Balanço do ano: estranhamente, está tudo mais à esquerda

(Pedro Lains, in Diário de Notícias, 28/12/2018)

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Estes três anos de governo de “esquerda” fizeram bem ao país. Só mesmo os mais directamente envolvidos na situação anterior se sentiram de alguma forma prejudicados e nem todos pois muitos voltaram às suas vidas de sempre, mais sossegadas e quase sempre mais rentáveis.

Como é que tal aconteceu? Se é verdade, foram várias as razões, mas talvez a principal decorra do facto de se ter voltado a um país em que é mais o que une do que aquilo que o divide, um país carregado de uma História de enorme importância, incluindo na sua diversidade. Comecemos por deixar a economia de fora deste balanço, pois todos já perceberam os erros e exageros dos anos da troika e o assunto está arrumado.

Uma primeira observação daquilo que se passa é que ninguém perdeu com a mudança de regime (chamemos-lhe assim), ao mesmo tempo que muitos ganharam. Quem mais tinha ficou mais ou menos na mesma, e quem menos tinha não só ficou um pouco melhor, como tem expectativas legítimas de ainda vir a melhorar. Esta mudança tem sido feita com moderação, sendo esse um dos principais segredos do sucesso da façanha, e um dos aspectos a preservar com mais empenho.

Uma segunda observação é que os que mais têm até não estão descontentes com isto – e aqui entra a História e o espírito “nacional” (que inclui, hoje, necessariamente os estrangeiros que sempre por cá houve) – porque os que menos têm estão próximos, sendo vizinhos, familiares, filhos, netos, avós, pais, colegas, o que se quiser. No fim do tempo da troika já muita gente sua amiga se preocupava com o que se estava a passar em redor, com as franjas não protegidas e com a pobreza.

O Estado tem muitos problemas que precisam de atenção, mas os problemas devem ser resolvidos dentro dele e não inventando negócios para alguns. Quem está no terreno das empresas sabe isso e gosta desta nova forma de vida em que quem investe e trabalha, investe e trabalha, sem rendas

 

Uma terceira observação revela o enorme falhanço da iniciativa privada nos sectores sociais. Com algumas excepções importantes, não há sector, dos bancos à saúde, do ensino aos transportes, em que a iniciativa privada tenha mostrado saber fazer melhor sozinha do que junto do Estado. As razões podem prender-se com a dimensão do país e do mercado, com falta de experiência, ou com outros aspectos, mas essa é uma conclusão a que muitos chegaram.

A iniciativa privada em Portugal, como aliás, em todo o resto da Europa ocidental, é importante na produção de bens e serviços onde haja um número importante de intervenientes e saudável concorrência. Para ela, o Estado serve para criar as condições favoráveis no que diz respeito às infra-estruturas, do ensino à saúde, dos transportes à energia. A iniciativa privada que vende ao Estado não é iniciativa nem é privada. O Estado tem muitos problemas que precisam de atenção, mas os problemas devem ser resolvidos dentro dele e não inventando negócios para alguns. Quem está no terreno das empresas sabe isso e gosta desta nova forma de vida em que quem investe e trabalha, investe e trabalha, sem rendas. O país, por assim dizer, todo ele, percebeu isso.

Uma última razão tem a ver com a política. Muitos descobriram com estes anos de vida política especial que afinal “comunistas” e “bloquistas” são pessoas como as outras, todas de um país com um grau de coesão assinalável. E com uma vantagem, que é terem menos interesses económicos próprios. Aqui as coisas podem correr mal, já que há ideias que podem trazer perdas culturais, de princípios ou mesmo financeiras. Isso deve ser uma preocupação, pois é necessário preservar a mistura e não a selecção de umas ideias em desfavor de outras.

Com isto tudo não há mais riscos? E a economia vai aguentar? Os riscos económicos são os mesmos de sempre, resultantes da posição do país no quadro económico europeu e mundial e quanto há muito a fazer, mas que nada que entre em colisão com o actual estado das coisas. Talvez o maior problema seja o do défice da balança corrente (isso mesmo), mas esse tem de ser vigiado não só pelo Governo, mas também por Bruxelas, pelo Banco Central Europeu e pela sua filial de Lisboa.

E há um segundo problema. A democracia precisa de oposição e de alternância governativa, e o que temos agora não chega, porque ainda não saiu do passado recente. Vai sair? Tem de sair. Ou talvez venha aí o populismo e tudo o que aqui se disse terá de ir para o lixo da História.

TEMPOS DE SALAZAR

 

(Virgínia da Silva Veiga, 28/12/2018)

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(Se pensam que já não há saudosistas do ditador e dos tempos da ditadura, desenganem-se. Esta “pérola” foi publicada em 26/12/2018:

“A Direita portuguesa tem enjeitado Salazar, mas deveria integrá-lo no seu pensamento, na sua ordem ideológica. O país real ainda se revê em Salazar, apesar de as esquerdas afirmarem repetidamente os óbvios e inventados defeitos do ditador, numa lavagem ao cérebro que não tem fim.” (Ver aqui).

Ou seja, quanto mais os tempos são de descontentamento larvar, terreno propício ao florescer dos populismos de todos os matizes, mais os saudosistas saem da toca.

Comentário da Estátua de Sal, 28/12/2018)


Agora querem uma manifestação em memória de Salazar. Acho bem. Em matéria de presidentes há portugueses que adoram múmias. Não sendo original, é bonito.

Para recordarmos tempos em que uma percentagem de Portugal vivia à luz da vela e, logo, não tinha frigoríficos nem televisores. Água canalizada? Casas de banho? Para quê se havia uma fonte lá na aldeia e uma retrete ao fundo do quintal?

Também era bonito ver crianças descalças, a escrever em lousas, a trabalhar em idade escolar ou entregues aos soldados americanos das Lages para poderem ter que comer. E as raparigas? Essas, as que vinham dos confins das aldeias, sem estradas nem transportes, para chorar a distância das famílias, em tempos em que servir alguém era emprego de luxo mesmo que o rendimento fosse comer os restos na cozinha dos patrões.

Chique, chique, era então ver a malta a pagar a passadores para dar o salto para França, para a Venezuela, mas pela calada da noite, montes fora, passando a Espanha, porque de outro modo ia tudo preso. Se não levasse um tiro, claro. A emigração era proibida porque era precisa malta de olhos fechados e mãos abertas, que trabalhasse muito e pedisse pouco. Ir lá para fora era diminuir o contingente, era, sobretudo, mostrar-lhes que havia outro mundo.

E os monopólios? Que lindos eram os monopólios portugueses num globo que já então se abria à concorrência!

Que saudades da guerra colonial, dos filhos que as mães portuguesas por lá perderam, dos aerogramas que enviavam às famílias, essa espécie de postais, feitos ao propósito das notícias que as rádios e as televisões estavam proibidas de dar, ditados às senhoras da Cruz Vermelha porque os mais dos soldados não sabiam ler nem escrever, mas “estavam bem graças a Deus”.

E tudo caladinho, pois claro, que piar traz à memória a anedota dos pássaros dentro da dita, cuja palavra não digo.

Gosto da ideia. Sobretudo gosto que seja propalada no Facebook. Porque então os mais dos portugueses, se houvesse tal coisa em tempos de Salazar, nem podiam participar porque eram analfabetos. Voltássemos, aliás, aos tempos do homem de Santa Comba e era o descalabro nas ações do Zuckerberg, não havia Facebook para ninguém porque isso da liberdade de expressão não dava para ter um livro lá por casa quanto mais uma porta aberta ao mundo.

Perguntem lá aos organizadores como é que fariam para divulgar as convocatórias, sem Facebook, sendo proibida a distribuição de panfletos e os ajuntamentos.

E apreendiam tudo, os desgraçados! Até romances. Ah, pois é!

Primeiro meteu-se na cabeça destes novos organizadores da confusão que Portugal é a França. Agora andam a inventar o estilo espanhol, uma trapalhada escusada por mexerem no túmulo de Franco.

Em matéria de saudosismos ou de mexer no que está no sítio e sossegado, também era bom lembrar àqueles outros que o Carmona também já morreu e é para estar sossegado.
Quando é que alguém ensina a essa gente que isto é Portugal e que quem olha para trás só vê passado?

SNS e ideologia

(Carlos Esperança, 27/12/2018)

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(Se a tralha passadista do PSD e do CDS votou em 1979 contra a criação do Serviço Nacional de Saúde, a que título, hoje, 2018, haveria de ser a favor do dito? Seria prova de uma grande evolução ideológica, no sentido da Justiça, o que está longe de acontecer, antes pelo contrário. Foram contra o SNS, hoje ainda são mais contra, e tudo fazem para o destruir e fazer da saúde um negócio para os privilegiados que a podem pagar.

É por isso que me enfureço quando vejo a Cristas e outros direitolas a apontar falhas ao SNS, como se o quisessem melhorar. Não, apontam-lhe as falhas para nos convencerem que a privatização da Saúde é o caminho a seguir.

Comentário da Estátua de Sal, 27/12/2018)


Quem entrou na função pública sem a mínima assistência médica ou medicamentosa, o que sucedeu ainda na maior parte da década de sessenta do século passado, exceto para a tuberculose, com um desconto obrigatório, sentiu que o Serviço Nacional de Saúde (SNS), preconizado pelo MFA, e institucionalizado na Lei nº 56/79, universal e gratuito, era a continuação da Revolução de Abril, que conduziu Portugal aos melhores índices de saúde dos países civilizados, deixando os mais vergonhosos lugares na mortalidade infantil e materno-fetal terceiro-mundistas a que se resignara.

Foi, aliás, na educação, com apenas quatro anos de escolaridade obrigatória, e na saúde, que as maiores conquistas foram alcançadas.

Foi difícil instituir o SNS, onde tubarões da medicina, alguns do PS, tudo fizeram para o impedir. Opuseram-se os deputados do PSD e do CDS, incluindo Marcelo Nuno Rebelo de Sousa, homónimo do atual PR, o que não invalida o papel decisivo do secretário de Estado da Saúde, Albino Aroso, que defendeu a saúde materna e reprodutiva da mulher, com forte animosidade dentro do seu partido (PSD).

A Lei de Bases de 1990, com Cavaco Silva, travou a gratuitidade do SNS estabelecendo o carácter “tendencialmente gratuito”, com introdução de taxas moderadoras, e o tempo encarregou-se de a desatualizar, pelo que a sua atualização se impõe.

Nunca tantos deveram tanto a uma lei, a que o nome do ministro, António Arnaut, ficou justamente ligado.

Há, no entanto, algumas perplexidades que rodeiam a nova Lei de Bases da Saúde que a ministra Marta Temido, com notável currículo académico e sólidos conhecimentos do setor, apresentou.

– Surpreende que a presidente da Comissão de Revisão da Lei de Bases da Saúde, Maria de Belém Roseira, depois de ter apresentado o seu estudo pretenda pressionar a ministra a executar as suas propostas como se a Comissão se mantivesse depois de as apresentar, não tivesse meros efeitos consultivos e devesse ser totalmente aceite por uma ministra que nunca esteve ligada ao setor privado da saúde e é insuspeita de defender interesses de grupos privados.

– Surpreende o PR, sem funções executivas, a exercer uma pressão indevida ao querer que a lei, ao contrário da do consulado de Cavaco Silva, tenha o apoio dos dois partidos mais representativos do espetro político (só falta referir-se ao PSD).

Já é tão difícil contornar os interesses parasitários e ideológicos que querem transformar o SNS num mero pagador da medicina privada e das IPSSs, que se dispensava o ruído do PR e da ex-candidata presidencial que ornamentou a última corrida a Belém.

A saúde de todos é incompatível com muitos interesses e, sobretudo, com uma ideologia neoliberal.