Roubo em preparação pelo Novo Banco

(Dieter Dellinger, 13/10/2018)

novo_banco.jpg

O Novo Banco vai vender – diz o Expresso – 8726 imóveis com valor contabilístico de 716,7 milhões de euros por apenas 388,9 milhões ao fundo Norte Americano Anchorage.

Depois vai pedir ao Fundo de Resolução (Estado) mais dinheiro para capitalizar.

Esta venda pode ser um ROUBO. O Banco de Portugal e o Fundo de Resolução têm de analisar o negócio e verificar se a venda dos imóveis através da Remax e outras empresas do género um a um não vai ser mais rentável, tanto mais que o preço dos imóveis ainda estão em alta considerável. Ambas as organizações serão responsabilizadas pelo ROUBO.

O Banco de Portugal tem o dever de verificar os grandes negócios dos bancos e o Fundo de Resolução meteu muitos milhões no Novo Banco, pelo que tem o direito de verificar e dar a sua aprovação ou reprovação.

A recapitalização do Novo Banco custou aos contribuintes este ano a módica quantia de 792 milhões de euros, pelo que o dinheiro da venda pelo valor contabilístico do património imobiliário deveria reverter para o Estado. Os lesados do BES já nos levaram este ano 121,4 milhões, podendo este valor subir para 145 milhões de euros.

A concretizar-se a venda, o Ministério Público deve investigar se não houve dinheiro debaixo da mesa e se os administradores do Novo Banco, Banco de Portugal e Fundo de Resolução não vão encaixar uns milhões a título particular e colocado numa offshore qualquer.

Nós, os contribuintes, já fomos muito ROUBADOS pelo Novo Banco. Depopis desta venda, o Fundo de Resolução maioritariamente do Estado não deve meter mais um cêntimo no Novo Banco.

Parece que o Fundo Anchorage quer vender a uma grande empresa americana por ações que aluga casas e pretende procurar compradores de ações, estando já a enviar formulários a perguntar a opinião de pessoas acerca desse tipo de investimento.

O gajo de Alfama

(Daniel Oliveira, in Expresso, 13/10/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

Ainda as redes sociais davam os primeiros passos e já os “Gato Fedorento” adivinhavam um tempo em que uma falsa ideia de democracia equipararia, no espaço público, conhecimento a ignorância. Num estúdio, para debater o terrorismo, estão um militar, um comentador político e o gajo de Alfama. Enquanto os dois primeiros repetem discursos enfadonhos e incompreensíveis para a maioria da população, o gajo de Alfama elabora teorias delirantes e propostas radicais, em que se associam afirmações bombásticas com um absoluto desconhecimento dos temas. Ali, a opinião informada e desinformada vale o mesmo, mas a desinformada é muito mais cativante. Na altura, todos percebemos de que estavam os “Gato” a falar, porque esta porta não foi aberta pelas redes sociais. Foi aberta pelas televisões, quando a informação se misturou com o espetáculo. A associação da democracia a uma espécie de antielitismo intelectual não se fez por nenhum ímpeto igualitário. Fez-se por via do mercado: a ignorância vende bem. E acabou numa espécie de ética da indiferenciação: em que cientistas são obrigados a debater a ciência em pé de igualdade com autodidatas, em que o comentário informado vale o mesmo do que o desabafo. Esta indiferenciação não resulta de um novo protagonismo para a experiência de vida do cidadão comum. É uma elite que “desce ao povo”.

O novo espaço de opinião de Manuela Moura Guedes, no telejornal da SIC, é o melhor exemplo do que estou a falar. Suficientemente chocante para dar que falar — como dizer que dantes as mulheres iam a reuniões de tupperwares e agora agarram cartazes e julgam-se ativistas —, mas tão simples e confrangedoramente banal que nem parece radical. Apesar do evidente viés político, Moura Guedes pretende comentar do mesmo ponto de vista da pessoa comum: sem nenhuma informação além do que está nas gordas dos jornais. O valor da sua opinião não é o conhecimento que a eleva, é a ignorância que a aproxima. O nome “A Procuradora” tem um duplo sentido: alguém que procura a base das suas opiniões na internet, como qualquer cidadão pode fazer, e alguém que, em vésperas do julgamento de Sócrates, substituiu a outra procuradora, transportando a justiça para a TV. Podia ser um resumo do que é o populismo.

Há um elemento comum na agenda de todos os populistas de direita: mais Estado para reprimir os pobres e as minorias, menos Estado para taxar os ricos. E este “fascismo liberal” convém às elites financeiras que reagiram muito bem às vitórias de Trump e Bolsonaro — que escolheu para as Finanças o ultraliberal Paulo Guedes. Antes um fascista do lado certo da barricada económica do que um democrata com delírios redistributivos.

É por isso que não me espanta ver quem por cá dá a mão a esta gente. Foi Passos Coelho e o PSD, não foi Pinto Coelho e o PNR, que credibilizaram André Ventura, já na pole position dos Bolsonaros portugueses. E quem abre as portas ao populismo político-mediático é a comunicação social mainstream. Ao contrário do que se pensa, não é a esquerda que será dizimada por esta perigosa vertigem. Como se viu no Brasil, o PT voltou aos resultados que tinha antes de chegar ao poder e foi à segunda volta. É a direita democrática. Foi ela que desapareceu no Brasil e que perdeu o Partido Republicano nos EUA. E é ela que será massacrada por esta estratégia, resulte ela de uma agenda política ou da busca desesperada de audiências.

O escritor Cavaco e a azia do salazarista

(Carlos Esperança, 12/10/2018)

cavaco_pafia

Sem a grandeza ética dos seus antecessores democráticos, nem a inteligência, cultura e sentido de Estado do seu sucessor, continua o mesquinho gestor de rancores e vaidades pessoais, através da prosa que publica e que alguém lhe corrige, para evitar os erros de ortografia e de sintaxe em que é reincidente.

A imaginação que lhe sobrou na acumulação de reformas, na intriga contra um PM, na justificação da ficha da Pide ou na ocultação das ligações à ditadura, sobra-lhe agora na raiva que destila, nos ódios que cultiva e nas intrigas que tece no tempo que lhe sobra da gestão do gordo património, onde pairam sombras, desde as ações da SLN à aquisição da Gaivota Azul.

É surpreendente que o homem que se esqueceu do notário onde fez o melhor negócio da vida, dos que os portugueses sabem (foi preciso a revelação da Visão), se recorde agora das quintas-feiras que evoca para a intriga e a vingança.

Segundo a comunicação social, Cavaco Silva, o único salazarista com o grande colar da Ordem da Liberdade, vai publicar o livro “Quinta-feira e Outros dias – da Coligação à «Geringonça»”, a segunda parte das suas memórias de PR, a lançar no próximo dia 24.

A propaganda antecipa o rol de acusações do escritor que tropeça na ortografia do verbo haver, na conjugação do verbo fazer e no plural da palavra ‘cidadão’, que António Costa lhe disse que “entendimentos” do PS “com o PCP e o BE seriam impossíveis”, além de críticas à “infantilidade” de Paulo Portas.

Na impossibilidade de saber se mente ou não, o seu currículo não é abonatório, há um aspeto que revela a baixeza ética e os sentimentos antidemocráticos do salazarista. A ser verdade que o ora PM lhe disse que “entendimentos” do PS “com o PCP e o BE seriam impossíveis”, era sua obrigação adverti-lo para o desrespeito por esses partidos e a leviandade com que avançava a impossibilidade de entendimento que um democrata tinha obrigação de tentar.

Só um salazarista tentaria impedir os acordos parlamentares que aprovaram o excelente governo de António Costa, depois da patética tentativa de impor um governo PSD/CDS recusado pela AR e com um vice-PM que ora acusa de infantilidade e com quem, não podendo competir na inteligência e cultura, só pode disputar o campeonato da maldade e dissimulação.

Devia explicar aquele ato pífio de dar posse a Maria Luís no governo irrevogavelmente demissionário, sem membros do CDS, numa farsa que a falta de espinha dorsal do CDS se rendeu a um aumento do poder no aparelho de Estado.

Cavaco não percebe que ao afirmar que “José Sócrates e António José Seguro, haviam sido sempre categóricos na afirmação de que o PCP e o BE eram partidos em quem não se podia confiar”, só revela a indigência democrática e, eventualmente, a facilidade com que é capaz de mentir. A difamação grotesca, se fosse credível, exigiria dos visados um veemente repúdio.

Quando um país elege democraticamente um homem destes, durante dez anos como PM e igual tempo como PR, compreendemos melhor fenómenos assustadores que ameaçam o mundo.