O Muro

(Valdemar Cruz, in Expresso Diário, 28/12/2018)

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(Assinaram-se Convenções que ninguém respeita. Produziram-se Declarações Universais de Direitos que são letra morta. Estão na moda os “direitos dos animais”, talvez para limparmos a má consciência de assistirmos impávidos ao espezinhamento dos Direitos Humanos.

E já não chega o muro da nossa indiferença para calar a voz e a aflição dos mais deserdados que nos batem à porta. Por todo o lado surgem muros de pedra e cal, muros de desumanidade, policias, mastins, guardas pretorianos nas fronteiras.

Até um dia em que não haverá muros que nos bastem para suster a raiva, para debelar a fúria de milhões. Muros.

Comentário da Estátua de Sal, 28/12/2018)


Ontem, já a caminho do final da tarde, recebi um e-mail de uma amiga, também ela jornalista. Muito lacónica, escrevia apenas: “Isto é que é mesmo um soco no estômago! E um excelente trabalho do NYT”. Abri a ligação e deparei-me com uma extraordinária reportagem do New York Times sobre o drama migratório no Mediterrâneo. O choque suscitou-me interrogações. O que é a agenda mediática? O tema do meu Curto de hoje deve ser o absurdo noticioso à volta de uma mirabolante não história sobre hipotéticos €500/hora que um hipotético médico aparentemente pretenderia cobrar como condição para trabalhar no Natal?

Porque é que persistimos em não querer ver os muros, reais ou imaginários, constantemente levantados à nossa volta? Precisamos de estar imbuídos do espírito natalício para combater no dia a dia a barreira intransponível de muros, só vencida, no espaço mediático, quando o espetáculo da desgraça humana consegue ser, em termos de audiências, mais aliciante que o espetáculo de algumas misérias humanas?

A história contada pelo NYT tem data: 6 de novembro de 2017. Mas podia ser de ontem. Pode estar a acontecer hoje, neste dia dedicado aos Santos Inocentes, Mártires, no exato momento em que escrevo, às 6 horas e 15 minutos deste dia 28 de dezembro de 2018. Fala-nos de um confronto Europa vs Europa. Narra-nos a história de, escreve o jornal, “voluntários lutando para salvar vidas, boicotados pelas políticas da União Europeia que depositam as responsabilidades pelo controlo de fronteiras na guarda costeira líbia”. Em vez de operações de salvamento, tivemos “20 pessoas que se afogaram e 47 outras capturadas”, que sofreram abusos, “incluindo violação e tortura”.

Como nem todos os muros são de betão, este muro criado pela União Europeia, bem real nas suas consequências, pode ser metafórico, se comparado com o muro físico que separa Israel da Palestina e torna milhares de homens e mulheres estrangeiros no seu próprio quintal. Poderá não ter o impacto visual do muro que Donald Trump quer construir, a separar os EUA do México. A ideia de muro é central na espécie de pensamento e no arremedo de ideologia cultivada pelo presidente dos EUA. O muro está a paralisar o Governo norte-americano.

Trump quer dinheiro para financiar a construção do muro. Os democratas não aprovam e o impasse está a fazer com que, por causa de um muro, um quarto dos departamentos públicos do país não esteja a funcionar e muitos milhares de trabalhadores não estejam a receber salário. Não importa. Porque o presidente dos EUA quer construir um muro. Um grupo de fotojornalistas foi para a fronteira com o México fotografar os muitos ângulos possíveis do drama provocado pelo muro a milhares e milhares de latino-americanos que se dispõem a caminhar milhares de quilómetros à procura de um sonho. Chegam, e esbarram num muro. Às vezes morrem. Junto ao muro. Ou para lá do muro.

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