nem atacámos a Polónia”…; “Terá sido, sr. embaixador, a preparação para a invasão em grande escala da Europa?”.

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Na véspera, por infeliz coincidência, Israel tinha repetido uma operação inaudita em termos de lei internacional: tinha bombardeado a capital de um país terceiro para matar no seu solo inimigos internos que perseguia. Com a agravante de os alvos serem os mesmíssimos negociadores do Hamas com quem era suposto estar a tentar chegar a um acordo de paz para Gaza e de o país agredido ser o país anfitrião das negociações e a que Netanyahu passou a chamar um país que “alberga terroristas”. Todos os dias, aliás, numa televisão em frente de si, os poucos repórteres de imagem palestinianos que ainda não foram mortos — e os únicos que Israel não pode impedir de lá estarem — mostram aos nossos estimados dirigentes ocidentais torres de habitação a serem destruídas como no 11 de Setembro em Nova Iorque, hospitais e acampamentos a serem bombardeados, crianças esfaimadas a serem mortas a tiro quando querem arranjar comida. Mas, com excepção de Espanha e de Pedro Sánchez, eles não vêem nada, fazem-se de mortos. Pior: nos Estados Unidos da América expulsam-se estudantes, professores, funcionários públicos ou jornalistas de televisão que mostrem alguma espécie de solidariedade para com os palestinianos; em Inglaterra prendem-se centenas de manifestantes contra o genocídio de Gaza; na Alemanha cancelam-se todos os que ousem condenar o maior crime a que estamos a assistir neste século. Assim vão as democracias ocidentais de referência. Assim se comportam, como coniventes com a loucura assassina de Israel, os que nos querem antes arrastar para uma guerra terminal com a Rússia por causa de uns drones que falharam o alvo. Sim, Putin é um assassino, não há qualquer dúvida sobre isso, mas Netanyahu é bem pior, em quantidade e em ostensiva indiferença; sim, a invasão da Ucrânia é ilegítima e intolerável, mas tudo o que se passa na Palestina desde há décadas é bem mais grave e insuportável. E há — eu pelo menos acredito — outra diferença fundamental: querendo, a Europa poderia conseguir o fim da guerra da Ucrânia, mas o fim do genocídio em Gaza duvido. O problema é que nem a Europa nem a NATO querem o fim de qualquer das guerras, estão alinhadas de corpo e alma com o lobby israelita e com o lobby das armas. Mas, descuidando-se, arriscam-se a ver o início de uma guerra nuclear, não por causa da Rússia na Ucrânia, mas por causa de Israel com todos à sua volta.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

3,7 mil kg: Venezuela intercepta lancha com cocaína e desmonta plano dos EUA

(Por Angel González, in Diálogos do Sul, 18/09/2025)


Segundo governo Maduro, embarcação partiu da Colômbia para ser interceptada pelos EUA e criar um falso positivo, atribuindo à Venezuela a origem da droga.


O ministro de Relações Interiores, capitão Diosdado Cabello, informou que, na madrugada de segunda-feira (15), as forças policiais e militares da Venezuela capturaram e colocaram sob custódia uma embarcação tipo Go Fast carregada com 3.692 kg de cocaína. O líder afirmou que a lancha procedia da Guajira colombiana e que a bordo viajavam quatro indivíduos que levavam consigo cédulas de identidade venezuelanas.

Segundo Cabello, a Administração de Controle de Drogas dos Estados Unidos (DEA) tentou montar um falso positivo: as unidades militares estadunidenses no Caribe interceptariam o barco e fariam crer que a droga vinha da Venezuela e se dirigia aos Estados Unidos.

Cabello explicou que o dono da droga apreendida é um homem identificado como Levi Enrique López Batis, que, segundo o depoimento dos detidos na embarcação, “trabalha para a DEA” e está vinculado a Jercio Parra Machado, que opera na Guajira colombiana, e a um indivíduo denominado “aliás Cirilo”, que se encontra em Porto Rico. O barco se dirigia para lá, onde seria capturado pelos estadunidenses ali posicionados, segundo o plano.

No entanto, os mecanismos de inteligência bolivariana detectaram a operação e interceptaram a embarcação ainda em águas venezuelanas.

Manobra militar

A Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) iniciou nesta quarta-feira (17) a manobra militar Caribe Soberano 200 no Arquipélago La Orchila, a 160 km ao norte da capital Caracas.

Desde a Ilha La Orchila, espaço de jurisdição militar pertencente ao Território Insular Miranda, o general-chefe Vladimir Padrino López, ministro da Defesa, explicou que os exercícios Caribe Soberano 200 constituem uma campanha conjunta com todos os componentes da Força Armada Nacional Bolivariana da Venezuela (FANB), por meio terrestre, marítimo e aéreo.

“La Orchila é um espaço que sempre serviu para exercícios aeronavais de todo tipo, e nesta oportunidade vamos realizar um exercício bastante completo que envolve a Força Tarefa Caribe e os grupos de tarefa conjuntos: aeroespacial, forças especiais, inteligência e guerra eletrônica, marítima e, por último, terrestre”, detalhou.

A mobilização, que se estenderá por três dias, inclui também a participação do povo, pois as manobras contemplam patrulhas conjuntas com pescadores venezuelanos, disse Padrino López.

O movimento demonstra o músculo de artilharia com que a Venezuela conta. Os exercícios contemplam a ativação de equipamentos como drones de vigilância armados, tanto submarinos quanto aéreos; sistemas antiaéreos Buk e sistemas de artilharia ZU; além de “um importante deslocamento de navios da Armada Bolivariana para execução de tiro costeiro, desembarque anfíbio e tomada de cabeças de praia”, declarou o representante.

A manobra ocorre em um momento em que os Estados Unidos intensificaram suas ações no Caribe. Segundo Donald Trump, os Estados Unidos teriam realizado mais dois ataques a lanchas com supostos narcotraficantes em menos de 24 horas. Nesse sentido, a ação chavista demonstra a capacidade de reação e de domínio sobre o território que a Venezuela possui. Inclusive, Padrino afirmou que a operação foi ordenada pelo presidente Nicolás Maduro como “resposta às ameaças dos últimos dias”.

Nicolás Maduro: Seguimos abertos ao diálogo

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, afirmou nesta segunda-feira (15), durante uma coletiva de imprensa, que o que ocorre entre seu país e os Estados Unidos “não é uma tensão, é uma agressão generalizada: é uma agressão judicial quando nos criminalizam, é uma agressão política com suas declarações ameaçadoras diárias, é uma agressão diplomática e é uma agressão em curso de caráter militar”.

O líder chavista reiterou que os navios de guerra dos Estados Unidos estão “apontando 1.200 mísseis contra a Venezuela”, e que “todo mundo, nos Estados Unidos, na América Latina e no Caribe, sabe que a operação militar dos Estados Unidos no Caribe é para realizar uma mudança de regime na Venezuela”. Acrescentou que o plano é torcer o braço da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP+) e se apoderar das maiores reservas de petróleo do mundo.

Maduro revelou que “as comunicações com os Estados Unidos foram rompidas por eles, por suas ameaças de bombas, mortes, chantagens”. “Nós não funcionamos assim — com ameaças e chantagens, nunca haverá nada, e eles sabem disso; passamos de uma etapa de comunicações precárias para comunicações rompidas”, elucidou.

No entanto, segundo o presidente venezuelano, os canais de comunicação não estão “fechados”. Mantém-se um fio de comunicação “mínimo” com John McNamara, embaixador dos EUA na Colômbia e designado para tratar de assuntos sobre a Venezuela. Esse canal funciona basicamente para manter o plano de repatriação de migrantes deportados dos Estados Unidos. “Isso é uma prioridade para nós”, afirmou.

Durante sua coletiva, Maduro também falou sobre o incidente ocorrido na noite da última sexta-feira (12), em águas da zona econômica exclusiva da Venezuela, quando um barco pesqueiro foi interceptado e abordado por 18 fuzileiros navais que desceram do destróier Jason Dunham, parte da frota mantida por Washington no sul do Caribe.

“É uma vergonha para a comunidade internacional e para a honra militar das Forças Armadas dos Estados Unidos. É totalmente ilógico, extravagante, absurdo mandar um navio destróier com 380 profissionais de alto nível para assaltar um barco de pescadores de atum… O que estavam procurando? Quem deu a ordem?”, expressou.

O presidente respondeu às declarações feitas por seu homólogo estadunidense, Donald Trump, de que a Venezuela envia drogas e criminosos ao país do norte. Maduro reiterou ser uma “mentira” tanto essa afirmação quanto a alegação de que a intenção de Washington com seu movimento no Caribe é combater o narcotráfico.

“Se o senhor diz que a Venezuela envia esse veneno para lá, é mentira! A Venezuela não produz nem um hectare de folha de coca, aqui não há laboratórios de produção, e quando os encontramos, nós os destruímos”, assegurou.

O governo bolivariano rejeitou o relatório do Departamento de Estado que inclui a Venezuela numa lista de “principais países de trânsito e produção de drogas”.

Caracas afirmou que Washington faz “uma imaginária e ilegítima autodesignação como juiz e polícia do mundo”. Declarou que todas as afirmações do referido relatório carecem de fundamento e contradizem os dados oficiais de organismos internacionais especializados.

O relatório do Departamento de Estado afirma que Maduro “lidera uma das maiores redes de tráfico de cocaína do mundo” e que Washington continuará buscando levá-lo à justiça, além de atacar “organizações terroristas estrangeiras venezuelanas como o Tren de Aragua”.

O ex-presidente Donald Trump afirmou, por meio de sua rede Truth Social, que forças militares dos EUA no Caribe destruíram uma segunda lancha supostamente carregada com drogas, que teria saído da Venezuela com destino aos Estados Unidos. Na ação, teriam matado três “terroristas do sexo masculino”. Na terça-feira (16), Trump disse a jornalistas que os incidentes desse tipo não foram dois (em 2 e 15 de setembro), mas três, embora não tenha dado mais detalhes.

Rejeição às ameaças

Maduro participou na noite de terça-feira (16) da instalação do Conselho Nacional pela Soberania e a Paz, espaço convocado pela Assembleia Nacional e que reuniu representantes de todos os setores da vida pública para expressar, por meio de um manifesto, o desejo de paz e a rejeição às ameaças dos Estados Unidos.

Estiveram presentes empresários, sindicatos, partidos chavistas e opositores, governo, comunidade científica, intelectuais e artistas, militares e policiais, governadores, prefeitos, igrejas e cultos religiosos, esportistas, juventude e comunas, entre outros.

Maduro: É uma vergonha para os EUA usar um destroier com 380 militares para assaltar um barco de pescadores de atum.

Durante sua fala, Maduro afirmou que se formou, na Venezuela, o maior consenso que poderia haver hoje no país diante da agressão estadunidense.

“Todas as pesquisas mostram que entre 93% e 95% dos venezuelanos rejeitam e repudiam as ameaças militares do governo dos Estados Unidos contra a Venezuela”, assegurou.

Reiterou que há uma ameaça de guerra no Caribe contra a Venezuela e que a atual conjuntura nacional tem origem em “uma tentativa imperial dos Estados Unidos de se apoderar” das riquezas venezuelanas.

Por fim, sentenciou que o caminho para conter, neutralizar e derrotar plenamente essa ameaça é a união de todos os setores da Venezuela, acima de qualquer diferença.

Fonte aqui


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