Crónicas poéticas

(Por Janaina Behling, 20/01/2021)

Olá a toda a gente!

Na última semana falei que lançaria uma campanha colaborativa para a publicação do meu primeiro livro eletrônico de crônicas poéticas e aqui estou! Como muita gente nova foi aparecendo pelo caminho para saber dessa empreitada, interessada no tipo e qualidade da narrativa etnográfica que tenho preparado, a partir de personagens como Regina Shit, Carolina Gerúndio, vou me apresentar de novo:Meu nome é Janaina Behling, 44, mulher negra brasileira, vivendo numa Portugal pandêmica, e quero publicar meu primeiro livro eletrônico de crônicas poéticas que, além de diagramação, revisão e tradução, ainda vai me ajudar a manter a criatividade  e autoestima fluindo, apesar da falta de trabalho e emprego nos últimos meses. Então, toda colaboração é bem vinda, especialmente porque a campanha de financiamento é muito mais que a busca por recursos financeiros, mas uma busca por afetos e engajamentos pela diversidade! Quem quiser contribuir ganha de presente uma edição especial, basta utilizar os dados bancários que constam do folder de divulgação da campanha (é imprescindível a identificação de quem colaborar para eu poder enviar o livro):


NIB: PT 50002 300 004 555 130 641 094SWIFT CODE: ACTVPTPL
Muito obrigada!

Janaina Behling

Ah, os livros, os livros …

(Abílio Hernandez, 28/07/2019)

Quantas vezes as nossas insónias são povoadas por personagens dos livros que amamos, figuras que nos acompanham ao longo da vida e se tornam companhias constantes, obsessivas, que nos afetam como se fossem de carne e osso como nós. Umas vezes convocamo-las para tentar obter respostas sobre o que não tem resposta. Outras vezes, são elas que nos visitam sem chamamento prévio e nos interrogam sem cessar.
São os nossos fantasmas da noite.

Todos cumprem os respetivos destinos, nos seus mundos fabulosos. Por isso Electra decide punir um crime com outro crime e empurra contra o peito de Clitmenestra o punhal que o irmão, Orestes, segura de olhos tapados e mãos trementes. Por isso Édipo, preso na armadilha dos deuses, pressente a verdade abominável e, na esperança de estar enganado (mas haverá nele alguma esperança?), persegue obstinadamente essa verdade. Por isso Lear, traído por quem se julgava mais amado, vagueia em plena tempestade na tentativa de descobrir em si mesmo a capacidade de aceder a uma compreensão real da natureza humana.

Recipientes de palavras carregadas de mundos, é o que somos. Palavras que souberam encontrar-nos e moldar-nos com paciência infinita, deixando marcas indeléveis na memória da nossa pele. Porque há livros que, como algumas cidades, são feitos à medida do nosso corpo, sem que antes seja possível adivinhá-lo, mas que descobrimos, fascinados, no ato sempre incompleto da leitura. Como em Hiroshima, quando a mulher diz ao amante fugaz: “Comment me serais-je doutée que cette ville était faite à la taille de l’amour? Comment me serais-je doutée que tu étais fait à la taille de mon corps même?”

Como Stephen Dedalus, na areia de Sandymount, leio nos livros as assinaturas de todas as coisas. Como ele, fecho os olhos e vejo o mundo que está ali desde sempre, sem mim, para toda a eternidade. “Ineluctable modality of the visible”. 
Como ele, fecho os olhos e vejo que Dedalus é afinal Jorge Luís Borges naquela fotografia em que olha (para onde?) como se (não) fosse cego e quisesse ver melhor as palavras que alguém (que eu não vejo) lhe lê de um livro feito de areia…

Chego ao fim da noite, abro o que penso ser último livro, deito-me sobre o lado esquerdo, e leio:

De vez em quando a insónia vibra com a nitidez 
dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma: 
partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua 
harpa insuportável.

No segundo caso, o homem que não dorme pensa:
o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim,
deslocando todo o peso do sangue sobre a metade 
mais gasta do meu corpo, esmagar o coração.

Mas a insónia persiste e Carlos de Oliveira não era, afinal, o último fantasma da noite. Era preciso que Herberto saísse da sua solidão atenta e solidária e me dissesse, em jeito de despedida:

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
Com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
– Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

Os meus fantasmas da noite, todos feitos de palavras como eu, vão-se esbatendo sob a primeira claridade do dia. 
Em frente da página luminosa de um livro, nenhuma insónia me fará sentir só.

A morte dos livros

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 08/12/2018)

mst

Miguel Sousa Tavares

É de bom tom começar pela usual declaração de interesses: Luiz Schwarcz é o meu editor brasileiro. Fundador, presidente, alma e coração da Companhia das Letras, que, para grande orgulho meu, é, não sei se a maior em volume de negócios, mas certamente a mais prestigiada editora brasileira — reunindo, entre os seus autores, os clássicos brasileiros, de Guimarães Rosa a Jorge Amado, e os novos, de Milton Hatoum a Chico Buarque. Há uns anos, juntou ao seu já extenso catálogo o da norte-americana Penguin Books, fazendo com que o acervo de autores sob a chancela da Companhia das Letras constitua uma biblioteca de fazer inveja a qualquer bibliógrafo. O Luiz é um editor que verdadeiramente ama os livros, assim como ama a música (foi um dos fundadores da Orquestra Sinfónica de São Paulo), os cavalos de corrida e a mesa com amigos. Foi com ele que pela primeira vez aprendi o que era “pagar a rolha” num restaurante. Foi no Figueira, em São Paulo, assim chamado porque tinha (ou ainda tem?) um imenso pátio onde se comia debaixo da mais extraordinária e frondosa figueira que alguma vez vi. Jantávamos, a convite do Luiz e, além da sua mulher, a historiadora Lilia Moritz, o já citado Milton Hatoum, autor do notável romance “Dois Irmãos” (mas não só), a Fafá de Belém e eu. O Milton, natural da Amazónia, ficou embevecido e admirado quando me viu, depois de consultar o cardápio, encomendar um filete de tucunaré, da trilogia dos peixes do rio Amazonas — tucanaré, pirarucu e tambaqui, os únicos grandes peixes do Brasil, pois que os de mar não prestam, para nós, portugueses, que desfrutamos do melhor peixe do mundo. Mas eu é que fiquei verdadeiramente espantado quando vi o Luiz sacar de um saco com duas garrafas de vinho que tinha trazido de casa, entregá-las ao empregado e dizer: “Sirva estas”. Grande conhecedor de vinhos, ele inventara, aos meus olhos pelo menos, o sistema da “rolha”, que depois vi replicado noutros lados, em que se leva o vinho de casa e só se paga uma quantia simbólica pelo serviço.

Isto para introduzir o personagem, antes da sua mensagem. Na semana passada, o Luiz Schwarcz enviou uma carta aberta a autores, editores, livreiros, leitores, amigos de livros, escrita em inglês e intitulada “Love letters to books”. O pretexto foi a simultânea entrada em processo de catástrofe das duas maiores cadeias de livrarias brasileiras, a Cultura e a Saraiva, uma fechando 40 lojas e a outra abrindo um processo de insolvência judicial, ambas deixando pendentes milhões de dívidas às editoras. Na sua carta aberta, espécie de grito de desespero de credor, mas, acima disso, de amigo dos livros, o Luiz escreve que nos últimos anos o mercado livreiro do Brasil se retraiu em 40% (o mesmo que em Portugal) e que muitas cidades brasileiras estão prestes a ficar sem uma única livraria. E acrescenta este desabafo : “Passei pelo pior momento da minha vida pessoal e profissional quando, pela primeira vez em 32 anos, tive de deixar partir seis empregados que fizeram parte da Companhia e deram uma contribuição vital para o que fomos construindo dia após dia”. E termina apelando para que todos dêem ideias, sugestões, que ao menos comprem livros neste Natal, “para que mostrem algum amor por uma coisa que nos deu tanto durante tanto tempo: o livro”.

O apelo de Luiz Shwarcz não gerou só likes no Brasil. Em parte porque ele coincidiu com o anúncio de que o Luiz, embora mantendo-se presidente da Companhia das Letras, tinha acabado de vender a maioria do capital à Penguin, agora fundida com outro gigante americano da edição, a Random House. E em parte porque pequenos livreiros de pequenas cidades do interior o acusaram de se preocupar apenas com a falência das grandes cadeias de livrarias — às quais as editoras se submeteram ou foram forçadas a submeter-se. Tal como em Portugal. Mas isso é apenas parte da história da morte em curso dos livros: o estado actual da história. O livricídio começa pela oferta, antes de acabar na procura.

Anos atrás, numa Feira de Frankfurt — uma feira de vendas para editores e agentes literários, onde alguns autores são exibidos como rezes numa feira de gado — uma plateia de acabrunhados editores concordava com a iminente morte do livro, enquanto objecto, face ao aparecimento e inevitável triunfo do livro electrónico, o Kindle. Não havia nada a fazer, o inimigo era imbatível, assentiam aquelas avisadas cabeças, imaginado legiões planetárias de leitores em aeroportos, praias, jardins, autocarros, a sacar do seu Kindle e a devorar livros a 50 cêntimos cada um. Nos tempos seguintes, em cada contrato de edição que me apresentavam para assinar, inevitavelmente, lá vinha uma cláusula incluindo direitos sobre a edição online, o futuro irrecusável, juravam, e eu, inevitavelmente, recusava-a. Uma parte por intuição e talvez nostalgia: cresci com os livros como objecto físico, palpável, visível. Cada edição dos meus autores de cabeceira era como uma edição dos discos dos Beatles: tinha um cheiro próprio, a capa era olhada e apreciada mil vezes, acariciada com a mão, o papel era pesado e alisado, o seu lugar na estante era judiciosamente estudado, a sua lombada era fixada para sempre, nada era em vão. Outra parte tinha que ver com um raciocínio de ética económica: o Kindle da Amazon representava a mais devastadora e amoral destruição de uma cadeia de produção que eu já tinha visto. Começava por destruir os empregos e os investimentos ligados à indústria de papel dos livros; depois à parte da impressão, a gráfica; a seguir, à edição; depois, à distribuição; em seguida, com tudo o que tinha que ver com as feiras dos livros, visto que não haveria livros-objectos para apresentar nem para autografar; e, no fim da cadeia, sacrificaria os próprios autores, a quem pagariam uns miseráveis cêntimos por cada exemplar vendido com o falacioso argumento de que se venderiam muitos mais livros visto que seriam muito mais baratos. No final, feitas as contas, apenas o pirata do senhor Jeff Bezos, dono da Amazon, teria acrescentado a sua incontável fortuna, abrigada em paraísos e esquemas fiscais, à custa do talento e do emprego dos outros.

Mas se, contra as expectativas dos avisados crânios, o livro electrónico felizmente se revelou um fiasco, do lado da oferta a nova ameaça são as grandes superfícies de venda de livros que, de facto, matam as livrarias e impõem aos editores condições de sobrevivência insustentáveis. Se ver livros à venda em supermercados já é penoso, pior ainda é saber que é preciso comprar espaços de exposição e entrar em campanhas de promoção ao nível dos descontos em chouriços e detergentes. Mas é assim que estamos.

Mas é assim que estamos porque é assim que está a procura. Já quase ninguém lê livros. Como quase ninguém lê jornais ou revistas. Isto daria tema para todo um outro artigo, para que me falta espaço. Direi apenas, abreviadamente, que as redes sociais têm nisto, obviamente, uma trágica responsabilidade: elas são a maior fonte de leitura actual e a maior fonte de iliteracia funcional. Mas não são a única: a crítica literária que se faz em Portugal (e eu conheço outras) é também altamente responsável, porque não cumpre a sua função essencial de orientar os leitores para o encontro dos livros que lhes podem criar hábitos de leitura. O desporto favorito dos nossos críticos literários é não dizer do que trata um livro. Quanto mais confusa ou inexistente é a história de um romance, mais rebuscada e exaltante é a sua crítica, para no final se concluir que o autor é um génio, o crítico é brilhante e o leitor é um idiota se não entende a genialidade e o brilhantismo de um e de outro e se na próxima vez não voltar a comprar outro livro do mesmo autor. E, desnorteados, os editores botam as frases laudatórias dos brilhantes críticos nas cintas do próximo livro do genial autor e ficam à espera… acabrunhados com os exemplares por vender, devolvidos ao fim de uma semana, por um supermercado perto de si.

É toda uma cadeia feita de suicidárias cumplicidades na mediocridade, de arrogantes sentimentos de superioridade, de desnorte editorial, de falta de senso, de coragem e de imaginação, que aos poucos nos vai transportando, leve, levianamente, para um mundo de pesadelo, que sempre foi o sonho de todas as ditaduras: um mundo sem livros.


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia