Coerência ideológica

(Carlos Esperança, 28/12/2018)

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Dos grunhidos televisivos, aos uivos radiofónicos, aos vómitos na imprensa, às ameaças do então PR, aos ecos das redes sociais, os dirigentes do PSD e do CDS eram unânimes em considerar ilegítimo um governo [este] formado no único órgão que o legitima, com os votos de PS, BE, PCP e PEV, de acordo com a CRP.

Ganiram imprecações, anunciaram vapores de enxofre em telúricas fendas diabólicas e não se conformaram. Só Paulo Portas, mais inteligente e culto, viu o ridículo, e deixou a Dr.ª Assunção Cristas a vociferar impropérios, o ora catedrático Passos Coelho a lamber feridas e Cavaco Silva a ruminar ódios e ressentimentos.

Nos últimos tempos pensei que o PSD e o CDS viessem acusar o PP e o Ciudadanos, os partidos homólogos espanhóis, do atentado à democracia por se unirem contra o PSOE, vencedor das eleições na Andaluzia, e, sobretudo, por terem pedido auxílio a um partido abertamente fascista [VOX] que advoga a proibição dos partidos políticos e combate a democracia.

Com o descaramento que lhes conhecemos, a Dr.ª Cristas aguarda a notícia do acidente de automóvel que provoca um morto e grita que o Estado falhou, Passos Coelho prepara as aulas para futuros catedráticos e Cavaco Silva continua a escrever sobre as quintas-feiras.

É preciso topete. Reina o silêncio sobre a Andaluzia, desde o Largo do Caldas até à Rua de São Caetano, à Lapa.

O Muro

(Valdemar Cruz, in Expresso Diário, 28/12/2018)

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(Assinaram-se Convenções que ninguém respeita. Produziram-se Declarações Universais de Direitos que são letra morta. Estão na moda os “direitos dos animais”, talvez para limparmos a má consciência de assistirmos impávidos ao espezinhamento dos Direitos Humanos.

E já não chega o muro da nossa indiferença para calar a voz e a aflição dos mais deserdados que nos batem à porta. Por todo o lado surgem muros de pedra e cal, muros de desumanidade, policias, mastins, guardas pretorianos nas fronteiras.

Até um dia em que não haverá muros que nos bastem para suster a raiva, para debelar a fúria de milhões. Muros.

Comentário da Estátua de Sal, 28/12/2018)


Ontem, já a caminho do final da tarde, recebi um e-mail de uma amiga, também ela jornalista. Muito lacónica, escrevia apenas: “Isto é que é mesmo um soco no estômago! E um excelente trabalho do NYT”. Abri a ligação e deparei-me com uma extraordinária reportagem do New York Times sobre o drama migratório no Mediterrâneo. O choque suscitou-me interrogações. O que é a agenda mediática? O tema do meu Curto de hoje deve ser o absurdo noticioso à volta de uma mirabolante não história sobre hipotéticos €500/hora que um hipotético médico aparentemente pretenderia cobrar como condição para trabalhar no Natal?

Porque é que persistimos em não querer ver os muros, reais ou imaginários, constantemente levantados à nossa volta? Precisamos de estar imbuídos do espírito natalício para combater no dia a dia a barreira intransponível de muros, só vencida, no espaço mediático, quando o espetáculo da desgraça humana consegue ser, em termos de audiências, mais aliciante que o espetáculo de algumas misérias humanas?

A história contada pelo NYT tem data: 6 de novembro de 2017. Mas podia ser de ontem. Pode estar a acontecer hoje, neste dia dedicado aos Santos Inocentes, Mártires, no exato momento em que escrevo, às 6 horas e 15 minutos deste dia 28 de dezembro de 2018. Fala-nos de um confronto Europa vs Europa. Narra-nos a história de, escreve o jornal, “voluntários lutando para salvar vidas, boicotados pelas políticas da União Europeia que depositam as responsabilidades pelo controlo de fronteiras na guarda costeira líbia”. Em vez de operações de salvamento, tivemos “20 pessoas que se afogaram e 47 outras capturadas”, que sofreram abusos, “incluindo violação e tortura”.

Como nem todos os muros são de betão, este muro criado pela União Europeia, bem real nas suas consequências, pode ser metafórico, se comparado com o muro físico que separa Israel da Palestina e torna milhares de homens e mulheres estrangeiros no seu próprio quintal. Poderá não ter o impacto visual do muro que Donald Trump quer construir, a separar os EUA do México. A ideia de muro é central na espécie de pensamento e no arremedo de ideologia cultivada pelo presidente dos EUA. O muro está a paralisar o Governo norte-americano.

Trump quer dinheiro para financiar a construção do muro. Os democratas não aprovam e o impasse está a fazer com que, por causa de um muro, um quarto dos departamentos públicos do país não esteja a funcionar e muitos milhares de trabalhadores não estejam a receber salário. Não importa. Porque o presidente dos EUA quer construir um muro. Um grupo de fotojornalistas foi para a fronteira com o México fotografar os muitos ângulos possíveis do drama provocado pelo muro a milhares e milhares de latino-americanos que se dispõem a caminhar milhares de quilómetros à procura de um sonho. Chegam, e esbarram num muro. Às vezes morrem. Junto ao muro. Ou para lá do muro.

Podemos levar o #MeToo até Neruda?

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 28/12/2018)

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Daniel Oliveira

A polémica começa de forma simples: há uma proposta para que o aeroporto de Santiago do Chile (Aeroporto Internacional Comodoro Arturo Merino Benítez) se passe a chamar Aeroporto Pablo Neruda. A proposta não espanta. O Nobel de 1971 é provavelmente o chileno mais conhecido no mundo. Só que Neruda confessou, no seu livro de memórias, que violou uma funcionária de limpeza na antiga colónia britânica do Ceilão, onde desempenhou funções diplomáticas em 1929: “Era como se ela fosse uma estátua. Manteve os olhos bem abertos o tempo todo, sem reagir de forma nenhuma ao que estava a acontecer. De certo modo, ela fez bem em desprezar-me.” E isto tem feito crescer um movimento de mulheres contra a homenagem ao poeta. Numa estranha “aliança” com muitos políticos de direita e saudosistas da ditadura que, por razões óbvias, não apreciam Neruda e já tinham vetado esta denominação em 2015.

Uma das expressões que mais me irrita da vulgata política e não só é a de que a História julgará determinado acontecimento ou pessoa. A História não julga. Ou pelo menos não julga com Justiça. A História olha para o passado com os olhos do presente. E olhará para o presente com os olhos do futuro, nunca compreendendo plenamente o que hoje acontece. Pode olhar através da lente moral ou da lente política dos vencedores. Mas tem sempre essa distorção. E quando se trata de homenagear figuras do passado, o passado é quase irrelevante. As homenagens que fazemos serve para sublinhar valores conquistados no presente ou no passado próximo. Apenas reivindicamos o passado em nome deles.

Mas este processo tem de ser, apesar de tudo, cuidadoso. Se não devemos erguer heróis ignorando os seus crimes, devemos evitar julgamentos anacrónicos, que esquecem que há valores que hoje temos como indiscutíveis e que não o eram no passado. Mas, acima de tudo, não podemos olhar para as figuras históricas como figuras totais. Elas foram relevantes por alguma razão, não foram relevantes por todas as razões. E é pelas razões que as levaram a ser relevantes que as temos de evocar.

Não faz sentido homenagear um político se foi um tirano. Mas podemos homenagear um político que, apesar de ter sido um grande estadista, plagiou um texto. Não faz sentido homenagear um escritor se foi um plagiador. Mas podemos homenagear um escritor que tenha sido um fascista. Não faz sentido homenagear um padre, que se dedica a pregar a moral, que tenha sido um pedófilo. Mas faz sentido homenagear um cineasta que abusou de um menor. Há, claro, casos de fronteira. Elias Kazan foi um dos maiores realizadores da história do cinema. Mas a sua colaboração com o macartismo fez muito mal ao cinema. Do ponto de vista plástico, Leni Riefenstahl deixou uma obra notável. Mas é impossível separar essa obra – e não apenas a realizadora – do nazismo.

No essencial, o que quero dizer é julgamos um escritor como escritor, um político como político. As biografias podem contar todas as facetas dessas pessoas e isso ajuda-nos a humanizar os heróis e os vilões. Mas cada homenagem que fazemos não é uma beatificação. E não podemos revisitar todos os que deixaram marcas fortes na história do mundo à luz dos critérios morais de cada momento. Houve feministas racistas, houve abolicionistas homofóbicos, houve ativistas LGBT misóginos, houve revolucionários que juntaram tudo isto. Até porque todas as lutas não ganharam a mesma relevância na consciência de todos os que lutaram por um mundo melhor. E houve, entre todos, pessoas que cometeram crimes. Se assim foi com ativistas, com mais aguda consciência política, imagine-se com aqueles que são recordados por razões bem diferentes. Caso a causa animal venha a ser realmente triunfante, imagine-se apagar todas as homenagens a Hemingway ou Picasso porque enalteceram a tourada.

Apesar de todos os riscos neste tempo de indignação fácil, o #MeToo é um movimento globalmente positivo. Todas as injustiças, que nos obrigam a não ser meigos com linchamentos virais, não podem esconder o mais relevante: a voz das mulheres está a ganhar uma força que desconhecíamos. Sendo elas metade da humanidade, os efeitos serão profundos, por vezes assustadores, seguramente revolucionários. Com todos os perigos que estas mudanças trazem sempre, este sobressalto é indiscutivelmente positivo. Mas essa luta não pode ser totalitária. Ela não pode fazer esquecer todas as outras dimensões da história e da vida.

Podemos sublinhar que Neruda violou. E, já agora, que só o sabemos porque ele o escreveu. Mas não podemos, porque não faz sentido, fazer disso o mais relevante do que ele nos deixou. Se todas as personagens do nosso passado coletivo tiverem de passar pelo teste de decência perante as minorias étnicas, os homossexuais ou as mulheres dificilmente sobreviverá alguém.

Com o risco de uma luta para que o futuro seja diferente se transformar num interminável ajuste de contas com o passado que nos encaminha para a amnésia coletiva, sem pontos de referência que sobrevivam à limpeza.