PPC, um GPS?

(Joaquim Vassalo Abreu, 11/10/2017)

emigrem

 

Refiro-me muito simplesmente ao seu futuro e a nada mais. Mas desde já aviso que isso de vir a ser um GPS, não tem nada a ver com o Global Positioning System, nem tão pouco daí poderão aferir que virá a ser um Guarda Prisional do Sócrates, um Guardião das Promessas Sagradas, ou mesmo dos Pobres e Senis. Nada disso, mas não o esqueçam  pois lá mais adiante este enigma revelarei.

É que leio e vejo por aí que, desolado pela derrota, terá fugido. Qual quê? Só se fosse do banho ético do Rio! Apenas porque disse que Não Vai Andar Por Aí..? Não, não emigrou, mas já todos esses ingratos o que querem é colá-lo àquele que fugiu quando perdeu umas Autárquicas. Esse mesmo, o Guterres, e lembro-me que na altura também ele ficou sem emprego.

Mas PPC não. PPC só abalou à segunda derrota Autárquica, essa é que é a verdade e, como única coincidência, também ficou sem emprego e isso deixou-me preocupado.

Eu, sim eu, que aqui neste espaço sempre o incentivei a continuar, lhe dei conselhos vários, de como o ajudar a mudar Portugal, por exemplo, e até artigos lhe escrevi agradecendo-lhe o seu revolucionário consulado, mas que ele não terá lido porque, simplesmente, ninguém lhos deu a ler, e até o célebre ” Go, Go PPC, Go…” eu me fartei de gritar… A mim deixa-me muito preocupado. E a vocês, não?

É que eu, sinceramente, não consigo deixar de me solidarizar com quem, nunca se fazendo de piegas, em nome da sua elevada superioridade moral ( eu não sou como outros…, lembram-se?), da sua perseverante razão ideológica, da sua inquestionável integridade e da sua resiliência sem par, de tudo abdicou! Até de ser deputado, notem. E vai então viver de quê?

Ele diz que não vai andar por aí…mas, se não vai andar por aí, vai andar por onde? Vai emigrar? Mas como, se nem deputado europeu ele é? A não ser que esse não vou andar por aí…se refira a uma área restrita, mais propriamente aquela do São Caetano à Lapa, ou à de S. Bento e arredores, mas não à restante Lisboa e Massamá. Ali, sim, ali estava sujeito a um resfriado claustrofóbico.

Mas eu, mais preocupado ainda, mas até ver, volto a perguntar: Vai viver do quê? É que ele vai deixar de ser deputado, não é reformado, não recebe o RSI, não é avençado ( penso eu de que…), não é subsidiado ( penso de que também…) e nem comentador é! Apenas comentado. Não é de preocupar?

Comentador Político? Está tudo ocupado. Escritor de memórias? Ainda é novo e não registou nem roteiros nem avisos. Só desejos e esses saíram furados. De contos infantis, daqueles que fazem as crianças adormecer? Já é velho e, mesmo assim, elas não iriam acreditar nas suas histórias. Pedir novamente emprego ao Lá Feria? Pois, mas a voz…Que dilema, my God!

Mas surgiu-me agora uma luz: se não pode ser Comentador Político, pois está tudo ocupado e ninguém dali arreda o ass, porque não Comentador de Futebol já que dizem que há para lá uns tipos a precisar de um valente asskik, que é como se diz em estrangeiro…isso mesmo, adivinharam?

Mas como já vos sinto a abanar a cabeça  e a dizerem um veemente “na, na, na…”, eu dei-me ao trabalho de aprofundar a minha meditação e cheguei a uma conclusão. É que por muito que enrole e desenrole as minhas fiéis e espetados cãs, não vejo outra saída que não…ser GPS: GESTOR DE PARTICIPAÇÕES SOCIAIS! Isso mesmo!

Mas perguntarão, e muito bem: Mas de quê e de quem? Suspendam a vossa admiração e sigam-me…

Primeira hipótese: formando uma empresa para gerir as Participações do Relvas e que poderá chamar-se ” O Coelho das Relvas – SGPS”, pois tenho a certeza que no RNPC não haverá outra igual..

E em alternativa, ou acumulando mesmo, uma outra para o Marquês de Mendes, da SIC, de Fafe, de Albergaria e de terras adjacentes, e que se poderá chamar ” O Coelho do Mini- SGPS! Também não vejo que haja igual no RNPC…

E pronto: a ver se desta vez me ouve, ó homem de Deus!


Fonte aqui

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O Dia do Pai cujos filhos emigraram

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 20/03/2017)

nicolau

Ontem passou mais um Dia do Pai. O nome devia mudar para Dia do Pai do Emigrante. É que há poucas famílias da chamada classe média que não tenham pelo menos um filho emigrado, quando não dois ou mesmo três.

No meu círculo de amigos, um dos casais tem os dois filhos fora, ele em Sidney, ela em Londres; outro, tem a única filha em Edimburgo; outro ainda tem uma filha em Londres, outra na Escócia e só uma vive cá; outro tem duas filhas em Londres e outra cá; eu tenho um filho em Sillicon Valley e a filha cá.

É bom para eles? Fora de causa. É muito bom, do ponto de vista profissional e financeiro, além da rede de contactos que entretanto constroem e que lhes será muito útil pela vida fora. Além disso, tornam-se cidadãos do mundo e ficam aptos a trabalhar em qualquer ponto do globo. A contrapartida é que não voltam – ou muito poucos voltarão. Por falta de oportunidades profissionais interessantes mas também pela baixa remuneração que lhes é proposta e que não tem qualquer comparação com o que lhes é oferecido no estrangeiro, com os estudos que fizeram e com o trabalho que desenvolvem. Mais que não fosse – e há outras razões que dificultam o regresso, como relacionamentos afectivos com pessoas doutros países entretanto estabelecidos – aqueles motivos são mais que suficientes para não pensarem voltar a Portugal, pelo menos tão cedo.

É que a esmagadora maioria não emigrou porque estivesse desempregado. Estavam quase todos a trabalhar. Emigraram porque o que aqui lhes pagavam era demasiado irrisório e sem perspectivas de melhoria rápida para quem sabe o que valem os conhecimentos especializados que dominam.

É essa uma das conclusões de um estudo promovido pela Fundação AEP com o apoio da União Europeia/Feder, que está a ser realizado há alguns meses junto da Diáspora (com especial incidência na Europa), sob a direção do investigador Pedro Góis, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, e que será revelado em meados de Abril.

E a prova é que embora mais de 70% desses jovens portugueses qualificados digam que querem regressar, 66,8% dizem que não pensam fazê-lo antes de três anos e quase 40% acrescentam que não pensarão em tal coisa antes de cinco anos. É, como se compreende, uma resposta de alguém que precisa de tempo para decidir. Mas que também precisa de estímulos para regressar: projetos interessantes e inovadores e remuneração compatível. E isso não se vê no horizonte. Pelo contrário. O processo de ajustamento devastou a economia portuguesa. Antes da crise, Portugal tinha 35 empresas entre as 100 maiores da Península Ibérica. Agora tem apenas seis. Quem pode agora oferecer salários competitivos e projectos desafiadores para fazer regressar a maioria dos jovens talentos que emigrou? Quase nenhuma empresa, como é óbvio. O país perdeu a maioria da geração mais bem preparada que alguma vez teve.

Como a emigração está a tramar o PIB

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 10/02/2016)

nicolau

Em 2011 saíram de Portugal 100.978 pessoas. Em 2012 saíram 121.418. em 2013 foram 128.108. E em 2014 mais 134.624. de 2015 ainda não há dados finais mas tudo indica que aquele valor não se alterou significativamente. Ou seja, como resultado do processo de ajustamento, Portugal terá perdido mais de meio milhão de pessoas em idade ativa entre 2011 e 2015. E isso é um enorme problema para o futuro da economia portuguesa e para o país.

Aqueles que tiveram a ousadia de sugerir, durante a crise, a emigração como uma porta de saída para quem não conseguia emprego em Portugal ou ficava desempregado, não perceberam, de todo, o mal que estavam a fazer ao país. A emigração resolve, para muitas pessoas, as suas vidas. Mas trama definitivamente o país.

E trama porque as pessoas que saíram estavam em idade ativa, no auge das suas potencialidades. Grande parte deles teria estudos universitários ou mesmo uma formação acima dessa, com MBA e doutoramentos. Vários seriam investigadores e técnicos altamente qualificados e com um grande grau de especialização. Estavam a constituir famílias. Iriam ter filhos. Os seus padrões de consumo iriam dar oportunidade ao nascimento de novas empresas. Alguns deles, seguramente, criariam as suas próprias empresas e novos postos de trabalho para pessoas tão qualificadas como eles. Contribuiriam para mais investimento, mais consumo, mais exportações, melhor ensino, mais cultura, mais arte. Seriam parte integrante do eco-sistema que serviria para atrair pessoas talentosas das suas redes de relações, que gostariam de conhecer Portugal – e que talvez decidissem fixar-se, viver e trabalhar por aqui.

Portugal necessita do regresso de muitos dos seus emigrantes, dos melhores e mais capazes. Sem isso, será muito mais lento e difícil sair do penoso trilho em que nos encontramos

Com mais de cinco milhões de pessoas de origem portuguesa espalhadas pelo mundo, Portugal apresenta atualmente a taxa de população emigrada mais elevada da União Europeia (UE28) e é o sexto país em número de emigrantes. Ou seja, metade da população portuguesa vive no estrangeiro. E 10% desses cinco milhões deixaram o país nos últimos cinco anos. É uma devastação quase equiparável à que é causada por uma guerra. No contexto do programa de assistência financeira, Portugal foi o nono Estado-membro na UE28 que mais perdeu população (-1%), atrás da Grécia e da maioria dos países do alargamento que encolhem há mais de duas décadas, como Hungria, Bulgária, Roménia, Letónia, Lituânia ou Estónia.

E se pensam que a hemorragia acabou, desenganem-se. A população ativa está a cair pelo 15º mês consecutivo. E todas estas pessoas que saem deixam de contribuir para o PIB potencial do país. e isso é uma enorme barreira para inverter a atual situação económica.

É por isso que é preciso aliciar muitas destas pessoas para voltar para Portugal. Como? Através de uma política de ciência e investigação que atraia os melhores – e que o atual ministro da Ciência, Manuel Heitor, está a colocar em prática. E aumentando os rendimentos das pessoas, por duas vias: reduzindo a carga fiscal que sobre eles incide (e o OE 2016 faz isso, pois há uma redução de 0,61% de redução do peso dos impostos diretos) e estimulando um eco-sistema que atraia os mais capazes, aqueles que estão na onda da frente de todas as mudanças, os talentos que marcam tudo aquilo que anuncia o futuro. A realização da Web Summit em Portugal durante três anos, o mais importante certame de empresas tecnológicas e investidores internacionais, é uma oportunidade que não podemos desperdiçar.

Portugal necessita do regresso de muitos dos seus emigrantes, dos melhores e mais capazes. Sem isso, será muito mais lento e difícil sair do penoso trilho em que nos encontramos.